A esquerda canibal nos Estados Unidos - Le Monde Diplomatique

UMA SÍNDROME UNIVERSITÁRIA

A esquerda canibal

por Rick Fantasia
1 de agosto de 2019
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Os universitários norte-americanos tornaram-se bastiões privilegiados de uma análise identitária da sociedade. Os conflitos comuns que surgem são assim interpretados como expressão desta ou daquela dominação, com o risco de os estudantes imaginarem que podem lutar pela justiça social sem deixar o campus

A esquerda norte-americana está na linha de frente para se opor ao presidente Donald Trump, às suas políticas econômicas e sociais e às suas falas racistas. Raramente oriundos das classes populares e normalmente com formação superior, os militantes progressistas adquiriram sua cultura política em um meio social que produz sobretudo trabalhadores qualificados, não empregados e operários. Como a maioria dos norte-americanos, preferem morar em comunidades relativamente homogêneas e reúnem-se sobretudo com pessoas que pensam como eles. Em suma, vivem em enclaves de confirmação recíproca, quase sempre perto de lugares preparados para eles (restaurantes e cafés, galerias de arte, museus, salas de concerto, universidades etc.). Os estabelecimentos superiores onde fizeram seus estudos desempenham também um papel que ultrapassa a formação profissional. Os anos de universidade propiciam aos futuros quadros superiores contatos e relações que os marcarão para sempre. Longe da autoridade dos pais, levam no campus uma vida independente, abrem-se a novas perspectivas, tecem redes amigáveis e adquirem maturidade sexual.1

Nos Estados Unidos, como em muitos outros países, as universidades servem igualmente de rampa de lançamento para mobilizações sociais. Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os estudantes tiveram papel decisivo nas lutas pelos direitos civis, pelos direitos das mulheres e das minorias sexuais, assim como na oposição à Guerra do Vietnã, sem contar que os campi se prestam também, tradicionalmente, a acampamentos de base para movimentos sociais e locais de treinamento para os militantes. Correntes radicais, com orientações muito diversas, enxamearam nas universidades. Entretanto, a partir dos anos 1980, um prisma dominante foi aos poucos se impondo: a santíssima trindade da identidade social, constituída por raça, gênero e classe. Esse “discurso identitário” espalhou-se para a maior parte dos departamentos de Ciências Humanas, encorajado pelo desenvolvimento do leque de estudos interdisciplinares dos cultural studies.2

Embora a abordagem identitária esteja presente também, de forma destacada, em outras instituições – artes, filantropia, mídia –, a universidade é ainda sua fortaleza principal. Em uma época na qual os discursos conservadores dominam o resto da sociedade, o ensino superior é uma das raras instituições em que as ideias de esquerda não apenas são aceitas, como também podem evoluir livremente, a ponto de exercer certa influência, sobretudo nas Humanidades.3 É como se, diante da ofensiva reacionária, professores e alunos respondessem aferrolhando as portas das universidades a fim de purificar os espaços que ainda podem dominar, desembaraçando-os do racismo e da homofobia que, a seu ver, impregnam a sociedade. De resto, para encontrar o racismo, não precisam ir muito longe: quase todas as universidades norte-americanas praticaram, no início, a exclusão racial e sexual. As mais veneráveis (Harvard, Georgetown, Yale, Brown) chegaram a se beneficiar do trabalho escravo e do sistema escravocrata.4

Foco nas microagressões

Na era da obsessão identitária, porém, esse assunto não desperta muito a curiosidade dos militantes. Eles preferem insistir nas interações sociais que acontecem em seus campi. Essa opção suscitou polêmicas referentes ao conteúdo dos programas, ao desenvolvimento dos cursos e até às “microagressões” que ocorrem cotidianamente – tensões ou conflitos de baixa intensidade que surgem quando estudantes oriundos de meios sociais estigmatizados se sentem oprimidos por formas de expressão que consideram humilhantes ou insultuosas, vindas de pessoas em posição de autoridade ou de colegas supostamente originários de meios mais favorecidos que o deles. Expresso por um “dominante”, um desacordo se torna frequentemente uma microagressão para o “dominado”.

Essas pequenas afrontas resultam, ao menos em parte, da dificuldade de coabitação de estudantes com perfis sociais às vezes muito diferentes. Nos últimos anos, a maior parte das universidades particulares mais caras reforçou, com efeito, a ajuda financeira aos alunos oriundos de meios desfavorecidos. O agrupamento de jovens de origens sociais diversas aumentou, logicamente, a possibilidade de conflitos interpessoais, quase sempre vistos pelo prisma das “microagressões”.

Para evitar problemas, sobretudo jurídicos, que decorrem desses conflitos, os administradores das universidades devem gerir com muito tato a vida de suas instituições. Um erro de comunicação, uma decisão ruim ou uma declaração infeliz podem ter consequências explosivas. A fim de não ferir a sensibilidade alheia, estudantes, professores e o pessoal administrativo são instados a participar de seminários e se aperfeiçoar. As palavras “tolerância”, “diferença” e “sensibilidade” invadem as publicações. O mesmo é dizer que um estudante desejoso de ser visto como militante da justiça social não precisa recorrer às práticas políticas antigas: unir-se para agir coletivamente, construir uma organização durável, tentar influenciar pessoas exteriores aos campi, descobrir pontos de convergência e de unidade com os outros ou mesmo procurar persuadi-los a mudar… Não. Basta-lhe brandir a diferença como um valor em si e denunciar a ignorância, a falta de sensibilidade daqueles que o contradizem ou o combatem.

Nos estabelecimentos de maior prestígio, muitos alunos e professores pertencem à elite. E, mesmo quando não é esse o caso, contemplam do alto de seus campi majestosos a pobreza, a decadência social e a exclusão que reinam lá fora. Experimentam assim uma sensação de responsabilidade, mas também, às vezes, de culpa para com aqueles que foram banidos de seu mundo. Ora, vista pelo prisma da raça, a desigualdade é mais frequentemente percebida como um “privilégio de brancos” do que como o produto de uma dominação de classe. Admitindo em público seus “privilégios” (de raça, gênero, orientação sexual etc.), os estudantes se julgam (ao menos em parte) absolvidos do benefício que eles lhes proporcionam, mais ou menos como se tirassem da manga a carta “Você sai da prisão” do Monopoly. Essas práticas políticas lembram um jogo social em que a pessoa obtém crédito admitindo para os outros a consciência e a vergonha que tem de seus privilégios e afastando assim (temporariamente) a acusação de usufruí-los.

Humilhação on-line

Esses comportamentos políticos ocorrem principalmente nos campi, mas seus efeitos se fazem sentir bem mais longe, em particular nas redes sociais. Permitindo o anonimato, a internet estimula uma espécie de “militância pela justiça social” que assume a forma de humilhação pública dos adversários e pretende conquistar a adesão não com base em interesses comuns, mas acenando com o medo de estigmatização aos olhos de todos. A humilhação, na rede, surge como uma prática propriamente social, no sentido de que proporciona, da parte dos outros adeptos, reconhecimento e apoio a quem a difunde. “Em muitos casos”, observa um especialista no assunto, “o objetivo da justiça por meio da vergonha parece ser o prazer que experimentamos, na internet, de estar na companhia de outras pessoas que concordam conosco”.5

Trata-se de um mecanismo que lembra o apupo medieval, um rito de humilhação pública destinado a censurar um comportamento transgressor ou a exigir respeito pelos costumes locais. Os apupos visavam sobretudo membros da comunidade que haviam contraído matrimônios julgados socialmente inaceitáveis ou cometido adultério. Durante essa paródia de cortejo nupcial, a vítima desfilava pela cidade, frequentemente montada de costas num asno e com roupas grotescas, sob as vaias dos aldeões, que assim exprimiam sua hostilidade numa cacofonia de berros rudimentares. “As pessoas podem ser denunciadas por declarações e atos de discriminação ligados ao gênero, à raça, às deficiências físicas etc.”, explica o escritor Asam Ahmad. “Como tendem a ser públicas, as denúncias favorecem uma militância universitária de salão em que constituem um fim em si mesmas. O caráter nocivo dessa cultura reside não apenas em sua difusão, mas também em sua natureza e formato. No Twitter ou no Facebook, denunciar alguém não significa uma simples interação entre dois indivíduos: é um espetáculo que permite aos atores demonstrar sua eloquência e sua pureza política.”6

O prisma identitário forjado nas universidades agora se difunde pelos discursos e práticas políticas de toda a esquerda norte-americana, determinando cada vez mais a maneira como a sociedade é percebida. Para se dar conta disso, basta acompanhar as atividades da Class Action, uma pequena organização sem fins lucrativos sediada em Boston e fundada por duas mulheres vindas de meios sociais opostos: uma cresceu numa família burguesa, da qual recebeu uma boa herança; a outra vem de um meio popular e milita há muito tempo pela paz e pelos direitos de mulheres e lésbicas. Com quatro outras pessoas de origens diversas, formaram um “grupo de diálogo entre classes” que se reuniu seis horas por semana durante seis anos.7

Bastante ativa no país inteiro, a Class Action propõe seminários e sessões de formação para fundações filantrópicas, organizações religiosas, escolas particulares, grupos para mudança social e universidades (seu site na internet enumera 57 estabelecimentos de ensino superior). Os seminários têm três objetivos principais: “construir pontes entre pessoas oriundas de classes diferentes”, ajudar pessoas a superar os sofrimentos psicológicos provocados pela identidade e pela experiência de classe, e reduzir o “classismo” no mundo do trabalho e do ensino.

Não recriminaríamos esse grupo por auxiliar cidadãos a administrar uma situação da qual às vezes só têm um entendimento limitado. Mas nada indica que um trabalho desse tipo melhorará a sorte das classes populares. Tal como é apresentada, a noção de classe parece dissociada das dinâmicas coletivas e dos conflitos que as relações de classe implicam. Estes exigiriam, antes, uma terapia de grupo para curar as feridas psicológicas. De resto, a invenção recente da palavra “classismo”, nos moldes de “racismo” e “sexismo”, prende-se bem mais às atitudes e declarações prejudiciais (o esnobismo, o desprezo) do que à expropriação material dos trabalhadores decorrente, de forma lógica, da ordem capitalista. Por enquanto, “construir pontes” entre ricos e pobres não trará remédio ao problema das desigualdades.

Aqui não se trata, realmente, de “intersecionalidade”, um conceito muitas vezes invocado para suavizar a perspectiva de classe a pretexto de que todas as expressões de identidade e os motivos de divisão devem ser incluídos no quadro explicativo de todos os fenômenos sociais.

À diferença do que se passa na Europa, a maior parte dos norte-americanos possui uma concepção rudimentar da noção de classe. Dizem-lhes que essa é apenas uma ideia abstrata. Assim, para eles, outras formas de divisão constituem espontaneamente uma fonte de desigualdades bem mais concreta. Por exemplo, percebem a questão da violência policial como um problema exclusivamente racial – e, com efeito, vídeos que circulam pela internet mostram homens quase sempre negros sendo molestados pelas forças da ordem, o que inscreve essa violência na longa história do racismo nos Estados Unidos. Mas, como ressalta o cientista político Cedric Johnson, “o prisma racial não permite explicar a crise de violência política atual, em que os negros são super-representados, mas não constituem a maioria das vítimas. Em 2015, 1.138 pessoas foram mortas pela polícia nos Estados Unidos, entre as quais 581 brancos, 306 negros, 195 latinos, 24 asiáticos ou autóctones das ilhas do Pacífico, 13 ameríndios e 27 pessoas de origem étnica desconhecida. […] Os indivíduos sem emprego ou sem domicílio, os que trabalham na economia informal ou moram em zonas onde esse tipo de economia predomina são os mais suscetíveis de vigilância, abordagem ou prisão. Os militantes do Black Lives Matter [A vida dos negros importa] postulam que os negros são objeto de uma injustiça dirigida, mas, na realidade, a violência do Estado carcerário afeta o conjunto das classes populares. Por que dar ouvidos a slogans políticos que excluem certas vítimas e sacodem assim a base popular potencialmente útil para reformas progressistas?”.8

Esse exemplo mostra os limites de um sistema que parece afastar toda possibilidade de solidariedade inter-racial e nega, implícita ou explicitamente, sua importância primária como fonte de poder social para aqueles que quase não o têm. Se as reivindicações identitárias permitem o avanço da participação democrática, as lutas pela inclusão de grupos outrora excluídos perdem pertinência quando são concebidas como a única chave de arco de uma estratégia política, em particular num contexto em que os próprios fundamentos da inclusão – regulamentação do mercado de trabalho, direitos sindicais, estabilização dos fluxos migratórios etc. – estão em processo de desmantelamento. O sentido de uma luta pela inclusão muda quando o mundo da exclusão se amplia, quando interesses comuns podem ser invocados para encorajar uma participação maior na militância. A luta pela igualdade racial, um objetivo de todos, pode então se inscrever num projeto mais vasto de defesa dos direitos sociais, políticos e econômicos de cada qual.

A solidariedade não é uma coisa óbvia.9 Numerosas diferenças, muitas vezes instauradas pelos empregadores, permeiam o movimento sindical norte-americano. Consciente da força potencial dos operários e empregados, o patronato procurou dividir a mão de obra no mercado de trabalho e dentro das empresas. Nos Estados Unidos, introduzir um sindicato numa unidade de produção, organizar uma greve ou negociar um contrato é um grande desafio.10 Para conseguir isso, é preciso a cada vez superar profundas diferenças sociais, sejam de raça, nacionalidade, gênero, etnia, sexualidade ou todos esses critérios juntos. Por isso é que as tentativas quase sempre fracassam, tanto mais que a legislação tende a favorecer os empregadores. Não obstante, quando os sindicatos se organizam para descobrir e cultivar pontos comuns, conseguem mais facilmente vencer a implacável fragmentação e o individualismo da sociedade norte-americana. Ajudam então os trabalhadores a se conhecer e a construir solidariedades. Essa dinâmica é familiar aos militantes sindicais – ou então eles precisam aprendê-la, do contrário fracassam. Fora do ambiente de trabalho, solidariedades se constroem, mas esse exemplo mostra bem o tipo de ação que permite consegui-las.

 

*Rick Fantasia é professor de Sociologia no Smith College, Northampton, Estados Unidos, e autor de French Gastronomy and the Magic of Americanism [A gastronomia francesa e a magia do americanismo], Temple University Press, Filadélfia, 2018.

1 Ver “Quand l’Université reproduit les élites” [Quando a universidade reproduz as elites]. In: “L’Internationale des riches” [A Internacional dos ricos], Manière de Voir, n.99, jun.-jul. 2008.

2 Rogers Brubaker, “Beyond ‘identity’” [Além da “identidade”]. In: Rogers Brubaker (org.), Ethnicity Without Groups [Etnia sem grupos], Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2006.

3 Cf. David L. Kirp, Shakespeare, Einstein, and the Bottom Line: The Marketing of Higher Education [Shakespeare, Einstein e a linha de fundo: o marketing da educação superior], Harvard University Press, 2003.

4 Cf. Leslie M. Harris, James T. Campbell e Alfred L. Brophy (orgs.), Slavery and the University: Histories and Legacies [A escravidão e a universidade: histórias e legados], University of Georgia Press, Athens, 2019; Craig Steven Wilder, Ebony and Ivy: Race, Slavery, and the Troubled History of America’s Universities [Ébano e marfim: raça, escravidão e a turbulenta história das universidades dos Estados Unidos], Bloomsbury Press, Nova York, 2013.

5 Kathryn J. Norlock, “Online shaming” [Vergonha on-line], Social Philosophy Today, n.33, Charlottesville, Virgínia, 2017.

6 Asam Ahmad, “A note on call-out culture” [Uma nota sobre a cultura do grito], Briarpatch Magazine, Regina, Canadá, 2 mar. 2015.

7 “How we got started” [Como começamos], Class Action. Disponível em: <https://classism.org>.

8 Cedric Johnson, “The Panthers can’t save us now” [Os Panteras não podem nos salvar agora], Catalyst, v.1, n.1, Nova York, primavera de 2017.

9 Cf. Cultures of Solidarity: Consciousness, Action, and Contemporary American Workers [Culturas de solidariedade: consciência, ação e trabalhadores norte-americanos contemporâneos], University of California Press, Berkeley, 1988.

10 Ver Thomas Frank e Thomas Mulcahey, “Ces dures grèves des ouvriers américains” [As greves difíceis dos operários norte-americanos], Le Monde Diplomatique, out. 1996.



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