A geopolítica das manifestações - Le Monde Diplomatique

Povo nas ruas

A geopolítica das manifestações

por Michael Klare
5 de maio de 2009
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Desde 2008, mesmo antes de a desordem financeira chegar a seu auge, o mundo tem visto eclodir protestos em vários cantos do planeta. De natureza variada, as contestações revelam tanto as mazelas preexistentes quanto os efeitos severos da redução econômica. Entre as mais importantes estão as revoltas por comida

Muito antes de a atual crise econômica atingir sua intensidade máxima, em setembro de 2008, sinais da tempestade que se aproximava eram visíveis em perturbações locais por todo o mundo. Na primavera de 2008, com os preços de muitas commodities básicas subindo até atingir níveis inéditos, e os salários ficando para trás nessa corrida em muitos países, revoltas e protestos afloraram devido aos altos custos de alimentos e combustíveis. Essas manifestações só se tornaram menos intensas quando, como resultado da crise financeira, os preços das commodities caíram.

Essas insurreições têm sido de natureza e geografia variadas. Em Atenas, a revolta diante do assassinato de um estudante de 15 anos de idade, morto a tiros por policiais resultou em seis dias de violentos protestos que, em muitos casos, tinham como alvo lojas e hotéis de luxo. Em Vladivostok, na Rússia, comerciantes envolvidos com importação e reparo de carros japoneses usados se rebelaram quando o primeiro-ministro Vladimir Putin impôs elevadas taxas de importação para esse tipo de veículo, interferindo enormemente em seu meio de subsistência. Na China, trabalhadores temporários privados de seus salários por gerentes inescrupulosos têm invadido fábricas para cobrar dinheiro, entrando, frequentemente, em confronto com a polícia.

Qualquer afloramento de desordem e conflito tem sempre muitas causas. Basta olhar ao redor do mundo para ver que hoje em dia muitas comunidades estão profundamente divididas por diferenças étnicas, linguísticas e de classe. Além disso, a grande prosperidade alimentada pela globalização e pela expansão do crédito nos anos 1990 e começo dos anos 2000 não se estendeu a todas as nações e populações, deixando muitas zonas de pobreza bastante intocadas. Por essas razões, a sociedade já estava fraturada por muitas clivagens de ordem social, política e econômica antes da crise econômica estourar, em setembro de 2008. Mas a absoluta intensidade da crise – seu forte impacto nos meios de vida de milhões de pessoas – deixou ainda mais tensas as divisões da sociedade e, em alguns casos, desencadeou atos de violência em torno delas. Da mesma forma que a pressão causada pelo movimento das placas tectônicas gera terremotos ao longo das falhas geológicas da Terra.

Luta por comida

Assim como grandes terremotos são precedidos por atividade sísmica significativa, a atual desordem econômica foi precedida pelo aumento do número de revoltas e protestos no último ano. Destes, os mais importantes foram sem dúvida as revoltas por comida que eclodiram em uma dúzia ou mais de países, como resultado do forte aumento nos preços dos alimentos. Entre os eventos registrados, tivemos revoltas em Bangladesh, em Camarões, na Costa do Marfim, no Egito, na Etiópia, no Haiti, na Índia, na Indonésia, na Jordânia, no Marrocos e no Senegal1.

Talvez a mais violenta desses insurreições tenha ocorrido no Haiti, onde milhares de manifestantes invadiram o palácio presidencial, em Porto Príncipe, exigindo fornecimento de comida, e foram rechaçados por tropas do governo e forças de paz das Nações Unidas; em outro confronto dessa natureza, na cidade de Les Cayes, ao sul do país, quatro pessoas morreram quando manifestantes e forças de paz da ONU trocaram tiros. Como resultado desses incidentes, o primeiro-ministro do Haiti, Jacques-Édouard Alexis, foi forçado a renunciar.

Apesar de não estarem diretamente ligadas à crise econômica de setembro de 2008, as revoltas por comida de abril e maio de 2008, pelo fato de mostrarem deficiências importantes na economia global, poderiam ter sido vistas como uma indicação dos problemas que viriam.

Entre a primavera de 2007 e a primavera de 2008, o preço médio das commodities agrícolas dobrou no mundo todo, trazendo grandes dificuldades para centenas de milhões de pessoas que vivem na pobreza ou que são forçadas a dedicar uma grande parte de sua renda diária para comprar comida. Ao tentar explicar o aumento dramático dos preços – causa mais imediata dessas revoltas – o Banco Mundial identificou dois fatores chave: em primeiro lugar, o aumento agudo dos preços do petróleo e do gás natural, que são utilizados em ampla gama de atividades agrícolas e na fabricação de fertilizantes artificiais; e, em segundo lugar, o grande aumento da quantidade de terra agricultável dedicada ao cultivo de biocombustíveis, reduzindo, assim, o número de hectares disponíveis para a produção de alimentos2.

Violência epidêmica

Em certo sentido, esse fenômeno pode ser considerado equivalente, no terreno das commodities, ao que estava ocorrendo no universo imobiliário e de hipotecas nos Estados Unidos – um aumento insustentável nos preços, provocado pela especulação e pela expectativa de um crescimento futuro contínuo. Contando que a demanda por combustível utilizado nos transportes aumentaria ano após ano, parecia fazer sentido converter cada vez mais as terras utilizadas na produção de grãos para a produção de biocombustíveis; e, com os preços dos alimentos aumentando a cada dia, certamente era tentador estocar os suprimentos existentes, visando a um maior lucro no futuro. O resultado disso foi a violência epidêmica de pessoas famintas que não podiam mais acompanhar o aumento contínuo dos preços.

Para os que estavam próximos dos acontecimentos, as revoltas por comida de 2008 criaram uma profunda ansiedade, trazendo à lembrança os levantes populares que derrubaram governos no passado. O potencial para mais revoltas “apresenta algumas consequências muito reais e imediatas”, declarou P. J. Patterson, ex-primeiro-ministro da Jamaica, em um encontro do grupo de nações G-77, em abril de 2008, na Antígua e Barbuda. “Se os senhores acham que estamos imunes às revoltas, que poderiam crescer rapidamente e se transformar em revoluções, por favor, reflitam novamente”, disse aos presentes no encontro3.

Se os preços dos produtos agrícolas continuassem a subir, a visão de Patterson – revoltas por comida tran
sformando-se em revoluções – poderia ter se materializado. Mas quando a crise econômica atingiu sua fúria máxima, alguns meses mais tarde, os preços do petróleo despencaram e os preços dos alimentos rapidamente seguiram o mesmo caminho. Como resultado, evitaram-se mais conflitos por conta dos custos das commodities. As revoltas por alimentos, no entanto, foram apenas uma forma de desordem econômica que se manifestou violentamente em 2008. À medida que as condições econômicas pioraram em todo o mundo, estouraram também protestos contra o desemprego em alta, a incompetência governamental e as necessidades não atendidas da população pobre.

Assim como as revoltas contra os altos custos dos alimentos, esses protestos refletiram a combinação de condições preexistentes – pobreza arraigada, diferenças de classe rígidas, discriminação étnica e assim por diante – e os efeitos nocivos da contração econômica global. Conforme a população começou a perder seus empregos ou a sofrer outras formas de dificuldades financeira, passou a atacar violentamente os governos, as corporações e outros organismos considerados responsáveis por essa situação, entrando com frequência em confronto com forças policiais e paramilitares fortemente armadas. Por causa de sua ligação estreita com os regimes no poder,elas também tornaram-se alvos de ataques.

Na Índia, por exemplo, estouraram violentos protestos ao longo de 2008, em várias regiões do país. Apesar de serem geralmente descritos como conflitos étnicos, religiosos ou como disputas entre castas, esses eventos eram normalmente motivados por ansiedade econômica e pelo sentimento generalizado de que um grupo – como quer que fosse definido – estava se saindo melhor do que outro. Em abril de 2008, a animosidade religiosa entre a população muçulmana, maioria na região, e o governo indiano, dominado por hindus, foi considerada a razão dos seis dias de intensos protestos na região da Caxemira, controlada pela Índia. Igualmente importante, no entanto, era a existência de um profundo ressentimento por aquilo que muitos muçulmanos locais sentiam como discriminação nos trabalhos, nas acomodações e na utilização da terra na região. Depois disso, em maio, milhares de pastores nômades, conhecidos como Gujjar, bloquearam estradas e trens em direção da cidade de Agra, local onde se encontra o Taj Mahal, na tentativa de obter direitos econômicos especiais. Mais de 30 pessoas foram mortas quando a polícia abriu fogo contra a multidão. Em outubro, violência diretamente ligada a questões econômicas estourou em Assam, no extremo nordeste do país, onde habitantes locais empobrecidos resistem ao influxo de pessoas ainda mais pobres, na maioria imigrantes ilegais da vizinha Bangladesh4.

Choques motivados por razões econômicas também estouraram ao longo de boa parte do leste da China, em 2008. Esses eventos, qualificados de “incidentes de massa” pelas autoridades chinesas, geralmente incluem protestos de trabalhadores contra fechamentos repentinos de plantas fabris, falta de pagamento ou confiscos ilegais de terras. Assim como as violentas insurreições na Índia, a maior frequência de “incidentes de massa” na China refletem tanto as condições preexistentes quanto os efeitos severos da redução econômica global. No caso da China, o fator mais importante é a enorme discrepância de riqueza e renda entre as classes médias urbanas e a população pobre rural. Em anos anteriores, quando a economia estava passando por um boom, os camponeses podiam migrar para as cidades e encontrar trabalho nas fábricas que produziam bens para o mercado externo. Agora, com as exportações caindo vertiginosamente, muitas fábricas fecharam e estima-se em 20 milhões o número de trabalhadores migrantes sem emprego. Em repetidos casos, os gerentes dessas empresas fecham os portões das fábricas e desaparecem sem pagar todas as indenizações devidas aos trabalhadores, provocando revoltas e protestos espontâneos5.

Em dezembro de 2008, com a crise econômica a todo vapor, o epicentro dos protestos e da violência espontâneos havia se deslocado do mundo em desenvolvimento para o Leste Europeu e para a antiga União Soviética. Nessas áreas, os protestos foram, em grande parte, motivados pelo medo do desemprego prolongado, pela decepção com a incompetência e os maus procedimentos do governo, e um sentimento de que o “sistema”, como quer que seja definido, não é mais capaz de satisfazer as necessidades e as aspirações de grande parte da população.

Apesar dos protestos em Atenas terem sido, em parte, provocados pela revolta diante da maciça presença policial em áreas frequentadas por jovens, eles refletiam também um profundo sentimento de desesperança com relação às perspectivas econômicas dos jovens – até mesmo para aqueles com um nível educacional melhor. Jovens manifestantes expressaram frustração com a falta de perspectivas de trabalho, um sistema educacional falido, o rígido sistema de classes da sociedade grega e a corrupção governamental6. Um dos manifestantes ressaltou que a morte do adolescente era uma oportunidade para levantar essas questões. “A nossa geração tem pela frente um futuro mais difícil do que a dos nossos pais”, explicou. “Isso é algo inédito, porque normalmente as coisas melhoram de uma geração para outra”7.

No início de 2009 começou, protestos motivados por razões econômicas desse tipo tinham se espalhado para várias áreas da Europa Oriental e da antiga União Soviética. Entre 13 e 16 de janeiro, por exemplo, manifestações antigovernamentais com violentos embates entre manifestantes e policiais eclodiram na capital letã Riga, na capital búlgara Sófia e na capital lituana Vilna. Cada um desses incidentes teve seus próprios fatores desencadeantes, mas todos refletiram o desconforto com o desmanche econômico global, a revolta diante da perda de postos de trabalho, e dos respectivos benefícios e a falta de confiança na capacidade governamental de alterar esse estado de coisas.

Apesar da maioria desses casos ter sido provocada por um evento imediato – o fechamento de uma fábrica local, o anúncio de medidas de austeridade por parte do governo, o aumento no valor das passagens do transporte – existiram também fatores sistêmico
s em ação. A população mundial experimentou várias recessões agudas desde a Segunda Guerra Mundial, mas sempre se recuperou entre um e dois anos, dando início a um novo ciclo de crescimento. Agora, no entanto, é generalizada a dúvida até mesmo sobre se haverá alguma recuperação em breve e, quando houver, se resultará no tipo de crescimento vibrante que pode levantar todos os setores da população global.

Petróleo e comida

O Paquistão enfrenta um desarranjo econômico e social generalizado como resultado da crise econômica global. Apesar de funcionários dos serviços de segurança americanos tenderem a culpar a Al Qaeda e o Talebã pelos atuais problemas do Paquistão, outros observadores apontam para as condições econômicas em deterioração no país. “A pequena mas politicamente poderosa classe média do Paquistão foi severamente criticada pelo colapso do mercado de ações do país”, observou o historiador da Universidade de Harvard, Niall Ferguson, na revista Foreign Policy. “Enquanto isso, uma proporção crescente do grande contingente populacional de jovens homens do país está desempregada. Isso não é uma receita para a estabilidade política”8.

Perigos semelhantes rondam muitos dos petro-Estados que se beneficiaram enormemente dos altos preços do petróleo do período anterior à crise, mas tiveram forte redução na renda nacional desde o último ano. Quando os preços estavam altos, os governos desses Estados puderam recompensar setores da população com um gasto público abundante e puderam defender-se dos ataques de dissidentes financiando poderosas forças de segurança internas. Mas agora, com o petróleo sendo vendido por menos da metade do preço de pico de um ano atrás, esses regimes são muito menos capazes de recompensar os aliados e subsidiar as forças de segurança. E com os salários do restante da população também em queda, a probabilidade é a de que aumentem as agitações internas.

A crise econômica atual deixa um número cada vez maior de pessoas sem trabalho e, desse modo, priva-as dos recursos necessários para comprar comida. Em um relatório pouco auspicioso, preparado para o encontro dos ministros da economia dos países do G-20, em abril de 2009, o Banco Mundial previu que a crise levaria outras 46 milhões de pessoas à pobreza em 2009, expondo-as a um maior risco de desnutrição9. Os estoques de alimentos também estão sendo pressionados por causa das secas recordes na Argentina, na Austrália, no noroeste da China, no oeste dos Estados Unidos e em partes do Oriente Médio. Nessas circunstâncias, é razoável esperar por manifestações espontâneas de revolta e pânico quando as populações famintas não puderem obter comida suficiente para alimentar suas famílias.

O quadro geral é claro: continuado declínio econômico combinado com fraturas preexistentes e o sentimento generalizado de que os sistemas e instituições atuais, incapazes de colocar as coisas nos eixos, já estão produzindo uma combinação potencialmente letal de ansiedade, medo e fúria.

 

*Michael Klare é professor de estudos sobre paz e segurança mundiais no Hampshire College, em Amherst, Masachusetts, e autor do recém lançado Rising powers, shrinking planet; the new geopolitics of energy, publicado nos Estados Unidos pela Metropolitan Books, e no Reino Unido pela One World Publications.



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