A boiada da B3: uma análise estético-política - Le Monde Diplomatique

OURO DE TOLO

A boiada da B3: uma análise estético-política

por Icaro Andrade
22 de novembro de 2021
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A réplica kitsch do touro de Wall Street está desconectada da realidade no espaço, mas é uma obra de seu tempo, símbolo perfeito da conjuntura de agravamento das desigualdades

A narrativa bíblica do êxodo hebreu é eclipsada com a revelação dos dez mandamentos a Moisés. Enquanto este exercia a jurisprudência, parte dos libertos rapidamente fora convertida em idólatras hedonistas, sendo castigados por festejarem um bezerro de ouro. A primeira vez como tragédia, e todas as outras vezes subsequentes como farsa. Assim que foi noticiada a instalação da escultura em frente à sede da bolsa de valores de São Paulo na terça-feira (16), a tonalidade dourada do touro símbolo do mercado financeiro foi logo convertida em piada. A referência ao mineral pirita, o ouro-de-tolo, é quase um reflexo automático.

Patrocinada pela própria B3, o balcão de negócios do financismo brasileiro, e pela corretora XP Investimentos, deidade onipresente do LinkedIn, a paisagem criada pela instalação tem todos os motivos para remeter aos balcões de leilão de gado, com a contradição frenética típica destes eventos, em que o locutor anuncia preços exorbitantes e quase inaudíveis pela narração obscena, em meio à cenários comumente sórdidos e deprimentes.

Neste caso, o touro feito de fibra de vidro compartilha espaço com os ambulantes, transeuntes, lojistas e a população em situação de rua que coexistem na XV de Novembro, Centro de São Paulo, criando uma atmosfera de inadequabilidade da peça. Não somente pelo panorama particular, o touro da B3 ainda reverbera com exatidão a significação formal do projeto político em curso no país. Esta interação intrínseca pode ser ainda dada nas palavras do filósofo do design Vilém Flusser (2017): a forma é condicionada pelo conteúdo e ela o condiciona. Ou seja, no tocante à escultura, o meio é a mensagem. Mas qual?

Gilson Finkelsztain, o presidente da Bolsa, afirmou sobre a instalação que ela “representa a força e a resiliência do povo brasileiro”. O cinismo contido na frase é assustador, sobretudo quando em meio à maior crise econômica da histórica recente, era de aprofundamento crônico do desemprego, e em tempos de colapso hídrico com o agravante real da inanição, sem contar a fissura aberta pela carência de enlutamento institucional em relação às vítimas da pandemia; o mercado financeiro berra. Ainda em junho deste ano, o Ibovespa, principal índice da B3, atingiu alta histórica. O lucro dos grandes bancos foi superior a R$ 23 bilhões no segundo trimestre de 2021, cifra inédita que justifica a entrada de 42 novos nomes à lista de bilionários brasileiros, e a própria B3, inclusive, anunciou recentemente um investimento bilionário em Big Data.

Não demorou, entretanto, para a versão local do símbolo do financismo global encontrar contestadores. No dia seguinte à inauguração, os grupos Juventude Fogo no Pavio e Movimento Raiz da Liberdade realizaram um protesto junto à obra, estampando um cartaz com o dizer “FOME” no dorso do objeto. A semântica do ato vai além da demonstração de descontentamento. O fenômeno da insegurança alimentar fora aprofundado durante a pandemia, sem haverem respostas substanciais do poder público para a questão, pelo contrário: as carcaças, ossos e retalhos dos animais abatidos têm sido comercializados sem qualquer comedimento.

Em consonância com o pensamento da psicanalista Sally Weintrobe (2020), a insolência absurda carregada pela figura de 5m x 3m x 2m pode ser qualificada como um clássico caso de excepcionalismo. A psicologia corrente do mercado financeiro se vê autorizada a agir para além da moralidade do bom-senso, dado que para estes, a crise é seletiva, não atinge seus endereços. Ademais, para muitos do meio, assim como para ruralistas e demais caudatários do extrativismo e da subserviência do mercado de commodities, a crise é especialmente lucrativa. Como foi dito, os bancos estão no auge da produtividade. Weintrobe qualifica estes que se vêem na situação de excepcionais como seguros de uma auto-importância esmagadora, legitimados por si próprios à agirem onipotentemente, suspensos da realidade imediata do cotidiano. Este parecer está em concordância com o que o professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker denomina de “lógica de condomínio”. No condomínio da B3 não existe fome, apenas bull market.

Quando da eleição de Jair Bolsonaro muito se formulou sobre a estética de sua campanha e a peculiaridade argumentativa do discurso bolsonarista. Há razão em conceituar o “tosco” perpetrado pelos slogans e imagens constantes nas redes sociais como representante tardio de um kitsch adaptado. Um dos fundamentos centrais da categoria está na potencialidade de desmembrar, desencontrar e esvaziar significados de discursos e objetos, mobilizando-os por uma espécie de idealização ultra ideológica suspensiva cuja as principais constantes são a efemeridade e a contradição. O aspecto político-publicitário do kitsch não é uma novidade e tem sido reiteradamente utilizado pela facilidade da categoria estética em se embrenhar pela cultura de massa, muito por sua característica apropriação difusa de recursos comunicativos e formas contraditórias. O kitsch é essencialmente anti-normativo e superficialista, o que o torna tão complexo, e ainda tão apropriado como experiência estética do neoliberalismo dos Chicago Boys, em sua cruzada ética de elogio das excepcionalidades em detrimento da multidão. Conforme afirmam Lipovetsky & Serroy em A Estetização do Mundo (2020) “Agora, é essa ética estética da vida que nos rege. Ela forma um todo com o desenvolvimento do individualismo hipermoderno”.

Disto é possível entender o seguinte: A réplica kitsch do touro de Wall Street está desconectada da realidade no espaço, mas é uma obra de seu tempo, símbolo perfeito da conjuntura de agravamento das desigualdades. É megalomaníaco, vulnerável e desesperado, no tom exato do discurso bolsonarista. O kitsch brasileiro, que sempre fora capitaneado por figuras como Romero Britto, se consolida como a imagem do fracasso e da ruptura social.

touro
(Foto: Tiago Queiroz)

A figura do touro ainda tem a particularidade de remeter em amplo aspecto à política ambiental de Bolsonaro. Da já clássica frase do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (NOVO), que defendeu que o governo se ocupasse durante a pandemia na atividade nada metafórica de “passar a boiada, mudar o regramento todo”, à PL da Grilagem, aprovada na Câmara e em trâmite no Senado, até a atuação vexaminosa da comitiva do governo federal na COP 26, o gado aparece sempre como um personagem central na mobilização discursiva do debacle. Ao se pesar o papel do mercado financeiro no patrocínio da indústria da carne e da indústria dos agrotóxicos, por exemplo, e por consequência no avanço do desmatamento na Amazônia Legal e contaminação de terras e mares, o ciclo se fecha e as peças encaixam. Em Julho do ano passado, as relações públicas de um conjunto de bancos fez um apelo ao governo federal para que fossem limitados os danos oriundos do setor das carnes. Contudo, sabe-se que o financiamento para tais atividades têm crescido vertiginosamente desde 2015, incluindo aí dinheiro para a compra de terras irregulares. Levantamentos da Forests and Finances e da Fair Finance International demonstram, repetidamente, o comprometimento do mercado financeiro nacional e global com práticas destrutivas aos ecossistemas do território brasileiro. A própria JBS, líder disparada do ramo de carnes, acusou para o terceiro trimestre de 2021 o lucro de R$ 7,6 bilhões, um aumento de 142% no registro anual. JBS, inclusive, que figura na lista das 20 empresas mais poluidoras dos Oceanos, no levantamento de 2018 do 24/7 Wall Street, sendo de toda a indústria alimentícia, conforme afirmou o Instituto de Agricultura e Política Comercial, a companhia que mais emite gases do efeito estufa, superando com folga outras gigantes como a Cargill.

A boiada da B3 tem razão de ser, é a epítome do cinismo deste polo discursivo que manda e desmanda na política nacional, é a mesma boiada de Salles e dos lucros da JBS em plena temporada de fome. O kitsch do financismo toureiro excepcionalista, incômodo aos olhos mais criteriosos, é na narrativa histórica uma afronta superficial aos despossuídos e vitimados, tentativa falha de se desvencilhar da culpa na base do berro.

 

 

 



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