As razões do levante
Assim como na Bélgica, na Albânia, na Itália e na Espanha, a juventude francesa se rebela, levando consigo outros setores de uma sociedade indignada e exausta após anos de maus-tratos impostos pelo neoliberalismo. Diante dessa onda de revolta, que não soube prever, o governo da França recorre à estratégia habitual: repressão policial, difamação pela mídia, desvio de foco por meio da tecnologia e concessões mínimas. Soma-se a isso uma tentativa de dividir os manifestantes entre bons e maus, que, por enquanto, parece não surtir efeito. O movimento não perde força e obriga a encarar de frente problemas estruturais: a persistência das desigualdades no acesso à educação, o vazio do discurso meritocrático e a brutalidade da seleção social
Às vezes, basta uma faísca e um pouco de combustível para que um país inteiro pegue fogo. Antes de se espalhar para outras escolas e um grande número de universidades, a revolta que sacode a França no outono de 2026 começou com um bloqueio promovido por estudantes do ensino médio em Créteil. No entanto, as narrativas da mídia sobre os acontecimentos tendem a apagar os inúmeros sinais que precederam a explosão, considerados fracos demais para serem levados a sério. De Nantes a Marselha, passando por Lille, Toulouse e Vaulx-en-Velin, centenas de professores e diretores de escola haviam alertado, em vão, as autoridades acadêmicas e os sindicatos. As dificuldades que enfrentavam se tornavam cada vez mais insuperáveis, e os alunos frequentemente estavam à beira do colapso. Equipes pedagógicas desfalcadas e ausências de funcionários sem substituição, colegas sobrecarregados e exaustos, turmas superlotadas e orçamentos insuficientes, salas de aula deterioradas e atividades extracurriculares…

