A euforia cibernética - Le Monde Diplomatique

GLOBALIZAÇÃO / INTERNET A

A euforia cibernética

por Serge Halimi
1 de agosto de 2000
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A Internet não está interessada em permitir aos adversários do neoliberalismo um meio de acesso ao mundo. Embora permita movimentos de contestação — como qualquer outro meio de comunicação — a Internet é um instrumento a serviço da nova ordem globalSerge Halimi

Já se podia esperar por isso. Se a Internet permitia comprar ações, programar as férias, visitar bibliotecas ou administrar a correspondência, mais-dia, menos-dia, a rede das redes não podia deixar de ser enaltecida como instrumento de resistência à globalização. Os refratários ao pensamento dominante não estão automaticamente predispostos contra a embriaguez das utopias digitais que o não-pensamento jornalístico trata de superdimensionar em ondas ininterruptas.

As contribuições conjuntas da história, da sociologia e da economia não foram, no entanto, invalidadas pelas novas tecnologias. E a quem possa interessar combater a ordem das coisas, é bom lembrar que o estudo dos debates que acompanharam a evolução do sindicalismo continua sendo, sem dúvida, muito mais determinante que a capacidade de criar uma lista de divulgação eletrônica. Talvez por falta de consciência crítica, alguns “ciber-resistentes” mais fanáticos podem incorrer num risco triplo: o de tratar com leviandade a questão, pertinente, do local da ação reivindicativa (empresa, Estado, planeta); o de achar, por comodismo, que as pessoas com quem se contatam com maior facilidade são as mesmas que se interessariam por um outro mundo; e, por fim, o de negligenciar o imperativo da organização — vendo, assim, dissolverem-se seus projetos de transformação social em meio a um oceano de iniciativas incantatórias rapidamente abortadas. A atitude de berrar “redes!”, “redes!”, “redes!”, pulando em cima de sua cadeira, não irá responder a essas objeções, como veremos.

Uma dupla desconfiança

Mas, sem necessariamente descambar para gloriosos discursos sobre uma (imaginária) “opinião pública mundial”, não se pode deixar de reconhecer que, a partir do fracasso do Acordo Multilateral sobre Investimentos, em 1998, [1] os adversários da globalização souberam impor sua presença. Seu combate, travado no âmbito de uma dupla desconfiança — contra o caráter sigiloso das decisões econômicas e contra a cumplicidade e os silêncios do jornalismo de mercado — lançou luz sobre as negociatas comerciais, financeiras e sociais do merchandizing do mundo.

Uma velha aspiração dos communards [2] reencontra, assim, o seu colorido. Pois em 22 de março de 1871, o Comitê Central da Guarda Nacional definia da seguinte forma sua concepção de democracia: “Os membros da Assembléia — que devem ser objeto de permanente controle, vigilância e crítica — são revogáveis, idôneos e responsáveis. Somente quando pudermos acompanhar de perto todos os assuntos de nosso interesse, por todo lado onde se forjam os nossos destinos, somente então a República não poderá ser estrangulada.” [3]

A angústia de James Wolfensohn

Portanto, uma organização global de esquerda, antiautoritária, livre dos verticalismos burocráticos do Estado, tem parentes na história. Já Jean Jaurès ou Pierre-Joseph Proudhon comemoravam o papel de emancipação (porque educativo) das sociedades mútuas, das federações, das cooperativas. E, ao ressaltar, nas práticas democráticas da Comuna de Paris, a consciência de que qualquer meio poderia servir a qualquer fim, Karl Marx frisava: “A classe operária não pode contentar-se em se apoderar de qualquer tipo de aparelho de Estado e fazê-lo funcionar por sua conta.” [4] Ao contrário, o importante seria “eliminar o velho aparelho de opressão”. [5] Ora, tentar fazê-lo — ou, pelo menos, tentar marginalizá-lo — não seria justamente a promessa da Internet?

Pelo menos é isso que somos levados a pensar cada vez que os responsáveis pelas organizações econômicas internacionais deixam transparecer o olhar ácido da contestação. James Wolfensohn, por exemplo, presidente do Banco Mundial, lamenta-se: “A capacidade das pessoas se organizarem aumentou formidavelmente. A informação tem um impacto enorme, mesmo se for falsa. Onde quer que eu vá, hoje em dia encontro pessoas que dizem que nós assassinamos crianças, que destruimos o meio ambiente e que os lucros que, a cada ano, o Banco Mundial faz, são distribuídos entre os países ricos.” Ora, esse tipo de informação que tanto deprime James Wolfensohn — e que perturba a paz de suas peregrinações — é mais facilmente originária da Internet que de quaisquer dos grandes jornais do planeta.

Inserção do “libertário” no “liberal”

E então, viva a rede das redes? A resposta implica em enunciar um truismo: a Internet não tem por principal conseqüência permitir aos adversários do neoliberalismo um meio de acesso ao mundo. Embora passível de permitir eventuais movimentos de contestação — como qualquer outro meio de comunicação (a gráfica, as estradas, a ferrovia), — a Internet é um instrumento a serviço da nova ordem global. Reivindicar o aperfeiçoamento desse instrumento em nome de suas virtualidades democráticas deveria, portanto, implicar na reflexão sobre os efeitos de dominação (o consumismo, o controle social) que um tal aperfeiçoamento poderia induzir ou irradiar no atual estado de relação de forças social.

Se é verdade que o simples enunciado da palavra “redes” faz os olhos brilharem, o sonho de internacionalismo social que ele desperta em alguns, desencadeia em outros — infinitamente mais poderosos — apetites de interconexões de mercados. Uma tal inserção do “libertário” no “liberal” constitui, no fundo, a marca registrada da nossa época. Ela é representativa da geração de centro-esquerda que está no poder no mundo ocidental (Clinton, Blair, Schröder etc.), de versões atribuídas aos políticos mais mimados pelos meios de comunicação (Daniel Cohn-Bendit, por exemplo, ou Fernando Gabeira, no Brasil) e da metamorfose por que passou a Internet ao longo dos anos.

A “nova era ateniense da democracia”

E é justamente em meio a essa confusão ideológica que deparamos, lado a lado — quando não em apoio ostensivo — com uma enxurrada de opiniões tecno-místicas. Exemplo disso é um deputado francês que comemora “a passagem de uma democracia intermitente a uma democracia contínua”, passando, em seguida, a mencionar a possibilidade de “votar por telefone celular, no âmbito de um projeto elaborado em parceria com as empresas Matra e Nokia”, para concluir, com toda a sobriedade: “A democracia eletrônica poderá vencer o desinteresse pela política”. [6] Numa saudação à China, onde “a Web tornou-se um autêntico movimento econômico e social”, um semanário de publicidade não se esquivou a identificar os principais benficiários desse “movimento social”: AOL, Yahoo, Cisco, Compaq, Intel “e, sobretudo, os grandes investidores de capital-risco”. [7]

Decididamente, a felicidade deve ser universal, para que os interesses da Cisco também sejam os da democracia mundial. Na verdade, já desde 1994 que o vice-presidente norte-americano Albert Gore nos vem anunciando a “Nova Era ateniense da democracia”. Após seis anos, alguns adversários da globalização passam a imitá-lo, entendendo que a Internet “acelera o retorno à democracia”. [8] E, talvez inebriada pela manifestação que reuniu 10 mil mulheres em Paris, uma militante francesa profetiza: “O feminismo sempre foi internacional, mas reservado às camadas mais ricas. Graças à Internet, as coisas começam a mudar e todas as mulheres podem agora mostrar sua força trranqüilamente.” [9]

Uma importante arma ideológica

O atual bazar de lugares-comuns jornalísticos (e-democracia, e-eleições, politica.com, cidadãos interativos etc.) não deixa de lembrar o velho discurso sobre as “rádios livres” — cuja origem associativa não resistiu por muito tempo às tentações conjuntas de receitas publicitárias e pregão da Bolsa de Valores. [10] Não se trataria, portanto — e uma vez mais — de relegitimar, de retransformar em “democracia” e “cidadania” um sistema cada vez mais oligárquico e desigual?

Armand Mattelart chama a atenção: “A tecno-utopia revela-se uma arma ideológica da maior importância no tráfico de influência, como é o caso de se fazer passar como normal a visão de livre comércio da ordem mundial (…). Somente a miopia dos tecno-libertários poderia proporcionar a ajuda necessária à representação simplista de um Estado abstrato e maléfico, ao qual se opõe uma sociedade civil idealizada — espaço liberado da comunicação entre indivíduos plenamente soberanos.” [11] Aliás, sob o pretexto de criar um “ambiente adequado” ao desenvolvimento da Internet, a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) apressou-se a tirar a poeira da sua tradicional ladaínha de receitas neoliberais: concorrência, start-ups, capital-risco, adaptação dos mercados financeiros às “empresas inovadoras”, fiscalização-“incentivo”. Seria esse o preço a pagar pela conexão dos ciber-resistentes?

A exclusão pela Internet

Mas, vejamos, quem são os usuários da Internet? Duas pesquisas recentes feitas na França oferecem respostas: trata-se de pessoas “socialmente bem inseridas, ajudadas pela evolução recente da economia”. E, caso ainda houvesse alguma dúvida, “a representação de internautas da classe operária continua minúscula”. [12] Aos operários restará a opção de — longe da barulheira digital — continuarem a se “comunicar” ameaçando mandar a empresa em que trabalham pelos ares. Ou fazendo greve. No restante do planeta a situação não é muito diferente. Segundo o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a população mundial contava, em 1999, com 2,4% de internautas, dos quais 0,8% na América Latina e Caribe, 0,1% na África sub-saariana, 0,04% na Ásia meridional…

E esse mesmo relatório conclui: “De momento, a Internet apenas beneficia pessoas relativamente bem de vida e instruídas: 88% dos internautas vivem nos países industrializados, que, em seu conjunto, representam não mais que 17% da população mundial. As pessoas que estão “plugadas” dispõem de uma enorme vantagem com relação àquelas mais pobres que, não tendo acesso a esses meios de comunicação, não conseguem, conseqüentemente, fazer ouvir suas vozes (…). As redes mundiais interligam aqueles que dispõem de meios para o fazer, e, silenciosamente, quase imperceptivelmente, excluem todos os outros.” [13] Nessas condições, encher o disco rígido de informações para transmiti-las, em seguida, para um endereço eletrônico no Peru, ou na Índia, ou em três universidades norte-americanas, pode dar a ilusão de se tratar de uma rede mundial, pode legitimar a ausência de um raciocínio estratégico, pode até permitir a substituição da questão da articulação das lutas pela de sua sobreposição. Mas ainda estamos bem longe da “democracia planetária”.

Comunicação, característica da elite

A tentação de manter as categorias populares em seu lugar histórico, reservando às “tribos” melhor de vida o exercício do poder e o poder de contestar não vem de ontem. Há 25 anos, Christopher Lasch foi um dos primeiros a decodificar o discurso pseudo-radical que, sob o pretexto do surgimento de “novos movimentos sociais” — normalmente originários das classes médias e num momento em que se exacerbavam diversas “patologias” (nacionalismo, racismo, sexismo, autoritarismo, homofobia) — permitiu legitimar a exclusão política e social dos dominados. [14] Atualmente, o culto obsessivo pelo global, pela mobilidade, pelo nomadismo leva ao mesmo resultado: “Os grandes não param. Os pequenos ficam onde estão. A imobilidade de uns é necessária à mobilidade de outros (…). Ficando onde estão, os pequenos garantem a presença dos grandes nesse lugar — já que estes não podem estar em todo lugar ao mesmo tempo — e vão alimentando os fios da rede que já teceram.” [15]

Se, como diz Manuel Castells, “as modalidades mais sofisticadas da comunicação interativa continuarão sendo a característica do segmento mais instruído e em melhor situação da população dos países mais ricos e mais instruídos”, [16] para onde vão, então, as formas tradicionais de mobilização? Em seu estudo sobre as cerca de dez mil manifestações anuais que se organizaram na França durante as décadas de 80 e 90, Olivier Fillieule conclui que os modos de militância política mudaram menos do que se apregoa. E, em grande parte, ele desmentiu a idéia “bastante difundida nos meios de comunicação como em trabalhos acadêmicos, de que os partidos políticos e os sindicatos não tenham o mesmo peso que tinham antes em seu papel de mediadores de interesses”.

A força da ação reivindicativa

Por um lado, o ativismo de protesto não se caracterizava “por uma extrema fluidez, com as pessoas aderindo ou afastando-se de acordo com as circunstâncias”. E por outro, não se situava “fora do padrão dos organizadores tradicionais desses movimentos”, uma vez que, na maioria dos “grupos mais combativos que iam às ruas, a linha de frente era quase sempre composta por operários”. E, finalmente, “as mobilizações mais importantes são aquelas organizadas por sindicatos de assalariados; as chamadas mobilizações pós-materialistas são outra coisa, seja no que se refere a ações ligadas à moral e aos costumes, ao meio ambiente, ao direito ao aborto, antimilitares ou mesmo genericamente políticas. Essas são essencialmente micro-mobilizações”. [17]

E no entanto, foi um arauto da nova aristocracia boêmia e burguesa que anunciou: “Nós nos socializaremos em bairros digitais, onde o espaço físico será irrelevante.” Infelizmente é bem provável que a ação reivindicativa continue seguindo o seu curso. E continue implicando em experiências coletivas vividas conjuntamente, fisicamente: reuniões, manifestações, panfletagens, multidões. Como, por exemplo, as de novembro-dezembro de 1995. Situadas num território concreto, moldadas por uma história, agindo em defesa de (e com) categorias sociais “pesadas”, com pouca mobilidade. E que não esperam que novas tecnologias as venham tirar de seu isolamento. E que c

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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