A NEUTRALIDADE COMO FARSA

A hegemonia política da cúpula batista nas eleições de 2026

A suposta neutralidade política da cúpula da Convenção Batista Brasileira esconde um alinhamento conservador e de extrema direita para as eleições de 2026 

“Tou estudando para saber ignorar. 

Tou aqui comendo para poder vomitar” 

(Tom Zé, Tô) 

Existe uma ficção consolidada entre os batistas (sobretudo aqueles vinculados à cúpula da Convenção Batista Brasileira – CBB), de que sua conduta comunitária é regida por uma suposta “neutralidade política”. Historicamente, essa narrativa operou como um eficaz dispositivo de blindagem e autopreservação institucional. A denominação ancora seu discurso nas clássicas bandeiras da reforma protestante e do pietismo: a doutrina do livre-exame das Escrituras, o princípio da autonomia da igreja local e a rigorosa defesa da separação formal entre Igreja e Estado. Essa construção discursiva busca resguardar o meio denominacional de um alinhamento partidário ostensivo, projetando no imaginário público a imagem de uma pastoral asséptica, purificada e pairante acima das “paixões terrenas”. Trata-se, contudo, de uma neutralidade falseada. Um enquadramento ideológico que mascara a engrenagem de uma vinculação política perene e conservadora sob o manto da “defesa dos valores cristãos”. Em pleno pleito eleitoral de 2026, à medida que a disputa pela Presidência da República e pela hegemonia da direita se reconfigura na figura do senador Flávio Bolsonaro, a veiculação de um vídeo institucional promovido por eminentes lideranças batistas desnuda o colapso definitivo dessa ilusão, revelando a sofisticação da arte do posicionamento eleitoral indireto. 

A peça audiovisual intitulada Batistas e as eleições de 2026 constrói uma orquestração discursiva minuciosamente calculada, na qual a palavra “voto” ou o número de urna jamais precisam ser pronunciados para que o campo político seja teologicamente demarcado. Não se trata de um ato isolado de proselitismo individual, mas da mobilização de uma complexa cadeia argumentativa de acoplamento político-moral. Através de um jogo de montagem que encadeia a autoridade institucional e o prestígio acumulado dos chamados “medalhões” denominacionais, o vídeo articula demandas profundamente heterogêneas (tais como a defesa de uma “democracia” abstrata e descontextualizada, o apelo ao rigor constitucional, a pauta antiaborto fundada na moralização do feto, a reação corporativa contra a diversidade de gênero e a sacralização da família heteronormativa), convertendo essa pluralidade em um gabarito eleitoral subliminar. O resultado é a confecção de uma teologia política endereçada diretamente ao Estado brasileiro, na qual as bandeiras do fascismo cristão e do bolsonarismo dinástico surgem travestidas de imperativos categóricos da fé. 

Para compreender a eficiência analítica dessa operação, que transforma bandeiras político-partidárias contingentes em obrigações morais inegociáveis sem a necessidade de uma indicação eleitoral direta, mobiliza-se a teoria discursiva da hegemonia formulada por Ernesto Laclau (2013), em diálogo com Chantal Mouffe (2015). Na perspectiva laclauiana, o mundo social e a própria política são inteiramente tecidos por práticas discursivas. O discurso, para Laclau, não se reduz ao mero texto falado ou escrito, mas constitui uma totalidade estruturada de significados e ações que dão sentido à realidade. As identidades e as posições sociais não possuem uma essência fixa, natural ou a priori, são, ao contrário, o resultado contingente de lutas por hegemonia em que o sentido é constantemente fixado e desestabilizado. 

A operação da hegemônica política descrita por Laclau assenta-se em dois conceitos primordiais e complementares: a lógica da diferença e a lógica da equivalência. A lógica da diferença afirma a especificidade e a autonomia de cada demanda ou conceito particular (por exemplo, a defesa da Constituição é algo distinto do debate teológico sobre o início da vida humana, que por sua vez difere das disputas sobre modelos de família). A política hegemônica ocorre precisamente no momento em que a lógica da equivalência entra em ação: as diferenças específicas entre essas pautas heterogêneas são progressivamente atenuadas ou “esvaziadas” em favor de um elemento comum que as unifica. Essa unificação não decorre de uma conexão lógica intrínseca entre elas, mas da oposição conjunta a um antagonismo comum – um exterior constitutivo que ameaça a comunidade (no caso do discurso batista conservador, a “esquerda”, a “corrupção moral”, o “comunismo” ou a “degradação dos valores”). 

É nesse movimento que emerge a figura central do significante vazio ou universal. Como sintetiza Laclau (2013, p. 110), “um significante universal não possui um conteúdo conceitual próprio, mas surge do esvaziamento do sentido de uma demanda particular que passa a representar a totalidade inalcançável da comunidade”. Um significante torna-se vazio quando é despojado de seus significados literais e particulares para poder encarnar uma ideia genérica e abrangente de ordem, pureza ou salvação. No vídeo institucional da CBB, termos como “defesa da família”, “democracia”, “respeito à Constituição” e “soberania de Deus” deixam de operar como conceitos doutrinários ou jurídicos isolados. Eles são encadeados em uma relação de equivalência simbólica contínua, onde a “neutralidade” reivindicada pela cúpula não representa passividade ou isenção, mas o próprio nó articulador que apresenta pautas político-ideológicas reacionárias como se fossem o único horizonte moral e ético compatível com a verdadeira identidade cristã. Deslocam-se, assim, escolhas eleitorais contingentes para a esfera do imperativo ético-espiritual, moldando a conduta dos fiéis sem a necessidade de violar abertamente a legislação eleitoral ou a tradição de separação entre Igreja e Estado. 

Diante desse arcabouço teórico, o objetivo deste artigo reside em desarmar os mecanismos de legitimação operados por essa peça institucional, investigando como a projeção de rostos consagrados e o encadeamento de enunciados aparentemente genéricos funcionam como um sofisticado código de convocação política. O trajeto discursivo do vídeo é construído pedagogicamente: abre com o mais idoso e consagrado dos “pastores militares” vivos para encerrar com a exortação absolutista do domínio divino sobre as nações. Entre ambos, desfilam atores articulados ao lobby religioso no Congresso Nacional, formuladores de teologias ultraconservadoras, especialistas em pastoral familiar vinculados ao Bible Belt estadunidense e agentes ativamente engajados no ecossistema da extrema-direita contemporânea. Longe de constituir um mero apelo à “cidadania cristã”, a produção evidencia a persistência e a atualização do alinhamento de setores de cúpula da CBB com linguagens e práticas autoritárias – desde os laços históricos tecidos durante a ditadura civil-militar até a chancelaria moral concedida ao projeto político da família Bolsonaro em 2026. A partir do instrumental da sociologia da religião e da historiografia do protestantismo brasileiro, analisa-se detalhadamente a performance das lideranças mobilizadas no vídeo para demonstrar que a proclamação da “nação cujo Deus é o Senhor” não funciona como promessa soteriológica, mas como norma política de exclusão e convocação eleitoral, fraudando a histórica tradição de liberdade da denominação e revelando a atualidade do uso instrumental da fé na disputa pelo poder de Estado.

Crédito: Pedro Ventura/Agência Brasília

Irland Pereira de Azevedo (SP): O significante vazio da “democracia” e a memória autoritária 

É revelador que a peça institucional seja aberta pela figura emblemática de Irland Pereira de Azevedo e sua exortação inicial: “Qual é o Brasil que eu espero? Um Brasil que ame e viva a democracia”. Essa declaração adquire densidade crítica e ambiguidade teórica quando situada no horizonte histórico do universo batista brasileiro. Nos arraiais denominacionais, Irland é considerado um dos mais proeminentes “medalhões”, termo que designa lideranças de grande notoriedade que acumularam décadas de serviços prestados e capital político na estrutura eclesiástica. Pastor desde 1960, com início na Primeira Igreja Batista de Queimados (RJ) e passagem pela Igreja Batista do Méier, consagrou-se por sua longa trajetória à frente da Primeira Igreja Batista de São Paulo, onde atuou por mais de 26 anos e permanece como pastor emérito. Em sua extensa folha de serviços, foi professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, presidiu a Convenção Batista Carioca, a Convenção Batista do Estado de São Paulo (por quatro mandatos) e a própria Convenção Batista Brasileira, além de integrar instâncias da Aliança Batista Mundial. 

O que costuma ser expurgado dos emblemas oficiais da memória denominacional, contudo, é a histórica inserção de Irland Pereira no processo de aproximação de setores da liderança batista com o regime da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). A historiografia registra que Irland integrou, ao lado de Nilson do Amaral Fanini, o grupo de lideranças de estreito trânsito com a cúpula militar, chegando a participar de audiência oficial com o general-presidente João Baptista Figueiredo para entregar um documento de apoio inconteste da CBB ao governo autoritário. Registra-se, igualmente, sua diplomação, em 1981, no Curso Superior de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra (ESG), pilar teórico e ideológico da Doutrina de Segurança Nacional que legitimou a repressão aos opositores do regime. 

À luz da teoria discursiva de Laclau, a enunciação da palavra “democracia” pela boca de uma liderança com esse histórico atua paradigmaticamente como um significante vazio. O termo “democracia” é despojado de sua densidade histórica substantiva (associada à garantia dos direitos humanos, à diversidade social e ao conflito pluralista) para integrar uma cadeia de equivalências na qual funciona como mero verniz de legitimidade republicana. Mobilizar no presente o último dos “pastores militares” vivos, no alto de seus 91 anos, cumpre uma função discursiva precisa de blindar o bloco ultraconservador contra acusações de autoritarismo. A “democracia” enunciada por Irland é uma forma sem conteúdo antagônico, mobilizada para naturalizar a presença da igreja no debate público enquanto oculta a perenidade das práticas de colaboração com a exceção política. 

Pr. Raul Júnior (DF): A “Constituição” como ponto nodal de tutoria cristofascista 

Na sequência da peça audiovisual, a intervenção do Pr. Raul José Ferreira Júnior Povo que respeita a Constituição Federal ganha densidade quando confrontada com sua atuação concreta nas fronteiras entre o campo religioso e a política institucional do Congresso Nacional. Pastor sênior da Igreja Batista Vida Nova, em Taguatinga Norte (DF), Raul atua como assessor parlamentar na Câmara dos Deputados e ocupa o cargo de diretor do Capitol Ministries no Brasil. Sua trajetória ultrapassa os limites congregacionais para incidir diretamente sobre a formulação de políticas públicas e a formação ideológica de parlamentares em Brasília. 

O Capitol Ministries, organização transnacional fundada nos Estados Unidos pelo pastor Ralph Drollinger e introduzida no Congresso brasileiro em 2019, com o apoio de deputados e senadores da Frente Parlamentar Evangélica, visa expressamente a “reconstruir a nação a partir de valores cristãos” por meio da evangelização e cooptação de autoridades politicamente influentes (Dip; Viana, 2019). As hermenêuticas mobilizadas por essa organização instrumentalizam textos bíblicos para fundamentar a rigidez de fronteiras nacionais, o aumento do aparato de segurança do Estado e a restrição de direitos sociais sob uma ótica ultraliberal e conservadora. 

Sob o instrumental laclauiano, a exortação de Raul Júnior em defesa da “Constituição Federal” opera como um ponto nodal, isto é, um elemento articulador que busca suturar a legalidade laica do Estado de Direito aos preceitos teológicos de uma agenda restritiva. O apelo ao texto constitucional é ressignificado no interior da cadeia equivalência a Constituição deixa de representar o pacto democrático e plural de 1988. para figurar como um instrumento de preservação da ordem moral cristã. O respeito à lei, portanto, é condicionado à sua subordinação aos “valores divinos”, promovendo uma sacralização da ordem jurídica que legitima a tutoria religiosa sobre as instituições republicanas. 

Pr. Josué Valandro Júnior (RJ): A “tradição” como barreira antagônica e legitimação dinástica 

A declaração do Pr. Josué Valandro Júnior “Povo que preserva suas tradições, sua história e sua cultura” adquire pleno sentido quando conectado à trajetória do pastor-presidente da Igreja Batista Atitude, situada na Barra da Tijuca (RJ). A projeção pública de Valandro extrapolou o âmbito denominacional a partir das eleições de 2018, momento em que se estabeleceu como um dos principais articuladores e conselheiros religiosos da família Bolsonaro. A Igreja Batista Atitude converteu-se em palco frequente de celebrações políticas, orações de unção de candidatos e discursos em que a eleição presidencial de Jair Bolsonaro era explicitamente interpretada como o cumprimento de um propósito divino para a nação. 

Essa vinculação manteve-se ativa e adaptou-se aos novos cenários. No pleito de 2026, com o deslocamento do eixo bolsonarista para a candidatura de Flávio Bolsonaro, Valandro voltou a intervir publicamente na cena política. Noticiou-se sua atuação na convocação dos fiéis para que abandonassem a “neutralidade” e alinhassem suas escolhas eleitorais às convicções morais da igreja, bem como sua defesa pública do senador Flávio Bolsonaro diante de denúncias de inconsistências financeiras (Folha de S.Paulo, 2026). Analisada pela chave de Laclau, a convocação de Valandro pela preservação da “tradição, história e cultura” opera na fixação provisória de sentidos. As categorias “tradição” e “cultura” são mobilizadas como equivalentes diretos da defesa da ordem patriarcal e do projeto político da extrema direita. Estabelece-se, assim, um nítido antagonismo, a mudança social, a diversidade e a pluralidade secular são enquadradas como o exterior constitutivo que ameaça dissolver a “história” da nação. Ao invocar a tradição, Valandro constrói uma linha divisória que obriga o crente a escolher entre a fidelidade à sua herança cultural-religiosa ou a adesão a projetos políticos progressistas, apresentados como intrinsecamente destrutivos. 

Pr. José Maria de Souza e Gilton Medeiros (RJ): A construção do imperativo antiaborto na cadeia de equivalências 

A declaração do Pr. José Maria de Souza “O Brasil que eu quero, é o Brasil que valoriza a vida humana” possui importância estratégica por sua condição de presidente da Convenção Batista Carioca (CBC) para o biênio 2025-2027. Na montagem do vídeo, sua retórica introduz um enunciado abrangente e de aceitação universal (“valorizar a vida humana”) que prepara discursivamente o terreno para a intervenção imediata de Gilton Medeiros: “Desde a sua concepção o indefeso feto é um indivíduo”. 

Gilton Medeiros, jornalista, escritor, ex-professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e diretor-executivo do Ministério Vida Radiante, carrega lógicas pedagógicas e editoriais na denominação (Marques Reis, 2020). O emprego preciso do vocábulo “indivíduo” por Medeiros realiza uma transição crucial: o feto deixa de ser definido em termos biológicos ou teológicos soltos para ser investido do estatuto jurídico de pessoa titular de direitos absolutos desde a fecundação. Essa construção é imediatamente chancelada no vídeo pelas falas da ministra de música da Igreja Batista da Mooca (“O aborto é o assassinato desse ser indefeso”) e de Sandra Pitangui (“Por isso o Brasil que eu quero diz não ao aborto”). 

Para Laclau, essa sequência demonstra com clareza o funcionamento da “cadeia de equivalências”. O conceito genérico de “vida humana” (significante flutuante) é rapidamente preenchido por uma pauta política e doutrinária específica da oposição intransigente e absoluta ao aborto. Através do encadeamento dessas quatro vozes, a recusa aos direitos reprodutivos das mulheres e aos debates de saúde pública deixa de ser uma posição bioética particular para se tornar o critério definidor da própria “valorização da vida”. Cria-se uma exigência inegociável que funciona como filtro de avaliação política sugere a admissão do candidato aceitável para o crente deve, obrigatoriamente, comungar dessa “teologia do feto”. 

O casal Bifano (Gilson e Elizabete – RJ): A família heteronormativa como pilar ontológico do Brasil 

A intervenção conjunta de Gilson e Elizabete Bifano “O Brasil que nós queremos valoriza o casamento e a família” traz ao vídeo a legitimidade de um casal dedicado ao aconselhamento conjugal e à formação pastoral. Gilson, pastor formado pelo Seminário do Sul, e Elizabete, educadora e psicóloga, são os fundadores do Ministério OIKOS, organização alinhada aos modelos transnacionais dos family ministries gestados no Bible Belt norte-americano. A atuação do casal OIKOS visa à normatização dos comportamentos domésticos e à defesa de uma estrutura familiar estritamente heteronormativa, logo patriarcal. Ao vocalizarem a defesa do casamento e da família no vídeo institucional da CBB, os Bifano promovem a conversão de um ideal comunitário e privado em uma categoria política de exclusão. 

Sob a ótica da teoria discursiva, a “família tradicional” é elevada à condição de “significante hegemônico”. No interior da cadeia de equivalências do vídeo, a proteção da família não diz respeito apenas ao bem-estar doméstico, mas opera no formato de um “antídoto” contra as políticas de igualdade de gênero e os direitos das populações LGBTQIA+. A família sacralizada converte-se em pilar de sustentação da própria nação, de modo que defender o modelo familiar ultraconservador passa a ser equivalente a defender a sobrevivência messiânica do país.  

David Riker (PA): O antagonismo radical e a demonização das pautas de gênero 

A declaração do Pr. David Bowman Riker “O Brasil que eu quero, abomina a ideologia de gênero”, desdobrada no enunciado “afirmamos a existência de só dois sexos: menino e menina”, introduz na peça a linguagem do cristianismo ultraconservador. Pastor-presidente da Primeira Igreja Batista do Pará e doutor em Teologia, professor de Teologia Sistemática da Faculdade Batista Equatorial, Riker combina confessionalidade com uma militância ativa em audiências públicas no Senado Federal e plataformas digitais, denunciando o que classifica como “degradação moral da sociedade”.  

Sua utilização da expressão “ideologia de gênero” por Riker opera, junto a teoria de Laclau, como a delimitação do “antagonismo radical” ou do “exterior constitutivo”. Para que a comunidade batista (ultra)conservadora se sinta unificada em torno de um ideal de “pureza”, é necessário construir um inimigo absoluto que dificulte sua existência. Como teólogo neocalvinista salienta que a diversidade de gênero e os direitos sexuais são projetados como forças desestruturadoras que precisam ser “abominadas”. Ao restringir a diversidade humana a uma dualidade biológica estrita (“menino e menina”), Riker estabelece uma fronteira política inegociável. Em suas poucas palavras, desenha a rejeição à pauta de costumes diversa tornando-a teste supremo de fidelidade e o principal vetor da relação cristianismo hegemônico e a extrema direita. 

Eber Silva (RJ): A sacralização da autoridade política 

A afirmação do Pr. Eber Silva “O Brasil que eu quero é aquele em que Deus levanta e derruba os governos e governantes” é a consolidação no verniz batista de uma teologia política autoritária. Ex-presidente da Convenção Batista Fluminense e da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB), o “medalhão” Eber Silva possui uma trajetória caracterizada pelo trânsito direto entre a gestão eclesiástica e a disputa partidária, tendo concorrido ao cargo de deputado federal. A declaração de que a ascensão ou queda dos governantes responde exclusivamente à vontade soberana do divino opera, na chave laclauiana, como um mecanismo teológico de “sutura e legitimação”. Subordinar o processo eleitoral à providência divina visa diminuir a soberania popular.  

Ora, se Deus é quem se “levanta e derruba”, a autoridade política de certos líderes é revestida de uma aura de sacralidade inquestionável, enquanto a oposição a esses governantes é enquadrada como rebelião ao transcendente. A escolha eleitoral em 2026 é, assim, deslocada do terreno da avaliação de propostas e governabilidade para o terreno do discernimento espiritual e da submissão à ordem divina. 

Paschoal Piragine Júnior (PR): O significante mestre e a sacralização final do projeto eleitoral 

O fechamento desta peça midiática é confiado há umas das lideranças de maior peso político e institucional do Sul do Brasil: o Pr. Paschoal Piragine Júnior. Após pastorear a Primeira Igreja Batista de Curitiba por 35 anos e exercer a presidência da CBB e da OPBB, Piragine notabilizou-se nacionalmente pelo célebre sermão proferido na véspera do pleito presidencial de 2010, no qual orientou abertamente os fiéis a não votarem em candidatos do Partido dos Trabalhadores com base em pautas ultraconservadoras já.  

O medalhão Piragine encerra o vídeo de 2026 selando a orquestração midiática com a exortação do Salmo 33:12: “Por isso afirmamos com toda a convicção: ‘Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor!’”. Em Laclau, esse enunciado funciona como o “significante mestre” que fecha e encerra a cadeia de equivalências. A citação bíblica, descontextualizada de sua matriz veterotestamentária, é mobilizada como uma síntese da “felicidade” da nação é condicionada à submissão do Estado aos mandamentos cristãos interpretados pela cúpula denominacional. A presença de Piragine reativa no imaginário do eleitorado batista a memória de sua militância antipetista, funcionando como a chancelaria final da Convenção para indicar que a fidelidade ao divino condiciona a rejeição das esquerdas, logo ao engajamento na eleição do projeto político encabeçado por Flávio Bolsonaro. 

Considerações finais: A engrenagem da fé e a erosão da ilusão doutrinária 

A análise pormenorizada da peça audiovisual com trechos gravados dos “medalhões batistas” veiculada pela cúpula da Convenção Batista Brasileira (CBB) no contexto do pleito eleitoral de 2026 expõe o caráter ilusório e instrumental da histórica tese da “neutralidade política” denominacional. Longe de representar uma manifestação isenta de solicitude pastoral ou um mero apelo abstrato aos valores republicanos, o vídeo articula uma sofisticada engenharia de engajamento e de orientação política. Através da montagem encadeada pela autoridade dos “medalhões” batistas (desde a memória da ditadura militar representada por Irland Pereira de Azevedo até a militância antipetista encarnada por Paschoal Piragine Júnior), constrói-se uma teologia política orientada a chancelar as pautas da extrema-direita e o projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro sob o manto de deveres sagrados da consciência cristã. 

A mobilização da teoria discursiva da hegemonia de Ernesto Laclau permitiu demonstrar que o sucesso dessa operação apoia-se na constituição de uma eficaz cadeia de equivalências. Para Laclau, a “hegemonia” emerge quando uma demanda particular assume, por meio de articulações discursivas contingentes, a representação de uma totalidade social mais ampla, produzindo “identificações coletivas” em torno de significantes capazes de unificar demandas distintas. Demandas corporativas e morais particulares (tais como a criminalização irrestrita do aborto, o combate à igualdade de gênero, a sacralização da família heteronormativa e a defesa de uma soberania cristofascista) são articuladas em torno de significantes vazios como “democracia”, “Constituição”, “tradição” e “ordem”. Nessa operação de esvaziamento e preenchimento de sentidos, a “neutralidade” reivindicada pela CBB deixa de significar imparcialidade para se afirmar como o próprio mecanismo articulador que transforma posições reacionárias e contingentes no único horizonte ético aceitável para a fé cristã hegemônica.  

Em suma, ao colocar sua estrutura institucional e seu capital simbólico a serviço dessa gramática ultraconservadora, as lideranças batistas reatualizam a aliança entre o fundamentalismo religioso e as disputas pelo controle do aparelho de Estado. Nessa dinâmica, sacrificam-se os princípios históricos da liberdade de consciência, do livre-exame e da separação entre Igreja e Estado em prol de um projeto de poder autoritário.Assim, o vídeo de 2026 revela, que a invocação da neutralidade eclesiástica opera tão somente como blindagem discursiva, mascarando a participação ativa da liderança denominacional na erosão das instituições democráticas e na instrumentalização da fé para fins de hegemonia eleitoral. 

 

Fábio Py é doutor em História pela UERJ e em Teologia pela PUC-RIO. Coordenador do RE-CID – Grupo de Estudos Religião e Cidade, professor adjunto do PPGSP – IUPERJ -UCAM.   

Bibliografia 

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