MEIO AMBIENTE

O que a humanidade ganha com a derrota de Trump

Nova maioria poderá convocar autoridades, investigar decisões e disputar os recursos destinados à pesquisa, à fiscalização ambiental, à prevenção de desastres e à cooperação internacional 

Uma eleição nos Estados Unidos pode influenciar as condições em que outros países enfrentam uma epidemia, respondem a uma enchente ou financiam a proteção de suas florestas. A dimensão econômica e de poderio político-militar dos Estados Unidos é uma faca de dois gumes, a depender de quem a empunha.   

O retrocesso humanitário imposto pela gestão presidencial de Donald Trump felizmente foi estancado. Essa é a dimensão internacional que imprime a vitória democrata na Câmara e no Senado dos Estados Unidos. O Washington Post descreveu o resultado como uma “rejeição contundente à liderança de Donald Trump”. Para Nicolas Chapuis, correspondente do Le Monde em Nova York, “são de fato as suas políticas que estão sendo rejeitadas”. 

Os democratas fizeram campanha com base nas consequências das escolhas questionáveis do presidente na economia e na política externa. Entre essas está o abandono de compromissos internacionais, que põe em risco os avanços das Nações Unidas em defesa da paz mundial e os acordos climáticos construídos ao longo de décadas para proteger a humanidade e as demais espécies dos efeitos do aquecimento global. 

Em janeiro, consumou-se a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Em fevereiro, a agência ambiental norte-americana revogou a conclusão técnica que fundamentava a regulação federal dos gases de efeito estufa e eliminou os padrões de emissão desses gases para veículos. 

Na saúde pública, a Organização Mundial da Saúde advertiu que a decisão norte-americana de deixar a instituição “torna tanto os Estados Unidos quanto o mundo menos seguros”.  

Quando uma potência do porte dos Estados Unidos se afasta das instituições que organizam a resposta a problemas comuns, enfraquece tanto a capacidade de atuação do sistema das Nações Unidas quanto a confiança no cumprimento dos compromissos pelos demais governos. 

As mesas de negociação dos acordos climáticos se esvaziaram à medida que as preocupações domésticas ganharam precedência e o multilateralismo colaborativo perdeu força. A instabilidade global gerada pela guerra contra o Irã deu novo impulso à corrida armamentista, em um cenário de aumento dos investimentos em defesa e de pouca disposição para financiar prioridades humanitárias.  

No primeiro ano do segundo mandato de Trump, o gasto militar mundial atingiu US$ 2,887 trilhões, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI). Foi um aumento de 2,9% em termos reais e o 11º ano consecutivo de alta. 

Quando os governos perdem a confiança na possibilidade de uma paz duradoura, também se torna mais difícil negociar sobre clima, saúde e ajuda humanitária. A perspectiva de novos conflitos encurta o horizonte das decisões. A segurança militar e energética ganha precedência, enquanto compromissos que exigem anos de cooperação ficam mais sujeitos a adiamentos.  

Nas negociações climáticas, essa desconfiança têm um efeito concreto. Um país vulnerável precisa saber se os recursos prometidos chegarão a tempo de instalar sistemas de alerta, proteger seu abastecimento de água e preparar suas cidades para eventos extremos. Quando o financiamento é incerto, perde-se tempo que deveria ser dedicado à prevenção.  

Reconstruir a confiança na paz passa também por fazer com que os compromissos assumidos em comum durante uma construção de décadas sejam retomados, depois de interrompidos de forma deplorável por Donald Trump. 

No centro da reação norte-americana nas urnas está a reafirmação de valores éticos e democráticos. Ao retirar do partido do presidente o controle das duas casas do Congresso, os eleitores reforçaram um princípio básico da democracia. O poder tem limites, e quem o exerce deve responder pelas consequências de suas escolhas. A guerra, a inflação e os episódios de corrupção estiveram entre os pontos levantados pelos democratas. 

Trump segue na Casa Branca. A nova maioria poderá convocar autoridades, investigar decisões e disputar os recursos destinados à pesquisa, à fiscalização ambiental, à prevenção de desastres e à cooperação internacional. A reversão das medidas já adotadas dependerá de decisões administrativas ou de mudanças legislativas sujeitas ao veto presidencial. O ganho imediato está na capacidade de conter novos retrocessos e tornar públicas as consequências que já ocorreram. 

A reação eleitoral enfraquece, felizmente, o poder de influência de Trump na condução da política multilateral dos Estados Unidos. A confiança entre as nações depende de governos que honrem os compromissos assumidos e respondam pelos efeitos de suas decisões sobre outras populações. O que a humanidade ganha com essa derrota é a possibilidade de recolocar a responsabilidade pública e a solidariedade no centro da política externa norte-americana. 

Recuperar uma perspectiva humanitária na política externa significa fazer da proteção da vida uma prioridade. Um país que detecta um surto e compartilha a informação protege também populações além de suas fronteiras. Uma comunidade que recebe recursos para instalar sistemas de alerta ou proteger seu abastecimento de água pode se preparar antes da próxima enchente ou seca.  

A emergência climática é uma dura realidade. Quando a catástrofe chega, a capacidade de oferecer abrigo, água e atendimento de saúde depende de instituições e recursos que precisam existir antes da emergência. É para isso que serve um multilateralismo colaborativo, sobretudo em um mundo em que os países têm capacidades financeiras tão desiguais para se adaptar, proteger suas populações e se recuperar de eventos extremos. 

Crédito: Xuthoria/Wikimedia Commons

O Brasil oferece um exemplo do que pode mudar quando a proteção ambiental volta a orientar a ação do Estado. A queda do desmatamento na Amazônia deu respaldo à atuação progressista do país na COP30, em Belém, onde o Brasil colocou a região no centro da diplomacia climática.  

O protagonismo internacional de um país ganha consistência quando as posições defendidas no exterior se apoiam em resultados internos. Se o Brasil avançasse mais fortemente na transição energética, para longe dos combustíveis fósseis, certamente ganharia ainda mais confiabilidade e teria possibilidades reais de liderar fortemente uma transformação global. 

O mundo precisa de democracia e caminhos palpáveis para sustentabilidade. As próximas eleições na Espanha e na Argentina poderão indicar se a derrota republicana faz parte de uma reação mais ampla às forças que fizeram da desregulação uma bandeira.  

Cada país tem sua própria disputa. Uma convergência entre governos progressistas e dispostos a cooperar ampliaria a capacidade de enfrentar crises que se agravam mutuamente. A perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas reduzem a margem de segurança com que as sociedades enfrentam o aquecimento e os extremos climáticos. Essa pressão simultânea sobre os limites do planeta torna urgente a cooperação. 

Às vésperas da COP31, que acontece entre 9 e 20 de novembro em Antália, na Turquia, há uma agenda concreta para essa ação multilateral progressista. Os grandes emissores precisam acelerar a redução de emissões. Os países ricos devem assumir sua parcela de responsabilidade pelo financiamento climático. Os povos indígenas precisam participar das decisões sobre as florestas e os territórios que protegem.  

A derrota de Trump abre uma oportunidade de interromper a onda de retrocessos dos últimos anos. Em Antália, o que a humanidade pode ganhar começará a tomar forma em compromissos que se traduzam em políticas protetivas, definam quanto de recursos financeiros chegará a quem precisa se adaptar, em que prazo e com que participação das comunidades afetadas. 

 

Carlos Bocuhy é presidente do PROAM – Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental. 

 

Referências bibliográficas 

Washington Post. Takeaways from a Republican wipeout that cost the GOP both chambers of Congress. 4 nov. 2026. https://www.washingtonpost.com/politics/2026/11/04/takeaways-republican-wipeout/ 

Le Monde. 2026 US midterms: What are the consequences of Trump’s defeat? Análise de Nicolas Chapuis. 4 nov. 2026. https://www.lemonde.fr/en/videos/video/2026/11/04/2026-us-midterms-what-are-the-consequences-of-trump-s-defeat_6772141_108.html 

Reuters. As Democrats savor big wins in Congress, Trump shows off his ballroom project. 4 nov. 2026. https://www.reuters.com/legal/government/democrats-seize-congress-sweeping-midterm-repudiation-trump-2026-11-04/ 

Nações Unidas. Acordo de Paris. Registro da retirada dos Estados Unidos. https://treaties.un.org/Pages/showActionDetails.aspx?clang=_en&objid=080000028066e27e 

EPA. Revogação da conclusão sobre gases de efeito estufa e dos padrões de emissão para veículos. 12 fev. 2026. https://www.epa.gov/system/files/documents/2026-02/420f26001.pdf 

OMS. WHO statement on notification of withdrawal of the United States. 24 jan. 2026. https://www.who.int/news/item/24-01-2026-who-statement-on-notification-of-withdrawal-of-the-united-states 

SIPRI. Trends in World Military Expenditure, 2025. Abr. 2026. https://www.sipri.org/publications/2026/sipri-fact-sheets/trends-world-military-expenditure-2025 

INPE. Sistema do INPE aponta 5.731 km² de desmatamento na Amazônia em 2025. https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/sistema-do-inpe-aponta-5-731-km2-de-desmatamento-na-amazonia-em-2025 

Instituto Nacional de Estadística. Eleições gerais da Espanha de 29 de novembro de 2026. https://www.ine.es/dyngs/Prensa/en/EG2026.htm 

UNFCCC. The Road to Antalya. Informações sobre a COP31 e os trabalhos da presidência da COP30. https://unfccc.int/cop31/the-road-to-antalya 

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