A ascensão do voto das minorias nas eleições norte-americanas - Le Monde Diplomatique

FIM DA ESTRATÉGIA SULISTA?

A ascensão do voto das minorias nas eleições norte-americanas

por Jerome Karabel
4 de dezembro de 2012
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Degradação da situação no Oriente Médio e necessidade de se entender com os republicanos quanto à redução dos déficits: ainda que reeleito, e antes mesmo do início de seu mandato, Obama já precisa enfrentar uma agenda complicada. Sobre qual base social ele poderá se apoiar para enfrentar os desafios que o esperam?Jerome Karabel

(Obama celebra a sua vitória em Chicago, no dia 6 de novembro)

Desde a Guerra de Secessão, há mais de 150 anos, apenas quatro democratas emendaram dois mandatos na presidência dos Estados Unidos: Woodrow Wilson, Franklin Delano Roosevelt e, mais recentemente, Bill Clinton e Barack Obama. Entre eles, apenas dois ganharam eleições sucessivas com, em cada vez, mais de 50% dos votos. O primeiro foi Roosevelt; em 6 de novembro de 2012, Obama tornou-se o segundo.

Histórica, essa vitória não resultou, no entanto, em uma onda de fundo eleitoral comparável àquelas que, no passado, remodelaram o país por meio de um “realinhamento político maior” – isto é, não só por uma nova coalizão majoritária, mas por profundas mudanças institucionais e pela “criação de uma nova visão do mundo, ou de uma nova ideologia dominante”.1 De tal realinhamento, os exemplos mais memoráveis permanecem sendo o triunfo de Roosevelt em 1936 (61% dos votos contra 31% para seu adversário) e o de Ronald Reagan em 1984 (58% contra 40%). Em comparação, Obama teve um pálido desempenho com sua margem de vitória de 3% (51% contra 48%), menos da metade dos 7% de 2008. É verdade que ele herdou a situação econômica mais desastrosa desde a Grande Depressão e enfrentou a oposição implacável de um Partido Republicano que estabeleceu um muro de recusa; mas o fato é que a “maioria democrática emergente”, anunciada em 2002 por um livro retumbante de John Rudis e Ruy Teixeira,2 ainda parece muito frágil.

Uma das características mais marcantes da eleição foi a incapacidade do presidente de atenuar as divisões raciais que minam os Estados Unidos desde suas origens. Em 2008, o candidato Obama aparecia idealmente posicionado para “desracializar” a política norte-americana. De temperamento calmo, bem distante do radicalismo de Jesse Jackson (candidato negro nas primárias democratas em 1984 e 1988), ele foi capaz de reunir 43% dos votos brancos, ou seja, o mesmo que Clinton em 1996. A eleição de 2012 revelou a esse respeito uma regressão drástica, com 59% dos votos brancos em favor do candidato republicano Mitt Romney, ou seja, vinte pontos a mais que Obama. É quase como se tivéssemos voltado aos tempos de Reagan, quando o ex-cowboy de Hollywood abria seu segundo mandato conquistando 64% dos sufrágios brancos.

A desgraça do Partido Democrático junto ao eleitorado wasp(white anglo-saxon protestant, “branco anglo-saxão protestante”) tem uma longa história − em 1964, a oposição feroz de Barry Goldwater à lei sobre os direitos civis impulsionou o ícone republicano à primeira posição no Mississípi, no Alabama, na Geórgia, na Carolina do Sul e na Louisiana. Desde então, os republicanos não pararam de colocar a questão racial no centro de sua estratégia política. Aqueles que ainda duvidavam tiveram seus olhos abertos em 1980, quando Reagan começou sua campanha presidencial comemorando o “direito dos Estados”, em um discurso na cidade de Filadélfia, Mississípi, no mesmo lugar em que, dezesseis anos antes, três ativistas dos direitos civis tinham sido assassinados por adeptos da supremacia branca. O “direito dos Estados”, claro, era uma fórmula codificada, cujo significado – a recusa obstinada de reconhecer a igualdade jurídica entre brancos e negros – não escapou a ninguém. Essa bênção dada à tradição segregacionista consolidou a nascente popularidade de Reagan no “Deep South” (o sul profundo).

Qual coalizão majoritária?

A maioria que adquiriu no eleitorado branco permitiu que o Partido Republicano monopolizasse a presidência dos Estados Unidos até 1992, quando Clinton, ele próprio um nativo do sul, deslocou para a direita o centro de gravidade do Partido Democrata. Seu desempenho, reeditado quatro anos depois, consistia em preservar a lealdade dos eleitores negros, reduzindo as vantagens de que seus rivais dispunham no seio do eleitorado branco. Este foi conquistado pela urgente necessidade de reduzir o campo de ação do Estado, particularmente no sul. Essa estratégia vencedora se concretizou em cortes de impostos para os ricos, na supressão de um programa de ajuda às famílias pobres criado em 1935 (Aid to Families with Dependent Children, AFDC) e no recrutamento de 100 mil policiais. Ao dar prosseguimento a uma política destinada a atender as classes média e alta brancas, Clinton desestabilizou a coalizão republicana, mas não chegou com isso a garantir uma maioria democrata sólida.

Em 2008, quando a guerra no Iraque e as turbulências econômicas tinham tornado perigoso o final do reinado de George W. Bush, os democratas se encontravam em uma configuração ideal. Tirando vantagem de sua oposição precoce à guerra no Iraque, de sua eloquênciaexcepcional, de seu percurso atípico e do fervor de seus partidários, que ele soubera seduzir com seus encantamentos vagos, mas inspirados na “esperança” e na “mudança”, Obama conseguiu arrancar a nomeação democrata e posicionar-se como o provável primeiro presidente negro dos Estados Unidos. A classe trabalhadora branca, especialmente nos estados industriais empobrecidos do Rust Belt(o “cinturão da ferrugem”, isto é, os estados do nordeste industrial), como Pensilvânia e Ohio, mantinha-se, no entanto, majoritariamente relutante em relação aos apelos inflamados de Obama.

Quem poderia imaginar que um homem negro chamado Barack Hussein se tornaria um dia presidente dos Estados Unidos? A eleição, em 2008, do senador por Illinois constituiu novamente uma première histórica. Em meio à alegria despertada pelo evento, parecia quase inadequado perguntar se, apesar de tudo, a cor da pele do candidato democrata não tinha reduzido a magnitude de sua vitória. Para essa questão, o cientista político Michael S. Lewis-Beck e sua equipe da Universidade de Iowa trouxeram uma resposta definitiva: “Em uma sociedade indiferente aos marcadores raciais, Obama com certeza teria obtido uma vitória muito mais ampla”.3

Há um pequeno grupo de norte-americanos brancos – talvez 3% a 5% da população – que, por causa de suas inclinações ideológicas e de suas características demográficas, provavelmente teria votado em um candidato democrata em todos os aspectos semelhante a Obama se ele fosse branco. Dado o racismo estrutural na história norte-americana, é surpreendente – e até mesmo encorajador – que essa proporção não seja mais elevada.

No entanto, se os preconceitos contra negros continuam a ser um elemento estruturante da política nacional, eles operam no âmbito de um perímetro étnico menos extenso do que era no final dos anos 1960, quando os republicanos conceberam sua “estratégia sulista”. Na época, 90% dos eleitores do país pertenciam à comunidade branca; hoje eles não são mais do que 72%. É a essa mudança demográfica que Obama deve sua vitória: ela teria sido inconcebível sem o apoio ultramajoritário dos afro-americanos (93%), mas também dos latino-americanos (71%) e dos norte-americanos de origem asiática (73%). Também recentemente, um candidato apoiado, como Obama em 2012, por menos de quatro eleitores brancos em dez não teria tido nenhuma chance de vencer. Atualmente, 44% dos votos democratas provêm de minorias, contra apenas 11% dos votos republicanos. Com o voto das minorias desempenhando um papel cada vez mais crucial, a “estratégia sulista”, que garantiu o domínio republicano ao longo de um quarto de século (de 1968 a 1992), agora parece morta e enterrada.

Estrangeiros convidados “a se expulsar”

Não há nenhuma garantia, no entanto, de que o poder oriundo dessa inversão constitua uma base confiável para uma “maioria democrática emergente”. Até 2004, 44% dos latinos votavam a favor de Bush. Quanto ao eleitorado feminino, muito cortejado pela equipe de Obama durante a última campanha, é infinitamente mais dividido do que sugere a retórica democrata sobre a “guerra republicana contra as mulheres”: em novembro passado, 56% das eleitoras brancas, ou seja, 44% do total das mulheres votantes, escolheram Romney.

É indiscutível que os democratas, sob a presidência de Obama, ampliaram o leque de seus simpatizantes no seio de outras categorias demograficamente ascendentes. Os jovens, em particular, negaram por duas vezes a ideia preconcebida de que eles se mobilizam muito pouco para influenciar o curso de uma eleição. Em 2012, os eleitores com idade entre 18 e 29 anos eram proporcionalmente mais numerosos do que há quatro anos (18% dos eleitores no total, contra 17% em 2008) e mantinham-se amplamente a favor de Obama, embora com menos entusiasmo do que antes (60% dos votos contra 66% em 2008). O presidente colhe assim dividendos de sua política liberal em matéria de costumes – simbolizada por seu apoio ao casamento gay – e de suas ações em favor dos estudantes: ele criou um “direito de apagar a dívida” que permite cancelá-la quando um estudante a tenha reembolsado gastando 10% de seu salário mensal durante vinte anos.

Entre os norte-americanos de origem asiática, a votação de Obama cresceu surpreendentemente, com um placar onze pontos superior aos 62% em 2008. Em 1992, eles ainda eram 55% a apoiar o candidato republicano. Esse eleitorado tende assim a se alinhar com os latino-americanos, cujo apoio aos democratas não parou de aumentar, até culminar nesta última eleição, o que em nada surpreende, tendo em vista os repetidos apelos de Romney à “autoexpulsão” (self deportation) dos estrangeiros sem documentos.

Portanto, não é impossível que as categorias identificadas há dez anos por Judis e Teixeira – negros, latinos, asiáticos e mulheres, mais especialmente as solteiras educadas e ativas – possam constituir uma coalizão capaz de dominar a vida política norte-americana nos próximos anos. Por ironia da história, essa foi precisamente a estratégia sulista adotada pelos republicanos no crepúsculo dos anos 1960 que, pelo impasse em que ela se encontra hoje, tornou possível o surgimento de tal alternativa. No contexto demográfico do início do século XXI, a brancura do programa e da epiderme dos republicanos – cerca de 98% dos delegados à Convenção Nacional Republicana em 2012 eram brancos – de fato ameaça tornar-se uma desvantagem incapacitante.

No início de 2008, quando fazia campanha contra sua adversária democrata Hillary Clinton, Obama observou que Reagan havia “mudado a trajetória da política norte-americana, ao contrário de Bill Clinton”: uma forma de afirmar sua ambição transformadora. Quatro anos de Casa Branca depois, o realinhamento prometido não aconteceu. Mesmo a reforma do sistema de saúde, anunciada como a grande obra de seu primeiro mandato, e que o Escritório de Orçamento do Congresso estima que deixará 30 milhões de norte-americanos sem cobertura de saúde em 2022,4 saiu diminuída da política de obstrução dos republicanos; a estratégia do presidente, que consiste em negociar acordos secretos com as indústrias farmacêutica e hospitalar, em vez de defender ostensivamente os interesses do povo norte-americano, também contribui para esse semifracasso.5 Além disso, Obama decidiu revogar as isenções fiscais muito custosas concedidas aos lucros financeiros, assim como preocupar os banqueiros de Wall Street que prepararam, criaram e distribuíram a crise antes de tirar partido dela para enriquecer. Ao contrário de Theodore Roosevelt e de Franklin D. Roosevelt, que se levantaram contra os interesses econômicos mais poderosos de seu tempo para fazer prevalecer seu próprio programa, Obama tratou a comunidade de negócios com uma deferência que expressa por si um traço de caráter, mas que revela, sobretudo, uma política de capitulação, ou pelo menos de compromisso sistemático. Se realmente ambiciona, como garante, ser enfim um presidente transformador, ele vai ter de aprender a lidar com a extraordinária concentração de poder econômico e político que caracteriza nosso tempo.

Jerome Karabel é professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley e autor de The chosen.



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