“AGRO VERDE”

A Globo e o agro: um velho romance

O risco da história única em um contexto de concentração midiática e em tempos de emergência climática

Quando faltava menos de um mês para a COP 30 em Belém, no Pará, maior evento sobre clima do mundo, o Jornal Nacional (JN) iniciou uma série especial sobre os impactos das mudanças climáticas no agronegócio brasileiro. A princípio, seria natural que o principal telejornal do país tratasse de um tema atual e ambientalmente relevante. O que chama atenção, contudo, é o modo como o Grupo Globo articula essa cobertura com a promoção de outros produtos culturais e comerciais da emissora, compondo um discurso de coerência narrativa que beneficia o setor.

Enquanto exibe reportagens sobre os supostos esforços do agro para “se adaptar” às mudanças climáticas, a Globo coloca no ar a série documental Vida de Rodeio, em oito episódios sobre peões de touros, e anuncia sua próxima novela das sete; Coração Acelerado – com um enredo centrado na exaltação da cultura sertaneja. Tudo junto e misturado, jornalismo, entretenimento e publicidade, compondo uma narrativa coesa que reforça o mesmo imaginário: o agronegócio como símbolo de progresso, tradição e sustentabilidade.

Nada televisionado é neutro. A programação da Globo é estruturada a partir de produtos da indústria cultural dominante, que moldam valores e percepções sociais. E o que a emissora deseja fixar na opinião pública é a imagem de um “agro moderno e sustentável”. Márcia Malcher e Silvia Adoue no site Outras Palavras já contextualizaram como as novelas da emissora vêm, há anos, buscando construir a imagem de um “Agro Verde”. Além das novelas e séries documentais, desde 2016, a Rede Globo se engajou de forma mais explícita na defesa do agronegócio brasileiro, a partir da campanha “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo: a indústria riqueza do Brasil” – campanha que transformou o agronegócio em protagonista do horário nobre da comunicação corporativa.

Jornalismo de mercado, sem contraponto social

A primeira reportagem da série exibida em 6 de outubro apresentou os efeitos das mudanças climáticas sobre lavouras de arroz e feijão no Sul do país. Mas, em vez de contextualizar as responsabilidades do setor na crise ambiental, a narrativa adotada pelo JN se limitou a mostrar produtores rurais e técnicos da Embrapa como vítimas do clima instável, buscando soluções tecnológicas para “garantir a produção de alimentos”.

Ausentes da cobertura estão os agricultores familiares; responsáveis por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, assim como qualquer questionamento sobre o papel das monoculturas, do desmatamento e da expansão das fronteiras agrícolas na aceleração das mudanças climáticas. A reportagem ignora que boa parte dos grãos exaltados pelo “agro”; soja e milho, principalmente, são commodities voltadas à exportação, e não alimentos destinados à população brasileira. Como disse um dos entrevistados: “O dinheiro do agricultor é o grão. Se não fizer grão, não tem dinheiro.”

Embora o JN destaque exemplos pontuais de “boas práticas”, como o uso de inseticidas biológicos, a contradição é gritante: o Brasil segue entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, justamente impulsionado pela lógica produtivista do agronegócio. Não por acaso, empresas como Syngenta e Bayer, grandes anunciantes da emissora, tentam justificar o aumento do uso de venenos agrícolas como consequência das próprias mudanças climáticas, o que fecha o ciclo perverso de propaganda, consumo e destruição.

Nas reportagens seguintes, a emissora reforçou a narrativa do “agro regenerativo”, apresentando tecnologias da Embrapa para capturar gases de efeito estufa na pecuária e destacando que parte da carne servida na COP 30 viria de “fazendas sustentáveis”. Nenhuma menção, porém, ao fato de que o desmatamento, a pecuária extensiva e a queima de combustíveis fósseis continuam entre os principais vetores da crise climática global.

Criação de gado em fazenda na comunidade São Pedro, nos Gerais de Balsas. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Conflito de interesses: o agro dentro e fora da tela

Não se trata apenas de um enquadramento editorial. A família Marinho, controladora do Grupo Globo, é também proprietária de fazendas e empresas de produção agrícola, como revelou a pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM), realizada pelo Intervozes, em 2018. Entre os negócios, destaca-se a marca de café Orfeu, cuja produção se alinha à estética do “agro premium” exportador.

A Globo, que detém a principal rede de TV aberta e por assinatura do país, além de múltiplas plataformas digitais, é um dos maiores veículos de influência sobre o imaginário social brasileiro. Assim, ao difundir de maneira sistemática uma visão positiva e homogênea do agronegócio, a emissora não apenas defende seus próprios interesses econômicos, mas ajuda a sustentar a hegemonia de um modelo de desenvolvimento excludente, baseado na concentração de terra e renda. O MOM identificou ainda que a Rede Globo controla as principais cadeias abertas de TV e rádio, e o maior número de canais na TV por assinatura em nível nacional. Influenciar a opinião pública sobre as benesses do agronegócio mantém em abundância os negócios da família, que segundo a revista Forbes é uma das maiores fortunas do país.

Não por acaso, em agosto de 2025, a Globo foi homenageada no Congresso Brasileiro do Agronegócio por “sua contribuição centenária ao setor”. No discurso de agradecimento, o diretor-presidente Paulo Marinho afirmou: “Agro e Globo compartilham a mesma vocação de cultivar e regenerar a terra todos os dias.” O elogio recíproco simboliza a fusão entre comunicação corporativa e política de Estado; afinal, o agronegócio é beneficiário direto de políticas públicas como o Plano Safra 2025/2026, cujos subsídios ainda privilegiam grandes e médios produtores, deixando de fora a maior parte da agricultura familiar.

Esse apoio constante e protagonista dos produtos Globo e essa relação direta entre informação e conteúdo comercial, vide alguns dos patrocinadores da emissora como Sadia, Friboi, Bayer e Bunge, não somente conquista a opinião pública sobre o papel que ele representa ao país, mas principalmente fomenta políticas públicas de crédito, isenções fiscais, terras e todo suporte necessário para a manutenção e o crescimento da agricultura capitalista no país.

A história que não aparece no Jornal Nacional

Enquanto a Globo dedicava quase 40 minutos de telejornal à sua série sobre o “agro sustentável”, em Juazeiro (BA), ocorria o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, reunindo centenas de pesquisadores, agricultores e movimentos sociais sob o tema “Agroecologia, Convivência com os Territórios e Justiça Climática”. Nenhuma menção foi feita ao evento no Jornal Nacional. Nenhuma entrevista com agricultoras negras, povos indígenas, quilombolas ou comunidades tradicionais que desenvolvem há décadas práticas agrícolas sustentáveis, sem devastar o meio ambiente.

São vozes plurais de diversas regiões do Brasil que estão discutindo experiências e estratégias a partir das perspectivas das comunidades, maiores impactadas pelas atividades da agropecuária e que deveriam ser fontes em séries especiais que tratam sobre o assunto. Assim como apresenta o texto do Caderno de Acolhida do evento: “é no respeito à diversidade de vozes e na liberdade da luta que a vida floresce. Sem Democracia não há Agroecologia!”.

Essas ausências evidenciam o problema estrutural da concentração midiática no Brasil. Quando poucos falam, a pluralidade desaparece. Como já alertava o Relatório McBride, da UNESCO, em “Um Mundo e Muitas Vozes” (1981), a comunicação é um direito humano e não deve ser capturada por interesses econômicos ou familiares. No Brasil, contudo, os grandes meios seguem operando sob a lógica de mercado, convertendo a informação em mercadoria e a opinião pública em ativo político.

Greenwashing e captura da agenda climática

O que está em curso é um movimento articulado de greenwashing midiático: usar o poder simbólico da televisão para reabilitar a imagem do agronegócio no exato momento em que o Brasil sedia a COP 30. Ao associar o “agro brasileiro” à inovação e sustentabilidade, o Grupo Globo atua como um ator político na disputa internacional de narrativas sobre transição ecológica, omitindo que o país figura entre os maiores emissores de gases de efeito estufa e que o desmatamento associado à agropecuária responde por mais de 70% das emissões nacionais.

A cobertura seletiva e a estratégia de entrelaçar jornalismo, entretenimento e publicidade reforçam a ideia de um único modelo possível para o campo brasileiro, apagando alternativas como a reforma agrária, a agroecologia e as economias solidárias. Trata-se, portanto, de uma disputa simbólica e material: quem controla a narrativa sobre o campo, controla também o futuro das políticas ambientais e alimentares no país.

Quando a mídia se torna parceira preferencial do poder econômico, o jornalismo perde sua função social e a democracia se enfraquece. O romance entre Globo e o agronegócio é antigo, mas ganha novos contornos na era da emergência climática: agora, ele se disfarça de compromisso verde. É justamente nesse momento que o Brasil precisa de mais vozes, mais territórios e mais perspectivas no debate público, e não de uma história única contada por quem lucra com o silêncio.

 

Raquel Baster é jornalista e educadora popular, mestre em comunicação pela UFPB e integrante do Intervozes.

 

Ramênia Vieira é jornalista, coordenadora executiva do Intervozes, especialista em Gestão de Políticas Públicas pela PUC-RS e mestranda do PPGCOM da Universidade de Brasília (UnB)

 

Referências

 

BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. A centralidade da chamada economia política da comunicação na construção do campo acadêmico da comunicação: uma contribuição crítica. In: BOLAÑO, César (Org.). Comunicação e a crítica da economia política: perspectivas teóricas e epistemológicas. São Cristóvão: UFS, 2008. p. 97-112.

 

CHÃ, Ana. Agronegócio e indústria cultural: estratégias das empresas para a construção da hegemonia. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. São Paulo, 2016.

 

G1. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em 13/10/2025.

 

OUTRAS PALAVRAS. Na TV, a fantasia de um Agro Verde. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/na-tv-a-fantasia-de-um-agro-verde/ Acesso em 13/10/2025.

Leia mais sobre o tema: