A crise energética de 2021: origem, impacto e transformações

DESACELERAÇÃO ECONÔMICA E INFLAÇÃO

A crise energética de 2021: origem, impacto e transformações

por José Luís Fiori
24 de janeiro de 2022
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Algumas causas dessa crise energética são conjunturais e poderão ser superadas no transcurso de 2022, mas outras se manterão e devem forçar mudanças dentro da própria matriz energética dos países mais afetados, redirecionando investimentos e forçando algumas escolhas dramáticas

An energy crisis is affecting almost every part of the globe, marked by record-high energy prices, tight supplies, and power blackouts […] The first energy crisis in decades has come as a shock to many, who seem to have forgotten how energy insecurity reverberates onto energy major sphere of public life: the economy, national security, the environment, and public health.[1]

Shaffer, B. Is Europe´s Energy Crisis a Preview of America’s? https//foreignpolicy.com., 5 out. 2021.

 

 

O “sistema energético mundial” atravessa um período de enorme turbulência e imprevisibilidade, desde que se generalizou a pandemia do coronavírus nos primeiros meses de 2020. Tudo começou com uma queda abrupta da demanda mundial e dos preços internacionais, provocada pela interrupção instantânea e universal da atividade econômica e pelo aumento imediato do desemprego, começando pela China e atingindo, logo em sequência, Europa, Estados Unidos e América Latina. O consumo das empresas e das famílias caiu vertiginosamente, e os tanques e reservatórios de todo o mundo ficaram cheios e ociosos; os próprios navios petroleiros ficaram à deriva sem ter onde desembarcar, provocando uma queda sem precedentes dos preços, que chegaram a ficar negativos em alguns momentos. Não foi uma crise clássica do capitalismo, nem foi uma guerra; foi uma “catástrofe natural” inesperada que surpreendeu a humanidade e provocou respostas nacionais descoordenadas, e muitas vezes improvisadas, pelo menos até a descoberta das vacinas e o início da sua aplicação massiva nas principais economias do hemisfério norte.

Como consequência, a economia mundial regrediu em 2020 e a indústria energética sofreu um baque de rapidez e proporções desconhecidas. Um ano depois, o cenário havia se invertido radicalmente, sobretudo depois da difusão das vacinas e da retomada da atividade econômica, primeiro na China e em alguns outros países asiáticos, e depois na Europa e nos Estados Unidos. Mas a oferta de energia não conseguiu responder à retomada econômica, por conta das próprias dificuldades técnicas de uma reversão tão rápida, incluindo a reconstituição dos fluxos e redes de transporte, e também por conta da dificuldade de reverter a decisão anterior da Opep de diminuir sua produção como resposta à queda da demanda e do consumo do ano anterior. Os tanques e reservatórios de petróleo e gás natural se esvaziaram e a própria oferta mundial de carvão foi interrompida por acidentes naturais e mudanças climáticas inesperadas, que se somaram a erros de planejamento estratégico, sobretudo no caso da China. Como consequência, os preços da energia dobraram ou triplicaram, dependendo de cada região ou país; o suprimento de eletricidade foi interrompido em vários países, provocando blackouts, fechamento de empresas e revoltas populares contra o aumento generalizado dos preços dos alimentos, do combustível e dos serviços públicos em geral. O preço do petróleo chegou a U$ 85 o barril, em outubro de 2021, e o preço do gás natural se multiplicou por quatro com relação ao ano anterior, sobretudo na Europa, onde subiu 119% na Alemanha, e 149% na França, com relação ao seu valor em agosto de 2021. Na Grã-Bretanha, o preço da eletricidade subiu mais de 10 vezes em 2021, com relação à sua média da última década, e por fim, no mesmo período, o preço do carvão duplicou na China e na Austrália, dois dos maiores produtores mundiais de carvão do mundo.

Vários fatores convergiram para provocar essa crise da oferta e explosão dos preços em quase todo o mundo. Alguns fatores comuns ou mais gerais, e outros mais específicos de cada região ou país. Entre os primeiros, devem-se mencionar : i) a retomada robusta da atividade econômica depois das duas primeiras ondas pandêmicas, em particular após o surgimento e o início da aplicação das vacinas; ii) eventos climáticos extremos, com a chegada muito cedo de um inverno rigoroso – em 2020 e 2021 – aos quais se somaram grandes calmarias, incêndios e enchentes que atingiram pesadamente a oferta da energia alternativa, eólica e solar, ao mesmo tempo que grandes inundações afetaram a produção do carvão simultaneamente em vários pontos do mundo, na China e na Europa e nos Estados Unidos; iii) falhas no planejamento das políticas públicas de energia ou climáticas, que acabaram afetando – ainda que de formas diferentes – as cadeias de produção e provimento de energia nos três grandes centros da economia mundial, na Ásia, na Europa, e nos Estados Unidos; iv) a queda do investimento, sobretudo na produção de petróleo, que permanece abaixo do seu nível pré-pandêmico, que já era inferior ao que havia sido alcançado em 2014. No caso norte-americano, houve de fato um desinvestimento real na sua produção do shale gas e de óleo de xisto, provocado pela queda dos preços da energia em 2020, que não foi revertido em 2021; v) por fim, como veremos mais à frente, fatores de ordem geopolítica também pesaram muito, sobretudo no caso do provimento russo do gás natural, responsável por cerca de 40% do consumo da indústria, dos governos e das famílias europeias.

crise energética
(Crédito: Unsplash)

Algumas causas dessa crise energética são conjunturais e poderão ser superadas no transcurso de 2022, como é o caso das condições climáticas adversas deste último ano. Mas outras se manterão e devem forçar mudanças dentro da própria matriz energética dos países mais afetados pela crise, redirecionando investimentos e forçando algumas escolhas dramáticas, como no caso mais urgente do abandono do corvão. Mas nenhuma dessas mudanças conseguirá impedir o impacto econômico imediato da crise e da alta dos preços dos combustíveis e da energia elétrica, que devem provocar uma desaceleração generalizada da retomada econômica mundial que já estava em curso, e um aumento em cascata das taxas de inflação, multiplicando a turbulência social e política nos países mais afetados pela crise, em particular nos países com governos sem recursos ou disposição de defender suas populações contra as “intempéries do mercado”.

Essa nova grande crise energética tem uma dimensão quase universal, como já dissemos, mas tudo indica que seus impactos mais profundos e de longo prazo se darão no continente europeu. Porque a Europa é fortemente dependente das importações de energia, sobretudo de petróleo e de gás, e é também o continente que vem liderando a luta mundial contra o uso do carvão e de todas as fontes de energia fósseis. Nesse contexto, a recente decisão da União Europeia de considerar o gás natural e a energia nuclear como “energias limpas” já deve ser considerada como uma consequência da crise e uma escolha dos europeus que deverá ter impacto global. A escolha do gás natural como sua principal fonte energética durante o período da transição carbônica deve se prolongar, pelo menos, até 2060.

O gás natural apareceu junto com o petróleo no século XIX, tanto nos EUA como na Rússia, mas só começou a ser utilizado de forma mais sistemática pelos EUA nas décadas de 20 e 30 do século passado, quando os norte-americanos possuíam apenas 10 gasodutos. Tal situação, entretanto, mudou radicalmente depois da “crise do petróleo” dos anos 60 e 70, quando o gás natural se “autonomizou” e deu um salto como fonte energética, com a multiplicação acelerada dos gasodutos nos EUA e em todo o mundo. Hoje há cerca de 1 milhão de quilômetros de gasodutos ao redor do mundo, 25 vezes a circunferência da Terra, e o gás natural já representa 24% do consumo mundial de energia primária, um pouco abaixo apenas do carvão, com 27%, e do petróleo, com 34%. A nova centralidade energética do gás natural, portanto, não deve se restringir à Europa, com a progressiva substituição do carvão e do petróleo.

Mas atenção porque essa mudança na matriz energética mundial deverá ter consequências geopolíticas e geoeconômicas profundas e imediatas, bastando lembrar que um terço das reservas mundiais de gás se encontra nos territórios da Rússia e do Irã, e que assim mesmo o maior produtor e exportador mundial do gás liquefeito – pelo menos até o início da pandemia do coronavírus – eram os Estados Unidos. As tensões geopolíticas entre a Rússia e a Ucrânia já tinham provocado as crises no fornecimento de gás de 2006, 2009 e 2014, e agora de novo, a escassez e alta dos preços do gás na Europa estão estreitamente associadas com a nova escalada do conflito diplomático e bélico em torno da Ucrânia, entre a Rússia e as forças da Otan, lideradas pelos EUA. Uma disputa que se prolonga desde o fim da Guerra Fria e da desmontagem da URSS e do Pacto de Varsóvia, mas que se agravou com a crise energética e a impossibilidade de os EUA substituírem o gás natural russo, em razão da diminuição da sua própria oferta internacional de GLN, redirecionada para o mercado interno norte-americano e para o mercado asiático, onde os preços são três a quatro vezes superiores aos oferecidos pelo mercado europeu. Deve-se somar-se a esses problemas europeus o atraso na liberalização do Gasoduto do Báltico, o Nord Stream 2, entre a Rússia e a Alemanha, que sofreu todo tipo de boicote norte-americano e de outros países aliados dos EUA durante sua construção, e que agora se transformou numa peça-chave de chantagem dentro das negociações atuais em torno da demanda russa de “neutralização” do território ucraniano.

De qualquer maneira, no curto prazo, do ponto de vista energético, devido à própria intensidade do inverno atual e ao nível da escassez energética na Europa, somada a suas altas taxas de inflação atuais, são os russos que têm as cartas na mão e distribuem o jogo, porque só eles têm a capacidade de aumentar imediatamente a oferta do gás que os europeus necessitam para baixar seus custos de produção e recuperar a competitividade de sua indústria, diminuindo o grau de insatisfação de suas populações. E é, aliás, essa excepcional posição de força da Rússia que permitiu ao seu governo avançar suas peças no tabuleiro do xadrez geopolítico europeu, e colocar sentados os EUA, a Otan e todos os países europeus em torno de sua proposta de estabilização estratégica da Europa Central, uma questão que permanece aberta desde o fim da Guerra Fria, em 1991 (assunto que será tema de um próximo artigo).

 

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[1] “Uma crise energética está afetando quase todas as partes do globo, marcada por preços recorde de energia, estoques limitados e blackouts […] A primeira crise energética em décadas foi um choque para muitos, que parecem ter esquecido como a insegurança energética reverbera na esfera energética geral da vida pública: a economia, a segurança nacional, o meio ambiente, a saúde pública.”



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