O SILÊNCIO TAMBÉM MATA

O Sudão e a indiferença do mundo

A violência não se limita ao momento do ataque: ela se prolonga na fome, nas doenças evitáveis, no sofrimento psíquico e na impossibilidade de reconstruir a vida 

A guerra no Sudão entrou em seu quarto ano, com centenas de milhares de mortes e 12 milhões de pessoas deslocadas, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados. O conflito continua produzindo uma catástrofe humanitária que ultrapassa os efeitos imediatos dos confrontos e das armas. Hospitais funcionam de forma precária, infraestruturas foram destruídas, sistemas de saúde perderam capacidade de resposta e famílias enfrentam dificuldades para obter água potável, alimentos e assistência básica. A violência não se limita ao momento do ataque: ela se prolonga na fome, nas doenças evitáveis, no sofrimento psíquico e na impossibilidade de reconstruir a vida. 

Apesar da dimensão e da complexidade da crise no Sudão, bem como de seu impacto devastador sobre milhões de pessoas, a tragédia segue recebendo atenção limitada da comunidade internacional. Para ajudar a romper esse silêncio, Médicos Sem Fronteiras (MSF) uniu-se à rede de cartunistas sudaneses Khartoon Magazine. Por meio de ilustrações que abordam o deslocamento, o cuidado, a saúde mental (ou a falta dela), a cólera e a insegurança alimentar, a campanha sintetiza uma mensagem política: o silêncio também mata. A frase não se refere apenas à ausência de notícias, mas interroga a insuficiência das respostas internacionais diante de um sofrimento que persiste mesmo quando perde espaço na atenção pública. 

Crédito: Médicos Sem Fronteiras/Arquivo Pessoal

O que acontece quando uma guerra continua, mas o mundo deixa de olhar para ela?  

Uma das contribuições mais importantes das ilustrações é mostrar que a morte em contextos de guerra não acontece exclusivamente pela ação direta das armas. Uma pessoa pode sobreviver a um bombardeio e morrer dias depois por falta de água potável, alimento, vacinação ou atendimento médico. Uma criança desnutrida pode não resistir a uma infecção que, em outras condições, seria tratável. Uma gestante pode ter dificuldades para acessar assistência obstétrica. É como viver a séculos de distância do mundo em que nós, com acesso à saúde, vivemos. 

Na ilustração dedicada à prevenção da cólera, a pergunta de uma pessoa deslocada – como se proteger de doenças quando não há acesso à água limpa? – expõe uma contradição fundamental. A prevenção depende de condições básicas e materiais que foram destruídas ou se tornaram inacessíveis. Recomendar higiene, alimentação adequada ou procura por assistência médica perde efetividade quando as pessoas não dispõem dos recursos necessários para seguir essas orientações. 

A imagem evidencia que o adoecimento não pode ser compreendido apenas como um acontecimento biológico individual. As condições de saúde são produzidas também pelas possibilidades concretas de obter água, alimentação, abrigo, medicamentos e proteção. Quando essas condições desaparecem, a guerra passa a operar também por meio da destruição dos meios necessários à manutenção da vida. 

A campanha informa que, somente em 2025, MSF tratou mais de 40 mil casos de cólera no Sudão. Também registra que, entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizadas mais de 13 mil admissões em programas terapêuticos para tratamento da desnutrição aguda. Os números expressam a dimensão de uma crise na qual necessidades elementares de sobrevivência se transformam em desafios cotidianos. 

Essas mortes e esses adoecimentos não podem ser tratados como consequências inevitáveis de uma guerra. A interrupção de programas de vacinação, o colapso da vigilância epidemiológica, a restrição da circulação de insumos e as barreiras ao acesso humanitário compõem uma cadeia de acontecimentos cujos efeitos poderiam ser reduzidos mediante proteção, financiamento, acesso seguro e funcionamento dos serviços essenciais. 

A experiência sudanesa também permite questionar a ideia de que todas as pessoas estão igualmente expostas aos efeitos de uma catástrofe. A vulnerabilidade é uma condição humana: todos dependemos de outras pessoas, de relações de cuidado e de condições materiais para viver. Entretanto, a exposição ao sofrimento e os recursos disponíveis para enfrentá-lo são distribuídos de maneira profundamente desigual. 

Em uma situação de conflito armado, a possibilidade de escapar da violência, encontrar abrigo, alimentar os filhos, obter medicamentos ou acessar um hospital depende da localização, da renda, das redes de apoio, das condições de mobilidade e da capacidade de proteção disponível. A mesma guerra produz experiências distintas conforme os recursos que cada pessoa ou comunidade consegue mobilizar. 

A saúde costuma ser associada aos serviços, aos profissionais e aos tratamentos disponíveis. O cenário sudanês mostra, entretanto, que a assistência depende de uma rede muito mais ampla de condições. Hospitais precisam de energia, água, medicamentos, profissionais, transporte e segurança. As equipes humanitárias precisam de autorização e condições para circular. A prevenção depende de saneamento, alimentação, vacinação e vigilância epidemiológica. 

Quando esses elementos são destruídos, a possibilidade de cuidar também é comprometida. 

A ilustração sobre a cólera sintetiza esse problema ao afirmar que a prevenção é melhor que a cura. A mensagem adquire um sentido político quando observamos que prevenir exige decisões coletivas, recursos e condições materiais. Não basta orientar as pessoas a evitar doenças se elas vivem em locais sem água limpa, enfrentam deslocamentos sucessivos ou não conseguem chegar aos serviços de saúde. 

A responsabilidade pela saúde, nesse contexto, não pode ser transferida integralmente aos indivíduos. Ela envolve as autoridades responsáveis pela proteção da população, os atores envolvidos no conflito, os organismos internacionais, os financiadores da assistência humanitária e as instituições capazes de assegurar a continuidade dos serviços. 

O material apoiado por MSF chama atenção para obstáculos que limitam a chegada da assistência, como insegurança, restrições ao acesso humanitário, barreiras administrativas e atrasos no transporte de suprimentos essenciais. Esses impedimentos demonstram que a existência de profissionais e insumos não garante, por si só, o acesso ao cuidado. É preciso assegurar condições para que a assistência alcance as pessoas. 

O direito à saúde exige mais do que a presença formal de serviços. Requer que as pessoas consigam acessá-los, que os atendimentos sejam oportunos e que existam condições para prevenir o adoecimento e dar continuidade ao tratamento. Em uma guerra, garantir essas condições significa também proteger as rotas de abastecimento, assegurar a passagem das equipes e impedir que entraves políticos e administrativos inviabilizem cuidados essenciais. 

A guerra deixa marcas que não aparecem nos registros de mortes ou ferimentos. Medo, luto, insegurança, separações familiares e perda das referências cotidianas afetam profundamente a saúde mental. O deslocamento forçado rompe vínculos comunitários, interrompe projetos de vida e impõe a necessidade de reconstruir a existência em circunstâncias de incerteza. 

Uma das ilustrações da campanha aborda justamente as cicatrizes que não podem ser vistas. Segundo o material, as equipes de MSF haviam realizado cerca de 70 mil atendimentos em grupo de saúde mental no Sudão até o final de julho de 2026. A dimensão desse trabalho indica que o cuidado precisa alcançar também os efeitos subjetivos e relacionais da violência. 

A saúde mental não constitui um aspecto secundário da resposta humanitária. Ela integra as condições de recuperação e reconstrução da vida. O sofrimento psíquico está relacionado às experiências vividas, à insegurança persistente, às perdas e à ausência de perspectivas. Seu enfrentamento exige acolhimento, continuidade do cuidado e reconstrução de relações de confiança. 

Outra ilustração da campanha recupera uma concepção de cuidado presente no contexto sudanês: tranquilidade e paciência como parte do tratamento, associadas à confiança e à conexão humana. O material destaca os termos Hakim e Baseer, utilizados para se referir a pessoas sábias, curadoras e capazes de enxergar com clareza. 

Essa perspectiva amplia a compreensão do trabalho em saúde. Cuidar envolve conhecimento técnico, mas também presença, escuta, confiança e reconhecimento da pessoa atendida. Em contextos de guerra, nos quais tantas relações foram interrompidas e tantas instituições perderam capacidade de resposta, preservar a conexão humana constitui uma dimensão decisiva da assistência. 

A confiança, entretanto, não substitui os recursos materiais. Ela precisa coexistir com medicamentos, alimentos, água, abrigo e serviços acessíveis. O cuidado ganha consistência quando a relação humana se articula às condições concretas necessárias para proteger a vida. 

A campanha afirma que a resposta global permanece insuficiente diante das necessidades do Sudão. A atenção internacional se desloca, enquanto o sofrimento continua. Essa observação conduz a uma questão política: por que algumas crises permanecem no centro das preocupações internacionais, enquanto outras perdem visibilidade mesmo quando a violência e as necessidades humanitárias persistem? 

A circulação de notícias, as prioridades diplomáticas, os interesses econômicos e estratégicos e a disponibilidade de financiamento influenciam a maneira como as crises são percebidas e enfrentadas. A atenção pública é um recurso político: contribui para mobilizar solidariedade, pressionar governos e ampliar o apoio às organizações humanitárias. Quando diminui, a capacidade de mobilização também pode ser comprometida. 

Isso não significa que a visibilidade, isoladamente, resolva uma crise. Falar sobre o Sudão precisa estar associado a ações capazes de alterar as condições de vida da população. A denúncia é necessária, mas precisa acompanhar a mobilização de recursos, a proteção de civis, a garantia de acesso humanitário e a defesa dos serviços essenciais. 

O silêncio também tem efeitos materiais quando contribui para normalizar a continuidade do sofrimento. A ausência de atenção pode reduzir a pressão política, enfraquecer a mobilização de recursos e tornar menos visíveis as consequências das decisões que restringem a assistência. 

Por isso, a pergunta proposta pela campanha – falar sobre o Sudão e agir pelo Sudão – precisa ser compreendida como uma convocação à responsabilidade pública. A solidariedade exige transformar a preocupação em compromisso político, institucional e humanitário. 

As ilustrações da Khartoon Magazine e as informações apresentadas por Médicos Sem Fronteiras aproximam experiências que muitas vezes aparecem separadas: violência armada, fome, cólera, desnutrição, sofrimento mental e colapso dos serviços. Em conjunto, elas revelam uma crise na qual as condições de existência são continuamente ameaçadas. 

Uma resposta efetiva precisa combinar assistência imediata e medidas estruturais. Isso inclui ampliar o financiamento humanitário flexível, garantir a passagem segura de equipes e suprimentos, remover barreiras administrativas, proteger os serviços de saúde e assegurar acesso a água, alimentação e saneamento. Inclui também reconhecer o sofrimento psíquico, apoiar as comunidades deslocadas e criar condições para a continuidade do cuidado. 

A proteção da vida não pode depender apenas da capacidade de resistência das pessoas atingidas. Exigir que famílias sobrevivam sem água, que crianças resistam à desnutrição ou que pessoas doentes encontrem sozinhas caminhos para chegar aos serviços significa transferir aos indivíduos uma responsabilidade que é coletiva e política. 

A crise sudanesa nos obriga a pensar sobre os critérios pelos quais a comunidade internacional reconhece suas responsabilidades. Se a vida humana possui valor universal, sua proteção precisa se expressar em decisões concretas, recursos, compromissos e ações capazes de reduzir o sofrimento evitável. 

O silêncio não interrompe a guerra, não restabelece hospitais, não alimenta crianças e não garante água potável. Ao contrário, pode contribuir para que a desproteção continue sem a pressão necessária para ser enfrentada. Falar sobre o Sudão é um primeiro passo. Agir significa disputar prioridades, exigir responsabilidade e sustentar a proteção das pessoas enquanto a crise persiste. 

Em última instância, a questão colocada pelo Sudão ultrapassa as fronteiras do país: que valor atribuímos ao direito à vida quando proteger milhões de pessoas exige compromissos políticos que o mundo insiste em adiar? 

Artigo escrito em colaboração com a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras  

 

Roger Flores Ceccon é professor da Universidade Federal de Santa Catarina 

Leia mais sobre o tema: