A esperança misturada a uma preocupação surda - Le Monde Diplomatique

LUTAS PELO PODER NO APARELHO DE ESTADO GREGO

A esperança misturada a uma preocupação surda

por Thierry Vincent
4 de fevereiro de 2015
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O avanço das forças progressistas nas eleições gregas perturba um aparelho de Estado controlado há quarenta anos por duas famílias políticas. Enquanto as dificuldades trazidas pela austeridade levaram grande parte dos funcionários públicos a optar pela coalizão de esquerda Syriza, redes extremistas organizam-se em tornThierry Vincent

Rena Dourou saúda calorosamente cada funcionário da administração do setor norte de Atenas. Nos escritórios do edifício sem alma, neste inverno particularmente rigoroso, faz um frio glacial. “A falta de aquecimento também é parte da crise e da austeridade”, explica a governadora da Ática, região mais povoada da Grécia, que abriga quase metade da população do país. Com 39 anos, Dourou foi eleita em maio de 2014 nas eleições regionais que, aqui, deram a vitória ao Syriza, coalizão da esquerda radical que se opõe às políticas ditadas pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). Mas ela confessa certo pessimismo: “O governo nos recebe a cacetadas na rua. Aplicar nosso programa é difícil”.

Dourou assumiu o cargo em 1o de setembro. Poucos dias depois, o serviço financeiro pediu que ela assinasse com urgência o projeto de orçamento elaborado pelo antecessor, membro do partido conservador Nova Democracia. “Eu me recusei. Fui eleita para aplicar a minha política e um orçamento favorável aos mais pobres”, explica. Apesar da pressão, acabou conseguindo impor suas prioridades. A subvenção de 27 milhões de euros prevista para renovar dois estádios de futebol pertencentes a magnatas da construção foi cancelada. Em vez disso, conta Dourou, “aprovamos um financiamento de 28 milhões de euros para obras contra enchentes e uma série de ações sociais, como o fornecimento de energia elétrica a famílias com pagamento em atraso”.

Aprovada em 2010, a Lei Kallikratis coloca as decisões regionais sob o controle de uma estrutura do Estado central, a Direção de Assuntos Descentralizados. Dirigida por um ex-deputado europeu da Nova Democracia, Manolis Angelaka, o órgão se recusou a validar a contratação de 139 funcionários pedida pelo novo Executivo da Ática. “No entanto, são postos necessários ao funcionamento da região”, sustenta Dourou. Como prova, a governadora mostra o gabinete da Secretaria de Educação: desesperadamente vazio. “O governo quer desacreditar nosso partido”, afirma. “É por isso que a vitória do Syriza [nas eleições legislativas de 25 de janeiro de 2015] é essencial para uma verdadeira mudança.”

Periferia de Atenas, primeiro sábado de janeiro. O ginásio de tae kwon do, instalação soberba construída para os Jogos Olímpicos de 2004, normalmente deserto, está lotado. Duas mil pessoas recebem com grande entusiasmo o líder do Syriza, Alexis Tsipras. “Chegou a hora da esquerda”, entoa um grupo de funcionárias da limpeza demitidas do Ministério da Economia, de punhos fechados e luvas vermelhas, símbolo de seus dezesseis meses de luta. Após uma hora de discurso inflamado, prometendo fim da austeridade, salário mínimo bruto de 751 euros (contra 586 euros hoje e 520 para os menores de 25 anos) e isenção de impostos para os mais pobres (aqueles com rendimentos abaixo de 12 mil euros por ano), Tsipras deixa o palco sob aplausos. A esperança, porém, parece misturada a uma preocupação surda.

 

Democracia parlamentar, a ponta do iceberg

Isso porque, na Grécia, há o visível e o oculto. A ponta do iceberg é uma democracia parlamentar clássica, estabelecida após a queda da ditadura militar de extrema direita em 1974. O aumento das intenções de voto para o Syriza permite vislumbrar um período de alternância política, num contexto de profunda crise econômica, com o PIB do país caindo 24% desde 2008. Por trás dessas aparências, porém, há algo menos confessável: um país que há seis décadas é governado quase ininterruptamente por duas famílias. À direita, os Karamanlis, conservadores; à esquerda, os Papandreou, socialistas. Gerações de líderes de governo: tio e sobrinho, no primeiro caso; avô, pai e neto, no segundo. Nesse sistema clientelista, a compra de votos e o loteamento de empregos públicos assumem o posto de estratégia política.

O último episódio de corrupção política envolve a eleição presidencial.1 Em 18 de dezembro, Pavlos Haikalis, antiga estrela de televisão que se tornou deputado pelo partido nacionalista de direita Anel (Gregos Independentes), disse ter recebido uma oferta de 3 milhões de euros em troca de seu voto para Stavros Dimas, candidato da coalizão no poder que precisava de pelo menos 180 votos (entre 300 deputados) para ser eleito e assim evitar a organização de eleições legislativas antecipadas. O suborno teria partido de Giorgios Apostolopoulos, ex-assessor dos primeiros-ministros Giorgios Papandreou (2009-2011) e Antonis Samaras. Homem da TV, Haikalis filmou a cena com uma câmera escondida e colocou as imagens na internet. O resultado? A justiça recusou-se a instaurar qualquer processo, alegando que as provas foram coletadas ilegalmente. O primeiro-ministro Samaras, inclusive, abriu uma queixa por difamação, e o presumível corruptor está protegido, enquanto o denunciante responde a acusações…

 

“Isso lembra a estratégia da tensão”

No coração das instituições esconde-se também aquilo que os gregos chamam de parakratos: “para-Estado” ou “Estado subterrâneo”, ou seja, uma rede informal herdada da Guerra Fria, composta por altos funcionários, policiais, militares e magistrados, pronta para qualquer truque sujo a fim de evitar a chegada dos “vermelhos” ao poder. Foi essa rede, apoiada pelo serviço secreto norte-americano, que preparou cuidadosamente o terreno para o golpe militar de 1967.

Os vestígios do parakratos realmente não desapareceram. O desrespeito à liberdade de reunião, manifestação e expressão tem sido frequente nos últimos anos. Em outubro de 2012, quinze militantes antifascistas foram presos após confrontos com neonazistas do partido Aurora Dourada (que teve 9,4% dos votos nas eleições europeias de maio) e a polícia. Após a detenção, eles disseram ter sido torturados e mostraram fotos. “Chamaram-nos de comunistas imundos”, relata Giorgios, um dos presos, que prestou queixa. “Diziam: ‘Temos o nome e o endereço de vocês. Se falarem alguma coisa, podemos dá-los aos nossos amigos da Aurora Dourada, para eles fazerem uma visitinha’. Eles também falaram da guerra civil da Grécia, em que milícias de direita se opuseram a forças de esquerda, entre 1945 e 1949 [fazendo mais de 150 mil mortos]. Eles se mostravam claramente em guerra contra tudo o que pareça uma esquerda progressista.”2 Uma investigação interna foi aberta pelo Ministério do Interior.

“Isso lembra a estratégia da tensão na Itália dos anos 1970”, avalia o jornalista Kostas Vaxevanis. “A polícia deixa passar e até incentiva as confusões provocadas por neonazistas, para justificar a manutenção de um poder forte e a repressão feroz a qualquer contestação.” A demissão de vários altos funcionários da polícia por supostas ligações com a organização neonazista confirma a infiltração do aparato de segurança pela extrema direita: Dimos Kouzilos, ex-chefe das escutas telefônicas no serviço secreto grego, teve de pedir demissão, e Athanasios Skaras, comissário do distrito de Agios Panteleimonas, em Atenas (feudo do Aurora Dourada), foi preso por um breve período em outubro de 2013. “O parakratos ainda se assenta em três pilares: polícia, justiça e Exército”, explica Dimitris Psarras, do Jornal dos Redatores. São três setores sensivelmente poupados pelas políticas de austeridade, que reduziram à metade o poder de compra dos servidores. Em 23 de junho de 2014, o Conselho de Estado julgou inconstitucional o corte dos salários nesses setores.

Em novembro de 2011, Papandreou, então primeiro-ministro, mostrou-se preocupado com o risco de um golpe militar. Em plena cúpula europeia de Cannes, ele anunciou a realização de um referendo sobre as novas medidas de austeridade impostas pela União Europeia. Como se fosse um aluno indisciplinado, o chefe do governo grego foi convocado pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo presidente francês Nicolas Sarkozy. Para justificar o referendo, Papandreou falou do risco de golpe de Estado.3 A ameaça, contudo, não foi levada a sério. Com a pressão da França e da Alemanha, ele foi obrigado a abandonar o projeto de consulta popular e forçado a deixar o cargo um mês depois.

 

Syriza tem até mesmo o apoio de empresários

“A maioria dos servidores gregos permanece leal”, insiste Grigoris Kalomiris, do sindicato dos funcionários públicos de Aldedy. Sem lançar um apelo formal de voto no Syriza, sua organização “apoia qualquer partido que rejeite a política de austeridade dramática colocada em prática nos últimos cinco anos”. “É preciso distinguir os setores ligados à segurança e à repressão dos outros funcionários. A decisão constitucional sobre o cancelamento de cortes de salários no Judiciário, na polícia e no Exército prova que esses são setores à parte”, avalia o sindicalista. As outras categorias de servidores públicos não têm nenhuma razão para ser a priori contra a esquerda radical: “Estamos entre as primeiras vítimas da austeridade”, lembra Kalomiris. “O número de funcionários públicos caiu um terço, passando de 900 mil para 600 mil. O salário médio é de 800 euros. Os salários caíram 30%, e o poder de compra, 50%, se considerarmos o aumento dos impostos.”

 

Desse modo, parece que o Syriza conta com um grande apoio no serviço público. Também por razões históricas. “Com a chegada do Pasok ao poder em 1981, Andreas Papandreou, então primeiro-ministro, quis ‘depurar’ o serviço público dos elementos ligados à ditadura militar”, afirma Psarras. “Ele contratou na marra pessoas de confiança do partido. Isso durou até o início dos anos 2000, a ponto de muitos funcionários serem ex-socialistas, que se decepcionaram com a guinada para a direita do Pasok e hoje defendem ferozmente o Syriza.”

A coalizão conta com outros apoios mais surpreendentes na sociedade grega. Parte do empresariado não se incomodaria com a chegada de uma esquerda radical, porém pragmática, ao poder. “A austeridade exigida pela Troika é um fracasso”, afirma anonimamente um empresário do transporte. “A dívida só aumenta, a economia foi arrasada, e as pequenas e médias empresas estão falindo uma atrás da outra. Depois do choque de austeridade, um choque de estímulo econômico não seria ruim.” Continua sendo impossível ouvir uma análise desse tipo em público: o empresariado grego é amplamente hostil aos “vermelhos”. No entanto, o discurso anticorrupção do Syriza e sua recusa ao clientelismo que tanto prejudica o país têm adeptos em todas as classes sociais.

Thierry Vincent é jornalista e diretor de cinema.



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