Rio de Janeiro: a vitrine do Partido Liberal para o Brasil
A extrema direita construiu sua base na política do Rio de Janeiro e fez do estado a principal vitrine do seu projeto para o Brasil
Nas últimas eleições, Douglas Ruas, candidato do Partido Liberal (PL), foi eleito, no primeiro turno, para governar o Rio de Janeiro pelos próximos quatro anos. Os resultados nas urnas asseguram a continuidade do projeto político do PL no estado, marcando sua terceira gestão consecutiva no Palácio Guanabara. No entanto, o que eles têm feito para melhorar, de fato, a qualidade de vida da população fluminense?

De acordo com dados do Mapa da Desigualdade 2026, lançado recentemente pela Casa Fluminense, em que são analisados diversos indicadores sobre temas como justiça racial, de gênero, econômica e climática, não tivemos muitos avanços. O Mapa aponta que a gestão do Rio segue negligenciando as favelas e periferias. A escalada da letalidade das ações policiais é uma das principais marcas do PL, em que a lógica bélica constantemente presente na narrativa e nas políticas dos ex-governadores Wilson Witzel e Cláudio Castro se traduz nos dados.
Apenas em 2025, das 800 mortes por agentes de segurança registradas em todo o estado, 741 ocorreram na RMRJ. Mais de 70% das pessoas assassinadas pelo Estado eram negras. Percentual que chega a 100% em municípios como Belford Roxo, Magé e Maricá. No mesmo ano, foram registrados 2.319 tiroteios e 45 chacinas. A chacina na Penha, com 122 mortos, caracteriza bem o impacto que ações pautadas em confronto armado têm no desenvolvimento socioeconômico de favelas e periferias. Revela ainda, a ineficiência dessa política. Afinal, alguém se sente mais protegido? Algum território foi devolvido para a população?
Um setor chave para medir o desempenho de governos é a educação. Enquanto os municípios cuidam do ensino básico, o governo estadual é o principal responsável pela rede pública de ensino médio, principal porta de entrada de jovens no mercado de trabalho formal. Os indicadores revelam que o sistema tem falhado em desenvolver políticas de combate ao abandono escolar. A taxa no ensino médio da rede pública na RMRJ atingiu 4,3%. Esse número supera a média do estado (4,0%) e é quase o dobro da média nacional (2,5%). Japeri é o município onde o governo estadual mais tem falhado em manter esses jovens na escola, com taxa de 6,6%.
O mesmo acontece quando a pauta é saneamento básico em que o estado é quem detém agências reguladoras e controla institutos ambientais, responsáveis por cobrar e fiscalizar os serviços. Após as concessões, mais de 477 mil domicílios particulares na RMRJ não estão conectados à rede geral de esgotamento sanitário. A deficiência sanitária atinge principalmente a população negra. Em 11 das 22 cidades da metrópole, mais de 80% das pessoas internadas no SUS por doenças transmitidas por água contaminada são negras e este não é apenas um problema de engenharia.
O governador eleito, Douglas Ruas, assume um Rio de Janeiro onde os direitos básicos ainda não são garantidos de forma equitativa. Nascido e criado em São Gonçalo – município administrado por seu pai, Nelson Ruas – ele já é investigado pelo Ministério Público. Sua vitória ocorreu em uma eleição conturbada, marcada por candidaturas inelegíveis indo às urnas, distribuição de panfletos falsos, desinformação constante, indícios de compra de votos, alterações de seções eleitorais e dificuldades no acesso aos locais de votação.
É nesse cenário que o PL se fortalece. O partido garantiu a renovação do mandato no Executivo, e mais, a maior bancada da Alerj, com 21 deputados, além de duas cadeiras no Senado Federal, que se somam à de Romário (PL/RJ), cujo mandato ainda não se encerrou. A extrema direita construiu sua base na política do Rio de Janeiro e fez do estado a principal vitrine do seu projeto para o Brasil. Os dados mostram a dura realidade do, no mínimo confuso, resultado dessa eleição: o controle do poder foi consolidado, mas a fatura dessa gestão continua sendo paga com o suor de quem sempre tem menos oportunidades e precisa do suporte institucional para quebrar ciclos de pobreza e vulnerabilidade.
Iris Rosa é coordenadora de Informação da Casa Fluminense.

