A dOCUMENTA 13: uma experiência para ser vivida - Le Monde Diplomatique

ARTE CONTEMPORANÊA

A dOCUMENTA 13: uma experiência para ser vivida

por Vitoria Daniela Bousso
17 de agosto de 2012
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Um dos maiores eventos da arte contemporânea do mundo aborda as diferentes temporalidades em que vivem diversos povos no planeta terra – e que agora provocam pensadores, historiadores, filósofos, curadores e artistasVitoria Daniela Bousso

(“Leaves Of Grass, 2012”, obra do artista Geoffrey Farmer exposta no dOCUMENTA 13, Kassel, Alemanha)

As artes visuais hoje atravessam uma sucessão de mudanças. Os suportes tem evoluído na velocidade em que avançam as pesquisas no campo da conectividade e da ciência, oferecendo uma vasta gama de possibilidades e diferentes alternativas  de materiais para a construção de obras de arte.

Podemos falar da incidência do design em intersecção com a arte e dos futuros possíveis da museologia, com o avanço dos processos de visualização de dados. E também de  novas arquiteturas, dos projetos de construção de novos museus, como o do Museu de arte contemporânea de Guadalajara, do arquiteto egípcio -novaiorquino Hani  Rashid.

Nas artes, a hibridação decorrente da convergência dos meios como o cinema, vídeo e instalação, resulta em ambientes virtuais como caves, transcinemas ou cinema expandido; animações e videoinstalações  somam-se  às ações performáticas dos VJs e dos DJs; as possibilidades de transformação da paisagem  se  expandiram com o mapping e a fotografia digital, capaz de criar novos mundos metafóricos. E como não falar de recentes estudos sobre a gameficação na arte, dos processos generativos, de mídias locativas?

E, ainda, o que dizer dos experimentos de  arte e ciências, com as nanotecnologias  e do futuro da net ou web art, com a incidência e a pletora dos meios computacionais para a arte?

O que vemos na atual Documenta de Kassel (uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo) – ainda está longe de todas estas pesquisas científicas – são diferentes temporalidades em que vivem diversos povos no planeta terra e agora provocam pensadores, historiadores, filósofos, curadores e artistas contemporâneos. Os contextos e poéticas que lá circulam apelam à dimensões mais humanísitcas , que parecem levar  em conta não somente  o sistema das artes da cultura Western – do mundo ocidental – mas, também, os diferentes estágios culturais em que se encontram outras parcelas da humanidade.

Estas outras instâncias da produção artística concernem aos povos do oriente médio, do mundo árabe, aos africanos, às populações indígenas e demais povos que vivem isolados. Enfim, à diversidade cultural que – a partir de 1997, na Documenta X, realizada por Catherine David – convive no campo das artes visuais. Ainda que não estejam integradas ao tradicional sistema das artes, estas tem seu lugar assegurado em um circuito internacional de curadorias, como o das bienais e documentas.

Se de um lado alguns destes povos encontram-se em um estágio inicial de conquista da técnica para a produção de obras de arte; e se para parte destes as novas tecnologias apenas estão disponíveis para o suprimento da indústria bélica em seus contextos; de um outro lado, os artistas contemporâneos das culturas non-western – pelo menos as que orbitam ao redor do mundo árabe e da África – tem desejos próprios. Seus posicionamentos miram a circulação de suas obras e a discussão e o debate sobre artes no seu próprio meio, sem a preocupação de equivalência à tradição modernista da cultura do mundo ocidental.

Na cultura Western, o foco da arte contemporânea incide, ainda, sobre as reverberações filosóficas do projeto modernista. As pesquisas e a sofisticação de suportes, que evoluem mais e mais com o desenvolvimento das novas tecnologias incorporam – se naturalmente à poética destes artistas, mas, de outro lado, o foco de questões centrais em suas obras tem passado por mudanças.

Uma delas aponta para uma vertente que visa à fusão entre técnica, tecnologia e conhecimento e aprendizagem com as culturas não ocidentais, e implica, por vezes, em incursões  por experiências de reciclagem que observam rituais de povos indígenas e de outras culturas, em residências artísticas ou anos sabáticos.

Uma espécie de novo existencialismo parece emergir na arte, para somar-se aos ecos do Dadaísmo e do Surrealismo. E as vanguardas artísticas, que sucederam o segundo pós- guerra, reverberam e  consagram espaço à performance, às artes do corpo associadas ao audiovisual , às estéticas relacionais.

Na dOCUMENTA(13), as obras da dupla Cardiff and Miller,  que envolvem realidade aumentada e áudio  convivem com as de de Pierre Huyghe ou de Ana Maiolino.

Interessante notar a versatilidade de Pierre Huyghe neste contexto. Suas obras, muitas vezes realizadas a partir do uso de dispositivos tecnológicos fazem uso de audiovisual com animações e programação numérica. No parque Karlsaue, no entanto, o artista apresenta uma obra totalmente diferente em relação aos seus procedimentos usuais. Podemos arriscar dizer que a instalação apresentada nesta dOCUMENTA( 13) tangencia mais precisamente a Arte Povera.

O artista revolveu a terra toda ordenada do parque Karlsaue e coletou mudas de diferentes plantas, entre elas as consideradas ilícitas, tais como a Marijuana, o Ópio e a Cocaína, as quais plantou no terreno do parque. A estas plantas, somam-se o empilhamento de pedras brancas e uma escultura clássica, acadêmica mesmo, ao modo do sec XIX: um corpo feminino estendido,  cuja cabeça é circundada por uma colmeia repleta de abelhas.

Na instalação, ainda, habita um cão perdigueiro, solto, que ronda o ambiente. Eis um exemplo da influência do Surrealismo na arte contemporânea. Uma espécie de “retorno”, como diria Agambem, uma deambulação que ao invés de caminhar para frente resulta em um passo suspenso, aonde as coisas parecem fora de lugar por meio de um non-sense.

Neste aparente movimento de olhar para trás, o artista desloca a cronologia em busca de uma temporalidade outra, para dar lugar àquilo que sempre esteve fora de lugar, mas hoje nos escapa: o profano e o  interdito manifestam -se por uma opção de construir a linguagem a partir da presença de entes viventes, os quais , em sua condição povera, parecem querer se  opor a algo extremo, inapreensível. Algo da ordem do intangível, como se o artista quisesse interceptar e propor regulação a uma espécie de potência destrambelhada.

Huyghe apreende o seu tempo e consegue entrever as suas brumas de maneira surpreendente. E ao suspender o tempo, em prol dos processos de subjetivação, é como se quisesse reagir a uma espécie de cegueira, para entrever luzes no escuro.

A obra da brasileira Ana Maiolino apreende a atenção do espectador num movimento de “retorno” e apreensão do tempo similar ao de Huyghe. Ao ocupar a casa de um antigo funcionário do mesmo parque, centenas de rolos artesanais, confeccionados em argila, ocupam todo o ambiente. Mais uma vez o non-sense – na distribuição dos rolos sobre a cama, sofás, cadeiras, mesas, cozinha, banheiro – evoca a presença do Surrealismo na arte contemporânea.

Nas palavras de Benjamin, “O índice histórico contido nas imagens do passado mostra que elas terão legibilidade somente num determinado momento da história”. Maiolino, em sua sabedoria, nos mostra o ponto de inflexão: para além das formas arquetipais, ela instala uma sonoridade mítica e remete às matas, como incansável compromisso ao qual não pode faltar, entre o excesso e a repetição da forma. E nos revela, tal um mantra infinito e pontual em seu compromisso de irradiar o arcaico, um desejo de juntar as partes de um tempo cindido em descontinuidades.

A sucessão de guerras que vêm ocorrendo entre os séculos XX e XXI e a aceleração desenfreada do mundo globalizado talvez tenha contribuído para caracterizar a noção de fratura e cisão com a qual lidamos em tempo atual.

A sensação de continuidade e descontinuidade é também presente na obra de Janet Cardiff e Georges Müller na  dOCUMENTA (13). A experiência sensível é muito forte na obra “Alter Banhoff Video Walk”. Os artistas convidam o público para uma caminhada leve na antiga estação e o conclama a interagir com a obra.

De saída, propõem uma forma não tradicional de acionamento da percepção. Distribuem um par de fones de ouvido e um IPod  aos participantes. Ao colocarem os fones de áudio, os participantes ouvem a voz de Janet que faz as primeiras orientações do percurso. Ao som de sua voz, caminha-se dentro da estação e o IPod vai emitindo imagens criadas pela dupla, ao mesmo tempo em que o áudio dispara distintas sonoridades, que mesclam sons musicais aos ruídos de chegada de trens, ou de carregamentos feitos na estação; prossegue-se acompanhando as imagens e sons.

O som que se ouve, na verdade, é um chamamento à atenção para aquilo que está ao  redor, ao espaço e à sua escala. Na apreensão do todo, a desconexão entre tempo presente real e passado recente imediato se entrelaçam em nossa memória. De alguma forma, talvez pela escolha do lugar, o peso da história envolve o expectador; afinal a obra está em uma antiga estação de trem, na cidade de Kassel, palco de guerras e destruição durante a segunda guerra mundial.

O que se ouve pelo áudio de alguma forma parece se materializar, então em tempo real, diante dos olhos do público, quando este se depara com os passantes da estação. Realidade e ficção se mesclam, deixando os expectadores atônitos. O paradoxo ocorre pelos não limites entre poesia, ação corporal, sonoridade, percepção visual e, sobretudo, porque o que se apresentava antes como o distante, o desconexo, então aparenta integrar o mundo real. Onde está o ponto de inflexão, de que lugar se vive e se vê isto tudo?  O ponto de vista da história provavelmente seria insuficiente para  respostas.

A noção de tragédia social e histórica resulta em fio condutor na dOCUMENTA(13). Há uma urgência em recusar o atual estado das coisas e, pelas vias da arte, propor espaços de expressão que parecem, loucamente, querer retomar as utopias perdidas do maio de 1968. Um dia John Lennon declarou: “O sonho acabou” e seguimos meio que anestesiados pela vida afora, entre o inconformismo e o conformismo, nós e também a arte, por meio século. E se o sonho de fato não tivesse acabado, mas apenas adormecido, e então?

A dOCUMENTA (13) configura um mosaico pluridisciplinar;  ela não é apenas uma exposição de artes visuais mas expande-se para a música, as interfaces entre as artes cênicas e do corpo, para o cinema, para a filosofia e para a ciência. Para desvendar as suas diferentes facetas é preciso estar disposto a ver e encontrar a arte. É necessário preparo físico e tempo para realmente perceber e aproveitar a exposição, que se desdobra em camadas.

Difícil compreendê-la em toda a sua complexidade sem o tempo necessário à reflexão. É uma exposição para se ver junto a outros: amigos, namorados, colegas de trabalho, há muito para trocar. O desafio de juntar as partes desta aparente “confusão” parece parte da estratégia da curadoria por uma desaceleração do tempo.

No convívio entre as obras presentes na dOCUMENTA (13), uma coisa parece estar clara: a nítida intenção na proposta da curadoria em desmontar alguns jargões que constituíram o estatuto da arte nos últimos tempos: a noção de qualidade, o projeto apriorístico, o embate entre formalismo e não formalismo, harmonia, diálogo e conversa entre obras, suportes. Há poucas obras realizadas a partir de dispositivos tecnológicos e nota-se, sobretudo, a ausência da fotografia. Há poucas fotos e, quando estão, apresentam-se em pequenos formatos, como para convocar o espectador a contemplar aproximando-se, mais de perto.

Nesta edição dOCUMENTA(13) tudo convive, ainda que nem sempre em harmonia, mas tudo está exposto imantando a vida e talvez daí surjam as analogias com o Surrealismo.  Esta relação decorre das fugas de memória entre espaços e obras no percurso da mostra. São desconexões entre o real e o atual. Quando juntamos as partes do todo e o quebra-cabeça parece estar montado, reside em nós, ainda, a sensação de incompletude e nonsense. Ao final do percurso, ainda que com a sensação de estranhamento, a impressão que fica é a de se estar vivo.

Ao colocar em pauta questões como: colapso da destruição, poder, contestação política, a perspectiva ecológica no planeta, o trabalho artístico coletivo, os arquivos e a transformação digital, as ciências, a física, a construção e a reconstrução do “self”, o conhecimento como investimento e a possibilidade de negociação, a experiência fenomenológica e a importância da percepção, entre algumas de suas camadas, a dOCUMENTA(13) cumpre um belo papel no âmbito da cultura e da arte contemporânea.

Vitoria Daniela Bousso é Crítica de Artes Visuais e curadora.



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