A asfixia das Farc - Le Monde Diplomatique

Dossiê Colômbia

A asfixia das Farc

Edição - 9 | Colômbia
por Carlos Gutiérrez
4 de abril de 2008
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O aumento crescente do apoio a uma solução militar dá carta-branca para o exército acabar com a guerrilha. Graças ao auxílio dos Estados Unidos, da Inglaterra e de Israel, essa nova investida talvez seja bem sucedida, mas as causas e os fatores do conflito continuarão existindo

No dia 27 de fevereiro de 2008, o intercâmbio humanitário parecia finalmente ter encontrado um novo caminho para trilhar na Colômbia. A libertação de quatro congressistas, mantidos reféns durante seis anos pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), despertava esperança nos setores favoráveis a uma solução política do conflito1. Como em uma partida de xadrez, o próximo lance desse jogo intrincado cabia ao governo.

Porém, apenas 48 horas depois, o presidente Álvaro Uribe tomou uma atitude que não condizia com esse ambiente propício para troca de prisioneiros, mas sim com tempos de guerra: ao amanhecer do dia 1° de março, após um bombardeio aéreo, comandos do exército colombiano invadiram o Equador e assassinaram Raúl Reyes, terceiro homem na cúpula das Farc2.

Aqueles que acreditam em uma derrota iminente da formação guerrilheira espalharam sua alegria pelo país. A animação se converteu em gestos, risos e justificativas, vindos de diversos meios de comunicação e com grande ressonância em importantes setores da sociedade colombiana3.

Nas últimas décadas, o país viveu entre a esperança de uma paz negociada e o desejo da derrota militar da guerrilha4. Mas após excessos cometidos pela própria insurgência, a disputa, antes restrita aos círculos políticos, acadêmicos e militares, difundiu-se por diversos canais da sociedade. A esse cenário somam-se a guerra política em curso, a maneira como os meios de comunicação relatam o conflito e a estratégia de “segurança democrática” de Uribe, usando a população civil ora como aliada, ora como inimiga. Todos esses fatores colaboraram para que a opção pela vitória do governo crescesse. Os setores civis defensores do diálogo têm cada vez menos influência frente aos grupos, agora majoritários, que clamam pela derrocada inimiga.

Esta mudança de opinião ocorreu no final da década de 1990 e nos primeiros anos do século XXI. Foi facilitada pela ofensiva das Farc, que levou o Exército colombiano a uma derrota operacional e obrigou-o a abandonar suas posições, fixadas a mais de dois mil metros de altura. A ação forçou ainda a retirada da polícia, que na Colômbia também age como força militar, de uma centena de postos em municípios periféricos ou em pontos afastados. Cerca de mil soldados caíram nas mãos da guerrilha. A maioria deles foi libertada de maneira unilateral e apenas os suboficiais e oficiais permaneceram prisioneiros. Nessa guerra de movimento, colocada em prática pela primeira vez ao longo dos 40 anos de luta5, as Farc conseguiram o controle de importantíssimos corredores viários do país, como as rodovias Medellín-Bogotá, Bucaramanga-Barranquilla e Cali-Pasto.

Mas além de fustigar o Exército oficial, os guerrilheiros também instituíram o seqüestro massivo de civis, particularmente turistas em férias, o que desatou o pânico entre o principal setor afetado: a classe média. A prática, feita sem razões políticas e apenas por motivos econômicos, gerou resultados opostos aos êxitos obtidos sobre os militares. A colocação de bombas nas cidades e o uso de artilharia caseira de pouca precisão em ataques a guarnições militares contribuíram para essa situação ao trazerem conseqüências nefastas para a população, causando a morte de muitos civis.

O seqüestro dos políticos

A decisão de resgatar os prisioneiros das Farc, que lotam as cadeias colombianas, levou ainda à captura de um número significativo de políticos com presenças regionais e secundárias, com exceção de Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência. Pode-se dizer que pela primeira vez após sua longa evolução, iniciada em um país com maioria rural (em 1964, 65% da população era camponesa) e intensificada entre 1994 e 1998 (quando 75% moravam nas cidades), com o acúmulo de experiência, logística e contingente para o combate, a guerrilha esteve muito perto dos principais núcleos urbanos e de inúmeras cidades médias. O resultado dessas operações também foi inversamente proporcional àquele esperado e o intercâmbio humanitário não aconteceu. Pelo contrário: o governo não se preocupou em tentar libertar os reféns em troca dos guerrilheiros presos, mas aproveitou todos os fatos para desatar uma intensa ação propagandística sobre o caráter “terrorista” das Farc.

No mesmo período, os locais de atuação da guerrilha passaram a ser invadidos pelas estruturas paramilitares. Em crescimento progressivo desde o fim dos anos 19806, os paramilitares atingiam seu objetivo de forma metódica depois do terreno ser preparado pelas forças oficiais. A ação concentrava-se sobre os supostos apoios da insurgência e suas incursões eram devastadoras. Nos numerosos massacres que perpetraram, colocaram em prática todas as técnicas de terror que a guerra pode produzir: deceparam cabeças, esquartejaram corpos com motosserra – sua arma mais característica –, dissolveram os inimigos em ácido, deixaram os cadáveres das vítimas expostos por vários dias, à vista dos familiares e da população em geral, e desalojaram milhões de colombianos. Esses crimes desenham na Colômbia uma “geografia da morte”7. O pânico se apossou do campo e da cidade. Dezenas de regiões ficaram despovoadas e numerosos municípios receberam novas populações. Em cidades importantes como Medellín, Barrancabermeja e outras, o deslocamento interno e os assassinatos tornaram-se rotineiros.

Ao matar seus inimigos e forçar a migração, os paramilitares assumiram o controle territorial, administrativo, econômico e militar de várias regiões. Com o apoio de políticos dos partidos liberal e conservador, em suas diferentes matizes, e de numerosas legendas criadas para serem “de aluguel”, eles conseguiram eleger diversos senadores, representantes na Câmara, governadores e prefeitos, além de nomearem numerosos funcionários públicos, verdadeiros canais para facilitar a apropriação das finanças dos municípios. Logo os chefes paramilitares declararam que detinham o controle de 35% do Congresso, mas hoje há provas de que a bancada era ainda maior8.

Em muitos lugares, o domínio que impuseram foi total. Os efeitos não deixaram de ser notados a partir daqueles anos: pânico na população, medo de expressar-se publicamente e de protestar contra o que estava acontecendo etc. Ou seja, a total submissão da sociedade. O aniquilamento do movimento social e de parte do Estado. “Nada sei”, “nada vi”, “é tudo mentira&rdqu
o;. Silêncio.

Sem dúvida, tratou-se de colocar em prática todo um projeto contra-insurgente, dentro do qual e para o qual foram utilizadas as quadrilhas de narcotraficantes, em guerra também com as FARC pelo controle de extensos territórios. A insurgência teve que distribuir suas forças entre o Exército oficial e o para-oficial. Os combates contra Carlos Castaño e outros porta-vozes dessas forças são famosos.

Enquanto isto, os Estados Unidos iniciavam a reconstrução do Exército colombiano. O chamado Plano Colômbia viabilizou o envio ao país de cinco bilhões de dólares, 800 oficiais, 140 helicópteros de combate, 45 pequenos aviões armados para uso policial e de fumigação aérea, além de centenas de “empreiteiros” responsáveis por operações de inteligência e de manutenção de equipamento e o apoio eletrônico, por satélite e aéreo do Comando Sul e sua base em Manta, no Equador. E assim, com a promessa de recuperar a segurança no país “para que todos os colombianos pudessem transitar pelas rodovias da pátria com total tranqüilidade”, Álvaro Uribe chegou ao poder em 2002 e foi reeleito sobre a mesma plataforma em 2006.

Dessa forma, o panorama de guerra que a Colômbia suporta há tantos anos mudou. Está polarizado ao extremo, deixando clara a coexistência de dois países: o urbano, onde vive e se expressa uma sociedade que é majoritariamente complacente com o desenvolvimento da guerra, e o rural, que sofre com o conflito em toda sua extensão e deseja a negociação, apesar de ainda estar sujeito ao rigor de uma sociedade senhorial.

Com reduzido apoio urbano, as Farc enfrentam hoje radares, aviões espiões e unidades de elite – dotadas de visores noturnos e fuzis que acertam tiros certeiros a mais de 500 metros. Parte dos batalhões é formada nos Estados Unidos ou nas próprias escolas do Exército oficial, que agora contam com a assessoria das forças armadas de Israel e da Inglaterra9 para assuntos de inteligência e guerra política. É um redesenho do combate, que incorpora substancialmente a população, desde os guardas-florestais e soldados com segundo grau completo cumprindo o serviço militar obrigatório em seus municípios, a exterminadores de plantações de coca e grupos “semeados” em territórios que precisam ser controlados. Isso sem falar nas imensas recompensas por delação ou informações úteis para as forças oficiais.

A operação de guerra integral semeou confusão entre os habitantes desse pedaço da América Latina. As vozes que exigem mais combates não percebem, ou não querem aceitar, que esse procedimento não erradica as causas e os fatores do conflito, mesmo que alcance seu objetivo a partir de 2010. Sem chegar uma solução política, tão necessária e útil neste momento também para sociedades como a venezuelana e a equatoriana, além dos demais países da região, a guerra será reduzida, mas não acabará.

 

*Carlos Gutiérrez é diretor da edição colombiana de Le Monde Diplomatique.



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