A direita popular em São Paulo - Le Monde Diplomatique

INCIDIR NA CLASSE TRABALHADORA, MAS SEM ORGANIZÁ-LA

A direita popular em São Paulo

Edição 160 | São Paulo
por Lincoln Secco
30 de outubro de 2020
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A direita popular, de Ademar de Barros, Jânio, Maluf e Russomano, está numa encruzilhada: confirmará sua decadência ou ocupará o lugar da esquerda na polarização eleitoral?

A cidade de São Paulo teve prefeitos eleitos na Primeira República, mas só entre 1953 e 1965 (e de novo a partir de 1985) eles se submeteram realmente ao voto popular. Apesar da interrupção do período ditatorial, o sistema partidário orientou o eleitorado e produziu alguns traços de longa duração.

Antes de 1964, políticos como Ademar de Barros e Jânio Quadros, embora inimigos políticos, mantiveram uma corrente que podemos chamar de “direita popular”. Ela contrastava com a tradicional, que reproduzia os valores da classe média, e com a esquerda, que buscava organizar os trabalhadores como classe.

Jânio conseguia ir além da classe média e disputar com a esquerda a representação dos trabalhadores e marginalizados da cidade. A biografia dele escrita por Vera Chaia mostra que aliava o atendimento a carências da periferia, como iluminação, transporte público e segurança, com uma agenda moralista contra pornografia e prostituição. Sua trajetória errática lhe permitia mobilizar valores de esquerda e direita: atuava contra o comunismo e se solidarizava com Elisa Branco, uma comunista presa injustamente. Defendia grevistas contra a violência policial e a repressão contra servidores públicos; tomava medidas contra o assédio sexual e era acusado de assediar mulheres; prometia ampliar gastos sociais, mas demitia funcionários; defendia o consumidor contra falsificações de produtos e era financiado por empresários; dizia-se liberal e pedia a proibição da Coca-Cola, do álcool aos domingos, das rinhas de galo e de shorts em bailes de Carnaval.

Ao contrário de Jânio, um self made man que propagava honestidade e trabalho e teve ascensão meteórica, Ademar de Barros tinha sido interventor nomeado por Vargas e projetava a imagem de quem “rouba, mas faz”. Na década de 1950, desbancou os partidos nacionais em São Paulo. 

 

Nova fase

Na ditadura, a curta experiência eleitoral paulistana se interrompeu e os prefeitos foram nomeados a partir de 1969. Paulo Maluf foi primeiro “prefeito biônico” e, em 1978, eleito governador indiretamente, cargos onde desenvolveu o savoir-faire para se instalar nas franjas periféricas da cidade.

Em 1985, a direita popular venceu na última campanha de Jânio. Ele e Maluf recompuseram uma corrente de opinião baseada na exploração da insegurança e em promessas de obras viárias. Só que Maluf herdou a marca ademarista do “ladrão” eficiente, enquanto a imagem de honestidade passou a ser disputada entre o PT e o PSDB. 

O malufismo dominou a década de 1990 e foi mais eficaz em conquistar votos de trabalhadores e das camadas médias porque ele não se definia ideologicamente e adotava formas pragmáticas. Podia esgrimir tanto o argumento da competência gerencial quanto o social. Já o PSDB transitou de uma indefinição inicial para o compromisso ideológico neoliberal. 

Claro que há uma zona comum de transição entre as direitas e elas não são separadas por uma fronteira nítida. Jânio foi eleito presidente da República pela UDN com o lema da vassoura que varreria os corruptos. Maluf apresentava-se antes de tudo como competente, mas foi além das promessas de grandes obras viárias e da defesa da “rota na rua” e incorporou a agenda social: um suposto plano de saúde que todo paulistano poderia ter gratuitamente e o Cingapura, projeto de habitação popular que substituiu os mutirões da gestão petista, que era acusada de criar favelas. Tanto aos favelados quanto aos seus vizinhos de classe média, Maluf prometia erradicar os barracos. Ele também apoiou Celso Pitta, o único prefeito negro eleito na história de São Paulo.

 

A virada

Em 2000, o fracasso nacional tucano e a gestão mal avaliada de Pitta deixaram Maluf empatado com o PSDB. Maluf ainda dividiu os votos com Romeu Tuma, que lhe roubou a bandeira da repressão policial. 

A partir de 2004, a direita tucana dominou o campo antipetista. Em 2008, Kassab elegeu-se vencendo forças tradicionais da cidade. Na condição de vice-prefeito que assumiu o cargo numa gestão tucana, ele unificou os eleitores conservadores, mas depois desapareceu do cenário eleitoral. 

Em 2012, a direita popular foi representada por Celso Russomano. Ele começou sua vida profissional no governo Maluf em 1980; aderiu à onda democrática e se filiou ao PFL e PSDB, mas voltou a ser malufista e atuou no PP de 1997 a 2011. Apesar de ter rompido com Maluf, ele pode ser considerado o herdeiro de sua tradição política pela forma sensacionalista como interpelou os eleitores. Muitos anos antes da ascensão do bolsonarismo, Russomano cultivou valores militares e fez curso para civis na Escola Superior de Guerra, mas sua notoriedade adveio da carreira televisiva, cujo ponto marcante foi a filmagem da morte da própria mulher por falta de atendimento médico. A partir dali, abraçou a defesa do consumidor e prosseguiu em reportagens apelativas, cobertura de bailes carnavalescos e colunismo social. O combate à corrupção foi deixado de lado porque ao longo dos anos ele sofreu várias acusações de exercício ilegal da advocacia, peculato, destinação de verba pública a familiares e associação com bicheiros. Apesar da exploração sexual de seus programas noturnos na TV, ele se aliou aos evangélicos do PSC em 2016.

De 2012 a 2020, Russomano candidatou-se pelos Republicanos e teve candidatos a vice do PTB, uma espécie de sublegenda do poder que oscilou entre aliança com a direita, a promoção da família Campos Machado (cuja origem é janista) e o apoio ao governo de plantão. Russomano chegou a liderar as pesquisas em 2012 e 2016, caiu e terminou em terceiro lugar. Em 2020 novamente assumiu a liderança nas enquetes eleitorais, agora defendendo o governo Bolsonaro e a ditadura militar. Não sabemos se basta essa pregação sectária para que ele tenha outra sorte em 2020, pois precisa impedir a esquerda de crescer na periferia.

 

Ressurreição?

O bolsonarismo teve sua gênese no Rio de Janeiro, estado que não gerou nenhum político nacional durante a chamada Nova República. Bolsonaro foi o primeiro, mas em São Paulo ainda nenhum candidato conseguiu representá-lo.

Ademais, o programa de governo de Russomano não é como seu discurso, copia práticas já existentes e cita olheiros de futebol, parceria com Hollywood e concursos de decoração; e, embora preveja um papel motivacional para as igrejas, não propõe uma guerra cultural. Covas é mais enfático no combate à discriminação racial e de gênero, embora evite citar a população LGBT.

O bolsonarismo tem diferenças com a direita popular: é mais “ideológico” e mobilizador, enquanto ela é essencialmente pragmática. O PSDB defendeu o bolsonarismo em 2018, mas o prefeito Covas advoga a “democracia neoliberal”. 

A direita popular está numa encruzilhada: confirmará sua decadência ou ocupará o lugar da esquerda na polarização eleitoral? Desde 1988, as direitas se revezaram na disputa com o PT. A resposta depende de saber se ainda estamos na maré montante do antipetismo.

 

*Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial, Cotia-SP, 2011).

 

 



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