O que a comunicação tem a ver com a defesa da democracia?
Sem informação confiável, o voto vira aposta e o debate público vira ruído
No primeiro debate direto e presencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, televisionado pela Band, no domingo (18/10), que antecede a eleição, vimos um show de horrores. Conversando com colegas, lendo e assistindo aos comentários de especialistas, a conclusão parece quase unânime: nem Lula nem Flávio ganharam; nós perdemos. Sim, nós. Todos nós, ou quase todos, iremos às urnas no dia 25 de outubro decidir quem será o nosso presidente pelos próximos quatro anos sem que o debate tenha nos oferecido elementos suficientes para compreender as propostas em disputa e suas implicações para o país.
Mas não é só isso. Estamos diante de formas distintas de encarar a política, isto é, da capacidade de negociar com diferentes atores, de interpretar os conflitos e as contradições da nossa sociedade e, principalmente, do valor atribuído à democracia. Afinal, a democracia não se resume à realização periódica de eleições ou ao que fica decidido no âmbito dos três poderes. Ela também depende das condições em que os cidadãos formam suas opiniões, confrontam perspectivas e decidem os rumos da vida coletiva.
Ao analisar a conjuntura política da Alemanha no entreguerras e a ascensão do fascismo histórico, Walter Benjamin percebeu que os meios de comunicação estavam degradando a democracia. Na visão dele, o parlamento havia se tornado um espetáculo e os políticos, atores. Com as redes sociais, a realidade vista pelo autor parece cada vez mais óbvia. No fim de seu texto, Benjamin apresenta dois conceitos para se analisar os fins políticos da comunicação: a “estetização da política” e a “politização da arte”.
O primeiro refere-se ao uso das técnicas de reprodução próprias dos meios de comunicação para mobilizar as massas por meio do espetáculo, da performance, das imagens sem que haja qualquer tipo de transformação material ou de condição de existência. Dessa forma, nem as lutas por direitos nem qualquer nuance de uma transformação social são levadas em consideração. A política, portanto, passa a ser vivida como experiência estética, cujo ponto extremo é o confronto – a guerra. A política se converte em espetáculo, e a performance passa a ocupar o espaço que deveria ser destinado à discussão dos conflitos e à construção de alternativas coletivas.
Em contraposição à estetização da política, Benjamin aponta para a politização da arte. Não se trata simplesmente de atribuir conteúdo político às produções culturais e comunicacionais, mas de explorar as possibilidades abertas pelas técnicas de reprodução para transformar as condições de produção, circulação e recepção. Essa perspectiva permite pensar a comunicação não apenas como instrumento de mobilização das massas, mas também como espaço de disputa política e de formação crítica.
O que vimos no debate pode ser compreendido como uma manifestação contemporânea de uma cultura política marcada pela espetacularização, cujas raízes são anteriores às plataformas digitais, mas que encontra nelas novas condições de produção e circulação. Por incrível que pareça, nos acostumamos com figuras políticas que gravam vídeos em assembleias tumultuando votações, entram em universidades públicas para denunciar as “ideologias de esquerda” e fazem dancinhas ironizando eleitores e candidatos da oposição. Em contrapartida, a performance nas redes nem sempre corresponde a uma atuação parlamentar efetiva, voltada à elaboração de políticas públicas e à representação de povos e grupos sociais. Ainda assim, reelegem-se indivíduos que propuseram um ou dois projetos de lei durante uma carreira inteira e está tudo bem.
Estudos da Comunicação e das tecnologias digitais têm demonstrado que as plataformas não são canais neutros de circulação da informação, mas exercem mediação sobre os conteúdos por meio de sistemas de recomendação e critérios de distribuição que podem privilegiar o engajamento. Essa dinâmica, associada à exploração econômica dos dados e à segmentação da exposição informacional, suscita debates sobre as bolhas digitais, o capitalismo de vigilância e a pós-verdade. A esse cenário soma-se a atuação política dos proprietários das principais big techs, cujos posicionamentos tornam ainda mais relevante compreender as relações entre interesses econômicos, poder comunicacional e formação da opinião pública. Temos, portanto, uma performance pública que se desenvolve em ambientes privados.
Em levantamento da empresa de marketing e análise de dados Zeeng, o qual mediu o engajamento de políticos no Instagram, Nikolas Ferreira (PL-MG), eleito deputado federal mais votado da história com 3,1 milhões de votos, lidera a lista com um número médio de engajamento de 1,47 milhões por postagem. Esse número é quase três vezes maior que o da segunda colocada, Michelle Bolsonaro, e mais de dez vezes maior que o de Lula, o 11º da lista. O terceiro com maior engajamento é Lucas Pavanato (PL-SP), eleito deputado federal com cerca de três milhões de votos.
Em entrevista à Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, ele fez questão de tornar explícita sua tática nas redes: “eu não tenho como forçar uma entrega de emenda viralizar tanto quanto eu debatendo com uma figura de esquerda”. Tanto ele quanto Nikolas Ferreira estiveram presentes junto a Flávio Bolsonaro no debate da Band, fazendo vídeos e inflamando o público presente – chegaram a gravar Fernando Haddad (PT-SP) e Simone Tebet (PSB-SP) e chamá-los de “desempregados” por não terem sido eleitos. Além dos dois, Pablo Marçal tem atuado como um guru eleitoral de Flávio.

O discurso da extrema direita, como afirmou Pavanato, se baseia no puro e simples enfrentamento à esquerda. Em diversos momentos do debate, Flávio acusou Lula de ter “abandonado os pobres” e que os índices econômicos pioraram nos governos petistas. Seu argumento é de que o custo de vida se elevou e que, internacionalmente, o país se tornou isolado. Na mesma linha, houve bastante engajamento sobre um vídeo de Nikolas Ferreira sobre o Pix e MEIs no Brasil. Ambas as situações expõem a disposição desses indivíduos de construir os embates com base na desinformação e na criação de um pânico generalizado.
A extrema-direita se elegeu grandemente nas disputas para a Câmara e o Senado e Flávio terminou o primeiro turno à frente. O que esperar de Flávio Bolsonaro e sua turma caso ele seja eleito? O que eles propõem? Como isso impacta nossa vida, nossos conflitos e as contradições do capitalismo?
Na dimensão econômica, a partir de seu plano de governo, entrevistas e o que apresentou no debate revelam que Flávio pretende fazer um “tesouraço” nos gastos públicos, inspirado em Milei, propor novas medidas ao Bolsa Família – que anteriormente chamou de “bolsa farelo” – e incentivar privatizações. Ainda que sua campanha tenha sido turbinada por empresários ligados ao agro e a setores da indústria, suas propostas mostram contradições fiscais. Economistas têm questionado de que maneira o “tesouraço” de R$ 200 bilhões será possível sem mexer nas regras de programas sociais, salário mínimo e previdência.
Em análise publicada na Folha de S. Paulo, os renomados cientistas econômicos Laura Carvalho, Martin Guzman e Joseph E. Stiglitz – este vencedor do Nobel em 2001 – entendem que experiência argentina mostra quem paga a conta: aposentados e servidores públicos veem seu poder de compra se desfazer, o desemprego sobe, os trabalhadores são empurrados para a informalidade e para ocupações de baixa remuneração, e as famílias, com a renda encolhida, entram em um ciclo de endividamento e inadimplência que já alcança milhões de pessoas.
Cortes em ciência, universidades e infraestrutura comprometem ainda o futuro, penalizando justamente quem depende do Estado para estudar, se tratar e ascender socialmente, enquanto os mais ricos são poupados com redução de impostos. No Brasil, onde o problema fiscal não nasce do gasto primário, esse sacrifício seria ainda mais injusto, pois imporia ao povo um custo social elevado sem atacar a raiz do desequilíbrio. O resultado seria um país mais desigual e pobre, com uma classe trabalhadora insegura e um Estado enfraquecido, além de dependente de apoio externo e menos livre para decidir seu próprio rumo.
Embora não seja simples como imagina, Flávio sinalizou a empresários que pretende rever a PEC da escala 6×1, caso eleito. Sua resposta para tudo isso tem sido bater na tecla que irá criar o Ministério da Prosperidade, com o intuito de reunir políticas de assistência social, qualificação profissional e crédito sob uma mesma pasta. Seu princípio está embasado em uma linguagem religiosa e coaching, que servem de base para o discurso do “empresário de si mesmo”.
Na dimensão política, para quem se apresenta como defensor da ordem, Flávio Bolsonaro trata com notável leveza o maior ataque às instituições da história recente. A prisão do pai ocorreu depois do trânsito em julgado do processo sobre o núcleo da tentativa de golpe de Estado, e ainda assim o candidato faz da anistia sua bandeira. Em sabatina, chamou o episódio de farsa armada contra centenas ou milhares de inocentes e prometeu anistiá-los em seu governo. Na sabatina da TV Globo, afirmou que trabalharia pela anistia ainda na transição e, se ela não passar, concederia indulto aos condenados, argumentando que ninguém se conhecia e que não houve arma. Chegou a prometer que Bolsonaro e “todas as pessoas perseguidas” subiriam a rampa do Planalto com ele. Quem trata como perseguição a punição dos ataques no 8 de janeiro não considera a democracia um valor inegociável.
Essa postura não nasce do nada. É herdeira de um discurso que sempre tratou direitos como concessão da maioria. Em 2017, na Paraíba, Jair Bolsonaro disse que as minorias têm que se curvar para as maiorias, e a lógica de que a lei existe para proteger quem é maioria atravessa o bolsonarismo até hoje. Flávio diz ser um “Bolsonaro vacinado”, mas o que oferece é a continuidade política do pai, com a mesma base, o mesmo projeto de anistia e a mesma hostilidade às cortes que o julgaram. Uma democracia que depende de a minoria se adequar à vontade majoritária deixa de proteger direitos e passa a administrar submissões.
Há ainda a relação do candidato com as instituições que, na prática, o afetam. Flávio foi denunciado em 2020, por organização criminosa, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e peculato no caso das “rachadinhas”. O caso foi arquivado depois que o STJ e o STF aceitaram a tese de sua defesa sobre foro privilegiado, com anulação de provas, ou seja, por questão processual e sem julgamento do mérito; o Ministério Público ainda poderia apresentar nova denúncia. Agora, candidato, promete usar a Presidência para anistiar o pai condenado e anuncia mudanças na relação com o STF. Quando o poder passa a servir à família e as cortes são tratadas como obstáculo, as instituições deixam de ser limite e viram instrumento.
É justamente por isso que a comunicação é inseparável da democracia. Sem informação confiável, o voto vira aposta e o debate público vira ruído. O primeiro debate do segundo turno ilustra o problema: foi marcado por provocações e acusações dentro de um grande espetáculo. O próximo encontro será nesta sexta-feira (23), às 21h20, na TV Globo, após o Jornal Nacional, dois dias antes da votação. Por isso, é preciso cobrar a emissora e as campanhas para que haja checagem de fatos em tempo real, para que acusações e números sejam verificados enquanto são ditos, e não corrigidos depois que já circularam. Isso não é censura: é o mínimo para que o eleitor decida com base no que é verdadeiro.
A comunicação e a democracia são, como ensina Marilena Chauí, exercícios emancipatórios. A democracia, nessa leitura, é o regime que reconhece o conflito como legítimo e que se renova criando direitos. A comunicação, quando livre e plural, é o que permite que os sujeitos conheçam as contradições em que estão inseridos e seus direitos, os reivindiquem e participem da esfera pública como cidadãos, e não como audiência do espetáculo. Quando a comunicação vira propaganda, desinformação ou espetáculo, ela produz o contrário: dependência, medo e obediência. Defender a checagem de fatos, o debate qualificado e o respeito à Constituição é, portanto, defender a emancipação. É nessa defesa que se decide o que o segundo turno coloca em jogo: não apenas quem governa, mas que tipo de democracia queremos exercer.
João Pedro Piza é graduado em Jornalismo pela Unesp, é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia pela mesma universidade.

