A crise econômica cipriota, uma oportunidade para a paz? - Le Monde Diplomatique

PÂNICO AO SUL, OTIMISMO AO NORTE

A crise econômica cipriota, uma oportunidade para a paz?

por David Courbet
2 de outubro de 2013
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Surpreendido pela crise financeira internacional, o Chipre sofre com as drásticas medidas de austeridade impostas por seus credores europeus. Mas a situação atual pode se converter em uma vantagem: a possibilidade de resolver o conflito entre o norte e o sul que rasga o país, um dos últimos da U.E ainda divididosDavid Courbet

Alcançada pela crise financeira mundial, a República do Chipre suporta as drásticas medidas de austeridade que lhe ditam seus credores europeus. Mas, sob outro aspecto, o período atual poderia ainda assim representar uma sorte inesperada.

Nesta manhã, como toda segunda-feira já faz quase três meses, Georgio Kyriades dirige-se ao centro da Cruz Vermelha, no subúrbio de Nicósia, para receber sua cesta de alimentos. No hall, umas quinze pessoas esperam a vez. Após uma hora de espera, o quadragenário parte de volta carregando duas sacolas plásticas cheias de bens de primeira necessidade que coloca no fundo do porta-malas de sua enorme Mercedes (classe E). Como muitos outros cipriotas, esse pai de família perdeu o emprego na metade de março, no momento em que o país foi atingido pela crise bancária. Seu empregador, uma empresa de transportes, faliu e teve de demitir seus sete assalariados.

Na ilha, a porcentagem de desemprego flerta doravante com os 15%. Até então, os cipriotas haviam sido poupados: a renda anual média atingia 16.765 euros em 2008, comparada com uma média europeia de 14.667 euros. Porém, o número de famílias assistidas pelas associações humanitárias ou pela Igreja Ortodoxa deu um salto alguns meses atrás: um aumento de quatrocentas famílias para a Cruz Vermelha e de seiscentas, só em Nicósia, para a Igreja, ou seja, um total de 4 mil famílias assistidas.

Há, de fato, um antes e um depois do haircut day, o “dia da tosa”. Nesse famoso 16 de março de 2013, a Troika – União Europeia, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu – decidia, em troca de um empréstimo de 10 bilhões de euros, cobrar sobre todas as contas bancárias uma taxa de 6,75% para os depósitos de menos de 100 mil euros e de 9,9% para os acima dessa quantia – isso antes de voltar atrás e exigir que apenas as contas acima de 100 mil euros fossem submetidas à prestação, inclusive as pertencentes a associações de caridade.1

Nicósia teve de reduzir drasticamente seu nível de vida: aumentos de impostos equivalentes a 600 milhões de euros, congelamento até 2016 dos salários na função pública, não substituição de quatro funcionários sobre cinco retirando-se para aposentadoria – a idade respectiva sendo prolongada até os 65 anos, com diminuição das pensões –, venda das reservas de ouro excedentes no montante de 400 milhões de euros e privatizações alcançando no mínimo 1 bilhão de euros. O PIB regredirá em 12,6% no período 2013-2014, com um mergulho de 8,7% só para 2013… Uma sangria.

O precioso apoio turco

Essa situação contrasta com a da parte da ilha situada ao norte da “linha verde”, sob tutela de Ancara desde a invasão pelo Exército turco em 1974. Reconhecida unicamente pela Turquia, a República Turca do Chipre do Norte (RTCN), sob embargo, permanece política e economicamente isolada no cenário internacional. Administrando um terço da superfície da ilha com uma população (cerca de 250 mil habitantes) três vezes menor que no sul, o norte foi poupado pela crise. Sua taxa de crescimento esperada para 2013 é de 3,5% e de 4,2% para 2014. O desemprego passou de 12,6% em 2010 para 10,7% em 2013.

De certo, o nível de vida permanece amplamente inferior ao dos habitantes da República do Chipre, mas a distância, de cerca de 40%, está se reduzindo. E não somente em razão das dificuldades atravessadas pelos cipriotas gregos. Em 2002, o PIB por habitante não ultrapassava os US$ 4.409 na república turca autoproclamada; atinge hoje US$ 15.942.

O sistema financeiro foi relativamente saneado após a crise turca de 2001, com a liquidação de sete bancos locais. E as autoridades asseguram que nenhum espírito de vingança anima a RTCN diante da situação vivida pelos vizinhos do sul. “Ficamos consternados com a sorte dos cipriotas gregos, ainda mais por termos atravessado a mesma crise há dez anos”, declara Hasan Güngör, conselheiro especial da presidência. Esse ex-professor de Economia incita o sul a “seguir à risca as receitas do FMI, sem acrescentar, porém, a isso uma política populista consistindo em ajudar forçosamente os mais pobres”.

Consciente de sua dependência perante a “mãe pátria” – a ajuda financeira atingiu 297 milhões de euros em 2012 –, a RTCN não parece ter pressa de se emancipar, o que a construção de um imenso duto submarino ligando a Turquia ao norte da ilha atesta. Previsto para março de 2014, o dispositivo aprovisionará a região com 75 milhões de metros cúbicos de água doce por ano − o bastante para estimular a agricultura e o comércio de uma economia “em desenvolvimento, mas sempre frágil” diante do sul, “declinando e… muito frágil”, segundo Güngör. E fornecer um argumento de peso nas negociações bilaterais sobre uma hipotética reunificação da ilha, vítima de secas recorrentes.

Apelos discretos ignorados

A exploração dos fundos marítimos poderá também representar um trunfo. Segundo as estimativas, ainda muito incertas, as fossas forneceriam algo entre 141 bilhões e 227 bilhões de metros cúbicos de gás – o governo fala até em 1,7 trilhão! Ressalvando que restrições técnicas e geopolíticas sombreiam o quadro. Aos investimentos necessários em razão da profundeza das jazidas e da falta de infraestruturas acrescenta-se a exigência de uma colaboração com a Turquia. Seu mercado está em plena expansão, e a travessia de seu território é indispensável para ligar o gás cipriota ao projeto Nabuco entre a Ásia e a Europa. Afora essas dificuldades, Ancara continua se opondo à política cipriota de exploração, que julga ilegal: já chegou a mandar navios militares durante operações de prospecção.

Há quase quarenta anos o país se encontra desmembrado. Todavia, a mão poderia se inverter se o norte se colocasse não somente na condição de interlocutor confiável como também de parceiro incontornável. Ainda mais que os cipriotas gregos não escondem sua decepção perante “essa Europa que nos abriu os braços para depois se servir de nós como cobaias para suas receitas liberais”, desabafa Anna,2 cientista política e economista de Nicósia. Anna estima que, após a rejeição do plano Annan de 2004 que visava unificar o país, os cipriotas aprenderam com seus erros e que nenhum momento é mais propício para uma saída da crise que um choque sistêmico. Até o presente, a República do Chipre sempre ignorou os convites discretos dos dirigentes da RTCN. Mas poderá resistir ainda muito tempo ao argumento financeiro?

David Courbet é jornalista.



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