A duplicidade de Mario Vargas Llosa - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

A duplicidade de Mario Vargas Llosa

por Ignacio Ramonet
1 de novembro de 2010
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Agitador ultraliberal, presidente da Fundação Internacional pela Liberdade, ganhador dos prêmios Irving Kristol e Nobel, Mario Vargas Llosa é um neoconservador profissional. Antes de esquerda, em 2003 ele apoiou a invasão do Iraque pelos EUA e em junho de 2009, quis justificar o golpe de Estado em HondurasIgnacio Ramonet

O novo romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, será lançado oportunamente nas livrarias dos países de língua espanhola em 3 de novembro. Seu título: El sueño del celta (O sonho do celta). Seu herói: Roger Casement, um personagem (real) excepcional. Cônsul britânico na África, ele foi o primeiro a denunciar, desde 1908, as atrocidades do colonialismo de extermínio – 10 milhões de mortes – praticadas no Congo por Léopold II, o rei belga que tinha feito do país e de sua população sua propriedade privada. Em outro relatório, Casement revelou a abominável angústia dos índios da Amazônia peruana.

Pioneiro da defesa dos direitos humanos, Casement, nascido perto de Dublin, se engajou nas fileiras do movimento independentista irlandês. Em plena Primeira Guerra Mundial, partindo do princípio de que “as dificuldades da Inglaterra são uma oportunidade para a Irlanda”, ele buscou a aliança da Alemanha para lutar contra os britânicos. Foi considerado culpado de alta traição. As autoridades acusaram-no também de “práticas homossexuais”, com base em um suposto diário íntimo, cuja autenticidade é contestada. Acabou enforcado em 3 de agosto de 1916.

Como o romance não está ainda disponível, não dá para saber como Vargas Llosa construiu sua arquitetura. Mas podemos confiar nele. Nenhum outro romancista de língua espanhola possui a arte de cativar o leitor, de pescá-lo desde as primeiras linhas e mergulhá-lo nas tramas de tirar o fôlego, nas quais as intrigas sucedem-se, cheias de paixão, humor, crueldade e erotismo.

Este romance já tem um mérito: o de tirar do esquecimento Roger Casement, “um dos primeiros europeus a ter uma ideia muito clara da natureza do colonialismo e suas abominações”. Ideia com a qual o escritor peruano (que é, no entanto, hostil aos movimentos indígenas na América Latina) partilha: “Nenhuma barbárie é comparável ao colonialismo. A África jamais pôde se recuperar de suas sequelas. A colonização não deixou nada de positivo”, afirmou o escritor em um debate sobre as pretensas “vantagens” da colonização.

Essa não é a primeira vez que Vargas Llosa se inspira em personagens históricos para denunciar injustiças. Ele se destaca quando mistura as técnicas do romance histórico às do romance social e do realista – e talvez até do romance policial. E ele pôde demonstrá-lo de maneira brilhante em duas de suas obras mais bem acabadas: A guerra do fim do mundo, fabulosa história da revolta de Canudos e da comunidade de Antonio Conselheiro. E A festa do bode, que traça, numa opulenta construção, as trevas da ditadura do general Trujillo (1930-1961), na República Dominicana.

A história – contemporânea – é igualmente tema do romance considerado como sua obra-prima: Conversa na catedral (1969), uma descrição magistral do Peru do general Odria (1948-1956), da realidade latino-americana dos anos 1950 e dos enigmas da condição humana. Uma obra que corresponde aos argumentos do júri do Nobel para explicar sua atribuição do prêmio deste ano: “Por sua cartografia das estruturas do poder e suas representações incisivas da resistência, da revolta e da derrota do indivíduo”.

Na época em que escreveu esse livro, Vargas Llosa morava em Paris e fazia parte de uma geração de talentosos jovens escritores – Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Carlos Fuentes – que iriam renovar a literatura latino-americana. Todos eram de esquerda. E todos simpatizavam com as guerrilhas. Em um manifesto de apoio aos guerrilheiros peruanos, Vargas Llosa afirmou, na época, que para mudar as coisas “a única saída é a luta armada”.

Ele mostrou a mesma solidariedade sobre a Revolução Cubana: “Em 10, 20 ou 50 anos, a hora da justiça social vai soar como soa em Cuba, e a América Latina inteira será emancipada do império que a pilhou, das castas que a exploraram, das forças que atualmente a insultam e a reprimem. Eu quero que esse momento chegue o mais rápido possível e que a América Latina tenha acesso à dignidade e à via moderna, que o socialismo nos liberte de nosso anacronismo e do nosso horror”.

E depois, no começo dos anos 1970, esse revolucionário é intelectualmente estilhaçado pela leitura de: O caminho da servidão (1974), de Friedrich Hayek e A sociedade aberta e seus inimigos (1945), de Karl Popper. Este, sobretudo, o transfigura: “Considero Karl Popper como o pensador mais importante do nosso tempo. Se me perguntassem qual é o livro de filosofia mais importante do século, eu não hesitaria mais de um segundo para escolher A sociedade aberta e seus inimigos”, disse o romancista.

Concretamente, ele deixou de apoiar a Revolução Cubana, renegou seu passado de “intelectual de esquerda” e, com o zelo de convertido, se transformou em um propagandista determinado da fé neoliberal. Seus novos heróis se chamam Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Sobre ela, ele confessou ter uma “admiração sem reservas, uma reverência quase tão grande quanto a de um filho, e que nunca demonstrei a respeito de nenhum outro líder político vivo”.

Thatcheriano será também o programa que ele propõe aos eleitores, quando da sua candidatura à presidência do Peru, em 1990. Mas ele será duramente derrotado por Alberto Fujimori. Frustrado pela ingratidão de seus compatriotas, ele se expatria definitivamente e, até mesmo, renuncia à sua nacionalidade sob o pretexto de que os peruanos não o merecem.

Ele leva, então, sua admiração para outro líder: José Maria Aznar, chefe do governo espanhol entre 1996 e 2004, aliado do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, durante a invasão ao Iraque e hoje funcionário do megaempresário das comunicações Rupert Murdoch, do grupo News Corporation. Um político que a revista americana Foreign Policy acaba de classificar entre os “cinco piores ex-dirigentes do mundo”, mas que Vargas Llosa pensa que “os historiadores do futuro” vão reconhecer “como um dos maiores estadistas da história”.

Ele admira também a “personalidade carismática” de Nicolas Sarkozy e o “talento político excepcional” de Silvio Berlusconi. Esse gigante da literatura é um homem, definitivamente, com dupla personalidade. A máscara sedutora de seus romances dissimula um militante fervoroso que, há quase 40 anos, dedica a maior parte de seu tempo a fazer intervenções na mídia e pregando em congressos do mundo todo – repetindo com insistência quase fanática os princípios elementares de sua ideologia.

Agitador ultraliberal, membro ativo da Comissão Trilateral, presidente da Fundação Internacional pela Liberdade, ganhador do prêmio Irving Kristol, concedido pelo American Enterprise Institute, Vargas Llosa é um neoconservador profissional. Ele apoiou a invasão do Iraque, em 2003, e deu justificativas para o golpe de Estado em Honduras, em junho de 2009.

Em 7 de outubro de 2010, o ensaísta reaganiano francês Guy Sorman, observou em seu blog: “Muitas vezes, nós nos encontramos na mesma situação na América Latina, onde Mario é um militante que seria qualificado na França como ultraliberal: ele não para de combater Castro, Morales, Chávez, Kirchner e todo programa por menos social-democrata que seja”.

Vargas Llosa também quis lembrar que recebeu o Prêmio Nobel tanto por suas ideias quanto por suas qualidades de escritor: “Se minhas opiniões políticas (…) foram levadas em conta no momento certo, eu fico feliz”.

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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