RELIGIÃO E POLÍTICA

O sequestro do bolsonarismo nas igrejas evangélicas brasileiras

Um dos fenômenos políticos mais bem-sucedidos do bolsonarismo foi sequestrar, ao menos em parte, a voz pública das igrejas evangélicas brasileiras 

Certa vez uns discípulos dos fariseus foram tentar constranger Jesus em alguma contradição. Já que aquele curioso mestre sempre ensinava sobre um reino que viria dos céus, o que ele deveria pensar sobre o império terreno de Roma? Deveriam os seguidores daquela nova doutrina continuar a pagar tributos? E daí perguntam-no: “É lícito pagar o tributo a César ou não?”, ao que Jesus responde com o famoso trecho tão citado quando o assunto é a laicidade do Estado: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22.17,21). O texto jamais disse: “Dai Deus a César” ou “dai César a Deus”, em especial porque em ambas as possibilidades o César é quem seria idolatrado já que no jogo político de qualquer época, seja no antigo império romano, seja em alguma república democrática contemporânea, quem dá as caras ao povo é sempre César. O altar (palanque) sempre seria dele. 

Crédito: Isac Nóbrega/PR/Wikimedia Commons

Um dos fenômenos políticos mais bem-sucedidos do bolsonarismo foi sequestrar, ao menos em parte, a voz pública das igrejas evangélicas brasileiras; lógico que não falo de todos os evangélicos, evidentemente, nem imagino que as igrejas constituam um bloco único e sem variações. O senso comum evangélico continua a ser para pontos ditos “inegociáveis”, e mesmo estes não possuem adesão plena. O que estou tentando elucidar é a maneira como certas lideranças do mundo evangélico passaram a apresentar seus projetos políticos como se fossem a expressão natural da fé cristã e, em alguns casos, como se trouxessem a chancela direta de Deus, e daí um movimento interessante que tem por berço o neopentecostalismo: a crença numa suposta “voz profética” do evangelicalismo que, dito noutras palavras, significaria uma espécie de opinião pública das igrejas sobre os rumos macro da nação brasileira. O notável é que ao menos na histórica recente das eleições brasileiras essa suposta voz profética (que bebe bastante dos ideais proféticos do Antigo Testamento) nunca se apresenta como crítica acima das disputas partidárias, mas como sacralizadora de um viés político específico que os cientistas sociais já denominaram popularmente de bolsonarismo.  

Lembro que o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, ao estudar a bancada evangélica na Assembleia Constituinte, chamou a atenção para uma transformação importante: a postura de afastamento da política, presente em segmentos evangélicos (“crente não se mete em política”), foi cedendo lugar à mobilização eleitoral e à defesa da eleição de representantes religiosos (“crente vota em crente”). Essa mudança já se manifestava no início dos anos 1980 e ganhou força durante a Constituinte de 1987-1988. Acredito que os números ajudam a entender bem esse movimento: a representação evangélica na Câmara dos Deputados em 1982 passou de 13 deputados para 32 em 1986, e chegou a 59 em 2002. Em idos de 2015 a bancada evangélica já contava com seus 73 parlamentares firmemente vinculados.  

O bolsonarismo, portanto, não inventou essa história da representação evangélica na política partidária, o que ocorreu foi de já encontrar um terreno preparado. O que me interessa, portanto, é entender como a participação política de setores evangélicos pôde se transformar, em determinados momentos, numa espécie de identificação entre cristianismo e bolsonarismo, como se a defesa de um candidato ou de um projeto de poder fosse consequência necessária da própria fé. Evangélicos que votam na esquerda pelos mais diversos motivos (como a de terem sido beneficiados por políticas públicas concretas) estão sendo constrangidos por um discurso que associou bolsonarismo a “defesa dos valores cristãos”, erigindo um espectro político nascido dentro da direita como uma espécie de “Evangelho Segundo Bolsonaro”. Digo isso porque é fácil achar postagens de pastores influentes simplesmente dizendo que “votar no Lula” equivaleria ao mesmo que “não ser cristão”; decisões, diga-se de passagem, dignas de um concílio.  

Rememoro quando escrevia a minha monografia da graduação em História. Meu principal objetivo era entender como os textos bíblicos puderam ser usados em discursos de cunho político. Fui feliz nesse empreendimento por uma razão principal, que valeu toda a pesquisa: compreender como é possível rearranjar os sentidos de textos bíblicos para fazê-los responder às nossas próprias questões contemporâneas. Estudei com afinco dezenas de sermões do padre Antônio Vieira que faziam da Bíblia um instrumento poderoso de argumentação em favor da subida de Dom João IV ao trono português em 1640. Vieira soube construir seus argumentos atravessando questões dinásticas, políticas e interpretações proféticas; o padre enxergou Portugal, inclusive, como o “Quinto Império”, uma espécie de monarquia universal destinada a ocupar uma posição extraordinária na história do mundo, coisa que nunca se efetivou. O que me fascinou, porém, para além da beleza estilística de seus sermões, foi a crença real de Vieira de que falava em nome de Deus. 

Religião e política se encontraram de diversas maneiras ao longo da história, isso não é novo. Interessa-me, contudo, a transformação de uma interpretação particular em vontade divina, como se o sujeito que interpreta a bíblia pudesse dispensar a dúvida ou a possibilidade de estar errado. A performance pentecostal, cujo formato moderno se consolidou inicialmente nos Estados Unidos, atribui grande importância ao dom sobrenatural da profecia. No neopentecostalismo, surgido a partir da segunda metade do século XX, parece-me existir – e aqui cabe futura pesquisa – uma espécie de flexibilização dos critérios de reconhecimento desse dom. Em determinadas expressões religiosas, basta reivindicar para si a condição de porta-voz do divino para ocupar tal posição; a legitimidade profética, então, parece ser reforçada pela adesão coletiva: quanto maior a massa de fiéis reunida em torno dessas “figuras profetas”, maior tende a ser o crédito conferido às suas palavras. Detalhe: utilizo aqui “performance pentecostal” sem conotação pejorativa, apenas para designar a maneira como crenças religiosas são expressas, corporificadas e socialmente difundidas. 

A combinação entre a facilidade com que certas figuras, no meio evangélico, conquistam reconhecimento como porta-vozes de Deus e a difusão da Teologia do Domínio acaba por desenhar um cenário preocupante. Mas, antes de tudo, o que seria essa tal Teologia do Domínio? Não há um único criador nem uma doutrina sistematizada que leve esse nome; na verdade trata-se de um conjunto de correntes e movimentos, sobretudo de origem estadunidense, que defendem, em diferentes versões, que os cristãos devem exercer “influência” ou “domínio” sobre as diversas esferas da sociedade, incluindo a política, a educação, a cultura e o governo. Uma espécie de “render tudo a Cristo” e dominar sobre a realidade material no aqui e agora. É claro que um negócio desses cheira a totalitarismo, especialmente quando a pretensão de influenciar a sociedade se transforma na ideia de que determinada interpretação do cristianismo deve orientar, ou mesmo dominar, todas as demais. Afinal, se você é católico, sua compreensão do cristianismo não é idêntica à de um protestante; e, mesmo dentro do protestantismo, existem centenas de vertentes que discordam entre si em questões teológicas, morais, políticas, comportamentais, administrativas etc. Pergunto: domínio de qual das centenas de vertentes do cristianismo? Eu chuto que provavelmente a vertente que mais se destacar no cenário público. O grande problema dessa ideia bonitinha de “render toda a sociedade a Cristo” é que ela pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de oposição ao próprio Cristo (pelo menos segundo aquilo que o Novo Testamento aponta). Digo isso no sentido teológico do termo satânico: aquilo que se coloca como adversário ou opositor. Em Mateus 16,23, Pedro tenta dissuadir Jesus de seguir o caminho do sofrimento e da cruz em prol da salvação humana, ao que o próprio Jesus responde: “Para trás de mim, Satanás!” Claro que Pedro não se tornou literalmente um ser espiritual maligno, todavia, naquele momento, sua maneira de pensar se opunha ao caminho que Jesus havia assumido porque era somente por aquela morte e ressurreição que Jesus traria de fato uma salvação ao mundo; esse reino prometido, segundo o Novo Testamento, não provém de César, Pilatos, Herodes, Nero, Constantino ou Teodósio; qualquer tentativa de fazer da terra o reino dos céus por meio de um projeto de conquista política, como se a vontade de determinado grupo cristão pudesse antecipar a consumação prometida por Jesus, é uma ideia estranha ao projeto do novo testamento.  

O bolsonarismo fez o evangélico médio acreditar na ideia do “político cristão”, como se a “identidade religiosa” fosse, por si só, um certificado de competência, honestidade, compromisso com o bem-comum, defesa de valores inegociáveis (algo bastante genérico), moral ilibada. O que o Legislativo precisa é de pessoas que exerçam a atividade parlamentar a partir sim de suas convicções, mas sem transformar uma estratégia partidária específica em sinônimo obrigatório de fé cristã. O Parlamento não é uma igreja. O parlamentar não serve à sua própria denominação e sim ao povo em sua totalidade; ou é isso ou ele teria que começar a lutar contra as festinhas que acredita serem manifestações do “paganismo”, fiscalizar os costumes de toda a gente e transformar sua denominação numa espécie de repartição pública da moralidade. A igreja evangélica brasileira, cuja presença e expansão são relativamente recentes diante dos 2000 anos de história do cristianismo, sofre de muita imaturidade histórica para discernir quem e como são os falsos profetas. A igreja evangélica que tanto escarneceu da Igreja Católica por sua antiga associação com o Império Romano nos primeiros séculos, hoje, em sua prostituição ou poligamia política, está a se deitar com qualquer parlamentar que adentra suas portas. Ela que se arvorava moral da sociedade, acima das disputas e interesses puramente terrenos, não consegue resistir aos acenos de um Bolsonaro, de um pastor Everaldo (preso em 2020), pastor Gilmar Santos (preso em 2022), pastor Milton Ribeiro (preso em 2022), de Lucas Pavanato, de Nikolas Ferreira ou de qualquer outro que queira usá-la para alcançar seus próprios objetivos. 

O pastor Silas Malafaia (Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo – RJ) é um curioso expoente dessa chamada “voz profética” da igreja, expressão que, sinceramente, considero oportunista e de baixíssimo rigor teológico quando empregada para legitimar projetos partidários. Como pode uma voz que se apresenta como porta-voz de Deus mudar tão convenientemente de lado? Em 2002, Malafaia declarou apoio a Lula e participou de sua campanha, chegando a defender publicamente o petista contra o discurso de medo utilizado por seus adversários. Silas orou por Lula, abençoou-o, e sempre insistindo no discurso de que estava a ser usado por Deus em suas escolhas. Nos anos seguintes, sua aproximação política passou por outras alianças, até chegar ao apoio entusiasmado a Jair Bolsonaro e à oposição ao próprio Lula; logicamente que não há nada de irregular em mudar de posição política, mas a questão que aqui debato é quando uma preferência política é apresentada como “revelação divina” e a liderança reivindica para si uma autoridade profética para justificá-la. Lula sempre foi Lula, Bolsonaro sempre foi Bolsonaro. Deus então mudou de lado? Deus mudou de opinião? Em época de eleição, Deus muda de ideias? Ou a expressão “voz profética” está sendo empregada para conferir legitimidade divina às escolhas políticas de um pastor? 

Jair Bolsonaro, que depois fez do “combate ao aborto” uma das marcas de sua identidade política, já apresentou posições públicas bem diferentes disso. Lembro que numa entrevista à revista IstoÉ Gente, em 2000, Bolsonaro afirmou que a interrupção de uma gravidez deveria ser uma decisão do casal, declaração bem distante do que pensam seus fiéis seguidores atuais. Claro que ele pode ter mudado de ideia, mas o chocante é que na mesma entrevista ele se declara um cristão católico, o que significa que já na época ele não enxergava qualquer contradição entre o aborto e sua confissão religiosa. Aliás, ainda em pronunciamentos parlamentares de 1992 e 2006, também defendeu medidas de controle de natalidade, com destaque para a ampliação do acesso à laqueadura e à vasectomia, e mencionou o uso de pílulas abortivas na China, que bem poderiam ser aplicadas no Brasil. Diante disso, quanto há de convicção pessoal e quanto há de cálculo eleitoral na construção de uma identidade política pública? 

O sequestro que o bolsonarismo fez de parte do discurso religioso demonstra o quão fácil pode ser enganar parcelas da igreja evangélica assumindo um discurso que seus integrantes desejam ouvir e apresentando-o como expressão da vontade de Deus. Um candidato agora sequer precisa demonstrar que sua trajetória inteira corresponde aos valores defendidos no palanque porque basta falar a língua moral de uma parcela do eleitorado, prometer defender seus costumes e ser apresentado como “escolhido” divinamente. Encerro com uma provocação que não é minha e sim da própria história recente: ainda em 1999 o Jair Bolsonaro se sentia confortável, no programa Câmara Aberta, para dizer acerca de FHC (o presidente que teve apoio massivo das lideranças evangélicas um ano antes): “[O país] só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com FHC [Fernando Henrique Cardoso], não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”.  

Ou seja, temos o Jair Bolsonaro ameaçando o Fernando Henrique Cardoso que fora eleito apoiado por massiva representação evangélica, para depois termos na Presidência o Lula que foi massivamente apoiado pelas lideranças evangélicas, sucedido da Dilma que estava debaixo da benção da apóstola Valnice Milhomens e dos setores mais destacados da música gospel, para retornar com o Jair Bolsonaro que agora sim seria “o escolhido de Deus”. Parece-me que grande parcela dos evangélicos acredita num tipo de divindade que a todo momento muda de opinião.  

 

Vinicius Santos Santana é mestrando em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), Grego Clássico pelo Instituto de Letras da UFBa, especialista em Teologia e pós-graduado em Direito Administrativo pela FAMEF. 

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