Do janonismo à esquerda hacker
O janonismo, muito agitado como o vitorioso dessas eleições, teoricamente, conseguiu agir na construção dessas linhas de fuga e pautar ações concretas para driblar o boicote da Meta à campanha do Lula. Porém, o janonismo não é uma arma a médio e longo prazo
No início dos anos 2010, vivenciamos a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os indignados na Grécia e, aqui no Brasil, junho de 2013, com a pauta: “não é por 20 centavos”. Em todas elas, a internet e suas redes sociais foram a mediação principal na organização da luta. Tal fato pegou no contrapé toda a burocracia e infraestrutura da esquerda tradicional, ainda presa em sindicatos desatualizados ou absorvida pela institucionalidade e pelo discurso de bem-estar social pós-Muro de Berlim. A auto-organização da insatisfação popular na internet os assustou tanto que não demorou para nascerem boatos sobre como tais manifestações estavam sendo orquestradas por tecnologias estadunidenses.

Passados mais de dez anos, os boatos se concretizaram, mas não como aquela esquerda imaginava. Hoje, após as eleições de 2026, a luta digital encontra seu apogeu no Brasil. O motivo que desencadeou essa onda foi o roubo das big techs estadunidenses, representadas pela Meta (dona do Facebook, WhatsApp e Instagram), a favor da extrema direita. Diferentemente daquele manuseio “mágico” e “invisível” que se supunha nos anos 2010, ficou explícito o favorecimento algorítmico ao bolsonarismo e o corte de alcance ao campo democrático. Não foi nenhuma surpresa. A novidade, porém, foi a falta de escrúpulos e o cinismo explícito, que não se esconderam por trás da “magia tecnológica”. O principal motivo para tal interferência pode ser resumido ao fato de o capitalismo amar e necessitar do fascismo. Isso se concretizou no dia 20 de janeiro de 2025, na posse de Donald Trump, na qual estavam, na primeira fila, os homens mais ricos do mundo, entre eles os donos das big techs: Mark Zuckerberg, Elon Musk, Jeff Bezos e outros.
Poucos dias antes, Zuckerberg tinha anunciado que a Meta encerraria o programa de checagem de fatos e reduziria as restrições a determinados conteúdos. Antes, a Meta se aliava aos interesses dos liberais democratas, mas, ao ver a possibilidade de expandir seu poder e lucro, não hesitou em se unir ao fascismo republicano. Por quê? Já existe um consenso em grande parte da elite mundial de que a conta da expansão capitalista não fecha no modelo de democracia liberal contemporânea. Para isso, construíram como saída um projeto de aceleracionismo tecnológico aliado ao fascismo, com um objetivo óbvio: a exploração do homem e da natureza sem barreiras ou freios capazes de interromper esse projeto. Isso porque, para quem concentra poder e riqueza, menos regulamentação significa mais exploração e, consequentemente, mais lucro e poder. Por isso, a construção fetichista do poder e da concentração de riqueza desses sujeitos é alimentada de diversas formas e, muitas vezes, pela própria esquerda.
A literatura que aponta o controle, a vigilância, o racismo algorítmico, a prisão e a panopticidade das big techs é a que mais gera movimento no mercado editorial crítico, e tais pesquisas não estão erradas em existir. O problema é que a denúncia, por si só, não resolve o problema. Elas, inclusive, podem ajudar a construir um cenário de inevitabilidade ou “realismo” que legitima e constrói as auras de poder em torno dessas figuras, disseminando uma impotência de ação para as pessoas comuns. A antropologia digital propõe um contraponto a esta perspectiva: é comum a discussão de como os seres humanos se apropriam das empresas digitais e subvertem ou redirecionam as intenções dos produtos que as big techs oferecem e, naturalmente, de como as big techs também absorvem tais usos. É uma arena de disputa. O exemplo mais comum é o nascimento do WhatsApp Business, que surgiu para o público brasileiro após muitos usuários usarem o Zap não apenas para se comunicar com outras pessoas, mas também para gerir pequenos negócios.1 Mas poderíamos imaginar a seção de eventos do Facebook, que foi fundamental para marcar manifestações nos anos 2010. Não é à toa que tal função sofreu intensas alterações para diminuir seu alcance e que, de alguma forma, sua história acompanha o declínio atual do próprio Facebook.2
O ponto é: existe um nível de não controle entre as intenções das big techs e o que os humanos fazem com tais tecnologias. O janonismo, muito agitado como o vitorioso dessas eleições, teoricamente, conseguiu agir na construção dessas linhas de fuga e pautar ações concretas para driblar o boicote da Meta à campanha do Lula. Porém, o janonismo não é uma arma a médio e longo prazo. Primeiro, porque, como apresentei antes, as big techs aprendem com seus “erros”: a ideia de feedback está no princípio da robótica e, para Gregory Bateson (1972), até da nossa “ecologia mental”. Em outras palavras, trata-se de aprender a partir do erro. Ou seja, a derrota que impusemos às big techs no Brasil terá como consequência a construção de novas tecnologias sociais e digitais de controle para impedir futuras derrocadas do fascismo tecnológico, intensificando, assim, as estruturas panópticas. O segundo problema é que o janonismo se utiliza das próprias armas do “opressor”. Aí reside um aspecto dialético interessante para ser explorado; porém, há um limite. Na história, as revoluções, em sua maioria, construíram poderes paralelos às instituições de regulação e controle às quais se opunham.
Em um texto escrito no calor da derrota no primeiro turno, iniciei a reflexão sobre esse argumento ao entender que estávamos disputando a sociedade no terreno que os próprios fascistas criaram. As empresas digitais estadunidenses viraram as mediações principais que pautam nossas eleições e, com elas, nossa gramática, nossa linguagem, nosso modo de expressar, de ser e agir. Contra isso, lembrei do Pravda dos bolcheviques, que, apesar de ser um jornal como os do inimigo, era autônomo, clandestino ou semilegal, rodado em tipografias móveis escondidas em porões e distribuído por redes próprias, sem jamais jogar pelas regras adversárias. Portanto, faço uma pergunta incômoda: por que seguimos usando as ferramentas deles?
Considero essa a maior derrota da esquerda, e ela começa com o fim da URSS e o nascimento da internet, quando os comunistas estavam ocupados em defender o antigo bloco da difamação pública e em atacar os “pós-modernos”, e não em formar militantes de TI capazes de criar as tecnologias que dominariam o novo milênio. Por isso, precisamos traçar estratégias sobre o que fazer em duas dimensões: no campo da linha política e no da ação. Na linha política, agitamos de maneira branda a regulação das big techs e clamamos por soberania digital. No campo da ação, ainda precisamos tomar atitudes mais contundentes e, para isso, é necessário entender melhor quem é o inimigo, quais são suas intenções em relação ao mundo e ao Brasil e de quais armas dispomos.
O ponto de partida é identificar quem é o inimigo e quais são suas intenções. As big techs e seus donos já sabem que vivemos em um mundo finito de recursos naturais, que a desigualdade é fundamental para sustentar as hierarquias de poder e que as fronteiras dos Estados são um imbróglio para eles explorarem as riquezas naturais de outros países. Por isso, transformam o capital em sua idolatria. Ou seja, o dinheiro consegue atravessar fronteiras e representa quantitativamente o acúmulo de poder que impõe aos outros seus interesses. Nomeamos, então, a Meta como representante dos interesses das big techs estadunidenses em território nacional.
Sabemos hoje que a infraestrutura digital é material e concreta: ela depende de minerais, energia, água e território. O Brasil tem reservas estratégicas de minerais como terras raras, grafite e nióbio, fundamentais para diversas funções nas cadeias produtivas das big techs. O interesse da Meta e, por consequência, dos EUA e de suas empresas digitais nesses recursos não é segredo. Por isso, construíram o candidato fascista e entreguista a eles. O segundo interesse é fazer do Brasil um latifúndio de data centers. Na mesma esteira do argumento anterior, eles precisam explorar os recursos hídricos e elétricos de outros países para não sobrecarregar o seu próprio país. Só que isso implica muitos problemas ambientais e questões de soberania nacional, pois, além de guardar memória e garantir servidores de empresas imperialistas, existe um ponto sensível e pouco discutido: os data centers são aparatos que atraem possíveis ataques em situações de guerra. O exemplo mais recente foi o data center atingido na Rússia. Ter data centers estadunidenses em território brasileiro, no meio de centros urbanos, é colocar nossa população em risco de morte, porque sabemos que os Estados Unidos não conseguem sobreviver se não estiverem em guerra.
Esse último ponto é estrutural para entender o imperialismo decadente norte-americano no Ocidente e suas intenções macabras não só para o Brasil, mas para toda a América Latina. A internet nasceu do Pentágono estadunidense, porém foi agitada por muitos como uma tecnologia de conexão, liberdade e redução das diferenças e, quiçá, da desigualdade, mas hoje os oligopólios das empresas digitais voltam a fazer dela uma arma de guerra. Dessa forma, interpreto que a internet é uma paisagem em disputa. O nosso problema é que disputamos a internet dentro do oligopólio digital do fascismo estadunidense. Porém, façamos dela também uma arma de guerra para combater esse oligopólio, não por dentro dessas empresas digitais, mas sim por fora. Diria que esse deveria ser o ponto de partida para as reflexões de uma esquerda hacker!
Lippold e Faustino (2023) demonstram que o imaginário do hacker individual e solitário é uma construção neoliberal do cinema estadunidense. O hacker da vida real é profundamente coletivista e está contribuindo para o Sci-Hub e o Anna’s Archive – que, inclusive, sofreu seus maiores ataques após ameaçar o poder do Spotify –, protegendo-se com outro sistema operacional que não o da Microsoft, utilizando outros sites de busca que não o Google e salvando seus arquivos em mídias “físicas”, em vez de depositar tudo na nuvem do Google Drive. Logo, a transição “hacker” não deve ser um chamado para a ação individual ou apenas para os militantes de esquerda, e sim deve ser uma política pública para garantir a soberania dos povos contra o imperialismo norte-americano. O janonismo deu certo porque foi uma ação coletiva de mobilização popular de combate às injustiças do fascismo tecnológico, e não porque o Janones é iluminado por Deus.
Por isso, quando clamamos pela regulação das big techs, precisamos apresentar pautas radicais que cerceiem a construção de oligopólios estrangeiros em território nacional e que apostem na pluralização de redes sociais, sites e aplicativos de origem nacional ou latino-americana. Quando o REDATA foi aprovado no Senado, no ano passado, foi vendido pelo PT como um avanço na política nacional de tecnologia digital; porém, foi um ataque à nossa soberania, ao permitir a construção de data centers de origem imperialista. Precisamos construir infraestruturas tecnológicas que nos permitam ter autonomia frente ao mundo e não sermos um latifúndio para oligopólios estrangeiros.
O que aconteceu nas eleições brasileiras dificilmente irá se repetir em outros países se eles seguirem o Janones como um guia de ação dentro das empresas digitais que dominam o mundo. A única coisa que irá garantir a vitória antifascista no mundo é a mobilização popular em torno dessa luta. A prática digital do Janones só existiu porque existiam manifestações populares em todo o Brasil, tal como em 2013. Só existiu porque diversas pessoas se organizaram em seus territórios para travar a luta cotidiana nas ruas. Só teve sucesso porque o jornalismo foi combativo e não teve medo nem parcimônia diante de uma suposta neutralidade. E a vitória eleitoral foi a consequência de todas essas ações, que ensinaram, pedagogicamente, que lutar de maneira organizada e coletiva permite conquistar mudanças.
Naquele texto que escrevi após o resultado do primeiro turno, confabulava que, em um segundo mandato do Lula, era necessária a regulamentação profunda das empresas estrangeiras e uma legislação mais dura para data centers. Mas, caso perdêssemos, a esquerda precisaria aprender a ser hacker para construir um poder alternativo e derrotar o fascismo. Hoje, com a vitória do Lula, concluo que precisamos construir o poder alternativo e que devemos construir a esquerda hacker coletiva. E isso se dará por meio de políticas públicas de regulação das big techs e de desenvolvimento da autonomia tecnológica que respeite as pessoas, nosso território, a cultura e o meio ambiente. Como já disse Donna Haraway (2009): “A tecnologia não é neutra. Estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de nós” (p.32). Cabe a nós construirmos um futuro tecnológico comunista.
Sidarta Landarini é professor do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutor e mestre em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ e militante ecossocialista.
Referências bibliográficas
BATESON, Gregory. Steps to an ecology of mind. New York: Ballantine Books, 1972. 545 p.
FAUSTINO, Deivison; LIPPOLD, Walter. Que humano é esse das humanidades digitais? Por uma crítica hacker-fanoniana ao fardo do nerd branco. Revista de Teoria da História, Goiânia, v. 26, n. 1, p. 11–37, 2023.
HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 2ª ed.
Notas de Rodapé
1 Podemos pensar a ideologia do discurso coach neopentecostal e como todas as redes sociais viraram “market place”.
2 Poderíamos pensar em toda uma história do design (que hoje chamam de experiência do usuário/UX) das redes sociais e seus impactos nas dinâmicas sociais das pessoas.

