A amarga vitória democrata - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS

A amarga vitória democrata

por Serge Halimi
1 de dezembro de 2020
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As primeiras escolhas de Joe Biden para postos-chave de sua administração (Relações Exteriores, Finanças, Meio Ambiente) ameaçam decepcionar quem espera mudanças profundas na Casa Branca. Entretanto, mesmo uma política pouco ambiciosa enfrentará muita resistência de um Partido Republicano que não sofreu a derrota que se esperava

 

A maioria dos ativistas democratas ficou muito decepcionada em 3 de novembro, noite em que seu candidato venceu a eleição presidencial norte-americana. Para eles, quase nada saiu como planejado. É certo que Donald Trump perdeu, mas por pouco, já que algumas dezenas de milhares de votos adicionais em um punhado de estados (Geórgia, Wisconsin, Arizona, Pensilvânia) teriam bastado para que o atual ocupante da Casa Branca permanecesse lá por mais quatro anos. Esse resultado apertado o encoraja a reclamar de fraude, enquanto seus apoiadores mais exaltados atacam máquinas de votação cujo software, projetado na Venezuela para Hugo Chávez, permitiria distorcer à vontade os resultados. O espetáculo do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, advogado pessoal do presidente dos Estados Unidos, enxugando a testa enquanto essas acusações bizarras eram feitas com seu aval, dá a medida daquilo em que se transformou a política norte-americana.

Mais preocupante e mais sério para Joe Biden: 77% dos republicanos consideram que sua eleição não é legítima.1 No dia 20 de janeiro, o presidente eleito precisará enfrentar essa desconfiança quando seu partido não terá maioria no Senado e terá perdido dez cadeiras na Câmara dos Deputados e estagnado nas assembleias dos estados. Isso equivale a dizer que esse mandato democrata não terá nenhuma lua de mel e que começa muito pior que aquele de Barack Obama, iniciado há doze anos, do qual, entretanto, não resta grande coisa, exceto magníficos discursos e Memórias em dois volumes. A eleição de Obama não foi contestada, ele fazia o mundo todo sonhar e tinha ampla maioria em ambas as câmaras. Ele também se mostrava muito mais vigoroso e trinta anos mais jovem que o “Joe Adormecido” hoje.

Paradoxalmente, é, portanto, no campo dos perdedores que o futuro parece mais promissor. Os adversários de Trump imaginavam que sua eleição há quatro anos era o resultado de um incrível acaso eleitoral, que expressava o último suspiro (ou o último soluço) do homem branco e que sua coalizão, em que se justapunham segmentos em declínio do eleitorado – religioso, rural, idoso –, estava condenada. Por outro lado, o mapa demográfico tornava irresistível uma vingança democrata apoiada por uma maioria “diversificada”, jovem e multiétnica. Esse futuro não está mais escrito. Reconfortado em suas bases, conquistando suas margens, o republicanismo ao estilo de Trump não está prestes a sair de cena. O presidente que vai deixar o cargo transformou o partido do qual se apossou; ele é doravante o seu, ou de seu clã, ou dos herdeiros que ele terá designado.

Para os democratas, a decepção é imensa. Uma forma de prostração e de desmobilização poderia muito bem se seguir. Com mais de 200 mil mortes por Covid-19, uma economia paralisada, desemprego crescente, uma taxa de popularidade presidencial que, ao contrário de todos os seus antecessores, nunca em quatro anos ultrapassou 50% e uma lista de mentiras e insultos públicos capaz de encher vários grossos volumes, a derrota do presidente que deixa o cargo parecia assegurada. Especialmente porque a todos esses fatores se juntavam a cortina de fogo de quase todos os meios de comunicação, financiamentos eleitorais inferiores ao do concorrente democrata (algo bizarro tendo em vista que o republicano ofereceu generosos presentes fiscais a bilionários), sem mencionar o apoio compacto de quase todas as elites do país – artistas, generais, acadêmicos de esquerda e inclusive o dono da Amazon – a Biden.

Em 3 de novembro, os democratas não estavam apenas esperando uma vitória, mas uma punição. Eles achavam que, como em 1980, a derrota do presidente seria homologada antes mesmo que os californianos terminassem de votar e, para que a humilhação da sagrada América progressista fosse realmente purgada, o desastre prometido aos republicanos seria seguido – como ouvimos ser exigido – pelo encarceramento da família Trump, se possível retratada em uniforme laranja. Esse cenário permanecerá imaginário. É até provável que o jogador de golfe de Mar-a-Lago não fique politicamente inativo por muito tempo. Forte por ter obtido 10 milhões de votos a mais que há quatro anos, apesar de todas as afrontas de que foi alvo, incluindo uma tentativa de impeachment, ele sem dúvida conseguirá convencer seus partidários de que foi um presidente corajoso, que cumpriu suas promessas e ampliou a base social de seu partido, mas cujo balanço lisonjeiro foi obscurecido por uma pandemia.

O fervor de alguns é fortalecido pela rejeição de outros. A “verdade alternativa” dos republicanos mais exaltados é ainda menos duvidosa quando se pensa que o universo paralelo dos democratas apresenta certas falhas semelhantes. Pois como pode um apoiador de Trump se reconhecer no retrato que a maior parte dos meios de comunicação, além daqueles que ele frequenta, oferece de seu campeão? Muitos dos eleitores de Biden, especialmente os graduados, os urbanos, aqueles que definem o tom, o ritmo e a linha, de fato se convenceram de que o presidente que está saindo é um palhaço, um fascista, “o poodle de Putin”, até mesmo o sucessor de Adolf Hitler. Em 23 de setembro, sem ser contestado pelo famoso apresentador da MSNBC, o publicitário Donny Deutsch comparou os apoiadores de Trump a multidões fanáticas que compareciam aos comícios nazistas: “Quero dizer aos meus amigos judeus que vão votar em Donald Trump: como se atrevem a fazer isso? Não há nenhuma diferença entre o que ele prega e o que Adolf Hitler pregava”. Dois dias depois, um comentarista do Washington Post estimou que devemos deixar de temer a analogia entre o início da ditadura nazista e as tentações totalitárias do presidente dos Estados Unidos: “América, estamos à beira do nosso incêndio do Reichstag. Podemos evitá-lo. Não deixemos nossa democracia ser incinerada”.2

(Gayatri Malhotra/ Unsplash)

Paranoia alimentada pela mídia

Por fim, na CNN, enquanto a eleição de Biden não tinha sido confirmada, a famosa jornalista Christiane Amanpour, em vez de saborear sua vitória e se permitir uma pequena pausa ativista, aproveitou a data de 12 de novembro para sinalizar que aquela era a semana do aniversário da Noite dos Cristais, durante a qual, em 1938, as vitrines das lojas pertencentes a judeus foram saqueadas e muitos de seus proprietários foram assassinados ou enviados para campos de concentração. O prelúdio, segundo ela, de um assalto contra “a realidade, o conhecimento, a história e a verdade”, o que imediatamente a traz de volta às transgressões do presidente norte-americano. Nos Estados Unidos e na Europa, a imprensa progressista optou por não destacar tais excessos, mas os apoiadores de Trump não vão esquecê-los a cada vez que rirmos de sua paranoia. Eles já notaram que a eleição presidencial havia ocorrido sem que se manifestasse essa vasta conspiração russa da qual foram continuamente informados por quatro anos.

A eleição de Obama desencadeara um mecanismo de ódio e falsificação. Apesar de seu centrismo quase conservador, sua austeridade fiscal, sua leniência com os bancos, seus assassinatos por drones, suas expulsões em massa de imigrantes, seus protestos impotentes diante de abusos policiais, os republicanos o acusaram de ser um radical ferrenho, um revolucionário mascarado, um falso norte-americano. Biden pode ficar tão distante da esquerda quanto seu predecessor democrata – “Eu sou o cara que fez campanha contra os socialistas. Eu sou o moderado”, ele defendia em Miami uma semana antes da votação –, mas seu mandato ocorrerá em um clima igualmente agitado, porque, como analisou o jornalista Matt Taibbi, a grande mídia não está mais preocupada em informar, mas em satisfazer apoiadores endurecidos suficientemente numerosos para fazê-los viver ou morrer.3 Entre aqueles que se informam lendo o New York Times, 91% se declaram democratas e, entre aqueles que preferem a Fox News, 93% se proclamam republicanos.4 O bom business model passa então a empanturrar o animal, isto é, o assinante, com a comida que ele espera, mesmo que seja tendenciosa, ultrajante e falsificada. E os jornalistas, inclusive quando proclamam seu amor pela diversidade, têm o cuidado de caçar hereges.

O resultado é convincente: transformado em um anexo ideológico do Partido Democrata e capaz de publicar meia dúzia de editoriais ou comentários que a cada dia reafirmam seu desprezo e seu ódio pelo presidente que deixa o cargo, o New York Times tem 7 milhões de assinantes. De sua parte, a Fox nunca ganhou tanto dinheiro.

A existência de dois países que se ignoram ou se enfrentam não é novidade nos Estados Unidos. E, na época da Guerra Civil, a fratura já ignorava as categorias econômicas e sociais. Mais recentemente, em 1969, um conselheiro do presidente Richard Nixon, Kevin Phillips, recomendou ao Partido Republicano, com mapas e gráficos para apoiá-lo, que aproveitasse a “revolta populista das massas norte-americanas que, tendo alcançado a prosperidade das classes médias, se tornaram mais conservadoras. Elas se levantam contra a casta, as políticas e a tributação dos mandarins de esquerda do establishment”.5 A essa análise, que associava a hostilidade aos impostos daqueles cujo pecúlio estava crescendo e sua animosidade contra uma engenharia social cujo erro eles atribuíam a intelectuais progressistas, que desrespeitavam na opinião deles os preceitos religiosos, Phillips acrescentou o toque do ressentimento racial. Em suma, os “pequenos brancos” do sul, tradicionalmente democratas, estavam fartos da emancipação dos negros. E havia nisso, segundo ele, uma alavanca que os republicanos poderiam acionar para conquistar um eleitorado popular. Ele era hostil a priori às políticas econômicas de direita, mas “animosidades étnicas e culturais têm precedência sobre qualquer outra consideração quando se trata de explicar a escolha do partido”. Em larga medida, a estratégia política de Phillips explica as reeleições de Richard Nixon, Ronald Reagan e George W. Bush. Ela também lançou luz sobre a presidência de Trump.

No entanto, um discurso que tem por alvo os especialistas, a meritocracia, os migrantes e as minorias se torna eleitoralmente perigoso em um país em que a proporção de estudantes está aumentando e a de brancos diminuindo. Os democratas podiam, portanto, apostar que o tempo estava do seu lado. Somando-se a isso a quase totalidade dos votos negros, uma grande maioria de eleitores hispânicos, uma pequena vantagem entre as mulheres e progressos constantes entre os que têm curso superior, a vitória não poderia escapar deles.

A eleição de 2020 teve pelo menos o mérito de questionar esse catecismo de identidade, essa atribuição de toda uma população a quadros demográficos, distintos, étnicos e políticos ao mesmo tempo. Uma comparação dos resultados indica que foi principalmente junto ao eleitorado branco que Biden progrediu em relação à pontuação de Hillary Clinton há quatro anos e que a maior parte dos que acabaram por votar em Trump foi composta de votos adicionados de mulheres e minorias. Em proporção, estamos longe do terremoto de uma eleição para a outra: alguns pontos aqui, alguns pontos ali. Os republicanos sempre triunfam entre os homens brancos, sobretudo quando eles não têm diploma, enquanto os democratas triunfam entre negros e hispânicos.

 

O voto dos hispânicos

No entanto, a evolução ocorreu onde não era esperada. O fato de Trump ter melhorado sua pontuação com os afro-americanos depois de ter mostrado sua indiferença à brutalidade policial e sua hostilidade ao movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] e de ter feito um grande avanço no eleitorado hispânico depois de ter promovido (e em parte construído) um muro na fronteira mexicana e ter tratado migrantes como estupradores e assassinos parece ir além da compreensão. Tanto que alguns republicanos imaginam que seu partido pode se tornar conservador, popular e multiétnico. Por sua vez, os democratas estão preocupados em ver escapar deles uma parte da clientela que consideravam conquistada, para não dizer cativa.

É no entorno do Rio Grande, no Texas, que o enigma é parcialmente desvendado.6 Ali, mais de 90% da população é hispânica. Quatro anos atrás, Clinton obteve 65% dos votos no condado de Zapata. Dessa vez, foi Trump quem venceu. Que aconteceu? Os hispânicos, como outros, simplesmente não são movidos apenas pela consideração de identidade que se atribui a eles. No caso em questão, os do Rio Grande temeram que a hostilidade de Biden à indústria do petróleo lhes negasse acesso a empregos bem remunerados, mas que não exigem diploma universitário. A mudança climática, portanto, pareceu menos temível para eles que a degradação social. Outros moradores da região, que ganham a vida decentemente como policiais ou guardas de fronteira, acreditaram que os democratas parariam de financiar sua profissão. Por fim, o fato de uma pessoa ser hispânica não impede que ela seja hostil ao aborto ou a tumultos urbanos.

Em suma, você pode falar espanhol e ser conservador, da mesma forma que pode ser afro-americano e não querer receber mais imigrantes mexicanos, ou vir de um país asiático preocupando-se com os programas que procuram promover o acesso de minorias à universidade. Enquanto os democratas inventam questões progressistas artificiais, os republicanos ganham o mel em divisões bem reais, correndo o risco, tanto uns quanto outros, de não ver o outro lado da realidade: se os jovens hispânicos votam mais nos democratas que seus pais, isso não significa necessariamente que tenham mais consciência que eles de sua “identidade”. Acima de tudo, eles são mais graduados que a geração que os precedeu. Também nesse campo da diversidade, as certezas oscilam.

A crise de confiança dos Estados Unidos em seu sistema político poderá talvez ter a vantagem de dissuadi-los de impô-lo à força ao mundo inteiro. Quanto à esquerda norte-americana, que não sai fortalecida dessa eleição – ainda que seu resultado a tranquilize –, só resta alertar o novo presidente contra uma política excessivamente cautelosa, semelhante à dos democratas que permitiram a eleição de Trump.

 

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.

 

1 Pesquisa do Monmouth University Polling Institute, 18 nov. 2020.

2 Dana Milbank, “This is not a drill. The Reichstag is burning” [Isto não é um teste. O Reichstag está pegando fogo], The Washington Post, 25 set. 2020.

3 Matt Taibbi, Hate Inc.: Why Today’s Media Make Us Despise One Another [Ódio S.A.: por que a mídia atual nos faz desprezar uns aos outros], OR Books, Nova York, 2019.

4 Estudo do Pew Research Center, out.-nov. 2019. As proporções para a NPR (a televisão pública), a CNN e a MSNBC também são desequilibradas a favor dos democratas; para a ABC, a CBS e a NBC o são menos.

5 Kevin Phillips, The Emerging Republican Majority [A maioria republicana emergente], Arlington House, Nova York, 1969.

6 Elizabeth Findell, “Latinos on border shifted to GOP” [Latinos na fronteira passam para o Partido Republicano], Wall Street Journal, 9 nov. 2020.



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