A democracia em tempos de conteúdo fabricado
A inteligência artificial generativa e a desinformação ameaçam a estabilidade democrática ao distorcer a percepção da realidade. O perigo atual reside na escala e autenticidade dos conteúdos forjados, que permitem tanto a aceitação de mentiras quanto a negação de fatos verdadeiros. Esse fenômeno gera uma crise de comprovação, em que a dúvida constante é utilizada como uma ferramenta estratégica de poder
A democracia depende da divergência. Cidadãos podem discordar sobre economia, segurança pública, direitos sociais e projetos de futuro. O conflito não representa uma falha do regime democrático: a possibilidade de disputar caminhos para o país é uma de suas condições fundamentais.
Há, contudo, uma diferença entre disputar interpretações sobre a realidade e fabricar a própria realidade.

Às vésperas das eleições de 2026, imagens podem ser criadas sem que o acontecimento tenha existido; vozes podem ser clonadas; declarações podem ser atribuídas a pessoas que nunca as pronunciaram; e vídeos verdadeiros podem ser retirados de contexto.
A inteligência artificial generativa tornou essas falsificações mais rápidas, baratas e convincentes. O desafio democrático não está apenas no aperfeiçoamento da mentira, mas na transformação da própria realidade em objeto de produção.
Na primeira quinzena de setembro, circulou nas redes sociais um vídeo apresentado como se mostrasse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sendo hostilizado no interior de São Paulo. As imagens, porém, haviam sido gravadas meses antes na Albânia. A publicação alcançou aproximadamente 2,3 milhões de visualizações antes que seu verdadeiro contexto fosse esclarecido.
O episódio demonstra que nem toda desinformação depende de uma imagem artificial. O vídeo era verdadeiro. O protesto aconteceu. A falsidade estava na relação criada entre aquelas imagens e o fato político que se pretendia representar.
Agora, precisamos desconfiar também de conteúdos visualmente autênticos. Uma imagem pode ser real e, ainda assim, sustentar uma mentira.
A inteligência artificial não inaugurou a manipulação política. Fotografias, discursos e documentos sempre puderam ser adulterados. A diferença está na escala, na velocidade e na aparência de autenticidade com que esse material pode ser produzido e distribuído.
Ver já não significa necessariamente testemunhar.
Os sistemas generativos criam dois riscos simultâneos: acreditar no que nunca aconteceu e deixar de acreditar no que efetivamente ocorreu. Uma autoridade flagrada em comportamento ilícito pode alegar que o registro foi produzido artificialmente. Uma vítima pode ter sua prova questionada. Um documento autêntico pode ser descartado como montagem.
Quando qualquer evidência pode ser rejeitada sob a alegação de manipulação, a dúvida deixa de ser instrumento crítico e passa a operar como estratégia de poder. Já não é necessário demonstrar que uma informação é falsa. Basta tornar sua autenticidade permanentemente discutível.
A crise deixa de ser apenas informacional. Torna-se uma crise da possibilidade de comprovação.
O problema não pode ser reduzido à recomendação de “não acreditar em tudo que aparece na internet”. Isso transfere ao cidadão isolado a responsabilidade de enfrentar sistemas tecnológicos sofisticados, empresas poderosas e estratégias profissionais de manipulação.
É preciso perguntar quem lucra com a circulação da mentira, quem controla os mecanismos de distribuição e quem deve responder pelos danos produzidos.
Até 3 de setembro, o aplicativo Pardal, disponibilizado pela Justiça Eleitoral, havia recebido 11.624 denúncias de possíveis irregularidades nas eleições de 2026. Desse total, 1.459 estavam relacionadas à internet. Denúncias não equivalem a infrações comprovadas, mas dimensionam o desafio enfrentado pelas instituições.
O Tribunal Superior Eleitoral também mantém um sistema para receber alertas sobre conteúdos falsos, enganosos ou fora de contexto que possam afetar a integridade das eleições. Essas medidas são importantes, mas a velocidade das instituições não é a mesma das redes. Uma decisão judicial precisa apurar fatos e apresentar fundamentos. Uma falsificação precisa apenas de segundos para ser compartilhada.
Mesmo quando o conteúdo é removido ou desmentido, seus efeitos podem permanecer. A correção costuma circular mais lentamente que a acusação. O usuário pode esquecer a origem da informação, mas conservar a impressão produzida por ela.
Nas campanhas digitais, o tempo da mentira frequentemente é mais vantajoso que o tempo da verdade.
Surge, então, uma pergunta inevitável: quem decidirá o que é real?
A liberdade de expressão protege a crítica, a sátira e a circulação de ideias, inclusive as que desagradam governos e instituições. Mas a fabricação deliberada de fatos pode destruir reputações, interferir na escolha política e comprometer direitos.
Não é simples estabelecer limites. O Estado pode abusar do poder de classificar discursos como falsos. Plataformas privadas podem decidir sem transparência. Sistemas automatizados de moderação podem reproduzir vieses. A ausência de uma solução simples, contudo, não justifica a ausência de responsabilidade.
É necessário identificar conteúdos sintéticos, preservar provas, responsabilizar os financiadores de operações de desinformação e dar transparência aos anúncios e critérios de recomendação. Também é indispensável proteger jornalistas e pesquisadores e ampliar a educação crítica para o ambiente digital.
A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige, porém, que seja possível discutir uma base comum de acontecimentos. Podemos discordar sobre as causas e consequências de um fato. Mas, quando já não conseguimos determinar se ele existiu, o debate político perde seu ponto de partida.
O maior risco da inteligência artificial talvez não seja fazer com que todos acreditem em uma grande mentira. Talvez seja convencer a sociedade de que nenhuma verdade pode ser demonstrada e nenhuma fonte merece confiança.
Proteger a democracia exigirá mais do que remover conteúdos falsos. Será preciso enfrentar a arquitetura econômica que os impulsiona, fortalecer instituições confiáveis e reconstruir vínculos capazes de sobreviver à divergência.
A democracia precisa do conflito. O que ela talvez não consiga suportar é a ausência de um mundo comum no qual esse conflito possa acontecer.
Fernanda Macedo é especialista em Ciências Criminais e Segurança Pública pela Uerj, advogada da Gestão Kairós e professora universitária.

