A bomba nuclear, um debate esquecido - Le Monde Diplomatique

SEM NOVIDADES DESDE A GUERRA FRIA

A bomba nuclear, um debate esquecido

por Vincent Desportes
16 de outubro de 2013
compartilhar
visualização

Relatório sobre a defesa entregue ao presidente francês mantém a postura sobre o arsenal nuclear tal qual foi definida pelo general De Gaulle. Mais uma vez, as transformações das últimas décadas e a modificação das ameaças não foram levadas em conta. O risco é enfraquecer as capacidades de dissuasão da FrançaVincent Desportes

Os discursos oficiais sobre o desenvolvimento de armas nucleares são raros, e na maior parte das vezes apenas uma repetição ad nauseam do dogma do “seguro de vida” que constituiria a dissuasão. Depois de ter sido o carro-chefe, o pensamento nuclear se tornou, por tabu, o primo pobre da reflexão estratégica. O Livro Branco sobre a Defesa e a Segurança Nacional, entregue ao presidente François Hollande no dia 29 de abril de 2013, não é exceção: num contexto orçamentário extremamente tenso, ele redireciona sem justificativa o arsenal da França (entre 3,5 e 4,5 bilhões de euros por ano, de 10% a 20% do orçamento militar).

Excelentes especialistas e boas organizações tratam do assunto, mas o fazem apenas sob o ângulo dos meios, da abordagem técnica, ou da proliferação. As reflexões se debruçam sobre o “o que?” e o “como?”, mas raramente sobre o “por quê?” e o “contra quem?”. No fundo, o corpus conceitual da Guerra Fria nunca foi redefinido.

No entanto, a discussão nuclear não garante a paz e nem dissuade nada. Para retomar a expressão comum de dois primeiros-ministros e de um ministro da Defesa, “a pertinência estratégica da dissuasão conhece ‘pontos cegos’ cada vez mais amplos”.1 Seus instrumentos apresentam o duplo defeito de não serem nem necessários de maneira evidente, nem suficientes, longe disso: ausência de ameaças diretas contra a França, persistência dos ataques fora do limite nuclear, não adaptação dessas armas à ameaça terrorista, impossibilidade moral de utilizar seu poderio destrutivo não discriminante em muitos casos. Ou seja, a legitimidade da França como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) provém tanto de suas capacidades de intervenção, como por exemplo no Mali, quanto de seu arsenal nuclear. O modelo de defesa – para o qual estamos caminhando – é inoperante. As necessidades de segurança impõem reduções dos custos do arsenal nuclear.

O redimensionamento deste último deve permitir preservar as capacidades clássicas necessárias à lógica de dissuasão. A presidente da Comissão da Defesa da Assembleia Nacional, Patricia Adam, não reconhecia isso ao invocar recentemente uma “dissuasão crível, porque fundamentada num leque de forças que incluem as capacidades convencionais”?2 Essa ligação estratégica muito forte entre o nuclear e as capacidades convencionais repousa sobre a progressividade da ação, a verossimilhança da ameaça e a aptidão para prevenir as alternativas da força de dissuasão.

Por mais caricatural que seja, a primeira necessidade é evidente: o dilema do “tudo ou nada” não é crível. Não se passa brutalmente da inação ao apocalipse: os princípios estabelecidos de ação gradual permanecem. Essa evidência conduziu os Estados Unidos e a França a conservar um arsenal clássico considerável durante a Guerra Fria. Nada mudou: não há “primeiro ataque” justificável diante da história que não seja precedido por ações clássicas sólidas, colocando o adversário diante das suas responsabilidades.

A demonstração da vontade política não é menos importante. Essa verossimilhança deve ter sido estabelecida por demonstrações de força. Lembramo-nos de que tanto os Estados Unidos quanto a URSS recorreram a isso. A arquitetura de dissuasão deve então comportar forças convencionais robustas a fim de garantir a credibilidade do primeiro passo do fogo nuclear. É preciso, enfim, combater a possibilidade de ignorar a dissuasão, em particular nas agressões limitadas que visam apenas a criar rapidamente “fatos consumados”. E para isso dispor de um sistema de forças convencional correto para fazer frente às operações que o adversário poderia conduzir. Parece, então, necessário reequilibrar o orçamento de Defesa. É possível: a problemática das economias realizáveis – elas existem, e são consideráveis – merece ser seriamente estudada.

Uma ferramenta não adaptada à realidade

A necessidade do fator aéreo deve ser abordada. À resposta esperada da “capacidade de gesticulação e de flexibilidade” que ele apresenta, opomos seu caráter ligeiramente irrealista diante do tipo de adversários que têm o propósito de dissuadir. Claro, as plataformas e as armas já existem, mas os custos de manutenção e de modernização de tal sistema necessitam que se gaste com isso, em alguns anos, somas equivalentes aos orçamentos de aquisição. Os britânicos, por exemplo, renunciaram a esse fator há muito tempo.

A questão tabu da “permanência no mar” (presença constante nos oceanos de um ou diversos submarinos equipados com mísseis balísticos com ogivas nucleares) não pode ser evitada. Perfeita em período de euforia orçamentária, ela tem um custo muito considerável para uma utilidade bem discutível, em particular porque a duração das submersões é amplamente modulável em função da evolução das tensões internacionais.

Em razão das massas orçamentárias em questão, não vamos aludir o ponto da substituição das plataformas e do aperfeiçoamento das armas. Por que, no período de quinze anos, mudar quatro vezes de ogivas, para passar, de 1997 a 2020 do M45 ao M51.1, ao M51.2 e depois ao M51.3? Ter a capacidade de destruir Pequim é mesmo de interesse estratégico? O estoque mínimo de nossas ogivas não seria suficiente se ele descesse abaixo do nível de 300 ao qual o mantemos? A China possui apenas 240 e o Reino Unido 225, com o objetivo de reduzir a 180 em 2020.3 O conceito de fiabilidade merece também ser observado: na estrada, o motorista desacelera tanto diante de um radar com 75% de credibilidade quanto diante um radar que funcionaria 100% bem.4

O debate estratégico deve ser aberto: uma honesta reflexão deve permitir redimensionar um instrumento que se tornou inadaptado à realidade do mundo. A garantia nuclear deve ser mantida, mas no contexto econômico atual, querer a todo custo preservar o arsenal é alterar sua pertinência e colocar a França em risco.

Vincent Desportes é Professor associado à Faculdade Sciences Po Paris e ex-diretor da Ecole de guerre.



Artigos Relacionados

ECONOMIA E SAÚDE

O SUS e o relatório do TCU

Online | Brasil
por Vários autores
QUE A CLOROQUINA NÃO SE REPITA

Como conter a pulsão de morte bolsonarista

Online | Brasil
por João Lorandi Demarchi
RESPEITEM OS LOUCOS

A patologização do fascismo

Online | Brasil
por Roger Flores Ceccon
NOVO MINISTÉRIO, A CONCRETIZAÇÃO DE UM VERDADEIRO MARCO

Os povos indígenas e seu protagonismo na transição de governo

Online | Brasil
por Aline Ngrenhtabare Kaxiriana Lopes Kayapó, Edson Kayapó e Flávio de Leão Bastos Pereira
IDEIAS PARA UM BRASIL DEMOCRÁTICO

Por que incluir práticas pedagógicas de mídia e educação nas escolas?

Online | Brasil
por Elaine Dal Gobbo e Franciani Bernardes
O CASO DE LUANA BARBOSA DOS REIS SANTOS

Anatomia de um crime

Online | Brasil
por Dina Alves
PODER PASTORAL E NEOLIBERALISMO GOLPISTA

A bíblia e o palácio

por João Roberto Barros II
A QUESTÃO DA PLURINACIONALIDADE NO CHILE

O processo constituinte e os povos originários

por Fernando Pairican