O pesadelo do Pato Donald em tempos nazifascistas
Como uma sociedade passa a reconhecer como normal aquilo que, em outras circunstâncias, consideraria intolerável?
Joe Grant foi um célebre roteirista e desenhista dos estúdios Disney, tendo criado personagens icônicos, como a Rainha Má de Branca de Neve, e deixado seu traço em trechos inesquecíveis em longas como Fantasia (1940).
Mas, além da Disney, Grant era também um artista conceitual, apaixonado pela imagética e pela recriação, a ponto de imortalizar cenas da Era de Ouro de Hollywood, como o momento em que Bela Lugosi petrifica a personagem de Irene Ware em Chandu, o Mágico (1932). Igualmente, fez caricaturas de astros e estrelas como Greta Garbo, Joan Crawford e Barbara Stanwyck.
Esse talento foi alimentado no seio familiar. Seu pai, George, era um imigrante judeu-polonês que chegou aos Estados Unidos com os pais e os irmãos em 1890, em um contexto de antissemitismo na Polônia. Entre as expressões desse nacionalismo antissemita estava a Endecja, movimento associado a Roman Dmowski, que afirmava que “a população judaica era inegavelmente um parasita do corpo social de qualquer país que habite”, conforme a citação reproduzida por Klaus-Peter Friedrich (2010, p. 10).
Como conta John Canemaker em Two Guys Named Joe: Master Animation Storytellers Joe Grant and Joe Ranft (2010), o jovem George, já em território estadunidense, demonstrava grande apreço e talento pelo desenho e pela pintura. Tornou-se um importante ilustrador, colecionador de livros de arte sobre Gustave Doré e Ludwig Richter, além de um destacado gentleman da sociedade estadunidense da época. Oferecia saraus, encontros musicais e outras formas de interação social pela arte. Esse universo contribuiu significativamente para que seu filho Joe desenvolvesse o talento que o levaria a deixar uma marca na história da animação, mesmo antes de sua entrada nos estúdios Disney, em 1933.
O que pouca gente sabe hoje é que Joe Grant concebeu, ao lado de Dick Huemer, a história de um curta-metragem de animação que, em uma apresentação posterior, recebeu uma introdução explicativa do historiador e crítico Leonard Maltin. O desenho é uma paródia da Europa sob o nazismo, e os símbolos que o povoam representam a alienação em massa promovida por Adolf Hitler.
Em Der Fuehrer’s Face (1943), Pato Donald vai dormir tranquilo em uma noite qualquer. Porém, sonho e realidade se fundem, levando o personagem a mergulhar em um país chamado Nutziland, um trocadilho entre nazismo e nuts, palavra inglesa que significa “louco” ou “maluco”. Donald é obrigado a vestir o uniforme marrom e a trabalhar em uma fábrica de armamentos, ajustando freneticamente os projéteis de artilharia, sem descanso, em uma sequência que remete à loucura operária de Charles Chaplin em Tempos Modernos (1936).

O pesadelo invade até mesmo a intimidade doméstica. Na parede da casa de Donald, as fotografias de Hitler, Mussolini e Hirohito compõem uma espécie de panteão dos poderes do Eixo. A presença desses retratos no espaço privado sugere que a ideologia não se restringe à fábrica, à rua ou aos discursos oficiais: ela ocupa também a casa, os objetos e a vida cotidiana. Não há um lugar verdadeiramente protegido da máquina autoritária.
Apesar de sua força satírica e de seu prólogo explicativo, Der Fuehrer’s Face foi retirado da circulação comercial geral após seu lançamento original nos cinemas, em 1943, e permaneceu fora do alcance regular do público por 61 anos. O desenho só recebeu lançamento oficial, em formato doméstico, em 18 de maio de 2004, na coleção limitada de DVDs Walt Disney Treasures: On the Front Lines.
Contrariamente ao que se poderia supor diante da comicidade da animação, cada detalhe é pensado para que o espectador adentre o universo de uma ditadura, sinta a opressão e a tribulação de estar preso a uma realidade da qual não se pode fugir e em que até o tempo parece se curvar.
Nesse aspecto, vale destacar o close em duas peças: o despertador e o cuco, que não marcam as horas como deveriam. Os números são substituídos por símbolos nazistas, e os ponteiros parecem evocar um braço levantado, no clássico gesto de saudação do regime. Até os objetos que organizam a rotina passam a reproduzir a ideologia do poder e da submissão. A opressão não se manifesta apenas nos grandes acontecimentos políticos, mas invade os pequenos gestos, os espaços domésticos e a própria percepção do tempo.
A genialidade de usar um personagem arquetípico do universo infantojuvenil e convertê-lo em prisioneiro de um regime que, literalmente, o leva à loucura rendeu ao curta o Oscar de melhor animação em 1943. Foi a única vez que um filme protagonizado pelo Pato Donald conquistou a estatueta.
Além de denunciar a perda de lucidez daqueles que sucumbem ao comportamento de manada ou ao condicionamento pelo medo, a força da criação de Grant e Huemer está na maneira como a destruição dos referenciais de tempo e espaço se torna parte da experiência da opressão. É possível aproximar essa leitura do conceito de cronotopo, desenvolvido por Mikhail Bakhtin em sua reflexão sobre a configuração indissociável do tempo e do espaço na literatura (Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo). No curta, o tempo deixa de organizar a experiência e passa a integrar o mecanismo de submissão. Sob o regime, perdem-se direitos básicos, inclusive o descanso, o lazer e a liberdade de se revoltar contra uma estrutura irracional que rouba o essencial da vida humana e seus alicerces.
No sufocante pesadelo, Donald parece não ter escapatória ou escolha. Ao contrário dele, os outros personagens, cujos rostos não conseguimos distinguir, parecem confortavelmente adaptados àquele contexto esquizofrênico. Donald está preso ao pesadelo; os outros parecem em casa.
É difícil não pensar, diante dessa multidão anônima, nos que, no Brasil de hoje, não apenas toleram a retórica autoritária, mas a escolhem, a reproduzem e a defendem. Donald não escolheu o mundo em que foi aprisionado. Para boa parte dos que se alinham à extrema direita brasileira, porém, o pesadelo não é vivido como imposição: pode ser convertido em projeto político e, para eles, deve ser. A imagem dos personagens sem rosto ganha, assim, uma dimensão inquietante. O que, para uns, representa a perda da liberdade pode, para outros, ser precisamente a ordem que desejam ver estabelecida.
É nesse ponto que a imagem das breves férias de Donald no aflitivo sonho ganha outra ressonância. Ao operário exausto é oferecida uma paisagem que remete aos Alpes suíços, exibida por meio de um painel que desce por alguns segundos e logo volta a subir, obrigando-o a retomar o trabalho. O descanso reduz-se a uma encenação fugaz, cronometrada por quem controla até mesmo o tempo de recuperação do trabalhador. A imagem ecoa os debates brasileiros sobre a escala 6×1 e a disputa pelo direito ao tempo livre, uma conquista que pode ser ameaçada quando projetos autoritários avançam sobre direitos sociais e trabalhistas.
A privação também nas necessidades básicas do corpo. Donald tenta engolir um pedaço de pão duro que mal consegue passar pela garganta. A cena evoca, no Brasil, a fila do osso do governo anterior (2019-2022), que expôs a situação de famílias obrigadas a buscar restos de carne para conseguir se alimentar. Não se trata de equiparar regimes ou experiências históricas, mas de reconhecer como a precarização da existência se torna visível em imagens de uma brutalidade elementar: alguém tentando engolir um pedaço de pão, alguém esperando por ossos para levar comida para casa.

Por isso, o resgate dessa raridade da Disney neste exato momento da história contemporânea, inclusive no cenário brasileiro de 2026, suscita uma pergunta: como uma sociedade passa a reconhecer como normal aquilo que, em outras circunstâncias, consideraria intolerável? A comparação entre o nazismo retratado no curta e o radicalismo de extrema direita que interfere na realidade atual não pressupõe a equivalência entre experiências históricas distintas. Interessa observar os mecanismos pelos quais a violência se naturaliza, a obediência se converte em virtude e a desumanização do outro passa a integrar o cotidiano. Afinal, para quem esse mundo, essa dinâmica de trabalho e existência, seriam um sonho?
Por fim, Donald acorda de seu pesadelo e se agarra, aliviado, a um souvenir da famosa Estátua da Liberdade. O que talvez o pato não pudesse imaginar é que esse objeto, símbolo de uma nação que se apresenta como defensora da liberdade, poderia adquirir contornos semelhantes aos do cuco em sua parede durante o pesadelo. A promessa de liberdade inscrita nos símbolos nem sempre corresponde à experiência concreta de quem vive sob suas instituições. E essa contradição não diz respeito apenas aos Estados Unidos, mas também àqueles que, abaixo da linha do Equador, assistem à ascensão de políticos e projetos de extrema-direita cujas propostas e ações podem colocar em xeque direitos e liberdades fundamentais.
Em tempo: o desenho encontra-se disponível no YouTube, ao menos por enquanto.
Fedra Rodríguez, nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colaboradora em diversos jornais brasileiros, faz parte da Assessor Pool da English PEN e participa das atividades da Fundación PROA de Buenos Aires.

