A Amazônia, apesar do Brasil
Muito se tem dito em defesa da Amazônia, mas já se ouviu o que os povos amazônicos têm a dizer sobre isso? Essa problematização nos indica duas ideias deste ensaio: o modo como Brasil produziu historicamente formas de encobrimento da Amazônia e o modo como os povos amazônicos, apesar de toda a violência, construíram um legado teórico e político que nos oferece outros horizontes de sentido para a vida no planeta
Nunca a Amazônia foi tão saqueada e devastada. Ao mesmo tempo, nunca houve tanta gente clamando por sua proteção. Parece haver um descompasso entre as palavras e as coisas, pois essa vontade de proteção esconde uma operação colonial com base na qual a Amazônia sempre foi pensada. Tal operação se explica pela palavra “proteger”, do latim protegere, uma junção do prefixo pro, que significa “à frente”, com tegere, que quer dizer “cobrir ou tapar”. Proteger, portanto, é encobrir o que está à frente. Esse alerta etimológico não é por acaso. O encobrimento do outro, lembrando os termos de Enrique Dussel,1 é um modo de transformar aquilo que é diferente de nós em resultado de nossas próprias pressuposições. Por isso, não nos basta a vontade de proteção; precisamos, para início de conversa, compreender que qualquer horizonte que desfaça as engrenagens de fogo, fumaça e sangue que hoje consomem a Amazônia não…

