A história de Margot, cuidadora trans entre resistência e afeto
Num país que envelhece rapidamente e ainda carece de políticas sólidas para o cuidado, histórias como a de Margot revelam o que permanece essencial: a capacidade de ver o outro
Entre o jornalismo e o cuidado, percorro muitos mundos e encontro diferentes vidas. Uma delas é a de Margot – mulher trans, sul-mato-grossense, cuidadora, profissional de uma sensibilidade rara. Há cinco anos em São Paulo, ela transformou a maior metrópole do país em cenário de trabalho, aprendizado e, muitas vezes, resistência silenciosa.
Nos hospitais e nas casas onde atua, Margot se move com uma delicadeza que contrasta com a dureza dos ambientes médicos: corredores silenciosos, rotinas rígidas, corpos fragilizados pela dor. Ali, onde muitos desejam não permanecer, ela encontra propósito. Observa, escuta, acolhe. Enxerga a pessoa por trás da doença – a história que persiste mesmo quando o corpo falha.
Para Margot, o cuidado ultrapassa a técnica. Ela acredita que a autoestima é parte essencial do bem-estar. Arrumar o cabelo de um paciente, hidratar a pele envelhecida, conversar até resgatar um brilho que parecia apagado: são gestos discretos, quase invisíveis, mas que devolvem dignidade a quem muitas vezes já não se reconhece diante do espelho. É esse cuidado ampliado que define seu trabalho.
Mas nem sempre seu compromisso é recebido com a mesma generosidade. O Brasil, ainda marcado por preconceitos que atravessam gerações, frequentemente lhe fecha portas. Em mais de um plantão, Margot foi dispensada antes mesmo de começar. Famílias que, ao descobrirem sua identidade de gênero, recusam seu serviço sem qualquer justificativa profissional. O silêncio dessas recusas pesa – diz mais sobre a sociedade do que sobre ela.
E, no entanto, é preciso afirmar com clareza: quem perde é quem a afasta. Ao recusar Margot, recusa-se muito mais do que uma cuidadora. Perde-se alguém que compreende o cuidado em sua dimensão mais ampla – corpo, autoestima, presença. Uma profissional capaz de transformar rotinas duras em momentos de humanidade, oferecendo, em cada gesto, uma resistência luminosa contra a desumanização.

Num país que envelhece rapidamente e ainda carece de políticas sólidas para o cuidado, histórias como a de Margot revelam o que permanece essencial: a capacidade de ver o outro. De reconhecer, mesmo nos dias mais frágeis, a beleza e o valor que continuam ali.
Talvez o mundo – e o Brasil – precise de mais mulheres como ela. E de menos barreiras para que seu trabalho, discreto, preciso e profundamente humano, alcance quem realmente precisa.
Clécia Rocha é jornalista e ativista dos cuidados paliativos, e estuda a comunicação como ferramenta de cuidado. Seu trabalho explora a escuta, a presença e as formas sutis de comunicação que atravessam as experiências humanas. Entre o jornalismo e a prática do cuidar, dedica-se a narrar histórias onde a palavra e o silêncio se encontram.

