A anorexia, uma doença social - Le Monde Diplomatique Brasil

UMA PATOLOGIA GRAVE QUE ACOMETE SOBRETUDO JOVENS MULHERES DE MEIOS MAIS ABASTADOS

A anorexia, uma doença social

por Claire Scodellaro
1 de setembro de 2020
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As desigualdades sociais em relação à saúde se estabelecem em geral em detrimento dos homens pobres. A anorexia constitui uma das raras exceções: esse gravíssimo problema atinge mais garotas de meios abastados. Expostas a normas de magreza mais estritas, elas são também mais propensas a achar que podem controlar seu destino social e, portanto, seu peso

Raramente uma doença escolhe vítimas de modo tão pouco aleatório: entre 90% e 95% das pessoas que sofrem de anorexia mental – distúrbio do comportamento alimentar que se manifesta por uma privação estrita e voluntária da alimentação por um período de vários meses, ou até vários anos – são mulheres. Tal desequilíbrio entre os dois sexos só se registra no câncer de mama (1% dos pacientes são homens) ou… nas afecções dos órgãos genitais. Outra singularidade: a composição social da população envolvida. Enquanto a distribuição dos riscos em matéria de saúde se estabelece em geral em detrimento dos meios populares, observamos o inverso no caso da anorexia. Desse modo, as meninas das classes superiores (cujos pais ocupam cargos de chefia, exercem uma profissão liberal ou são donos de empresas) têm 1,6 vez mais probabilidade de serem afetadas que as filhas de operários; as meninas de classe média (profissões ditas intermediárias, empregados com carteira) têm 1,3 vez mais chances.1 Por fim, o perfil por idade difere de outros transtornos mentais: a anorexia raramente se inicia após os 25 anos, e a probabilidade de surgir novamente diminui com o avanço da idade, ao passo que a depressão permanece frequente na idade adulta.

Apresentada em 2010 pela Alta Autoridade de Saúde da França como “um risco de saúde pública importante, porém pouco levado em conta em nosso país” – culpa dos meios dedicados à sua prevenção –, a anorexia mental estaria em plena progressão. Em vigor desde 2017, uma lei teve a ambição de atacar as causas sociais dessa calamidade que, segundo o último estudo disponível, publicado em 2008, atingia quase 5% das jovens francesas de 17 anos (ler o boxe). A proposta mira principalmente a moda e a publicidade, e visa, entre outros objetivos, proteger a saúde das modelos. Mas combater os setores que propagam representações dos corpos femininos patogênicos faria a anorexia recuar? Sem dúvida não tanto quanto o esperado. As causas sociais dessa doença se situam aquém do alcance das páginas de revistas: enquanto a população em seu total está exposta às mesmas imagens de corpos magros, a probabilidade de adoecer varia de modo considerável de um indivíduo a outro, de acordo, em especial, com seu meio social.

Os fatores na origem da anorexia são múltiplos e interagem com o percurso individual: disfunções do sistema nervoso, configurações familiares e psicológicas, eventos estressantes. O retrato sociodemográfico que podemos traçar dela, revelador de uma verdadeira doença de classe, não se mostra menos surpreendente. Sobre tal ponto, raramente comentado pelos profissionais de saúde, a Sociologia e a História da Medicina trazem um esclarecimento útil.

 

Pesquisa de excelência

Nos tratados de medicina, o diagnóstico de “anorexia mental” apareceu e se tornou preciso durante a segunda metade do século XIX. As restrições alimentares duradouras (que podem ir até o jejum total e não se explicam por problemas de digestão) constituíam antes o principal sintoma. O médico francês Ernest-Charles Lasègue2 e seu colega britânico William Gull3 notaram que a inanição se acompanha paradoxalmente de uma energia transbordante. “Longe de acabar com as forças musculares, a diminuição da ingestão de alimentos tende a aumentar a aptidão para o movimento”, observa Lasègue. “A doente continua a se sentir mais ativa, mais leve, ela monta a cavalo, realiza longas caminhadas a pé, recebe e faz visitas, e leva, se necessário, uma vida mundana exaustiva, sem demonstrar o cansaço de que ela reclamaria outrora.” As primeiras descrições clínicas de Lasègue também evidenciam a predominância de garotas entre as pessoas atingidas, e as ocupações de suas pacientes evocam os passatempos da burguesia, à qual pertenciam sem dúvida. Alguns anos depois, o neurologista Jean-Martin Charcot (1883) e outros médicos europeus começaram a mencionar sintomas que se tornariam centrais no diagnóstico da anorexia mental: o medo de ganhar peso e a convicção de estar muito gorda.4

Deve-se concluir que essa doença nasceu no fim do século XIX? Ou só se trata de um rótulo médico aplicado a práticas mais antigas? Não há dúvidas de que as práticas de jejum prolongado não datam de ontem. A freira dominicana Catarina de Siena (1347-1380), canonizada no século XV, se privava de alimentar-se até o esgotamento. Tais restrições alimentares, porém, se inscreviam em uma empreitada mística, o que não era mais o caso no fim do século XIX. O jejum passou então a ser motivado por uma busca de distinção social: a silhueta da mulher burguesa devia ser magra, transformando a corpulência em um atributo das classes populares, à medida que a fome recuava.5 A psiquiatria, nessa época em plena ascensão, forjou um novo vocabulário médico com base nos casos mais extremos. Embora seja verdade que as práticas de privação de alimentação já existissem antes do aparecimento do diagnóstico de anorexia mental, o nascimento e o destino dessa doença permanecem indissociáveis da afirmação da cultura burguesa.

Um século e meio depois, a valorização da magreza na sociedade francesa guarda o traço desse desenvolvimento histórico.6 Segundo um estudo francês de 2008 englobando quase 40 mil adolescentes de 17 anos, as jovens aspiram a um corpulência menor que os limites médicos da magreza:7 uma menina que mede 1,70 metro julga seu peso bom quando está em torno de 52 quilos, ao passo que ela seria considerada normal se pesasse entre 1 e 20 quilos a mais. O peso ideal se situa em um nível ainda mais baixo entre as jovens de classes superiores, aumentando a diferença com as das classes populares.

O contraste com os meninos é duplo: não apenas eles julgam adequadas as corpulências mais elevadas (seu peso ideal médio para 1,70 metro é de 62 quilos, ou seja, 10 quilos a mais que para as meninas), mas sua origem social quase não faz variar essa apreciação. De outro modo, as representações do corpo perfeito distinguem socialmente as meninas, mas não os meninos. É também o caso das corpulências reais, que variam pouco entre os meninos segundo sua origem social, mas muito entre as meninas. Tais disparidades ilustram quanto, para as meninas, a magreza tem um valor social, que as situa em uma dupla hierarquia. Para esquematizar, ela aparece ao mesmo tempo como um sinal de inferioridade das mulheres perante os homens e de superioridade das mulheres abastadas sobre aquelas oriundas de meios populares.

(Mag Magrela)

As adolescentes se preocupam em particular em exibir um corpo (muito) magro, em uma idade na qual não podem se aproveitar do prestígio social de propriedades que classificam habitualmente os adultos (rendas, profissões etc.). Isso poderia explicar o surgimento muito frequente da anorexia em uma idade jovem e o fato de que seja sempre associada a outros comportamentos. Como mostram os trabalhos da socióloga Muriel Darmon, magreza e desempenho escolar fazem parte de uma mesma busca por excelência social, da qual as meninas participam mais que os meninos, em especial nas classes superiores.8 Não é, por conseguinte, muito surpreendente que as turmas preparatórias das grandes escolas contem com frequência com alunas sofrendo de anorexia.

Marca de sucesso social, a magreza raramente é percebida como um presente da genética, mas como um bem que se adquire controlando a alimentação e, de maneira mais específica, os impulsos de fome. Por extensão, a magreza simboliza o controle de si. Isso é descrito como típico das práticas anoréxicas, e em primeiro lugar pelas pessoas atingidas. “Ela se sentia cada vez mais, mais leve, mais pura também”, escreve a romancista Delphine de Vigan em Jours sans faim [Dias sem fome], relato autobiográfico em terceira pessoa. “Ela se tornava mais forte que a fome, mais forte que a necessidade. Quanto mais emagrecia, mais buscava essa sensação para dominá-la.”9

 

Exigências tirânicas

O que se apresenta como uma vontade patológica de controle próprio a um indivíduo poderia na verdade se enraizar em uma relação com o mundo socialmente moldado. Ensina-se de fato às jovens a “se portar bem”, a “se cuidar”, a “não se deixar levar”, ao passo que aos homens recairia o privilégio de controlar os outros. Tantos imperativos que observamos em particular no seio das classes médias e superiores, mais propensas que as classes populares a acreditar na possibilidade de controlar seu destino social. Essa injunção ao controle poderia causar predisposição aos distúrbios de comportamento alimentar, constituindo um reservatório de práticas às quais se poderia recorrer para enfrentar situações de estresse ou de eventos dolorosos – como o consumo de álcool ou de outros produtos psicoativos.

Ao longo da vida, as mulheres experimentam injunções dificilmente conciliáveis: ter “formas femininas”, mas sem celulite; ser vigilante quanto à aparência, mas sem ser “superficial”; controlar a fome enquanto prepara a refeição da família; ter liberdade para seu corpo, mas preservá-lo da gordura;, amamentar o quanto for necessário, mas continuar trabalhando etc. Tais exigências tirânicas, que variam segundo a idade e o meio social, constituem o pano de fundo diante do qual prospera a anorexia mental. À medida que a doença ganha terreno, o controle se torna paradoxalmente incontrolável. O sentimento de domínio com o qual se alegram as jovens ao verem baixar o ponteiro da balança torna-se tão indispensável que não conseguem mais atingir um peso normal. Veem então seu risco de morte prematura aumentar muito mais que o do resto da população, em razão de suicídios ou de complicações decorrentes de episódios de jejum severo. E as normas sociais se tornam, assim, um problema de saúde pública.

 

Claire Scodellaro é professora de demografia da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e pesquisadora associada ao Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França.

 

1 Enquête sur la santé et les consommations lors de l’appel de préparation à la défense (Escapad) [Investigação sobre a saúde e o consumo durante o preparatório para o exame de admissão das Forças Armadas], Observatório Francês de Drogas e Toxicomanias, Paris, 2008; Claire Scodellaro, Jean-Louis Pan Ké Shon e Stéphane Legleye, Troubles dans les rapports sociaux: le cas de l’anorexie et de la boulimie [Distúrbios nas relações sociais: o caso da anorexia e da bulimia], Revue française de sociologie, v.58, n.1, Paris, jan.-mar. 2017.

2 Cf. Ernest-Charles Lasègue, De l’anorexie hystérique [Da anorexia histérica], Archives générales de médecine, série VI, tomo 21, v.1, Paris, 1873.

3 Cf. William Gull, Anorexia nervosa (apepsia hysterica, anorexia hysterica) [Anorexia nervosa (apepsia histérica, anorexia histérica)], Transactions of the Clinical Society of London, 7, 1874.

4 Tilmann Habermas, History of anorexia nervosa [História da anorexia nervosa]. In: Linda Smolak e Michael P. Levine (orgs.), The Wiley Handbook of Eating Disorders [O livro Wiley de distúrbios alimentares], John Wiley & Sons, Hoboken (Nova Jersey), 2015.

5 Georges Vigarello, Les Métamorphoses du gras. Histoire de l’obésité [A metamorfose da gordura. História da obesidade], Seuil, Paris, 2010.

6 Claire Scodellaro, Jean-Louis Pan Ké Shon e Stéphane Legleye, op. cit.

7 Escapad, op.cit.

8 Murielle Darmon, Des jeunesses singulières. Sociologie de l’ascétisme juvénile [Juventudes singulares. Sociologia do ascetismo juvenil], Agora débats/jeunesses, n.56, Paris, 2010.

9 Delphine de Vigan (sob o pseudônimo de Lou Delvig), Jours sans faim [Dias sem fome], Grasset, Paris, 2001.

 

 

BOX:

 

Dois por cento das mulheres afetadas

 

Como os médicos traçam uma fronteira entre comportamentos normais e patológicos em matéria de magreza? Os manuais de medicina, tal como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais (DSM), da Associação Norte-Americana de Psiquiatria, acrescentam às manifestações subjetivas da anorexia mental um critério de peso. Desse modo, uma mulher adulta medindo 1,64 metro e pesando 49 quilos é considerada abaixo do peso, pois seu índice de massa corpórea (IMC), que relaciona o peso à altura ao quadrado, é inferior a 18,5 kg/m2. Se essa mulher se percebe, no entanto, como muito gorda, é possível que apresente uma anorexia mental dita subsindrômica. A anorexia será sem dúvida caracterizada se ela perder 4 quilos (chegando a um IMC inferior a 17 kg/m2) e se recusar a recuperar o peso.

Na Europa e na América do Norte, quase 2% das mulheres são afetadas ao longo da vida, em comparação a menos de 0,1% dos homens. Na França, em 2008, 1,4% das meninas de 17 anos já havia apresentado os sintomas de uma anorexia caracterizada, e 3,3%, os sintomas menos graves de uma anorexia dita subsindrômica. As frequências foram respectivamente 0% e 0,1% entre os rapazes da mesma idade.1 Nenhum estudo pôde concluir de maneira formal quanto a uma multiplicação de casos no curso dos últimos vinte anos.2 [C. S.]

 

1 Nathalie Godart et al., “Epidemiology of anorexia nervosa in French community-based sample of 39,542 adolescents” [Epidemiologia da anorexia nervosa baseada na amostragem da comunidade francesa de 39.542 adolescentes], Open Journal of Epidemiology, Wuhan (China), jan. 2013.

2 Hélène Roux et al., “Épidémiologie de l’anorexie mentale: revue de la littérature” [Epidemiologia da anorexia mental: revisão da literatura], L’Encéphale, v.39, n.2, Paris, abr. 2013.



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