Entre o uso consciente, a redução de danos e o cuidado pessoal
Antes o consumo era guiado pela escassez de dados e pelo improviso, agora é possível aliar ciência, cuidado e redução de danos
Durante décadas, o acesso à maconha no Brasil foi marcado por proibições rígidas, criminalização e ausência quase total de informação de qualidade. Jovens das décadas de 1980, 1990 e 2000 cresceram em um contexto em que falar sobre cannabis significava, na prática, falar sobre risco, ilegalidade e estigma. Não havia espaço para discutir formas de uso seguro, tampouco para entender como a planta poderia se integrar ao cuidado em saúde.
O resultado foi uma juventude exposta a produtos de origem incerta, consumo sem parâmetros e vulnerabilidade constante à repressão. Muitos desses jovens, por conta do uso da cannabis, não apenas eram criminalizados, mas também internados compulsoriamente em manicômios e instituições psiquiátricas, sob a justificativa de “tratamento”, quando na verdade eram vítimas de um sistema que misturava preconceito, punição e ausência de políticas públicas direcionadas aos jovens, principalmente periféricos.
Essa prática esteve alinhada a uma política antidrogas que, durante grande parte do século 20, tratou o uso de substâncias como questão exclusivamente policial ou psiquiátrica. Nos anos 80 e 90, do último século, em plena vigência da lógica manicomial, usuários de cannabis eram frequentemente encaminhados para internações de longa duração, muitas vezes sem diagnóstico formal, submetidos a condições degradantes e afastados da vida social e familiar. Mais do que negar cuidado, o sistema reforçava a exclusão e perpetuava estigmas, negando a esses jovens a possibilidade de compreender o próprio consumo e buscar alternativas seguras.
Hoje, o cenário começa a mudar. A possibilidade de adquirir produtos por meio de associações e a ampliação do debate sobre cannabis medicinal reduzem parte do medo que o proibicionismo sempre impôs. Essa mudança abre caminho para algo inédito no país: jovens têm a chance de acessar informações técnicas, compreender como a planta atua no organismo, construir uma relação mais equilibrada com o seu uso e até métodos de cultivo. Essa diferença é fundamental. Se antes o consumo era guiado pela escassez de dados e pelo improviso, agora é possível aliar ciência, cuidado e redução de danos.
Durante o acompanhamento, percebo que muitos chegam motivados pelo desejo de não depender do tráfico – e esse já é um passo significativo. Mas, ao longo do processo, descobrem que o manejo profissional é muito mais do que mudar a origem da planta: é sobre ressignificar a relação com ela.

A terapia ocupacional, quando associada à prescrição de cannabis, constitui um campo de aprendizado e autorregulação voltado à ampliação do desempenho ocupacional. O acompanhamento profissional possibilita que o paciente: compreenda o que está consumindo – identificando a genética, os canabinoides predominantes, seus efeitos específicos e sua interação com o corpo; regule a dosagem, entendendo que, ao contrário do que se costuma pensar sobre o THC, “menos” pode resultar em efeitos mais estáveis; reconheça sinais de uso abusivo, prevenindo que o consumo excessivo comprometa a saúde e a funcionalidade no cotidiano; e, por fim, faça escolhas mais seguras quanto ao método de administração, optando por formas menos nocivas.
Além disso, o acompanhamento possibilita uma maior percepção do estado de saúde, favorecendo o aprendizado sobre como corpo e mente respondem ao uso da cannabis. Esse processo fortalece a capacidade de tomar decisões conscientes sobre o próprio cuidado e contribui para desmistificar o sentimento de culpa associado ao uso de um medicamento que pode apresentar efeitos psicoativos – popularmente chamados de “lombra” – frequentemente estigmatizados e demonizados pela sociedade. Nesse contexto, a redução de danos não se trata de incentivo, mas de um cuidado real com quem já faz uso da cannabis, reconhecendo inclusive as contradições individuais como parte legítima do processo de saúde.
O uso medicinal se diferencia do uso adulto justamente por envolver um profissional que trabalha a autopercepção de saúde, ajudando o paciente a entender como a cannabis interage com seu corpo e mente. Quando esse processo é bem conduzido, o resultado é um desempenho ocupacional regulado, o que significa mais foco, melhor qualidade de sono, maior energia para atividades diárias e relações sociais mais equilibradas.
Mais do que o acesso à “maconha boa fora do tráfico”, o uso medicinal da cannabis com acompanhamento terapêutico é uma oportunidade concreta de transformação individual e social. Para a juventude, representa a possibilidade de acesso à informação, segurança, equilíbrio e maior capacidade de reconhecer sinais do corpo e da mente e ajustar o cuidado de forma consciente.
Para as gerações anteriores, é também uma forma de reparação histórica parcial: a chance de ressignificar a relação com a planta, agora com menos peso manicomial e estigma criminal, embora esses ainda persistam no cotidiano. Em ambos os casos, é um convite para substituir o medo pelo diálogo, e o preconceito pela consciência.
A cannabis é um recurso terapêutico, que pode romper a lógica médica tradicional de cuidado e atravessar de forma integral o dia a dia das pessoas que se permitem ser cuidadas por essa planta.
Tayná Araújo é terapeuta ocupacional especialista em saúde mental, presidente da associação dos terapeutas ocupacionais da Paraíba, diretora de gestão estratégica da associação canábica florescer, idealizadora e produtora do Festival Diamba.

