REPRESENTAÇÃO FEMININA E PROJETOS DE SOCIEDADE NAS ELEIÇÕES DE 2026

Mais mulheres no poder. Mas de que poder se fala?

Qual é o futuro da mulher trabalhadora brasileira diante dos projetos de sociedade em disputa? 

As eleições de 2026 ampliaram a presença feminina no Congresso Nacional. Foram eleitas 109 deputadas federais, que ocuparão 21,25% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, e 12 senadoras, entre as 54 vagas em disputa. O crescimento representa uma conquista histórica em um país no qual as mulheres, embora constituam a maioria do eleitorado, continuam sub-representadas nas instituições políticas. 

O resultado, entretanto, ocorreu em uma conjuntura marcada por intensas disputas sobre a democracia, os direitos sociais e os rumos da sociedade brasileira. A ofensiva de forças conservadoras e autoritárias, no Brasil e internacionalmente, recolocou no centro do debate político questões relativas ao trabalho, à família, à religião e aos direitos das mulheres. Essas disputas também atravessam a composição do Congresso eleito. 

A ampliação da representação feminina reúne, assim, trajetórias e projetos políticos distintos. Mulheres que conquistaram mandatos podem defender propostas divergentes e mesmo antagônicas sobre a redução da jornada de trabalho, os serviços públicos, a violência, a maternidade e os direitos reprodutivos. A presença feminina nas instituições constitui uma conquista histórica, mas não elimina os conflitos entre interesses sociais e projetos de sociedade. 

É diante dessa realidade que se coloca uma questão decisiva: qual é o futuro da mulher trabalhadora brasileira diante dos projetos de sociedade em disputa? Para enfrentá-la, é necessário examinar não apenas quantas mulheres foram eleitas, mas quais propostas defendem e o que elas significam para as condições concretas de trabalho e de vida da maioria das brasileiras. Essa indagação exige recuperar o percurso histórico das lutas das mulheres e situar a representação política nas contradições da sociedade contemporânea. 

Crédito: Léo Sá/Agência Senado/Flickr

As mulheres na história: conquistas, lutas e projetos de sociedade 

A presença das mulheres na política não começou com sua chegada aos parlamentos. Antes de conquistarem o direito ao voto, trabalhadoras já participavam de greves, associações, movimentos populares e organizações revolucionárias. Suas reivindicações não se limitavam à igualdade perante a lei: envolviam as condições de trabalho, a sobrevivência das famílias, o acesso à educação e a possibilidade de transformar uma sociedade que lhes reservava posições profundamente desiguais. 

No movimento socialista internacional, Clara Zetkin e Alexandra Kollontai estiveram entre as mulheres que relacionaram a emancipação feminina à luta contra a exploração do trabalho. Na Rússia, em fevereiro de 1917, manifestações de operárias por pão e paz contribuíram para desencadear o processo revolucionário que derrubou o czarismo. A experiência soviética colocou em discussão direitos civis, maternidade, educação e a necessidade de retirar do âmbito exclusivamente doméstico responsabilidades indispensáveis à vida coletiva. Suas conquistas, limites e contradições demonstraram que a transformação das condições de existência das mulheres ultrapassava a questão da representação política. 

No Brasil, essa história assumiu características próprias. A escravidão e suas consequências, a concentração da propriedade da terra, a exploração do trabalho e a persistência do racismo marcaram profundamente as experiências femininas. Mulheres negras, trabalhadoras domésticas, operárias, camponesas e professoras participaram de processos de organização e resistência que não podem ser reduzidos a uma única tradição política. A conquista do voto feminino, em 1932, constituiu um marco democrático, mas não eliminou as desigualdades que diferenciavam as condições de participação das brasileiras na vida social e política. 

Ao longo do século XX, mulheres comunistas, socialistas, feministas, sindicalistas e militantes dos movimentos populares participaram das lutas contra a ditadura, pela redemocratização e pela ampliação dos direitos sociais. Ana Montenegro integrou essa trajetória, assim como inúmeras outras militantes de organizações distintas. Suas experiências não foram homogêneas: divergiam quanto às estratégias políticas, à compreensão das desigualdades de classe, da condição das mulheres e do racismo, bem como quanto aos caminhos para a emancipação. Essas diferenças não anulam sua contribuição histórica; permitem compreender a diversidade e as contradições das lutas das mulheres. 

Durante a ditadura militar, as mulheres das periferias brasileiras fizeram da luta contra a carestia uma expressão da resistência popular. Em São Paulo, o Movimento do Custo de Vida, impulsionado por clubes de mães e organizações comunitárias, levou às ruas a denúncia de que os salários não acompanhavam os preços dos alimentos. Em 1978, sua campanha reuniu mais de um milhão de assinaturas. A luta nascida das dificuldades de sustentar as famílias transformava a fome, os preços e os salários em questões políticas, confrontando as desigualdades sociais e as condições de vida impostas à população trabalhadora. 

A organização das mulheres negras também ocupa um lugar decisivo nessa história. Suas lutas demonstraram que a exploração do trabalho, o racismo e a subordinação das mulheres se manifestam de maneiras particulares e relacionadas. Das trabalhadoras domésticas às organizações do movimento negro e feminista, suas reivindicações colocaram em discussão o acesso ao trabalho, à renda, à saúde, à educação e à proteção contra a violência. A Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília em 2015, deu expressão nacional a uma trajetória de resistência que questiona não apenas a exclusão política, mas as próprias condições de vida das mulheres negras na sociedade brasileira. 

No campo, as mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) articulam a luta pela reforma agrária à produção de alimentos, à soberania alimentar e ao enfrentamento das violências. Suas mobilizações evidenciam que a disputa pela terra envolve também as condições de trabalho, a organização da produção e a reprodução da vida. 

As mulheres indígenas, por sua vez, têm construído formas próprias de organização em defesa de seus territórios, da saúde, da educação e das condições coletivas de existência de seus povos. Essa atuação ganhou projeção internacional durante a COP30, realizada em Belém, em 2025, quando lideranças indígenas participaram dos debates climáticos e de mobilizações em defesa de seus territórios. A presença das mulheres indígenas evidenciou uma questão que ultrapassa a representação formal: o direito de participar das decisões sobre a terra, a natureza e as condições coletivas de existência, diante de interesses econômicos que ameaçam seus territórios e modos de vida. 

A Constituição de 1988, os avanços na proteção contra a violência e a ampliação dos direitos trabalhistas e sociais expressam parte desse percurso histórico. Nenhuma dessas conquistas, entretanto, resultou simplesmente da iniciativa dos legisladores. Foram precedidas e acompanhadas por mobilizações coletivas, disputas políticas e enfrentamentos com interesses estabelecidos. E permanecem sujeitas a novas disputas. 

A trajetória dessas lutas demonstra que a conquista de direitos políticos e sociais constitui um processo histórico atravessado por interesses e projetos distintos. Também evidencia que a ampliação da participação feminina nas instituições não substitui a organização coletiva nem elimina as desigualdades que condicionam a vida das trabalhadoras. É a partir dessas determinações que se torna necessário examinar as transformações contemporâneas do trabalho, da reprodução social e das formas de organização política das mulheres. 

Mulheres trabalhadoras diante dos projetos de sociedade em disputa 

As mulheres trabalhadoras não constituem um grupo social homogêneo. Suas condições de existência são marcadas pelas relações de classe, pelas desigualdades raciais, pelas diferenças regionais e pelas formas particulares de inserção no trabalho remunerado e não remunerado. Essas diferenças, entretanto, não eliminam determinações comuns de uma sociedade na qual a reprodução da vida permanece subordinada às exigências da acumulação capitalista. 

A precarização das relações de trabalho, os baixos salários, a informalidade, as jornadas prolongadas e a insuficiência dos serviços públicos atingem amplos segmentos da população trabalhadora. Para as mulheres, seus efeitos se combinam com a distribuição desigual do trabalho doméstico e dos cuidados. A necessidade de assegurar a sobrevivência familiar frequentemente impõe uma sucessão de atividades remuneradas e não remuneradas que restringe o descanso, a formação, a participação política e a própria possibilidade de organização coletiva. 

As transformações contemporâneas do trabalho aprofundam essas contradições. A expansão da plataformização e da chamada uberização, articulada à terceirização, à informalidade e à flexibilização das relações trabalhistas, amplia formas de exploração nas quais a subordinação ao capital frequentemente aparece sob o discurso da autonomia e do empreendedorismo. O controle empresarial pode ser exercido por sistemas digitais, algoritmos, avaliações e mecanismos de distribuição de tarefas, enquanto os custos e riscos da atividade são transferidos aos trabalhadores. A aparente liberdade de escolher quando trabalhar convive, em muitas dessas atividades, com a necessidade de prolongar a jornada para assegurar uma renda incerta. 

Para as mulheres, essa reorganização do trabalho apresenta particularidades. A flexibilidade anunciada pelas plataformas pode representar uma possibilidade imediata de obtenção de renda diante das responsabilidades familiares, mas não elimina a sobrecarga doméstica nem assegura proteção social. Ao contrário, pode intensificar a combinação entre trabalho remunerado instável e atividades indispensáveis à reprodução da vida. A precarização, que antecede o surgimento dos aplicativos, assume novas formas de controle e fragmentação, criando obstáculos adicionais à organização coletiva. 

É nesse terreno que a luta pelo fim da escala 6×1 adquire particular importância. A reivindicação, que ganhou projeção nacional com a mobilização do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e de organizações sindicais e populares, recoloca em discussão a duração da jornada, o direito ao descanso e a apropriação do tempo dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de alcançar aqueles que sequer dispõem de uma jornada legalmente delimitada ou de remuneração estável. 

Para uma trabalhadora do comércio ou dos serviços, submetida a seis dias consecutivos de trabalho, a conquista de mais tempo de descanso pode significar a possibilidade de estudar, conviver com os filhos, participar de atividades culturais e políticas ou simplesmente recuperar suas forças. Entretanto, se as responsabilidades domésticas e familiares continuarem concentradas sobre ela, parte desse tempo permanecerá destinada a atividades indispensáveis à reprodução da vida, mas socialmente desvalorizadas e distribuídas de maneira desigual. 

Essa contradição revela os limites de uma transformação restrita à jornada remunerada. A redução do tempo de trabalho, sem diminuição salarial, constitui uma reivindicação fundamental, mas precisa estar associada à ampliação dos serviços públicos de saúde, educação infantil, assistência e cuidado, bem como a políticas que enfrentem a desigual distribuição dessas responsabilidades. 

A disputa pela jornada de trabalho expressa, portanto, a luta de classes em torno do tempo de trabalho e das condições de reprodução da vida. De um lado, orientações que subordinam salários e proteção social à redução dos custos empresariais e à flexibilização trabalhista. De outro, propostas que defendem direitos, remuneração e responsabilidade pública pelos serviços necessários à reprodução da vida. O conteúdo de classe dessas posições deve ser identificado nas práticas concretas das forças políticas, não apenas em suas declarações. 

As mobilizações recentes mostram também que as reivindicações não nascem exclusivamente das instituições parlamentares. O movimento VAT, as organizações sindicais, os movimentos populares e as iniciativas de trabalhadores de diferentes categorias contribuíram para transformar experiências cotidianas de exploração e desgaste em reivindicações públicas. A atuação parlamentar pode dar expressão legislativa a essas demandas, mas não substitui os processos coletivos que lhes conferem força social. 

As lutas pela redução da jornada de trabalho, incluindo a defesa das 30 horas semanais sem redução salarial, expressam reivindicações que atravessam diferentes organizações sindicais e colocam em debate a necessidade de articulação das lutas da classe trabalhadora. Nesse contexto, a proposta de construção de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora (ENCLAT), defendida pela Unidade Classista e presente nos debates do movimento sindical, constitui uma iniciativa voltada à superação da dispersão das lutas e à construção de formas mais amplas de organização e unidade da classe trabalhadora. 

Entretanto, a convergência em torno de reivindicações comuns não produz, por si mesma, unidade política e organizativa. As diferentes orientações presentes no movimento sindical, a fragmentação das categorias e as dificuldades de articulação revelam contradições que atravessam esse processo. A construção da unidade constitui, portanto, uma tarefa política que exige organização, debate e ação coletiva, para além da convergência em torno de reivindicações imediatas. 

Para as mulheres trabalhadoras, o fortalecimento dessa organização enfrenta ainda obstáculos específicos. A sobrecarga de cuidados, os horários incompatíveis com a participação em assembleias e reuniões, a violência e as desigualdades presentes também nas organizações políticas e sindicais limitam as possibilidades de intervenção. Ampliar a participação feminina exige, por isso, enfrentar as condições materiais e políticas que restringem sua presença nos espaços de decisão. 

Esses desafios não se restringem ao movimento sindical. Estão presentes nas lutas por creches e escolas públicas em tempo integral, pela defesa do Sistema Único de Saúde, pela proteção à maternidade, pelo enfrentamento da violência contra as mulheres, pela igualdade salarial e pela garantia de condições de trabalho que não comprometam a saúde e a reprodução da vida. As organizações de mulheres, os movimentos negros, os movimentos populares urbanos e rurais e as entidades de trabalhadores participam dessas disputas a partir de experiências e estratégias diversas, nem sempre convergentes. 

Entretanto, a disputa sobre os direitos das mulheres não se desenvolve apenas nas relações de trabalho ou nas instituições políticas. Ela envolve também a produção e a circulação de ideias que procuram legitimar as desigualdades existentes. A expansão de ambientes digitais identificados como machosfera e de comunidades redpill constitui uma expressão contemporânea desse processo. Nesses espaços, a autonomia feminina é frequentemente apresentada como ameaça, enquanto a autoridade masculina, a competição entre indivíduos e a subordinação das mulheres são defendidas como valores naturais. 

Essas manifestações não podem ser reduzidas a comportamentos individuais ou a fenômenos exclusivamente digitais. Sua relevância política está na maneira como discursos misóginos podem se articular a projetos autoritários e ultraconservadores, desqualificando as lutas femininas e apresentando a ampliação de direitos como perda de poder dos homens. Em determinadas circunstâncias, a insegurança diante do desemprego, da precarização e da instabilidade social é convertida em ressentimento dirigido contra as mulheres, deslocando a atenção das relações sociais que produzem essas condições. Isso não significa que a precarização econômica produza automaticamente a misoginia, mas que tais discursos podem explorar conflitos e frustrações reais para reforçar hierarquias de gênero. 

A ofensiva ideológica ultrapassa as plataformas digitais. Manifesta-se também no uso político de concepções de família e moralidade que procuram restringir a autonomia feminina, controlar decisões sobre o corpo e deslegitimar direitos historicamente conquistados. Não se trata de confundir a experiência religiosa com posições políticas conservadoras, mas de reconhecer que determinadas forças mobilizam discursos religiosos como instrumentos de disputa sobre a organização da vida social. 

A violência contra as mulheres integra esse quadro de contradições. Feminicídios, agressões, assédio moral e sexual atingem diretamente suas condições de existência e restringem possibilidades de circulação, trabalho e participação pública. A conquista de instrumentos legais de proteção, como a Lei Maria da Penha, representa um avanço histórico das lutas femininas. Entretanto, a existência de direitos formalmente reconhecidos não elimina as condições materiais, institucionais e ideológicas que dificultam sua efetivação. O enfrentamento da violência exige, portanto, políticas públicas, proteção social e organização coletiva, além da responsabilização de seus autores. 

O reconhecimento dessa diversidade de lutas não deve nos fazer perder de vista a questão política central. As reivindicações das mulheres trabalhadoras confrontam escolhas sobre a distribuição da riqueza socialmente produzida, a destinação dos recursos públicos, a extensão dos direitos e as responsabilidades do Estado. São escolhas que distinguem projetos de sociedade e atravessam também a representação feminina eleita. 

Uma representante pode reivindicar maior participação feminina nas instituições e, simultaneamente, apoiar medidas que flexibilizam relações de trabalho ou restringem serviços públicos. Outra pode vincular a representação política à defesa da seguridade social, dos direitos trabalhistas e das organizações populares. Essas possibilidades precisam ser confrontadas com propostas, iniciativas e posições efetivamente assumidas. A condição de mulher, por si só, não determina o conteúdo social de um projeto político. 

O futuro das mulheres trabalhadoras não será decidido apenas pela composição do Congresso Nacional. Dependerá também da capacidade de suas organizações e movimentos de ampliar conquistas, enfrentar a fragmentação das lutas e construir formas de ação coletiva que ultrapassem os limites da representação institucional. A reflexão de José Paulo Netto sobre o déficit organizacional da esquerda contribui para explicitar esse desafio: não basta reconhecer a necessidade da unidade; é preciso construir formas de organização vinculadas à experiência e às lutas concretas da classe trabalhadora. 

A plataformização do trabalho, a persistência da desigual distribuição dos cuidados, a violência contra as mulheres e a circulação de ideologias autoritárias mostram que os obstáculos à participação feminina não se limitam ao acesso às instituições. É nessa relação entre condições materiais de existência, organização coletiva e projetos políticos que se torna necessário examinar o conteúdo das disputas eleitorais de 2026 e as possibilidades que elas abrem – ou restringem – para as mulheres trabalhadoras brasileiras. 

Eleições de 2026: avanço da representação feminina e disputa entre projetos políticos 

As eleições brasileiras de 2026 ocorrem em uma conjuntura marcada pelo acirramento das disputas internacionais, pela ofensiva dos Estados Unidos sobre a América Latina e pelo aprofundamento das contradições econômicas, políticas e sociais brasileiras. Compreender o crescimento da representação feminina exige situá-lo nesse movimento histórico. Não basta identificar quantas mulheres conquistaram mandatos; é necessário investigar os interesses sociais que suas candidaturas expressam, os projetos políticos que defendem e as consequências de suas propostas para as condições de existência das mulheres trabalhadoras. 

A América Latina ocupa uma posição particular na reprodução mundial do capitalismo. Sua inserção subordinada na divisão internacional do trabalho, historicamente constituída pela colonização, permanece marcada pela dependência financeira e tecnológica, pela apropriação de recursos naturais e pela transferência de excedentes. Essa condição não resulta apenas de imposições externas: no Brasil, sua reprodução envolve interesses e alianças de frações da burguesia brasileira com o capital internacional, sem eliminar suas contradições internas. Compreender essa particularidade exige articular as determinações imperialistas às relações de classe, às disputas pelo Estado e às formas de organização política dos trabalhadores. 

Em América Latina: Democracia como Prática de Libertação, examinamos a ofensiva imperialista como um processo que combina pressões econômicas, disputas institucionais, intervenções políticas e produção ideológica. A soberania, nessa perspectiva, não se esgota na independência jurídica dos Estados. Sua efetivação envolve o controle social sobre recursos naturais, produção, tecnologia, trabalho e decisões econômicas fundamentais. Do mesmo modo, a democracia não pode ser reduzida aos procedimentos eleitorais ou à igualdade jurídica entre indivíduos formalmente livres, quando as relações sociais permanecem estruturadas pela exploração e pela desigualdade material. 

Essa compreensão permite reconhecer a importância das liberdades políticas e das conquistas democráticas sem atribuir à institucionalidade burguesa uma capacidade de transformação que suas próprias determinações históricas limitam. O Estado não constitui uma esfera exterior às relações sociais capitalistas: participa de sua reprodução, ainda que seja atravessado pelas contradições e pelas lutas que se desenvolvem na sociedade. A disputa eleitoral integra, portanto, a luta política, mas não substitui a organização independente dos trabalhadores nem supera, por si mesma, as relações de poder econômico que condicionam as decisões governamentais. 

A ofensiva do governo Donald Trump sobre o Brasil evidencia a atualidade dessas contradições. Desde 2025, medidas tarifárias, sanções e pressões diplomáticas foram associadas publicamente às controvérsias envolvendo Jair Bolsonaro e as instituições brasileiras. Em 2026, novas tensões comerciais passaram a envolver interesses estratégicos sobre minerais críticos e terras raras, no contexto da concorrência entre Estados Unidos e China. Não se trata apenas de afinidades pessoais ou ideológicas entre dirigentes. Estão em disputa mercados, cadeias produtivas, recursos naturais e possibilidades de interferência sobre decisões soberanas do Estado brasileiro. 

A política norte-americana de combate ao narcotráfico acrescenta outra dimensão à ofensiva regional. Desde setembro de 2025, forças dos Estados Unidos realizam ataques contra embarcações apontadas como vinculadas ao tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico oriental. Em outubro de 2026, novas mortes foram registradas nessas operações, acompanhadas de questionamentos jurídicos e da ausência de comprovação pública, em determinados episódios, das acusações dirigidas às pessoas atingidas. A existência de organizações criminosas transnacionais constitui um problema real, mas não autoriza dispensar provas, garantias legais ou o respeito à soberania dos países envolvidos. 

No Brasil, o governo norte-americano acusou as autoridades nacionais de insuficiência no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital e ao Comando Vermelho, avaliação contestada pelo Ministério da Justiça. A classificação dessas facções como organizações narcoterroristas, defendida por setores bolsonaristas, passou a integrar a disputa sobre segurança pública e relações internacionais. Celso Amorim advertiu para o risco de que tal classificação legitimasse formas de ingerência externa. A hipótese exige atenção política, mas não constitui prova de que uma intervenção militar norte-americana no Brasil tenha sido decidida. 

A seletividade das decisões adotadas em nome do combate às drogas também merece exame. Em dezembro de 2025, Trump concedeu perdão ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado pela Justiça norte-americana em processo relacionado ao tráfico de cocaína. O episódio não permite concluir que toda ação antidrogas tenha finalidade exclusivamente geopolítica, mas revela uma contradição relevante entre a retórica de segurança e determinadas decisões do governo dos Estados Unidos. 

As relações políticas da família Bolsonaro com setores do governo Trump integram esse cenário. Em outubro de 2026, reportagens divulgaram informações sobre um programa norte-americano de US$ 1 milhão destinado a iniciativas que questionam a atuação do Supremo Tribunal Federal. A documentação reunida registra a previsão de financiamento, a reação da Advocacia-Geral da União e o arquivamento preliminar, pela Polícia Federal, do pedido de apuração por ausência de indícios mínimos para instaurar inquérito. Não demonstra, entretanto, transferência pessoal de recursos à família Bolsonaro ou interferência eleitoral clandestina comprovada. 

As controvérsias envolvendo integrantes do STF, inclusive as relações noticiadas no caso Banco Master, constituem problemas de natureza própria. A defesa da soberania diante das pressões estrangeiras não exige considerar as instituições judiciais imunes à crítica. Tampouco autoriza transformar denúncias, relações pessoais ou divergências entre ministros em comprovação generalizada de corrupção. A crítica marxista do Estado não se confunde com a desqualificação indiscriminada das instituições nem com a reprodução de acusações sem fundamento documental. 

O governo Lula respondeu às pressões norte-americanas mediante iniciativas diplomáticas, contestação das tarifas e defesa pública da autodeterminação nacional. Em setembro, na Assembleia Geral da ONU, denunciou interferências externas e reafirmou a soberania brasileira. Essas posições expressam diferenças importantes em relação ao alinhamento internacional defendido pelo bolsonarismo. Reconhecê-las, entretanto, não significa desconsiderar os limites do governo. 

A resistência às imposições externas convive com uma política econômica condicionada pelo peso dos juros, pelo serviço da dívida pública, pelas regras fiscais e pelo poder do capital financeiro sobre a destinação do fundo público. A ampliação de políticas sociais encontra limites nas relações econômicas vigentes e nas alianças políticas necessárias à sustentação parlamentar do governo. Como demonstram as análises históricas de Miguel Urbano Rodrigues sobre os governos progressistas latino-americanos, a conquista da direção governamental não equivale à transformação das relações de poder que estruturam o Estado e a economia. As contradições entre compromissos eleitorais, composição das alianças e decisões econômicas precisam ser examinadas a partir de seus efeitos concretos sobre a população trabalhadora. 

Essas determinações incidem diretamente sobre as mulheres. A insuficiência dos serviços públicos, a precarização do trabalho e a distribuição desigual das responsabilidades domésticas transferem para as famílias – e, predominantemente, para as mulheres – parte dos custos da reprodução social. As decisões sobre orçamento, tributação, investimento público, juros e proteção social condicionam o acesso à saúde, à educação, ao cuidado, à renda e ao tempo disponível para a participação política. A disputa pelo fundo público expressa, assim, interesses sociais antagônicos, e não apenas diferenças técnicas de administração. 

A conjuntura eleitoral também revela que as condições materiais de existência não determinam mecanicamente as escolhas políticas. Levantamentos jornalísticos realizados após o primeiro turno de 2026 identificaram redução proporcional da votação de Lula em numerosos municípios, inclusive em localidades com presença expressiva de beneficiários de políticas sociais. A comparação entre os resultados de 2022 e 2026, entretanto, exige considerar mudanças nas candidaturas, na composição do eleitorado e nas condições políticas e territoriais. Não é possível atribuir essas alterações, sem investigação adicional, à atuação de robôs, campanhas de desinformação ou interferência estrangeira. 

A análise de Leonardo Trevisan sobre a atuação de Trump nas eleições latino-americanas introduz uma questão relevante: pressões diplomáticas, financiamento externo, plataformas digitais e campanhas de comunicação podem participar de uma mesma conjuntura de disputa política, embora sua articulação concreta e seus efeitos eleitorais precisem ser demonstrados. Na Colômbia, o apoio público de Trump a uma candidatura presidencial constitui exemplo de intervenção política declarada. Não equivale, por si só, à comprovação de manipulação clandestina dos resultados eleitorais. 

No Brasil, o problema exige investigar como as experiências cotidianas, as políticas públicas, as relações de trabalho, as organizações religiosas, os conflitos territoriais e a circulação digital de interpretações participam da formação das posições políticas. O acesso a benefícios sociais não produz automaticamente identificação com o governo responsável por sua execução. Tampouco as plataformas digitais constituem uma força autônoma capaz de determinar, isoladamente, o comportamento eleitoral. As interpretações da realidade são produzidas e disputadas em relações sociais historicamente determinadas. 

É nesse terreno que a questão da ideologia assume centralidade. A imprensa comercial, as plataformas digitais, as organizações políticas e religiosas participam, de formas distintas e contraditórias, da produção e circulação de interpretações sobre os acontecimentos. A seleção das notícias, sua hierarquização e a apresentação fragmentada dos conflitos podem dificultar a compreensão das determinações sociais que os produzem. Isso não significa atribuir aos meios de comunicação um poder absoluto sobre o eleitorado, mas reconhecer que a disputa política envolve também a organização dos sentidos atribuídos à experiência social. 

A presença das mulheres nessa disputa evidencia uma contradição particular. A apresentação de candidaturas femininas a partir de atributos pessoais, religiosos ou comportamentais pode deslocar a atenção dos interesses sociais e dos projetos políticos que representam. Ao mesmo tempo, identificar toda vitória feminina como avanço indistinto pode deixar de revelar posições antagônicas sobre trabalho, direitos sociais, responsabilidades familiares e autonomia das mulheres. A condição feminina das representantes não elimina as diferenças de classe nem determina, por si mesma, compromisso com a transformação das relações que reproduzem a desigualdade. 

Os resultados legislativos de 2026 expressam essa tensão. A Câmara dos Deputados terá 109 mulheres a partir de 2027, contra 91 eleitas em 2022, alcançando 21,2% das cadeiras. Trata-se de uma conquista histórica, embora a representação permaneça distante da participação feminina na população brasileira. O crescimento ocorreu entre mulheres vinculadas a diferentes partidos e orientações políticas, inclusive forças que sustentam propostas divergentes sobre direitos trabalhistas, políticas sociais e organização da vida familiar. 

A ampliação da representação feminina deve, portanto, ser reconhecida sem que seu significado seja separado das relações de classe e dos projetos de sociedade em disputa. Reivindicações como o fim da escala 6×1, a redução da jornada sem redução salarial, a expansão dos serviços públicos e a socialização dos cuidados oferecem referências concretas para examinar o conteúdo político dos mandatos. Não basta perguntar quantas mulheres foram eleitas; é necessário investigar que interesses representam e como suas decisões poderão incidir sobre as condições de vida das trabalhadoras. 

A participação institucional constitui uma conquista e um terreno de luta, mas não representa, por si mesma, a superação das determinações sociais que sustentam a exploração, a dependência e a desigualdade. Seu alcance dependerá das relações de força, das medidas efetivamente defendidas e da capacidade de organização coletiva das mulheres trabalhadoras. É nessa relação entre representação, luta política e transformação das condições materiais da existência que se coloca a questão de seu futuro diante dos projetos de sociedade em disputa. 

Enquanto este artigo era escrito, as manifestações de 11 de outubro de 2026, levaram milhares de pessoas às ruas de diferentes regiões do Brasil, de São Paulo ao Espírito Santo, de Goiás ao Nordeste. Com expressiva participação da juventude, de trabalhadores e de movimentos populares, os atos em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais reafirmaram que a disputa entre projetos de sociedade ultrapassa os limites da representação eleitoral. Essa presença coletiva no espaço público, atravessada por diferentes perspectivas políticas, expressa a persistência das lutas sociais. Como afirmou José Paulo Netto (2015), “a luta de classes nunca tirou férias neste país”. 

O crescimento da representação feminina nas eleições de 2026 torna mais visível uma contradição que a conquista dos mandatos não resolve: mulheres podem ocupar os mesmos espaços institucionais e atuar na defesa de projetos antagônicos de sociedade. Para as trabalhadoras, o sentido dessa conquista será medido menos pela composição numérica do poder do que pelas possibilidades efetivas de enfrentar a exploração, a violência e a transferência dos custos da reprodução da vida para suas famílias. 

A questão decisiva não é apenas conquistar espaços nas instituições existentes, mas transformar as relações sociais que determinam o trabalho, a apropriação da riqueza socialmente produzida e as condições de reprodução da vida. Nesse processo, a organização independente das mulheres trabalhadoras, articulada às lutas do conjunto da classe, constitui uma força indispensável. É desse poder que se fala: não do poder de administrar a exploração sob uma representação feminina ampliada, mas do poder popular, construído pela organização e pela luta dos trabalhadores, capaz de enfrentar a dominação do capital e abrir caminho para a transformação socialista da sociedade. 

 

Cleusa Santos é professora Titular da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil). Av. Pasteur, nº250, (Fundos), Praia Vermelha, Rio de Janeiro, CEP. 22290-240. E-mail: [email protected].   

Referências 

AGÊNCIA BRASIL. AGU aciona PF para apurar suposto repasse de Trump para ações contra o STF. 1 out. 2026. 

ALIANÇA DE MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS (AMNB). Carta da Marcha das Mulheres Negras 2015. 

ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB). COP30: mobilização e participação indígena. 2025. 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. 

BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). 

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Com 109 deputadas eleitas, bancada feminina cresce 21,1% na Câmara. 5 out. 2026. 

CNN BRASIL. PF arquiva investigação sobre suposta interferência estrangeira em eleições. 7 out. 2026. 

MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA (MST). Mulheres do MST divulgam carta à sociedade sobre Jornada das Mulheres Sem Terra. 13 mar. 2025. 

NETTO, José Paulo. O déficit da esquerda é organizacional. 2010. 

NETTO, José Paulo. A luta de classes nunca tirou férias neste país. Entrevista a Camilla Hoshino e Leandro Taques. Brasil de Fato, 10 nov. 2015. 

RODRIGUES, Miguel Urbano. Sobre a questão do Estado. 23 jul. 2014. 

RODRIGUES, Miguel Urbano. América Latina, da ficção à realidade. 11 jul. 2016. 

SANTOS, Cleusa. América Latina: Democracia como Prática de Libertação. O Poder Popular, 11 fev. 2026. 

SENADO FEDERAL. Doze mulheres são eleitas para o Senado. 4 out. 2026. 

TREVISAN, Leonardo. Trump usou US$ 1 mi para financiar grupos contra o STF? Análise. ICL Notícias, 1 out. 2026. 

UNIDADE CLASSISTA. Declaração política do III Congresso Nacional da Unidade Classista. 2025.

Leia mais sobre o tema: