A arte brasileira se profissionalizou - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA / RODRIGO NAVES

A arte brasileira se profissionalizou

por Maíra Kubík Mano
1 de novembro de 2010
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Escritor, crítico e professor, Rodrigo Naves é uma das referências no debate sobre artes plásticas no país. Nesta entrevista, ele faz um balanço da cena atual e afirma que houve um crescimento na produção e na comercialização de obras nacionais, mas lamenta que as discussões sobre o tema continuem restritasMaíra Kubík Mano

Le Monde Diplomatique Brasil – Qual é o balanço que você faz sobre a produção atual de artes plásticas no Brasil?

Rodrigo Naves – A partir do início dos anos 1990, se deu uma espécie de profissionalização crescente dentro do meio de arte brasileiro. Passou a haver mais galerias e ganhou-se uma regularidade maior. Com isso, um número significativo de artistas começou a viver do próprio trabalho, coisa que não era muito comum. Antes, muita gente vivia de bico, dando aula em faculdade etc. É mais ou menos como aconteceu com a televisão no Brasil: hoje ela é algo extremamente profissional e de muita qualidade, que se enraizou rapidamente num país que não tinha cultura letrada. Aí se produz um monte de distorções. Aqui também essa maior profissionalização e certa inserção da arte brasileira no circuito internacional se deram sem que houvesse proporcionalmente um aumento das discussões, da crítica em jornal, de revistas especializadas, de existência forte de debates sobre arte, por exemplo, nas universidades, que ainda é muito frágil. Enfim, eu acho que, do lado do circuito propriamente dito, houve uma profissionalização maior, com mais gente produzindo, mas não me parece que a qualidade da produção contemporânea atual supere aquela da arte moderna, sobretudo a partir dos anos 1950 e das discussões sobre concretismo e neoconcretismo. Eu acho que há muita produção boa, que tem muita gente que está à altura dos melhores profissionais internacionais, mas a seleção que vem sendo feita e a hierarquização e a valorização dos trabalhos ainda são muito precárias. Isso porque junto com essa profissionalização e intensificação da produção também se deu uma comercialização muito forte. Alguns grandes colecionadores passaram a ter o poder de eleger valores, o que antes era uma coisa bem mais complexa, que se dava no meio de discussões, de produção de textos etc. Também passou a haver  uma espécie de espetacularização da arte, com exposições muito gigantes e grandiosas, que acabam se impondo por si só, em vez de proporcionar uma compreensão mais interessante das obras individuais, que eu acho que, no final das contas, é o que vale.

Diplomatique – Nesse contexto, você identifica que também houve uma mudança no papel do curador?

Naves – Eu acho que esse também é um fenômeno dos anos 1980. A primeira manifestação disso foi uma exposição, que era uma repetição da Bienal, chamada Grande Tela, curada pela Sheila Leirner. Talvez essa seja, dentre as manifestações de arte no Brasil, a primeira em que há uma mão bem pesada do curador. Era praticamente só pintura porque era um pouco a moda do retorno à pintura, do neoexpressionismo. As pinturas foram expostas todas juntas, grudadas, uma justaposta à outra, mal se podia individualizar esses trabalhos. A partir daí, isso veio num crescente que eu acho extremamente complexo. A função, a profissão de curador sempre existiu e foi razoavelmente distinta da de crítico e de historiador. O que mudou muito foi que os curadores adquiriram uma espécie de dimensão “estética” ou “artística”, que muitas vezes supera a própria avaliação dos trabalhos. Juntam-se produções que, em geral, têm muito pouco a ver. E essa espécie de intervenção muito forte, do poder de justaposição das coisas criado pelos curadores, acaba adquirindo uma relevância que enviesa muito a observação, a compreensão, a interpretação dos trabalhos. Isso também é um fenômeno extremamente contemporâneo, muito relevante, discutível.

Diplomatique – Você acha que hoje em dia algumas tendências saem mais dos próprios curadores do que dos produtores de arte?

Naves – Não, não diria isso. Eu acho que, momentaneamente, e em algumas grandes exposições que têm muito peso, isso acontece. Mas eu não diria tendência. Se você considerar a última Bienal de São Paulo, que foi até de bom nível, há um privilégio enorme de vídeos. Não é que esses vídeos sejam uma tendência artística, é mais sim um gênero. Isso vem ocorrendo há algum tempo: antes o privilégio era das fotos, agora é dos vídeos. Eu não diria que é uma tendência, mas privilegiam certas formas de manifestação artística, o que sem dúvida deriva de certas escolhas curatoriais.

Diplomatique – É possível que a população brasileira tenha uma formação para fazer uma leitura crítica das artes plásticas? Aliás, ela está próxima das artes?

Naves – Quando eu comecei a escrever sobre arte, em 1977, a presença pública das artes visuais era muito menor. Talvez, à exceção da dança, as artes visuais eram uma das produções que menos entravam no debate artístico e cultural. Tinham uma visibilidade muito menor. De lá para cá, muita coisa melhorou. Já há uma relevância maior, mas nós ainda temos instituições muito fracas. Nossos museus são poucos, que pouco adquirem e quase não têm recurso para fazer boas exposições. Até surgiram outras instituições, contudo, o contato do público com a boa arte continua restrito. Já em relação à primeira parte da sua pergunta, ou seja, se há a possibilidade de uma relação mais crítica com o trabalho de arte, acredito que isso só se torna possível desde que você tenha um contato frequente com produção de boa qualidade. Porque senão a formação se dá apenas teoricamente, e isso é uma balela. A pessoa que se forma artisticamente lendo textos, em geral, fica muito sectária, pouco dada à generosidade que os trabalhos de arte solicitam. Parece-me que a questão básica para a formação de um bom olho é o contato com um bom trabalho. Claro, para que haja uma boa seleção de obras de arte depende também de um ambiente democrático rico, não é? Onde exista muita discussão, a possibilidade de se escreverem textos, publicá-los, fazer com que eles circulem. Isso é muito restrito ainda no nosso meio. Os jornais mal publicam a crítica de arte hoje dia. Não há nenhuma revista especializada que tenha um mínimo de tradição.

Diplomatique – E como você entende a supervalorização da arte como mercadoria, pegando como exemplos os mercados europeu e estadunidense e as obras do Jeff Koons, que atingem cifras astronômicas nos leilões?

Naves – Eu acho o trabalho do Jeff Koons uma coisa muito secundária, se tanto. Esse namoro, esse flerte, ainda que meio irônico, com o kitsch, o cafona e o popular no sentido depreciativo, já foi feito. Não acho que isso tem um poder crítico. O que tem é uma espécie de dandismo, certo charme muito demagógico de se aproximar ambiguamente do gosto dominante, ainda que esse gosto seja da alta burguesia. E esse eu acho que é um dos casos típicos de um artista que tem, sem dúvida, um preço de mercado muito elevado, uma apreciação crítica bem menos considerável, mas que os colecionadores continuam a fazer valer. Eu não me lembro de nenhuma grande exposição que tenha feito uma retrospectiva importante do Jeff Koons. Fenômenos como esse são mais ou menos recorrentes. Nos anos 1980, o mercado aqueceu com a produção dos neoexpressionistas, mas de lá para cá os preços caíram vertiginosamente. O que resta de discussões de alto nível no mundo da arte ainda consegue fazer seleções consideráveis. Eu suspeito também que muitos desses trabalhos vão perder valor em breve.

Diplomatique – Como você vê a polêmica sobre a pichação na Bienal?

Naves – A pichação é um fenômeno urbano, e eu não vejo dimensão estética nisso. Eu acho que tem certa curiosidade, a capacidade de tornar visíveis regiões como o alto dos prédios. É uma cultura que tem singularidades próprias, competição entre grupos etc. O que a Bienal fez foi uma coisa um pouco demagógica. Ocorreu aquele evento no ano passado, em que aquela moça (Caroline Piveta da Mota) foi presa, e haveria uma espécie de tentativa de incorporá-lo. Aí, quando eles foram fazer o seu trabalho, picharam a obra do Nuno Ramos, a “Bandeira Branca”. E então levaram o cara para a delegacia de novo, e ele só não foi preso porque o Nuno não fez a denúncia. Fica uma espécie de vale tudo.

Maíra Kubík Mano é jornalista, foi editora de Le Monde Diplomatique Brasil e atualmente é docente do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA).



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