A educação dos consensos via mídia-partido - Le Monde Diplomatique

ESPAÇO PRIVILEGIADO DA HEGEMONIA

A educação dos consensos via mídia-partido

por Carlos Eduardo Rebuá
9 de agosto de 2013
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A grande mídia, partido político das elites, desempenha nas sociedades contemporâneas um papel privilegiado de “educadora”, forjando consensos e hegemonizando sentidos, no intuito de preservar seu status quoCarlos Eduardo Rebuá

“Na realidade

Pouca verdade

Tem no cordel da história

No meio da linha

Quem escrevinha

Muda o que lhe convém

(…)

A verdade é que no bucho

De toda mentira

Verdade têm”.

Chico Buarque e Edu Lobo

(Verdadeira Embolada)

 

Antonio Gramsci (1891-1937) notabilizou-se como um dos mais importantes e criativos intérpretes da obra de Karl Marx, renovando profundamente a teoria marxiana e dialogando em seus escritos diretamente com Vladimir Lênin, sobretudo no que se refere aos temas da revolução proletária, do papel do partido revolucionário e da caracterização do Estado.

Marxistas e críticos do marxismo convergem num ponto ao analisar a produção do filósofo sardo, produzida sobretudo nos cárceres do fascismo italiano de Mussolini: seu conceito mais fundamental é o de hegemonia. Entendida como liderança cultural e ideológica de uma classe sobre as demais, a hegemonia compreende disputas de sentido e embates de visões de mundo, assim como mediações de força (num “equilíbrio instável”)[1] em contextos históricos específicos (Moraes, 2009, p.35).

A sociedade civil, arena privilegiada da luta de classes e terreno sobre o qual se dá a luta pelo poder ideológico, representa outro elemento significativo do pensamento de Gramsci. Entendendo a sociedade civil como um momento constitutivo do Estado (como um “Estado ampliado”, em oposição à concepção de Karl Marx e Friedrich Engels de “Estado restrito”), assim como a sociedade política (aparato político-jurídico – o “espaço da coerção”), o pensador marxista defende que a sociedade civil é composta pelo que chamou de “aparelhos privados de hegemonia” (igrejas, escolas, sindicatos, partidos, meios de comunicação etc.), afirmando-se como o “espaço da hegemonia”, do consenso. Seu pensamento dialético permitiu a Gramsci compreender que na orquestração do consenso ideológico[2] pela classe hegemônica, força e consenso (poder + hegemonia) atuam juntos, ainda que nem sempre com a mesma “intensidade” e “espaço-temporalidade”.

Outros dois elementos discutidos à exaustão e “ampliados” por Gramsci em suas elaborações teóricas são o partido político (chamado por ele de “moderno Príncipe”)[3] e o intelectual, que dialeticamente se relacionam, uma vez que o partido atuaria como um “intelectual coletivo”[4] e o intelectual reuniria em si funções semelhantes às de um partido político (Coutinho, 2007, p.175).

Os intelectuais (divididos por Gramsci em orgânicos e tradicionais) não são as classes propriamente ditas, mas grupos que se vinculam às distintas classes e que representam a hegemonia, construindo o consenso ideológico e soldando estrutura e superestrutura. Os intelectuais são, ao mesmo tempo, dirigentes, sábios, organizadores e “educadores”, sendo essa última característica um dos focos da presente discussão.

O partido, educador permanente, é quem organiza, conscientiza, educa os indivíduos; é quem coletivamente realiza a síntese, a mediação entre movimento de massa e direção. Sendo o organismo intelectual por excelência, o moderno Príncipe é quem cria uma nova vontade política, objetivando sempre transformar cada indivíduo em dirigente, funcionando como um amálgama do bloco histórico e sendo sempre o reflexo da classe social onde atua.

Segundo Gramsci, em uma de suas contribuições teórico-políticas mais originais, um organismo específico da sociedade civil pode assumir a função de partido político das elites: a mídia. Nos Cadernos, defende que a imprensa (principal meio de comunicação à sua época) era a parte mais dinâmica do arcabouço ideológico das elites, do bloco hegemônico (Moraes, 2009, p.42). Contudo, é impossível compreender a noção da mídia como partido político se ao desbravar a obra de Gramsci não se apreende o significado dos já citados “aparelhos privados de hegemonia (aph’s)”, peça-chave dentro de sua teoria ampliada do Estado. Para Coutinho, os aph’s são “organizações materiais que compõem a sociedade civil”, são “organismos sociais coletivos voluntários e relativamente autônomos” em relação à sociedade política (cujos organismos sociais são os chamados aparelhos repressivos de Estado – o aparato policial-militar e a burocracia executiva) (Coutinho, 2007, p.129).

Moraes, alicerçado em Coutinho e complementando a discussão, afirma que “tais aparelhos são os agentes fundamentais da hegemonia, os portadores materiais das ideologias que buscam sedimentar apoios na sociedade civil”. E salienta, pensando na contra-hegemonia: “o aparelho de hegemonia não está ao alcance apenas da classe dominante que exerce a hegemonia, como também das classes subalternas que desejam conquistá-la” (Moraes, 2009, p.40).

Gramsci defende, ao analisar a hegemonia, sobretudo nos Cadernos, que a resposta para a direção política que o Estado exerce na sociedade não deve ser buscada na esfera pública (instituições governamentais e oficiais), mas nos vários organismos “privados” que controlam/dirigem a sociedade civil.

Em poucas palavras, apreende-se o conceito gramsciano do Estado como o somatório dialético da sociedade política com a civil, ou seja, hegemonia revestida de coerção, força e consenso, “administrados” de maneira magistral pelo establishment burguês. Para Gramsci, a força nunca pode predominar demais sobre o consenso e deve se apoiar na aprovação da maioria, expressa por intermédio dos canais[5] de opinião pública, onde se destacam os meios de comunicação.

Para analisar a questão da “educação” realizada pelos organismos midiáticos, é imprescindível entender que para Gramsci, assim como toda relação de hegemonia é necessariamente pedagógica, toda relação pedagógica tem uma natureza hegemônica.

Partindo dessa noção, o filósofo e educador gramsciano Antonio Tavares de Jesus, em sua obra Educação e hegemonia no pensamento de Antonio Gramsci,contribui de maneira decisiva para a compreensão dessa dialética entre relação pedagógica e hegemonia, uma vez que se esforça na compreensão da teoria gramsciana da rducação em sua totalidade. Para ele, “a partir do momento em que se aceita o conceito de hegemonia como relação, concorda-se com Gramsci que a supremacia de um grupo social se manifesta como dominação e consenso, aceitando-se, portanto, a reciprocidade entre relações hegemônicas e pedagógicas, onde cada elemento, quando dominante, implica o outro como subalterno”(Jesus, 1989, p.60).

Para além do entendimento da hegemonia como uma relação, Gramsci compreendia e deixou claro na grande maioria de seus escritos, que a hegemonia significa direção[6] moral e intelectual e que a passagem de um estado de superstição e folclore para um estado histórico-crítico deveria ocorrer a partir de uma nova cultura, adaptada às exigências da nova classe. Os agentes dessas mudanças seriam os intelectuais (enquanto educadores) e o partido (intelectual coletivo). Ora, “direção moral e intelectual” e “cultura”, confirmam a natureza pedagógica das relações hegemônicas, pois somente uma ação pedagógica eficiente e integral permite a dominação simbólica (que reforça a dominação material) tanto numa perspectiva hegemônica quanto em uma perspectiva contra-hegemônica. “Não se podendo pensar em hegemonia sem o concurso do intelectual, tem-se confirmada a natureza pedagógica das relações hegemônicas”, defende Jesus (1989, p.73).

Na sociedade capitalista a conquista do consenso se dá por meio de agentes e instituições pedagógicas, como por exemplo a escola, os intelectuais e o partido político (entendido como intelectual coletivo). Tanto a hegemonia quanto a contra-hegemonia exigem uma “pedagogia” que mantenha/reforme a relação total de poder, conforme as condições histórico-sociais.

O pensamento dialético e renovador de Gramsci afirma a identidade entre filosofia, história e política, frisando que toda atividade política compreende, simultaneamente, uma dimensão histórica, ideológica, cultural e “pedagógica”. Por isso, “todas as relações hegemônicas, quer enquanto dominação, quer enquanto direção, são organicamente pedagógicas por seus objetivos, exigências e consequências que se seguem à sua atuação (cultural e ideológica)”. Dessa forma, compreende-se que “ser hegemônico é também ‘educar’, ter a hegemonia ou buscá-la, não é somente ter ou buscar fins econômicos e políticos, mas também intelectuais e morais.”(Jesus, 1989, p.60)

A apresentação dos conceitos de intelectual (que devem ser sábios, educadores, dirigentes, conforme dito anteriormente) e partido em Gramsci se fez necessária uma vez que, para o autor dos Cadernos, um e outro elemento têm funções essencialmente hegemônicas, assumindo por isso tarefas importantes na “direção cultural, moral e intelectual” da sociedade, confirmando assim a identidade entre relações pedagógicas e relações hegemônicas. Em relação à cultura, para Gramsci toda hegemonia é precedida por um intenso trabalho de penetração cultural, sendo possível conquistar a hegemonia (sociedade civil) antes mesmo da tomada do poder institucional (sociedade política).

Partindo desse pressuposto (hegemonia como relação pedagógica), é possível argumentar que a grande mídia, partido político das elites, ou na acepção togliattiana, “intelectual coletivo” dos grupos dominantes, desempenha nas sociedades contemporâneas um papel privilegiado de “educadora”, forjando consensos[7] e hegemonizando sentidos, no intuito de preservar seu status quo.

Se exercem uma liderança política e ideológica (hegemonia) na sociedade civil, os meios de comunicação ocupam lugar central na luta de classes, sobretudo em países como o Brasil, onde os partidos políticos não têm a mesma capilaridade social, onde a política é muito individualizada (vota-se na pessoa e não no partido), deixando uma “lacuna” de representatividade muito bem ocupada pela mídia.[8]

Ao se estudar criticamente a obra de Gramsci, infere-se que seu conceito de hegemonia, porque amplo e dialético, compreende a educação como dimensão fundamental da realidade histórico-social contemporânea, conferindo à ação pedagógica um lugar de destaque nos esforços por uma pujante reforma intelectual e moral. A educação é parte integrante do processo político ou hegemônico, sendo trincheira no processo de construção de novos sentidos, caminhos, possibilidades. Todo projeto hegemônico pressupõe a força, mas principalmente o consenso, que exige para sua consecução um trabalho pedagógico de direção. Como afirma Jesus, “o homem é um ser prático que se autoeduca e se autorreconhece à medida que constrói e, construindo, adquire conhecimentos. A conscientização mais profunda da vontade humana dentro do processo histórico era, em última análise, o que interessava a Gramsci. Nada, por natureza, mais pedagógico e, portanto, mais orgânico à hegemonia” (1989, p.83).

Entender a grande mídia como espaço privilegiado da hegemonia do capital, como instrumento privado de dominação ideológica e cultural e como singular “educadora” do senso comum é avanço significativo no front da imperiosa guerra de posição contra esse sistema, que nas palavras de Eduardo Galeano, “reduz as relações humanas ao mútuo uso e ao mútuo medo”.

Carlos Eduardo Rebuá é Historiador/professor de História e doutorando em Educação pela UFF.



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