DESAFIOS PARA NOSSO FUTURO

Lula, corpos políticos e as vontades de um país

O futuro nos aguarda e nos desafia: quais corpos e formas políticas irão guiar e comportar nossas ideias e vontades?

Há ideias e vontades que ocupam muito mais espaço do que nós, que duram muito mais tempo do que nós, que ecoam em nós porque vieram antes e nos arrastam porque não se encerram em nós. Entre tantas outras, temos ideias que chamamos de país, de povo, de território e de nação, e temos vontades que nomeamos de igualdade social, de soberania popular, de justiça socioambiental e de desenvolvimento territorial. Para nos agregarmos, nos orientarmos e concretizarmos essas ideias e vontades precisamos de corpos e formas que sejam capazes de encarná-las e comportá-las. Todavia, nunca haverá um corpo e uma forma que representem, projetem e moldem perfeitamente essas ideias e vontades, pois sempre haverá algum grau de incompatibilidade e de contradição. Do mesmo modo, nem todo corpo e nem toda forma são capazes de realizar tais processos, sobretudo quando falamos de ideias e vontades de tal magnitude.

Mesmo contra tendências, projetos e forças que historicamente nos impediram de encarnar e dar forma a essas ideias e vontades, conseguimos de algum modo produzir corpos e formas mais ou menos adequados para elas. No entanto, em nossa recente história enquanto sociedade brasileira, não encontramos nenhuma forma tão adequada e acabada quanto um corpo, um corpo humano, como é Luiz Inácio Lula da Silva. Claramente há um amplo conjunto de formas no entorno e na base deste corpo que o projeta e que, em alguma medida, também carregam e encerram essas ideias e vontades. No entanto, sabemos que este corpo não é só uma síntese dessas formas, pois conseguiu de algum modo ser maior que a soma delas.

A história individual deste corpo é fundamental para encarnar a magnitude dessas ideias e vontades, pois, ao contrário daqueles que não reconhecem em sua trajetória nenhum mérito, nós acreditamos neste desacreditado e acreditamos nele porque ele também acreditou em nós. É justamente neste ponto, na crença da força dos desacreditados, que a história particular deste corpo se torna indissociável de um corpo maior, o corpo do Brasil, se não de sua totalidade, ao menos do corpo brasileiro que comporta as ideias e vontades que foram elencadas anteriormente.

© Cris Vector

Por essa razão, é preciso admitir que, neste segundo turno de 2026, dia em que votei em Lula mais uma vez, e talvez pela última, este Silva que vos escreve acreditou e ainda acredita que este outro Silva é o corpo que melhor encarna nossas ideias e vontades.

Lembrar que esta pode ser a última vez que este Silva vota neste outro Silva me comove, pois, apesar de tudo o que passou, ainda o temos mais uma vez presente nas urnas. Mas também me preocupa, pois ainda não temos outro corpo que comporte tantas ideias e vontades.

De todo modo, neste momento dramático da história, é preciso agradecer a Lula, a pessoa, por se dispor, com seu corpo, a enfrentar mais uma luta e defender essas ideias e vontades.

Ver e ouvir Lula hoje, com sua feição e voz envelhecidas, nos faz lembrar que este corpo humano é frágil e passageiro. Ao mesmo tempo, ver e ouvir suas últimas participações em uma campanha eleitoral nos anima e nos chama a revigorar nossos corpos e mantermos essas ideias e vontades vivas. Como ele mesmo disse sobre a participação da juventude na política: você pode ser eu amanhã. Eu completaria o desafio dizendo: é nosso dever ser ele amanhã.

O futuro nos aguarda e nos desafia: quais corpos e formas políticas irão guiar e comportar nossas ideias e vontades? Talvez seja necessário produzir e depender de corpos políticos que sejam menos individuais e mais coletivos, que sejam menos singulares e sim mais plurais. Talvez seja necessário também produzir outras formas políticas, que no lugar daquelas herméticas e fechadas consideremos as que sejam mais transparentes e abertas, que não sejam tão estanques e cristalizadas e sim mais dinâmicas e orgânicas. Este é um dos desafios que um Silva, o Lula, deixa para este Silva, para outros tantos Silvas e para outros que não sejam Silva, para todos nós que acreditamos nas ideias e vontades de um país, de um povo e de um território, e que estes sejam social e ambientalmente justos, desenvolvidos, soberanos e igualitários.

 

Luciano Pereira Duarte Silva é professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), do Mato Grosso do Sul.

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