A arriscada aposta russa na Síria - Le Monde Diplomatique

PUTIN VAI AO SOCORRO DE AL-ASSAD

A arriscada aposta russa na Síria

por Alexei Malachenko
4 de novembro de 2015
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Penetrando no teatro de operações sírio, o Exército russo pretende mostrar que tem capacidade para honrar suas alianças regionais e defender seus interesses estratégicos. Reafirmando uma cooperação antiga com o regime Al-Assad, Putin espera influir mais na reconfiguração do Oriente Médio.Alexei Malachenko

Ao menos por enquanto, a irrupção nos céus do Oriente Médio dos Sukhoi SU-34 e dos mísseis de longo alcance Kalibr, lançados do Mar Cáspio, alterou o equilíbrio de forças no campo de batalha sírio. A intensidade dos bombardeios permitiu às tropas governamentais retomar a ofensiva. Esse apoio tático dado a Bashar al-Assad por Vladimir Putin não é de forma alguma uma surpresa: a Síria representava o último vestígio da presença russa no Oriente Médio, o símbolo de uma grandeza passada. Seu apoio constante ao regime vigente levou o Kremlin, por exemplo, a desempenhar um papel decisivo, em meados de 2013, na organização do desmantelamento de seu arsenal químico, a fim de evitar uma intervenção ocidental.1 Isso confundiu aqueles que, julgando não haver mais para a Rússia nenhum interesse fora do espaço pós-soviético, pretendiam colocá-la entre as simples “potências regionais”.

Desde os primeiros contratos de armamentos assinados em 1956, a Síria e a União Soviética mantinham relações muito estreitas, que se fortaleceram ainda mais no momento da união da República Árabe com o Egito (1958-1961) e, depois, quando o Partido Baas, que preceituava um “socialismo árabe”, chegou ao poder em 1963. Pouco antes de morrer, em 2000, o presidente Hafez al-Assad aconselhou seu filho Bashar a preservar esse vínculo essencial para que seu clã continuasse à frente do Estado.

De resto, após o fim da aliança com o Egito e a perda das instalações de Alexandria e Marsa-Matruh, em 1977, o porto sírio de Tartus ficou sendo o único atracadouro dos navios russos que cruzavam o Mediterrâneo. Nos últimos meses, sua presença se intensificou ao largo das costas sírias; viu-se mesmo, em setembro, o Dmitri Donskoi, submarino nuclear da classe Typhoon,2 o maior lançador de mísseis até então construído, percorrendo aquelas águas.

A ajuda da Rússia à Síria aumentou desde o começo da Primavera Árabe. O desmoronamento dos regimes tunisiano, egípcio e líbio, seguido da desordem no Iraque e do advento da Organização do Estado Islâmico (OEI), em 2014, convenceram Moscou de que era necessário manter a ajuda a Al-Assad e reforçar posições na região. A instabilidade geral e a postura pouco clara da política do Ocidente, em primeiro lugar a dos Estados Unidos, induziram também alguns governos a diversificar suas parcerias. A França vendeu consideráveis estoques de armas aos países do Golfo; a Rússia acaba de assinar contratos econômicos, militares e técnicos com o Egito, o Iraque e a Jordânia. A Arábia Saudita se apressa em financiar compras de armas russas pelos egípcios e seu banco de investimentos decidiu, em julho, aplicar 10 bilhões de euros na Rússia.3

Vários dirigentes políticos e funcionários árabes nos confidenciaram sua nostalgia dos tempos do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser,4 isto é, os anos 1950 e 1960, quando a disputa ideológica entre a União Soviética e o Ocidente deixava aos árabes uma margem de manobra. Não foi por acaso, aliás, que o atual presidente do Egito, Abdel Fatah al-Sissi, evocou em termos elogiosos seu ilustre predecessor quando fazia campanha eleitoral em 2014. Investindo sem tergiversações no novo homem forte do Cairo – recebido em Moscou no fim de agosto de 2015 –, Putin renovou os antigos laços, o que lhe permitiu assinar um contrato de venda de armamentos de 3 bilhões de euros.

A Rússia espera consolidar sua influência abrigando-se por trás do direito internacional, como salientou Putin no discurso de 28 de setembro à Assembleia Geral da ONU. Ele se ofereceu para coordenar, nos termos de uma resolução do órgão, “as medidas de todas as entidades que enfrentam o Estado Islâmico”.5

Sem tentar recuperar o posto que a União Soviética ocupava nas relações internacionais, a Rússia se volta para o Oriente Médio. Mas precisa lidar com um paradoxo. De um lado, Al-Assad não é muito popular na maioria dos países árabes, e essa aliança coloca a Rússia, de facto, ao lado do Irã, do Hezbollah libanês e das milícias xiitas iraquianas, num confronto regional que seus adversários sunitas apresentam cada vez mais como religioso. Por outro, se Putin deseja mostrar tanto para a opinião russa quanto para seus parceiros regionais o poder e a capacidade que tem de ajudar os amigos, não pode dar prova de fraqueza “entregando” Al-Assad.

Em busca de uma solução negociada

Haverá solução para o conflito mediante acordo? Do ponto de vista de Moscou, isso seria possível se os países ocidentais aceitassem que Al-Assad permaneça no poder durante um período a ser definido. Foi o que Putin deu a entender durante a conferência da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC)6 em Duchambé, Tadjiquistão, em 15 de setembro: “É também indispensável pensar seriamente em reformas políticas nesse país. E nós sabemos que o presidente Al-Assad está pronto a partilhar a gestão do Estado com as forças sadias da oposição”.7 Essa etapa permitiria a montagem de uma coalizão síria que integraria os oposicionistas dispostos a romper com os movimentos inspirados no jihad. Em seguida, o presidente cederia lugar, “de bom grado”, a uma personalidade aceita tanto pelas principais forças políticas do país quanto pelos agentes externos.

Esse cenário parece, no momento, altamente improvável, mas já foi discutido – com ranger de dentes – nas chancelarias. Se se realizasse, a Rússia apareceria como a força de paz que baixou as cartas no momento certo. Uma intervenção “a pedido do governo sírio” lhe permitiria reassumir não só o papel de contrapeso geopolítico reivindicado pela União Soviética durante a Guerra Fria, mas também o de protetora das minorias da região – papel que a Rússia czarista alegava desempenhar para os cristãos do Oriente.

No entanto, o problema vai muito além da região. Discute-se secretamente a hipótese de uma “troca” da Síria pelo Donbass, a parte da Ucrânia dilacerada entre os partidários da integração à Rússia e os fiéis ao governo de Kiev. Em outras palavras, se os Estados Unidos e seus aliados levassem mais em conta os interesses russos na Síria, Moscou poderia se mostrar mais compreensiva com relação à Ucrânia. No fim de setembro, por intermédio da União Europeia, já se chegou a um acordo sobre o gás a um preço conveniente tanto para Kiev como para a estatal Gazprom, em dificuldade para obter novos contratos.8 A aplicação plena dos acordos de Minsk I e II, assinados respectivamente em setembro de 2014 e fevereiro de 2015, continua incerta; entretanto, o último encontro de Paris, no início de outubro, permitiu antever uma trégua sustentável no Donbass, com a retirada efetiva das armas pesadas e com as duas partes aceitando a realização de eleições locais para chegar a uma solução institucional.

Contudo, essa lógica do toma-lá-dá-cá não dissimula bem o impasse em que se meteram os russos. Em seu discurso de setembro perante a Assembleia Geral da ONU, Putin criticou alguns membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) por terem “provocado de fora uma revolução armada que acabou se transformando em guerra civil”. No entanto, defendeu os acordos: “Não garantiremos a integridade da Ucrânia com ameaças e pela força das armas. Cumpre levar em conta, realmente, os interesses e direitos das populações do Donbass, respeitar sua escolha, dialogar com elas”.

Na Síria, persiste por enquanto uma incerteza total quanto ao pós-Al-Assad e ao tipo de coalizão possível. Cada agente do conflito vê a solução do problema à sua maneira. Moscou continua intensificando a ajuda militar e técnica. O fluxo de armas aumenta, assim como crescem as tropas. A intervenção direta dos aviões russos exige uma logística de peso. Como os grupos hostis estão a apenas algumas dezenas de quilômetros, a base aérea de Lattaquié precisa ser protegida por helicópteros de ataque Mi-24 e tanques. As fontes oficiais falam numa mobilização de 2 mil homens, número que os militares acham “suficiente”.9 Mas tudo isso pode ser mera cortina de fumaça, pois já se constatou na Crimeia a dificuldade de saber o número exato de soldados russos envolvidos. Em contrapartida, nada de novo quanto à presença de consultores: especialistas militares russos enxameiam todo o Oriente Médio desde os anos 1950. 

O papel desses soldados poderia se limitar à proteção das principais bases do Exército sírio e às operações especiais. A sociedade russa não esqueceu o “pequeno contingente” enviado de início ao Afeganistão nem o recrutamento que se seguiu (1979-1989) – provocando, segundo dados oficiais, 14 mil mortos e 50 mil feridos do lado soviético, e cerca de 1,5 milhão de mortos do lado afegão. Os ideólogos da OEI não deixam de insinuar que essa guerra desastrosa contribuiu para a queda da União Soviética. Um quarto de século depois, a popularidade de Putin sem dúvida não subirá às nuvens por conta de uma intervenção em solo sírio.

Segundo as autoridades ocidentais, o objetivo principal do Kremlin não seria esmagar a OEI, e sim manter Al-Assad no poder. De fato, os bombardeios têm em mira diversas correntes da oposição síria, entre as quais a Frente Al-Nosra, nascida da Al-Qaeda. Entrementes, em Moscou, espera-se que o confronto com a OEI encoraje outros países envolvidos a redobrar esforços e juntar-se à Rússia em sua “guerra contra o extremismo”. Uma coalizão mundial, porém, é coisa que com toda certeza nunca se verá; no máximo, assistiremos a uma coordenação técnica para evitar acidentes de percurso. Pouco provável, igualmente, será a coalizão paralela à encabeçada pelos Estados Unidos, de que tanto fala a mídia russa e que reuniria a Rússia, o Irã e a China. Pequim se recusa a intervir além de suas fronteiras e Teerã persegue seus próprios desígnios – ainda que tenhamos visto em Moscou o poderoso general Khassem Suleimani, comandante da força Al-Qods, unidade de guardiães da revolução que combate no Iraque e na Síria. Inquieto com tais aproximações e temendo sobretudo que o Hezbollah acumule armas graças a um eixo xiita aliado dos russos, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pediu e obteve garantias de Putin.

Ameaça jihadista no Cáucaso

Em certo sentido, a OEI serviu aos interesses da Rússia, permitindo-lhe mostrar a seus amigos na região que ela ainda era capaz de desempenhar um papel decisivo. O Kremlin pôde, assim, se afirmar como protetor dos países muçulmanos da Ásia central por intermédio da “Otan russa”, a OTSC. Mais que nunca, após o fim da União Soviética, Moscou se mostra firmemente decidida a preservar a estabilidade no coração da “Eurásia”10 e a defender seus aliados do perigo externo. Por muito tempo, esse perigo foram os talibãs afegãos, aos quais agora se junta a OEI, que, aos poucos, vai se instalando ao longo das fronteiras meridionais da Ásia central e atravessando-as.

Desde sua criação, a OEI designou a Rússia como um de seus adversários. Em 2014, publicou um documento pondo em guarda seu presidente: “Teu trono já balança e será derrubado quando chegarmos […] Vladimir Putin, os aviões que enviaste a Bashar, nós os devolveremos com a ajuda de Alá!”. A OEI prometeu até “libertar a Chechênia e o Cáucaso”. Semelhante projeto parece bem ambicioso, mas os jihadistas podem realmente ampliar sua influência no norte do Cáucaso, sempre às voltas com uma contestação do poder central e com dificuldades econômicas ou sociais. Não bastasse isso, são possíveis atentados, como os que sofreu a embaixada russa em Damasco em 19 de maio, 20 de setembro e 13 de outubro – ataques que podem se estender ao solo russo.

Em 1979, a decisão de intervir no Afeganistão foi tomada por unanimidade, em reunião do Politburo, órgão do Comitê Central do Partido Comunista (PCUS). Leonid Brejnev deixou-se convencer pelos colegas. O chefe da KGB na época, Yuri Andropov, futuro secretário-geral do PCUS, se opôs num primeiro momento, mas acabou cedendo.

Hoje, sabemos quem toma as decisões e de que maneira: embora os senadores, em 30 de setembro, tenham avalizado o envio de tropas ao estrangeiro por voto unânime, Putin é quem tem a palavra final, segundo sua maneira de ver as coisas. Às vezes, suas decisões parecem carregadas de forte conteúdo emocional, sem análise suficiente das possíveis consequências.

Todos se lembram, na Rússia, da crise dos mísseis de Cuba, em 1962. O dirigente russo, Nikita Kruschev, decidira intempestivamente enviar para Cuba mísseis soviéticos – o que ele chamava de “enfiar um ouriço dentro das calças americanas”. Posteriormente, alegou ter ouvido os colegas; mas sabemos que tomou a decisão sozinho e que seu círculo apenas foi informado.11 A reação violenta de Washington, decretando o bloqueio da ilha e ameaçando invadi-la,12 obrigou Moscou a dar marcha a ré. O caso abalou seriamente o prestígio de Kruschev junto a seus colegas.

Aos olhos de muitos, Putin parece mais decidido e mais eficiente que seu homólogo americano, Barack Obama. Teria mostrado isso mais uma vez com sua gestão do problema sírio, que o pôs um passo à frente de seus parceiros-rivais. Mas sabe-se o que acontece com vitórias militares caídas, aparentemente, do céu: acabam por afundar na lama, quando não são seguidas de uma retirada em campo raso. Decorrido um ano, os bombardeios, embora numerosos, não fizeram a OEI recuar. A Rússia só terá êxito em sua volta ao Oriente Médio se conseguir criar as condições para uma solução política internacional.

Alexei Malachenko é cientista político e diretor do Programa Religião, Sociedade e Segurança, do escritório moscovita da Fundação Carnegie para a Paz Internacional. Obra mais recente publicada: The Fight for Influence: Russia in Central Asia [A luta por influência: a Rússia na Ásia central], Carnegie, Moscou, 2014.



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