A desconfiança dos cidadãos em relação à polícia - Diplomatique Brasil

AS FORÇAS DA ORDEM SOCIAL

A desconfiança dos cidadãos em relação à polícia

Edição 156 | França
por Laurent Bonelli
1 de julho de 2020
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“Todo mundo odeia a polícia.” Comum nas manifestações francesas, esse slogan exprime uma preocupação que não é mais restrita aos grupos militantes. Frequentemente convocadas para reprimir movimentos sociais, com destacada brutalidade, as forças da ordem veem sua missão confundir-se com a de uma guarda pretoriana do poder. Sua popularidade não resistiu

As imagens da agonia de George Floyd, sufocado por um policial de Minneapolis sob o olhar impassível de seus colegas, provocaram uma onda de protestos de amplitude incomum nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas para denunciar com veemência, às vezes com violência, o tratamento discriminatório dado pela polícia às minorias. Alguns dias depois, dezenas de milhares de manifestantes se reuniram em Paris e em diversas outras cidades francesas, atendendo ao chamado do comitê Justice pour Adama Traoré [Justiça para Adama Traoré], que leva o nome de um rapaz negro morto após sua prisão por policiais militares nos arredores de Paris, em julho de 2016. Ao lado de cidadãos comuns, os protestos contaram com altas personalidades da política, e o movimento foi apoiado por estrelas do cinema, do futebol e da música. As manifestações conseguiram até mesmo que, rapidamente, o ministro do Interior da França, Christophe Castaner, colocasse em questão a prática do estrangulamento, além de prometer melhorar o código de ética das forças da ordem no país, particularmente no que diz respeito ao racismo.

A amplitude da mobilização, bem como o eco que ela obteve na política e na mídia contrastam com a história da luta contra a violência policial. De Youssef Khaïf a Lamine Dieng, de Wissam el-Yamni a Ibrahima Bah, passando por Zyed Benna e Bouna Traoré, Abdelkader Bouziane, Allan Lambin, Amine Bentounsi e muitos outros, há uma longa lista de jovens de origem popular cuja morte é imputável, direta ou indiretamente, às forças da ordem. Entre janeiro de 1977 e dezembro de 2019, foram recenseadas pelo site Basta! 676 pessoas mortas por policiais civis ou militares, uma média de 16 por ano. [No Brasil, as polícias mataram 719 pessoas em abril de 2020 (O Globo, 28 jun. 2020).] Metade delas tinha menos de 26 anos, e quase metade dos casos situava-se na região de Paris ou nas metrópoles de Lyon e Marselha.1

As sequências de reação a esses dramas se repetem e se assemelham: o bairro de origem da vítima fica em chamas por algumas noites, os parentes e amigos organizam manifestações locais, depois vêm longos anos de batalhas legais travadas pela família e alguns ativistas persistentes, raramente resultando na condenação das autoridades envolvidas.2 Mas, até recentemente, os esforços para dar uma base mais ampla a essas iniciativas não haviam tido sucesso.

Essa causa permanece impopular porque, na maioria das vezes, está ligada às vítimas “erradas”, “gente conhecida da polícia, no mau sentido”. Essa desqualificação por parte das autoridades, somada à exibição complacente, por parte da imprensa, de eventuais antecedentes criminais, cria dúvidas quanto ao desenvolvimento dos fatos, reforçando a narrativa da polícia. Isso também torna mais delicado o apoio das forças políticas ou sindicais de esquerda, historicamente sensíveis à repressão operária, porém desconfortáveis com aqueles que são mais relutantes em relação à ordem salarial, outrora chamados de lumpemproletariado. Tal desconforto é agravado pela distância que foi pouco a pouco se aprofundando entre essas organizações e os jovens das periferias, que elas não conseguem mais integrar em suas fileiras e de cujas condições concretas de existência têm dificuldade de se aproximar.3 E as tentativas de construir uma autonomia política dos bairros populares, isto é, estruturas capazes de apresentar outro discurso sobre essas comunidades, tiveram apenas sucessos pontuais.4

Então, como explicar a potência dos protestos de junho de 2020? Pode-se evocar a coincidência do calendário francês com a morte de George Floyd nos Estados Unidos e a emoção que esta despertou no mundo todo, certamente com uma ajuda da hostilidade bastante generalizada em relação a Donald Trump e suas políticas. Também é possível destacar o trabalho obstinado de ativistas – como os do Mouvement de l’Immigration et des Banlieues (MIB, Movimento da Imigração e dos Subúrbios) – para unir a causa da violência policial, da qual Assa Traoré, irmã de Adama, tornou-se uma carismática porta-voz. Mas talvez nem todas essas razões em conjunto seriam suficientes se a desconfiança em relação às forças da ordem não tivesse se expandido para além dos círculos nos quais ela tradicionalmente se expressa.

 

Alta considerável de vítimas

A extensão dessa desconfiança é algo difícil de mensurar. Pesquisas revelam alguns fragmentos. Uma delas, publicada pela revista semanal L’Express (20 jan. 2020) – um veículo que nunca esteve entre os mais críticos à instituição policial –, revelou que apenas 43% dos entrevistados “confiavam” nos policiais, enquanto 20% sentiam “preocupação” e 10% “hostilidade” em relação a eles. Estudos científicos confirmam essa tendência. Uma vasta pesquisa europeia realizada em 2011-2012 com 51 mil entrevistados estabeleceu que a polícia francesa é particularmente malvista. Ela está em 19º lugar, entre 26 países, em relação ao respeito no tratamento dado às pessoas (antes apenas de República Tcheca, Grécia, Eslováquia, Bulgária, Ucrânia, Rússia e Israel).5 Além disso, qualquer manifestante na rua pode notar que a frase “Todo mundo odeia a polícia” já faz parte do repertório clássico dos protestos.

Ocorre que o uso da força, justificado ou não, tornou-se mais visível. Os smartphones com câmeras digitais fazem abundantes registros, que são divulgados pelas redes sociais. A prática chegou a tal ponto que um grupo de trinta deputados, atendendo à reivindicação dos sindicatos policiais, recentemente tentou estabelecer a possibilidade de punir com multa de 15 mil euros e um ano de prisão “a divulgação, por qualquer meio ou suporte, da imagem de funcionários da polícia civil, militares, policiais municipais ou agentes da alfândega” (Assembleia Nacional da França, 26 maio 2020). A medida já é adotada na Espanha desde o vasto movimento 15-M, em 2011.

A ação violenta das forças da ordem também ficou mais perceptível pelo fato de ela ter se deslocado dos bairros periféricos em direção aos centros das cidades, passando a afetar populações que não estavam acostumadas a essa experiência. Na França, a crise dos Coletes Amarelos, os protestos contra as reformas trabalhista e da previdência, assim como os controles policiais operados durante o confinamento por causa da epidemia de Covid-19, tudo isso teve como resultado um aumento considerável de vítimas e testemunhas de intervenções policiais, muito além do que os sociólogos costumam identificar como os tradicionais “alvos da polícia”.6 Com certeza, é essa ampliação do alcance da polícia que permite entender as resistências coletivas que hoje se manifestam.

Para explicar esse movimento, primeiro é preciso dissipar o persistente mito de que a polícia se ocupa exclusivamente de combater a delinquência. Exceto por raras unidades especializadas, essa tarefa não passa de 20% de sua atividade.7 A polícia está frequentemente envolvida na resolução de uma infinidade de situações que não são abrangidas pelo direito penal: conflitos de vizinhança, domésticos ou relativos à ocupação do espaço público, regulação do tráfego de automóveis, informações administrativas, gestão de reuniões públicas, controle de migração irregular, vigilância política, apoio a outras instituições (da emergência médica aos despejos) etc. O sociólogo norte-americano Egon Bittner destaca “que não há problema humano, real ou imaginável, que se possa afirmar com certeza que nunca poderia se tornar assunto da polícia”.8 A polícia é, portanto, menos uma agência de aplicação da lei – como sugere o termo anglo-saxão law enforcement agency – do que uma instituição dedicada à manutenção de uma ordem social determinada.

No entanto, a partir da década de 1980, a polícia foi gradualmente ganhando ares, para diversos governantes, de solução mágica para enfrentar as consequências do aprofundamento das desigualdades sociais e econômicas que se podem observar nas sociedades ocidentais e entre os países do Norte e do Sul. Com variações de cronologia e de tom, os temas da insegurança e das migrações (sobretudo as irregulares) se politizaram, e partidos políticos de diferentes inspirações e tendências passaram a fazer deles pontos importantes de suas disputas eleitorais. As políticas sociais, de prevenção e de desenvolvimento, embora nunca completamente abandonadas, foram pouco a pouco dando lugar a abordagens mais securitárias, que passam pelo controle e pela coerção. Assim, em vez de lutar contra as causas estruturais das desigualdades (vistas como desejáveis por alguns, e fora do alcance por outros), trata-se de disciplinar as frações da população mais indóceis à nova ordem neoliberal, nacional e internacional.

Entre as racionalizações que acompanham essa dinâmica, a “teoria do vidro quebrado” ocupa um lugar especial. Desenvolvida por dois acadêmicos norte-americanos, James Q. Wilson e Georges L. Kelling, ela sugere que a tolerância a pequenas desordens urbanas levaria gradualmente ao desenvolvimento de formas mais graves de criminalidade.9 Apesar de sua absoluta falta de fundamentação empírica – Wilson mais tarde admitiu que isso era mera “especulação” (New York Times, 6 jan. 2004) –, a teoria teve publicidade mundial depois que Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York entre 1994 e 2001, e seu chefe de polícia, William Bratton, inspiraram-se nela para reformar a ação de suas polícias.

Dos Estados Unidos à França, passando pelo Reino Unido e pela Espanha, dois caminhos complementares foram privilegiados: o endurecimento da repressão penal a pequenos delitos de via pública e o desenvolvimento de medidas administrativas, de legalidade por vezes questionável, como ordens antimendicância e toque de recolher para menores ou para gangues, as quais permitem verbalizar aquilo que os britânicos chamam de “comportamentos antissociais” (Anti Social Behaviors). O consumo de álcool ou de drogas na rua, a ocupação do espaço público, a fraude nos transportes, os jogos de azar, a mendicância “agressiva”, a lavagem de para-brisas nos cruzamentos, as vendas ambulantes (de bebidas, CDs, DVDs, bolsas, óculos de sol, cintos etc.) e a prostituição de rua tornam-se o principal alvo da polícia.

Assim, os governos confiam à polícia a tarefa de regular a pequena delinquência e a “incivilidade”, concedendo-lhe novos poderes. Como indicam Wilson e Kelling, a polícia pode “fazer prisões por motivos como ‘indivíduo suspeito’, ‘vagabundagem’ ou ‘embriaguez em via pública’, todas acusações desprovidas de significado legal sólido. No entanto, se tais acusações existem, não é porque a sociedade quer dar aos tribunais a missão de reprimir a vadiagem ou a embriaguez, mas porque deseja fornecer aos policiais ferramentas legais que lhes permitam expulsar os indesejáveis deste ou daquele bairro, quando todos os esforços informais para fazer reinar a ordem falharam”.

No entanto, confiar a uma instituição o tratamento de determinado problema tem suas consequências. Esse movimento favorece o enquadramento que tal instituição dá à situação a ser tratada, bem como suas interpretações dos fenômenos. A burocracia, lembra o cientista político norte-americano Murray Edelman, tende a “criar problemas como justificativa para as soluções que oferece”:10 há visões institucionais, sedimentadas na história da instituição, sob a forma de rotinas, cenários, know-how e representações que se impõem a seus agentes, tanto no treinamento como no trabalho diário (por meio de conselhos e advertências dos veteranos). Os policiais adoram lembrar que “não são assistentes sociais” e valorizam a coerção. Portanto, regulam a ordem urbana “à sua maneira”, recorrendo sobretudo a estratégias de assédio. Um comissário dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, explicou em uma entrevista sua política em relação aos jovens que se reúnem nos espaços públicos de Barcelona: “Você vai à praça, dá uns gritos, coloca pressão e diz: ‘Vou voltar aqui todo dia. Se você estiver aqui amanhã, vou pedir seus documentos; se estiver bebendo, vou fazer um registro; se tiver erva, também’. E assim, de uma maneira ou de outra, eles vão embora. Isso muda o problema de lugar”. Essa combinação de repressão e banimento daqueles que são vistos como indesejáveis resume bastante bem a prática das forças da ordem para cumprir as missões que lhes são designadas.

 

Militarização da polícia

Essas táticas obviamente aumentam a resistência daqueles que constituem seu alvo, sob a forma de insultos, recusa em colaborar e, às vezes, confrontos individuais ou coletivos, particularmente quando a relação de forças não é favorável aos policiais. Na França, o número de ofensas e atos de violência contra depositários da autoridade cresceu de 22 mil, em 1990, para 68 mil, em 2019 – três vezes em trinta anos.

Diante dessa situação, a instituição policial reage, fornecendo a seu pessoal equipamentos defensivos (coletes à prova de balas, granadas de dispersão) e ofensivos (armas com balas de borracha e de choque). Esse equipamento alimenta as críticas à “militarização” da polícia, particularmente evidente nas unidades especializadas, como as brigadas anticrime francesas. Suas insígnias, cheias de imagens de predadores (tigres, lobos, leões, crocodilos, cobras etc.) que vigiam a cidade adormecida, lançam luz sobre o tipo de relação com o espaço e as populações que elas desejam incorporar. As Street Crime Units [Unidades de Crimes de Rua] de Nova York, dissolvidas em 2002 após crivarem de balas um jovem afro-americano desarmado, chegaram a adotar o lema “Donos da Noite” (We Own the Night). Com práticas agressivas de intervenção, essas unidades foram responsáveis por grande parte da violência, às vezes fatal, de que a instituição é acusada. Elas também são acusadas de contribuir para o endurecimento das tensões onde quer que sejam introduzidas.

A partir daí, foram desenvolvidas estratégias complementares, denominadas “polícia comunitária” ou “de proximidade”, dependendo do país, que buscam aproximar a polícia da população por meio de sua presença visível (patrulhas a pé) e da criação de espaços de diálogo para tratar dos problemas locais. Essas experiências chocaram-se com o pouco entusiasmo dos policiais (ou com a reprodução de comportamentos violentos) e com as recorrentes restrições orçamentárias, por causa do custo dos efetivos necessários. Mas onde foram colocadas em prática ajudaram a fortalecer a centralidade da polícia na regulação das relações sociais e a redefinir tais relações como questão de segurança.11 A polícia “repressiva” e a “preventiva”, portanto, são menos opostas do que complementares e esquadrinham a existência cotidiana de porções cada vez mais amplas da população.

Essas estratégias conseguiram cumprir a promessa de conter os pequenos distúrbios urbanos? Obviamente não. Mas poderíamos acreditar que elas seriam capazes de fazê-lo sem agir sobre as causas profundas desses distúrbios? Muitos policiais estão cientes dessa impossibilidade, afirmando que é como “enxugar gelo”. Esse fracasso, no entanto, não afetou as opções escolhidas pelos governantes. Pelo contrário, levou a uma corrida securitária, da qual a polícia se apropriou para reivindicar cada vez mais e mais recursos para agir.

A decisão política de fazer das forças da ordem a ponta de lança da defesa da ordem urbana acabou, na verdade, por valorizar sua posição no campo burocrático, colocando os governos em uma posição desfavorável na relação de interdependência. Esse fenômeno é particularmente acentuado na França e nos Estados Unidos (ler artigo de Richard Keiser, virando a página) pela existência de poderosos sindicatos corporativos. Com uma taxa de sindicalização de quase 70% (contra 19% no funcionalismo público e 8% no setor privado), a polícia é de longe a profissão mais organizada. Estruturados por corpos (guardas, oficiais e comissários), esses sindicatos têm um papel importante na evolução da carreira. Por causa do dever de reserva, eles também são os únicos que podem se expressar na mídia, exceto, é claro, pelas autoridades hierárquicas – o que limita a expressão pública das dissidências internas e reforça a ilusão de que a polícia funciona em bloco. Essa força leva a uma cogestão de fato da instituição, combinando negociações, exortações públicas e ações coletivas (manifestações, licenças de saúde, abandono das missões “não urgentes”).

Embora não tenha sido poupada, a polícia soube se proteger melhor do que outros serviços públicos das reformas liberais, em termos de atualização estatutária e salarial ou de créditos operacionais. Por exemplo, durante a reforma previdenciária, em dezembro de 2019, bastou que os sindicatos falassem na possibilidade de interromper o trabalho para obter imediatamente um regime especial, enquanto centenas de milhares de trabalhadores (dos transportes, da saúde, da educação nacional etc.) sustentaram semanas de greves e manifestações, sem que suas reivindicações fossem atendidas.

Matt Seymour/Unsplash

Da mesma forma, a instituição policial consegue ser efetiva em frustrar tudo aquilo que considera desafiar suas prerrogativas. Os recentes comentários de Castaner sobre a possível proibição do estrangulamento provocaram imediatamente acusações de “traição” e protestos localizados, que levaram o ministro a reconsiderar sua posição. Episódios semelhantes podem ser observados, desde as manifestações contra o ministro da Justiça, Robert Badinter, em 1983, até os protestos contra a lei sobre presunção de inocência (15 jun. 2000), passando pela oposição à reforma da custódia policial (14 abr. 2011) e às penas alternativas (15 ago. 2014). Essa hostilidade à crítica também se expressa na resistência a todos os órgãos externos que poderiam garantir o controle de sua atividade. Autoridades independentes, como a Commission Nationale de Déontologie de la Sécurité (CNDS, Comissão Nacional de Ética da Segurança), depois o defensor de direitos e o controlador-geral das instalações de privação de liberdade, tiveram de travar batalhas permanentes para exercer suas missões, e seu campo de ação sempre foi limitado em relação a suas ambições iniciais. Isso também se aplica à justiça, que fica em uma posição desconfortável para julgar a ação policial, considerando que os magistrados dependem dela para realizar seu trabalho cotidiano. Por fim, embora temida pela polícia, a Inspection Générale de la Police Nationale (IGPN, Inspetoria-Geral da Polícia Nacional) parece muito mais inclinada a sancionar desvios internos do que a investigar queixas externas. Sua diretora, a comissária Brigitte Jullien, reconheceu que, dos 378 casos que ela acompanhou no contexto do movimento dos Coletes Amarelos, apenas dois haviam resultado em sanções administrativas (Envoyé Spécial, France 2, 11 jun. 2020).

A combinação entre essa autonomia da instituição e o papel central que lhe é atribuído na regulação da ordem social transformou as relações que seus agentes mantêm com o resto da sociedade. Dadas as situações difíceis que enfrentam em sua atividade profissional (acidentes, violência, conflitos, miséria), os policiais tradicionalmente desenvolvem uma visão bastante pessimista do mundo social – um mecanismo semelhante pode ser observado entre os bombeiros.12 Isso se soma a representações negativas daqueles a quem chamam de “clientes”, o que também é uma chave para explicar o racismo policial. Claro que existe uma minoria de agentes ideologicamente convencidos da desigualdade racial. Mas, para muitos de seus colegas, é nas relações difíceis diariamente estabelecidas com certas frações dos setores populares – boa parte dos quais é oriunda da migração ou integra minorias – que se forjam os estereótipos racistas, os quais em seguida se aplicam por capilaridade a todos aqueles que possam remeter a esses estereótipos.

Nos últimos trinta anos, a ampliação do espectro da ação policial estendeu mecanicamente a amplitude dos grupos que são alvo de sua suspeita. Para provar isso, basta consultar o arquivo de “registro de antecedentes”, no qual policiais civis e militares registram indivíduos sobre os quais existem “indicações sérias ou convergentes que tornam provável que tenham podido participar, como autores ou cúmplices, no cometimento de um crime, delito ou contravenção de quinta classe” – um arquivo que não prevê nenhuma ação legal a ser tomada (pois trata de suspeitos, não de culpados). Em 15 de novembro de 2018, 18,9 milhões de pessoas foram fichadas, ou seja, quase 30% da população francesa… Sem grande surpresa, os policiais franceses aparecem como os mais desrespeitosos da Europa para com os cidadãos.13

Incentivados pelas elites dominantes e por sua própria hierarquia a se perceberem como uma das últimas muralhas que separam a ordem e o caos, eles não hesitam em utilizar com regularidade técnicas outrora reservada aos delinquentes mais difíceis. A morte de Cédric Chouviat, motorista de entregas, após um estrangulamento; a morte de Steve Maia Caniço, atirado no Rio Loire durante uma ação policial; o uso maciço de balas de borracha para conter manifestantes do movimento dos Coletes Amarelos ou contrários à reforma da previdência; e as humilhações infligidas a estudantes (como os de Mantes-la-Jolie, colocados de joelhos com as mãos no pescoço, em dezembro de 2018), feministas ou durante o estado de crise sanitária certamente fazem parte dessa dinâmica.

No entanto, tudo isso mina os fundamentos da autoridade policial. O secretário-geral do sindicato Unité SGP Police, Yves Lefebvre, lamentou recentemente que o estrangulamento seja “cada vez mais utilizado, pois cada vez mais pessoas tentam fugir dos controles policiais” (Libération, 8 jun. 2020). Sem perceber, ele colocava uma questão central: por que obedecemos à polícia? A resposta é simples: o grau de obediência à instituição policial é proporcional à percepção de sua legitimidade. Mas essa legitimidade nunca está plenamente conquistada. O direito penal, explicava o sociólogo Émile Durkheim, “protege os sentimentos coletivos de um povo em um momento determinado de sua história”,14 ou seja, traça os limites morais de uma sociedade, distinguindo a maioria dos “bons cidadãos” da minoria de “criminosos”. Mas a delegação cada vez maior à polícia da gestão da ordem urbana, dos fluxos migratórios e até de protestos sociais e políticos muda a proporção desses dois grupos. Assim, a “particular clareza” dos sentimentos coletivos de que fala Durkheim acaba não sendo mais tão clara, e os policiais podem não mais aparecer como os garantidores do interesse geral, e sim como os guardiães de uma ordem social considerada injusta por um número cada vez maior de indivíduos. Menos obedecidos, eles empregam mais facilmente a força para se fazer respeitar, o que aprofunda ainda mais a desconfiança que recai sobre eles, a qual, por sua vez, reforça sua própria desconfiança em relação aos cidadãos, bem como seu desejo de ampliar as medidas de segurança.

Esse círculo vicioso produz um profundo sentimento de asfixia, que as medidas policiais sanitárias (20,7 milhões de controles e 1,1 milhão de contravenções entre 17 de março e 11 de maio de 2020) levaram ao auge. Ecoando a asfixia física de George Floyd, tal sentimento hoje se expressa em mobilizações cuja palavra de ordem é “Nos deixem respirar!”.

 

Laurent Bonelli é professor de Ciência Política da Universidade de Paris Nanterre. Autor, com Fabien Carrié, de La Fabrique de la radicalité. Une sociologie des jeunes djihadistes français [A fábrica do radicalismo. Uma sociologia dos jovens jihadistas franceses], Seuil, Paris, 2018.

 

1 Base de dados compilada e analisada por Ivan du Roy e Ludo Simbille. Disponível em: https://bastamag.net.

2 Cf. Mogniss H. Abdallah, Rengainez, on arrive! [Alto lá, nós chegamos!], Libertalia, Paris, 2012.

3 Ler Olivier Masclet, “Le rendez-vous manqué de la gauche et des cités” [O desencontro entre a esquerda e a periferia], Le Monde Diplomatique, jan. 2004.

4 Ler Abdellali Hajjat, “Quartiers populaires et désert politique” [Bairros populares e deserto político], Manière de Voir, n.89, 2006.

5 René Lévy, “La police française à la lumière de la théorie de la justice procédurale” [A polícia francesa à luz da teoria da justiça processual], Déviance et Société, v.40, n.2, 2016.

6 Fabien Jobard, “Le gibier de police immuable ou changeant?” [Alvos da polícia: continuam os mesmos ou estão mudando?], Archives de Politique Criminelle, v.32, n.1, 2010.

7 Richard V. Ericson e Kevin D. Haggerty, Policing the Risk Society [Policiamento na sociedade de risco], University of Toronto Press, 1997.

8 Egon Bittner, “Florence Nightingale à la poursuite de Willie Sutton. Regard théorique sur la police” [Florence Nightingale em busca de Willie Sutton. Uma visão teórica sobre a polícia], Déviance et Société, Genebra, v.25, n.3, 2001.

9 Cf. James Q. Wilson e Georges L. Kelling, “Broken Windows: The Police and Neighborhood Safety” [Janelas quebradas: a polícia e a segurança da vizinhança], The Atlantic Monthly, mar. 1982.

10 Murray Edelman, Pièces et règles du jeu politique [Peças e regras do jogo político], Seuil, Paris, 1991.

11 Sobre a experiência dos governos municipais progressistas na Espanha, cf. “El giro preventivo de lo policial” [A virada preventiva da polícia], edição especial da revista Crítica Penal y Poder, n.19, Barcelona, 2020.

12 Ler Romain Pudal, “Les pompiers entre dévouement et amertume” [Os bombeiros, entre a dedicação e a amargura], Le Monde Diplomatique, mar. 2017.

13 Juha Kääriäinen e Reino Sirén: “Do the police trust in citizens? European comparisons” [A polícia confia nos cidadãos? Comparações europeias], European Journal of Criminology, v.9, n.3, Londres, 2012.

14 Émile Durkheim, Les règles de la méthode sociologique [As regras do método sociológico], Paris, Presses Universitaires de France, 1996 (reedição).



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