67 (six seven) X 68 (meia-oito)
Ao contrapormos a onda contemporânea ao espelho de 1968, as semelhanças saltam aos olhos, mas são as diferenças estruturais que revelam a verdadeira natureza do nosso tempo
O refrão sem texto e o peso das mãos
Em meados de 2025, um refrão de pouquíssima qualidade tomou de assalto as plataformas digitais, os campos de futebol e os pátios escolares mundo afora. Trata-se da expressão six seven (ou “67”), derivada da faixa Doot Doot (6 7), do rapper norte-americano Skrilla. O trecho virou um megahit nas edições do TikTok e do Instagram Reels, e o gesto que o acompanha – as duas mãos abertas oscilando em frente ao peito, como se pesassem dois objetos numa balança invisível – passou a ser repetido por crianças e adolescentes em salas de aula, esquinas e arenas esportivas. O Dictionary.com chegou a escolher “67” como sua palavra do ano de 2025, mesmo admitindo que ela não tem definição fixa. Para boa parte da intelligentsia de nossa época, a rápida disseminação do bordão soou como a pá de cal sobre a juventude contemporânea.
O diagnóstico apressado das colunas de jornal e dos fóruns pedagógicos apontava para uma infância e uma adolescência afundadas na dopamina rápida das telas, incapazes de articular pensamento crítico ou de dar sentido às próprias expressões corporais. O six seven seria, assim, o hino do absurdo: uma linguagem que não nomeia nada, não reivindica nada e não aponta para lugar nenhum.
Não serei eu a defender aqui esse tipo de earworm. Mas definir uma geração inteira pelas músicas que ela mais consome é um equívoco de leitura sociológica. E o diagnóstico erra também de endereço: o “67” pertence sobretudo à Geração Alpha, nascida a partir de 2010, às crianças e aos adolescentes mais novos. Enquanto analistas decretavam o fim da capacidade de mobilização de uma juventude supostamente alienada pelos algoritmos de vídeos curtos, seus irmãos e irmãs mais velhos, acompanhados dos primeiros Alphas a chegar ao ensino médio, começaram a paralisar o trânsito de grandes metrópoles, a erguer barricadas nos portões dos lycées, a ocupar praças públicas no Sul Global e a derrubar governos.
A balança invisível do gesto pode nos servir de método. Coloquemos o “67” numa das mãos e o 68 na outra. A provocação histórica que se coloca diante de nós é inescapável: o fenômeno six seven é apenas um ruído passageiro na superfície do entretenimento digital ou a estética inicial de uma fratura social equivalente ao ciclo planetário de 1968?
Para responder a essa questão, é preciso antes de tudo desmistificar o ano de 1968. Esse ciclo emblemático não foi uma invenção exclusiva do Quartier Latin parisiense, mas uma onda global de contestação que explodiu nas duas margens do Atlântico e além das fronteiras da Guerra Fria.
Uma advertência antes de seguir. A comparação com 1968 é aqui uma alegoria, uma moldura para fazer perguntas ao presente, e não uma medida direta. Não houve um sujeito histórico único nem um conjunto comum de objetivos. O estudante de Nanterre, o reformista de Praga, o secundarista do Calabouço e o jovem de Tlatelolco enfrentavam adversários e regimes distintos, em condições que pouco tinham em comum. Quando escrevo “1968” ou “68”, portanto, uso uma abreviação para lutas heterogêneas que a memória posterior reuniu sob uma só data. O mesmo vale para o outro prato da balança: a onda de 2025-2026 tampouco é um bloco.
Na França, a fagulha acesa no campus de Nanterre por estudantes que criticavam a estrutura arcaica da universidade e a repressão sexual espalhou-se rapidamente para a Sorbonne. A noite das barricadas, em 10 de maio, no Quartier Latin, revelou uma brutalidade policial que levou a algo muito maior: uma greve geral que, segundo as estimativas mais citadas, mobilizou cerca de 10 milhões de trabalhadores franceses. A aliança entre estudantes e a classe operária paralisou o país e colocou o governo do general Charles de Gaulle à beira do colapso. Os slogans pintados nos muros de Paris – como “a imaginação no poder” ou “é proibido proibir” – sintetizavam uma revolta que não era apenas por salários ou reformas educacionais, mas contra o próprio modo de vida capitalista e burocrático.
Do outro lado do Muro de Berlim, na Tchecoslováquia, a Primavera de Praga nasceu de uma reforma conduzida pela própria direção do Partido Comunista, sob Alexander Dubček, e encontrou entre estudantes, intelectuais e jornalistas alguns de seus aliados mais ativos. A tentativa de construir um “socialismo com rosto humano” buscava democratizar a vida política e cultural sem restaurar o capitalismo. A experiência, no entanto, foi sufocada em agosto daquele mesmo ano pela invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia, demonstrando que a contestação daquele ano também se chocava com o autoritarismo soviético.
No Brasil, o ciclo de 68 desdobrou-se sob a sombra da ditadura militar instaurada em 1964. O assassinato do estudante secundarista Edson Luís por policiais militares no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, desencadeou uma onda de protestos massivos. Em junho, a Passeata dos Cem Mil tomou as ruas reunindo estudantes, artistas, intelectuais e setores da Igreja Católica. Seguiram-se confrontos violentos como a Batalha da Maria Antônia, em São Paulo, e o fatídico XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, em outubro, onde quase mil lideranças foram presas. O ciclo brasileiro foi tragado e interrompido em dezembro com a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que fechou o regime e abriu o período mais sombrio de censura, torturas e assassinatos de Estado.
No México, a mobilização estudantil que questionava o autoritarismo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e os gastos milionários com a organização dos Jogos Olímpicos culminou no massacre de Tlatelolco, em 2 de outubro. Na Praça das Três Culturas, forças do exército e paramilitares dispararam contra uma multidão indefesa, deixando centenas de mortos a dez dias da abertura das Olimpíadas.
O fenômeno desdobrou-se ainda nos Estados Unidos, onde a luta pelos direitos civis e a oposição à Guerra do Vietnã incendiaram as universidades e ganharam contornos dramáticos após os assassinatos de Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, desembocando na batalha campal entre manifestantes e polícia durante a Convenção Democrata em Chicago. Na Polônia, os protestos de março enfrentaram a censura e a repressão do regime. No Japão, a organização radical Zengakuren travou combates físicos contra a presença militar norte-americana. Na Itália, as ocupações universitárias abriram um ciclo que desembocaria, em 1969, no “Outono Quente”, quando lutas estudantis e operárias se articularam nas fábricas do norte.
O que aproximava esse mosaico transnacional, sem torná-lo um movimento único, era a recusa visceral da autoridade constituída, a crítica ao imperialismo e a fusão inédita entre revolta política e revolução cultural. As diferenças situavam-se nos cenários sociopolíticos: no Ocidente, lutava-se contra a sociedade de consumo e o conservadorismo moral; no Leste Europeu, contra a burocracia estatal do socialismo real; no Sul Global, contra ditaduras militares e o colonialismo.
Longe de ser uma vaga recordação do século XX, a gramática da rebelião juvenil voltou a se articular com força vertiginosa entre 2025 e 2026. As redes digitais converteram-se em infraestruturas de coordenação logística e de contágio político imediato, operando numa escala de aceleração desconhecida em 1968.
A onda não começou na Europa. No Quênia, em 2024, a juventude saiu às ruas contra novos impostos; em Bangladesh, naquele mesmo ano, a Revolução de Julho abriu uma sequência de levantes. Em setembro de 2025, a proibição de 26 plataformas digitais incendiou o Nepal, e o governo caiu em 48 horas, num movimento coordenado pelo Discord, pelo Viber e pelo TikTok. Em Madagascar, os cortes de água e de energia levaram milhares às ruas até a fuga do presidente, mas foi o exército quem tomou o poder, com um governo de velhos conhecidos que frustrou os jovens. Marrocos, Indonésia, Filipinas e Peru entraram no mesmo circuito. Em mais de uma dúzia de países, a caveira de chapéu de palha do mangá One Piece virou bandeira de protesto. Um símbolo nascido do entretenimento, portanto, já havia atravessado a fronteira entre a tela e a rua.
Na França, o ano letivo mal havia começado quando, em 21 de setembro de 2026, os bloqueios partiram do lycée Saint-Exupéry, em Créteil, e se espalharam pelo país. Em 1º de outubro, mais de mil estabelecimentos já estavam envolvidos, e as universidades aderiram ao movimento. As reivindicações, motivadas de início pela falta crônica de professores, pela degradação física dos edifícios escolares e pela rejeição profunda ao sistema automatizado de acesso ao ensino superior (Parcoursup), logo se ampliaram. A resposta do Ministério do Interior, com repressão policial violenta nas portas das escolas, apenas fez crescer a solidariedade. Em outubro, os secundaristas se juntaram às centrais sindicais e aos remanescentes dos Coletes Amarelos, e a jornada de 17 de outubro, marcada por uma greve nacional do setor público contra o orçamento de 2027, terminou com quase 2.400 prisões.
Na Itália, milhares de estudantes foram às ruas em 16 de outubro, no chamado No Meloni Day, cobrando mais recursos para a escola pública, contestando o teto para alunos estrangeiros e denunciando os gastos militares. No dia seguinte, os protestos contra o custo de vida terminaram em confrontos em Milão. Foi depois desse fim de semana que surgiu, no Instagram e no Telegram, o “Movimento 17 de Outubro”, que passou a convocar manifestações aos sábados. O governo de Giorgia Meloni respondeu com um decreto de segurança e com soldados no centro de Milão. O quadro italiano é o de várias lutas simultâneas, com estudantes, caminhoneiros e sindicatos, mais do que o de um movimento único.
Na Espanha, o movimento começou no coração de Madri, e eu estava lá. Em 23 de setembro de 2026, María del Carmen Abascal, a Maricarmen, de 87 anos, foi despejada do apartamento onde morava havia mais de sete décadas. Centenas de pessoas convocadas pelo Sindicato de Inquilinas de Madri resistiram ao seu lado, mas a ordem foi cumprida pela Polícia Nacional. A onda de indignação foi imediata. Três dias depois, sob o lema “Ni una Maricarmen más”, uma multidão tomou o centro da cidade: 25 mil pessoas, segundo o governo, mais de 300 mil, segundo o sindicato, em protestos que alcançaram 40 cidades. Ao fim da marcha, cerca de 500 pessoas, muitas delas jovens, acamparam na Puerta del Sol, quinze anos depois do 15-M, exigindo o direito à moradia. Maricarmen morreu em 7 de outubro, duas semanas depois do despejo. A rebelião espanhola tem o rosto de uma mulher de 87 anos.
Esse caldeirão europeu teve um ponto alto no sábado, 24 de outubro de 2026. Paris, Milão, Roma, Madri, Lisboa e Tirana voltaram a ter as ruas tomadas, embora por razões distintas e sem um comando comum. Na França, foram 410 mil manifestantes, segundo as autoridades, contra o custo de vida. Em Madri, aposentados marcharam em defesa de suas pensões. Em Lisboa, a crise da habitação levou a um acampamento no Rossio, desmontado pela polícia na noite seguinte. Em Roma, estudantes de direita também foram às ruas, lembrete de que juventude não é sinônimo de esquerda. Na Albânia, onde os protestos contra os custos e as condições do ensino e a falta de perspectivas viraram exigência de renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, houve confrontos em Tirana.
No dia seguinte, a Sérvia acrescentou o fato mais surpreendente desse ciclo. As mobilizações estudantis iniciadas depois da queda da marquise da estação de Novi Sad, que matou 16 pessoas em novembro de 2024, deram origem à Lista de Estudantes. Em 25 de outubro de 2026, ela conquistou 52,7% dos votos e 140 das 250 cadeiras do parlamento, encerrando os catorze anos de poder do partido de Aleksandar Vučić.
Enquanto em boa parte do mundo a energia juvenil se manifestava como recusa aberta às consequências do neoliberalismo, o Brasil viveu um movimento de outra natureza no segundo semestre de 2026.
No primeiro turno das eleições presidenciais, a conjuntura política foi sacudida por um choque de realidade: o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, liderou a votação com 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 45,16%. Diante do risco iminente de um retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, formou-se uma mobilização de emergência. No segundo turno, em 25 de outubro, Lula virou a disputa e venceu por uma margem estreita, com 51,79% dos votos válidos, depois de a última pesquisa Datafolha apontar Flávio à frente por 51% a 49%.
A arrancada de três semanas entre o primeiro e o segundo turno desencadeou uma mobilização de proporções gigantescas, convertendo redes e espaços públicos em um verdadeiro mosaico geracional. A juventude esteve na linha de frente – densamente articulada em partidos, entidades estudantis (como a UNE e as UEEs), centros acadêmicos (a exemplo do Direito da UFF, em Niterói), grêmios secundaristas e coletivos periféricos –, mas atuou em constante sinergia com outras idades. A seu lado, somaram-se homens e mulheres de meia-idade e uma multidão de idosos que retomaram o protagonismo político nas ruas. Tomadas por passeatas massivas no Rio de Janeiro, em São Paulo e nas capitais do Nordeste, as praças e avenidas viraram ponto de encontro entre avós, pais e netos, reunindo milhares de militantes e apoiadores em ações diárias de panfletagem em estações de trem, feiras livres e pontos de ônibus. Simultaneamente, nas redes, uma tropa de choque de jovens criadores de conteúdo, influenciadores e parlamentares recém-eleitos da esquerda assumiu o controle da narrativa, disputando voto a voto no WhatsApp e no TikTok.
No dia da votação, a imagem de idosos e idosas diante das urnas adquiriu uma força simbólica avassaladora. Ela tinha lastro nos números: a abstenção entre os maiores de 70 anos, para quem o voto é facultativo, já havia caído de 58,8%, em 2022, para 49,1% no primeiro turno de 2026, o que representou 2,64 milhões de votantes a mais. Esse dado mostra quem compareceu, não em quem votou. Como o voto é secreto e as pesquisas por faixa etária divergiram, a virada não pode ser creditada a uma única geração. A juventude foi um dos fatores decisivos, ao lado de uma aliança entre idades que a pura leitura geracional não alcança.
A diferença entre o modelo brasileiro e as insurreições de Paris, Madri ou Katmandu é evidente. No Brasil, a energia política foi canalizada para a institucionalidade: tratava-se de defender a ordem democrática e apoiar a continuidade de um governo progressista contra a ameaça autocrática. A via eleitoral, contudo, não é uma exclusividade nossa. No mesmo domingo em que Lula virava a eleição, os estudantes sérvios venciam a sua. A distância está no sentido da aposta: em Belgrado, um movimento surgido nas ruas tomou o lugar de um poder estabelecido; no Brasil, a mobilização foi defensiva e sustentou um governo já existente.
Essa opção tática traz consigo uma ambivalência profunda. Ela demonstra enorme maturidade política e capacidade pragmática, pois compreendeu a urgência de barrar a extrema-direita no terreno eleitoral. Revela também seu limite: ao atuar sobretudo como força defensiva de um governo de coalizão ampla, a juventude corre o risco de ver suas pautas mais radicais – como o passe livre, o fim da violência policial nas periferias e a reforma urbana – subordinadas às exigências da governabilidade e da negociação parlamentar. O impasse que se abre para o período pós-eleitoral é saber se essa energia saberá migrar da condição de linha de defesa eleitoral para a de força de pressão popular nas ruas.
Ao contrapormos a onda contemporânea ao espelho de 1968, as semelhanças saltam aos olhos, mas são as diferenças estruturais que revelam a verdadeira natureza do nosso tempo.
O que aproxima os dois ciclos é a dimensão planetária das lutas, a velocidade do contágio tático e a presença dos jovens na dianteira. Tanto em 1968 quanto em 2025/2026, a revolta nasce de uma profunda crise de legitimidade das autoridades constituídas. Há nos dois momentos uma recusa das normas ultrapassadas e uma capacidade ímpar de criar formas de expressão e solidariedade que ignoram as fronteiras nacionais. Mas a comparação geracional tem limites. Em 68, os operários franceses fizeram a greve geral. Em 2026, uma mulher de 87 anos deu nome à revolta espanhola, e no Brasil avós e netos dividiram as mesmas ruas. O conflito de hoje atravessa as idades mais do que as opõe.
As diferenças são de ordem material e existencial. Os jovens de Paris ou de Berkeley contestavam num pós-guerra de crescimento que, na França, Jean Fourastié chamaria de “Trinta Anos Gloriosos”: pleno emprego, expansão do Estado de bem-estar social e mobilidade de classe. Essa é uma caracterização desigual, que varia de país para país e nem sequer alcançava da mesma forma todos os trabalhadores daquelas sociedades. Ali, para parte da juventude, o protesto era a recusa de um futuro que parecia pré-programado e carente de sentido; era a revolta da abundância e do excesso de integração industrial. Esse horizonte nunca foi comum a toda a juventude de então: não valia para o Rio de Janeiro sob ditadura, para a Cidade do México de Tlatelolco ou para a Praga ocupada.
A juventude de hoje revolta-se, em quase toda parte, a partir da precariedade. O horizonte da Geração Z é marcado pela emergência climática, pela crise sistêmica da moradia, pela uberização do trabalho, pelo endividamento estudantil e pelo desmonte de qualquer rede de proteção social. A novidade histórica é que essa experiência, velha conhecida do Sul Global, chegou ao coração do Norte. Se em Paris, em 1968, pedia-se “o impossível”, em 2026 luta-se muitas vezes pelo elementar: o direito de ter um teto, de ter um professor em sala de aula, de não ser sufocado pela dívida ou pela fumaça dos incêndios florestais.
Além disso, a forma de organização alterou-se. Boa parte das lutas de 68 apoiava-se em partidos de massa, sindicatos estruturados e grandes organizações estudantis centralizadas, ainda que estudantes e bases operárias também se rebelassem contra elas: na França, os acordos de Grenelle, negociados pelas centrais, foram rejeitados pelos operários da Renault em Billancourt. As lutas de hoje têm um caráter claramente mais horizontal e se articulam por meio de infraestruturas digitais e redes informais.
Isso não é exatamente uma novidade. Basta lembrar tudo o que escrevemos e lemos sobre as mobilizações dos primeiros anos da década de 2010. A Primavera Árabe, iniciada na Tunísia no fim de 2010; o 15-M, na Espanha; e o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, ambos de 2011, e, em 2013; os protestos do Parque Gezi, na Turquia, e as Jornadas de Junho, no Brasil, tiveram traços em comum: a convocação em grande parte pelas redes sociais, a ocupação de praças e avenidas, as decisões em assembleias abertas e a desconfiança diante de partidos, sindicatos e lideranças reconhecidas.
Naqueles anos, muitos viram nessa combinação uma nova forma de fazer política. Os desfechos, porém, foram bastante desiguais. No Egito, a queda de Mubarak foi seguida pelo golpe militar de 2013. Na Espanha, parte da energia das praças desembocou na criação do Podemos, em 2014, um caminho institucional que poucas dessas experiências percorreram. No Brasil, as ruas de Junho foram disputadas e conquistadas pela direita, que soube aproveitar a crise de representação aberta por aqueles protestos.
Se esse formato confere às mobilizações atuais uma velocidade de irrupção e uma capacidade de esquiva imensas diante da repressão inicial, também revela uma fragilidade no momento de institucionalizar conquistas e sustentar movimentos de longa duração. Madagascar mostra o risco: o povo derrubou o presidente, e o exército ocupou o lugar. A horizontalidade, contudo, não é uma condenação. Os estudantes sérvios chegaram às urnas sem hierarquia, sem líder e sem experiência política, e venceram depois de quase dois anos de mobilização. Tampouco a oposição entre rede e organização é tão nítida: o Sindicato de Inquilinas em Madri, as entidades de secundaristas e as centrais sindicais na França, a UNE no Brasil foram parte decisiva das lutas de 2026. O que separa as insurreições que se volatilizam daquelas que duram é a existência de alguma estrutura capaz de sobreviver ao primeiro impulso, seja ela antiga ou inventada no caminho.

O peso das mãos
É hora de voltar ao gesto. Seria repetir, com o sinal trocado, o erro dos colunistas tomar o 67 como a chave de uma geração. O refrão não explica as barricadas, e nenhuma das lutas descritas aqui nasceu dele. Até onde pude apurar, ele não virou palavra de ordem em lugar nenhum. O que o meme revela é mais modesto, e talvez por isso mais interessante.
O esvaziamento intencional do significado, a repetição de uma expressão sem sentido fixo e o gesto de mãos podem, à primeira vista, parecer alienação ou passividade. Proponho aqui uma leitura diferente: trata-se de uma piada entre pares, de um código que exclui os adultos justamente porque nada há nele para decifrar. Crianças que cresceram ouvindo que o futuro está comprometido, num mundo em que as promessas do progresso moderno fracassaram, encontraram no absurdo uma defesa estética. Isso não faz delas revolucionárias. Mostra apenas que não são os autômatos que os diagnósticos descreviam. E a caveira de One Piece, nas ruas de Katmandu, lembra que, em certas condições, a linguagem das telas pode ganhar uma reivindicação e um inimigo.
Não estamos, portanto, diante de uma escolha simples entre a alienação do “67” e a consciência revolucionária do “68”. A balança não fecha porque os pratos não pesam a mesma coisa. O six seven, com toda a probabilidade, é um ruído passageiro. A fratura é real, mas não nasce dele: ela vem da moradia, da escola, do trabalho e da dívida, e atravessa mais de uma geração. Quem ergue uma barricada por um professor, ou acampa por um teto, ainda aposta em algum futuro.
Se 1968 entrou para a história, na fórmula de Zuenir Ventura, como o ano que não terminou, a onda que atravessa o mundo entre 2025 e 2026, deixa em aberto uma pergunta mais difícil. Em Antananarivo, a revolta derrubou um presidente e entregou o poder aos militares. Em Belgrado, ela chegou ao parlamento. Em Madri, ocupou a Puerta del Sol em nome de uma mulher despejada. No Brasil, segurou a porta do Planalto com as mãos de netos e avós. E as crianças que seguem fazendo o gesto nos corredores das escolas estão a poucos anos da idade de votar, de bloquear um lycée, de acampar numa praça.
O que farão essas mãos quando deixarem de pesar o nada? A resposta não está escrita em nenhum manual do século XX. Ela está sendo decidida, neste exato momento, entre a tela do smartphone, os paralelepípedos das ruas e as urnas.
Daniel Angelim é membro da coordenação Estadual do militante do MTST – SP, diretor da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco e doutorando em Economia Política Mundial pela UFABC.

