A história do sono - Le Monde Diplomatique Brasil - Edição 165

QUANDO OS EUROPEUS ACORDAVAM POR VOLTA DA MEIA-NOITE

A história do sono

Edição 165 | França
por Roger Ekirch
1 de abril de 2021
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Deitar-se à noite, dormir direto, despertar de manhã: nada mais normal. Esse encadeamento parece tão natural que sua interrupção no meio da noite é considerada um distúrbio. Nem sempre foi assim. Por milênios, o sono humano foi cortado por um despertar noturno. Um tempo para si, envolto em sonhos, que abria uma porta ao inconsciente

Nos primeiros dias do outono de 1878, Robert Louis Stevenson, na época com 27 anos, passou doze dias fazendo caminhadas nas Cevenas, cadeia de montanhas no centro-sul da França. Sua única companheira de viagem era uma mula com o nome de Modestine. Stevenson só publicou A ilha do tesouro e se tornou célebre na literatura cinco anos depois. Bem no meio de sua expedição, ele instalou seu acampamento em uma pequena clareira rodeada de pinheiros. Depois de um jantar revigorante, quando o sol acabava de se pôr, ele se estendeu em seu sleeping bag, com um boné sobre os olhos. Mas, em vez de dormir ininterruptamente até o amanhecer, ele acordou pouco depois da meia-noite, o tempo de fumar preguiçosamente um cigarro e desfrutar de uma hora de contemplação. Até então, jamais ele havia se deleitado com “uma hora mais perfeita” – livre, ele se regozijava, do “aprisionamento da civilização”. “Por que motivo não explicitado, por qual relação delicada com a natureza, todos esses dorminhocos são mobilizados, por volta da mesma hora, para a vida?”,1 ele se perguntava.

O que Stevenson ignorava é que a experiência pela qual ele passou naquela noite de outono lembra uma forma de sono outrora comum. Na verdade, até a época contemporânea, uma hora ou mais de vigília no meio da noite interrompia o repouso da maior parte dos habitantes da Europa ocidental, e não só dos pastores e dos lenhadores considerados amantes das sestas. Os membros de cada residência se levantavam da cama para urinar, fumar um pouco de tabaco ou visitar seus vizinhos. Diversas pessoas continuavam na cama e faziam amor, rezavam ou, ainda mais importante, meditavam sobre o conteúdo dos sonhos que normalmente precediam esse despertar no fim de seu “primeiro sono”.

Ao constatarmos a indiferença dos historiadores à questão do sono, levantamos informações fragmentadas sobre esse assunto, em diversas línguas, graças a fontes que vão desde depoimentos judiciários até diários íntimos e obras de ficção. Com base nesses fragmentos, é possível reconstituir essa enigmática maneira de dormir.2 O primeiro período usualmente era designado pela expressão first sleep [primeiro sono], ou, mais raramente, first nap [primeiro cochilo], ou ainda dead sleep [sono profundo]. Em francês, a expressão empregada era premier sommeil [primeiro sono], ou premier somme [primeiro cochilo]; em italiano, primo sonno, ou primo sono [ambos, primeiro sono]; e, em latim, primo somno [primeiro sono], ou concubia nocte [altas horas da noite]. O período do despertar intermediário – que Stevenson chama poeticamente de “ressurreição noturna” – continha a designação genérica de watch, ou watching [vigília]. Os dois períodos duravam tempos muito semelhantes. As pessoas acordavam por volta da meia-noite, antes de voltarem a dormir durante o resto da noite. Obviamente, nem todos tinham os mesmos horários de ir dormir e de se levantar, inclusive havia aqueles que se deitavam tão cedo que podiam ter dois intervalos no sono. E, quando alguém ia se deitar após a meia-noite, é provável que não acordasse antes do nascer do sol.

 

Lavar a roupa, transar ou caçar

À primeira vista, é tentador considerar esse sono segmentado como uma relíquia cultural dos primeiros tempos da experiência cristã. Desde que São Bento exigiu, no século VI, que os monges se levantassem por volta da meia-noite para recitar versículos e salmos, essa regra e outras da ordem dos beneditinos se difundiram em um número cada vez maior de monastérios alemães e francos. No entanto, personalidades que não pertenciam à Igreja, tais como Pausânias, o Periegeta, e Plutarco, empregam a expressão em seus escritos; o mesmo acontece com autores da época clássica, como Tito Lívio, em sua História de Roma, ou Virgílio em Eneida, as duas obras elaboradas no século I a.C., ou ainda na Odisseia, de Homero, escrita no fim do século VIII ou início do século VII a.C.! Além disso, no século XX, algumas culturas não ocidentais e não cristãs apresentam há muito tempo uma maneira de sono segmentada, surpreendentemente semelhante à dos europeus da época moderna.

Ao contrário do que presumia Stevenson, esse acordar noturno tem muito pouco a ver com o fato de dormir ao ar livre, ainda que pastores e caçadores tenham se beneficiado disso. Esse hábito era compartilhado pela grande maioria das pessoas na época moderna. Como sugerem as pesquisas conduzidas, nos anos 1990, pelo National Institute of Mental Health [NIMH – Instituto Nacional de Saúde Mental], de Bethesda, nos Estados Unidos, é provável que a explicação resida na escuridão que envolvia a maior parte das famílias da época pré-industrial. Quando procuraram recriar as condições do sono “pré-histórico”, o doutor Thomas Wehr e seus colegas descobriram que os seres humanos, privados da luz artificial no cair da noite durante várias semanas, finalmente passaram a adotar um modo de sono fragmentado – que, surpreendentemente, era quase idêntico ao dos lares da época moderna. Privados da luz artificial até 14 horas por noite no total, os participantes do experimento de Wehr primeiro permaneciam deitados cada qual em sua cama durante duas horas; em seguida, dormiam durante quatro horas; no fim desse primeiro período, eles ficavam acordados de duas a três horas num repouso sereno e meditativo; depois disso, voltavam a dormir mais quatro horas suplementares, antes de acordarem de forma definitiva. O período intermediário de “vigília sem ansiedade” possuía uma “endocrinologia própria”, com uma taxa maior de prolactina, um hormônio pituitário bem conhecido por permitir que as galinhas choquem seus ovos durante longos períodos sem se mexer. Para Wehr, era possível comparar esse momento de vigília a um estado de consciência modificado semelhante à meditação.3

Mesmo que as pessoas que, na época moderna, acordavam por volta da meia-noite voltassem a dormir bem antes do fim do período de vigília experimentado pelos sujeitos submetidos ao experimento do NIMH, algumas se levantavam da cama quando despertavam. Um grande número delas, é claro, simplesmente tinha necessidade de esvaziar a bexiga. Outras aproveitavam a ocasião para fumar, para saber a hora ou para se alimentar. E, no caso de algumas, era o trabalho que as esperava. No século XVII, Henry Best of Elmswell, um fazendeiro, jamais deixava de se levantar “por volta da meia-noite” para impedir a destruição de suas plantações pelo gado perambulante. Além de cuidar das crianças, as mulheres se levantavam da cama para efetuar uma grande quantidade de trabalho gratuito – principalmente lavar roupas – que as atividades diurnas da casa atrapalhavam. “Muitas vezes, à meia-noite de nossas camas nos levantamos”, lamentava Mary Collier em The Woman’s Labour [O trabalho da mulher], em 1739. Levantar-se bem no meio da noite também abria possibilidades totalmente diferentes. Nenhum outro período do dia era tão propício para a pequena delinquência, sob todas as suas formas, como esse momento em que cada um estava desligado do mundo: assaltar lojas, entrepostos navais e outros locais de trabalho do espaço urbano ou rural, furtar lenha para lareiras, caçar e pilhar os pomares.

A maior parte das pessoas, quando acordava, provavelmente não se levantava da cama. Além de rezar, elas conversavam com o(a) companheiro(a) de cama ou se perguntavam sobre a saúde de um filho ou de seu marido ou esposa. Muito frequentemente, no primeiro despertar, os casais tinham relações sexuais. No século XVI, o médico francês Laurent Joubert afirmou que essas relações sexuais permitiam aos operários, aos artesãos e a outros trabalhadores gerar um grande número de filhos. Como o esgotamento impedia que copulassem no momento em que iam dormir, as relações sexuais se davam “após o primeiro sono”, quando “eles têm mais prazer, o fazem melhor sem ser incomodados e com entusiasmo”.

Para cada espírito ativo, havia dois outros que não estavam de imediato nem adormecidos nem acordados. A não ser que tivesse sido precedido de um sonho desconcertante, esse primeiro despertar muitas vezes era caracterizado por dois aspectos: pensamentos confusos que iam e vinham “como melhor lhes parece”, associados a um sentimento de profunda satisfação. Na descrição sugestiva que se encontra em The Haunted Mind (1835) [A mente atormentada], Nathaniel Hawthorne salientou: “Se você puder escolher uma hora de vigília, esta […]. Você encontrou um espaço intermediário, em que as preocupações da vida não intervêm, em que o momento que passa persiste e torna-se verdadeiramente o presente”. As primeiras horas da madrugada poderiam ser um momento de grande soberania pessoal.

Muitas vezes, quando despertavam de seu “sono da meia-noite”, as pessoas consideravam com atenção um caleidoscópio de imagens parcialmente cristalizadas: os quadros ligeiramente imprecisos, mas marcantes, provenientes de seus sonhos. Como nos períodos históricos anteriores, na época moderna os sonhos desempenham um papel muito importante na vida cotidiana. De acordo com a opinião comum, eles revelavam tanto o futuro como o passado. O grande público apreciava não só sua qualidade oracular, mas também a compreensão mais profunda do corpo e da alma que eles permitiam. Esses sonhos refletiam a saúde do corpo, como defendiam Aristóteles e Hipócrates, enquanto outros lançavam uma rara luz sobre as profundezas da alma. Bem antes dos filósofos românticos do século XIX e de Sigmund Freud, os europeus da época moderna levavam em conta os sonhos pelo conhecimento aprofundado da personalidade que forneciam e, principalmente, pelo que revelavam da relação que cada pessoa mantinha com Deus. Para as classes inferiores, os sonhos constituíam não só um acesso à consciência de si, mas também uma maneira de escapar dos sofrimentos cotidianos. Assim, um personagem das fábulas de La Fontaine afirma: “O destino com fios de ouro não tecerá minha vida; / Não dormirei sob ricos lambris; / mas constata-se que o sono perca com isso seu valor? / Com isso, ele é menos profundo e menos pleno de delícias?”.

Essas visões tinham repercussões tão importantes que, às vezes, as fronteiras entre o mundo acordado e o mundo invisível se confundiam. A confusão era bastante comum entre os que justamente acabavam de acordar. “Trata-se, então, de um sonho após meu primeiro sono?”, pergunta o personagem Lovel em The New Inn [O novo albergue], de Ben Jonson. Nas camadas inferiores e médias da sociedade, o passatempo apreciado que a escuta de contos e lendas representava, sem dúvida, aumentava o problema. Na verdade, uma das técnicas narrativas correntemente empregada consistia em elaborar uma “mistura confusa” que conferia aos contos um aspecto descosturado e, assim, lhes dava a textura familiar de um sonho, talvez a fim de aumentar sua autenticidade.

Se as famílias da época pré-industrial dormissem ininterruptamente, um grande número dessas visões provavelmente seria dissipado de manhã – “desaparecendo quando a luz ressurgia”, nas palavras do poeta John Whaley. Acontecia algo totalmente diferente no caso daquelas e daqueles que acordavam imediatamente após seu primeiro sono. Provavelmente, muitos ainda estavam mergulhados em um sonho poucos minutos antes, o que lhes permitia estar impregnados de visões noturnas ainda muito vivas, antes de afundarem de novo na inconsciência. Após terem acordado, provavelmente dispunham também de todo o tempo necessário para que um sonho pudesse adquirir sua estrutura com base no caos inicial de imagens desordenadas.

Crédito: Bruna Maia

Distanciamento das visões noturnas

Foi assim durante centenas, possivelmente milhares de anos. A partir do fim do século XVIII, o sono segmentado, com seu intervalo de vigília, tornou-se algo mais raro, em primeiro lugar nas classes mais favorecidas, que habitavam em um ambiente urbano mais esclarecido, e em seguida, pouco a pouco, em todos os outros estratos da sociedade, com exceção das comunidades mais isoladas. Mas seu desaparecimento não se deu de um dia para outro. A diminuição gradual da escuridão só se manifesta na aurora do século XIX nas mais importantes localidades da Inglaterra, com a industrialização e o crescimento contínuo da opulência e dos entretenimentos das classes médias e altas urbanas. “A vida está em vigília a qualquer hora da noite”, disse em 1801 um observador em Londres. A profissionalização da polícia, as atividades comerciais noturnas, o trabalho noturno e, sobretudo, a melhora da iluminação doméstica assim como a das vias públicas tornaram, então, a noite cada vez menos escura. A luminosidade de um único lampião a gás é doze vezes superior à de uma vela de parafina ou de uma candeia a óleo. A luz produzida por uma única lâmpada elétrica no fim do século XIX é cem vezes mais forte. Na comunidade científica existe um grande consenso concernente ao enorme impacto fisiológico da iluminação artificial – ou sobre o contrário, no caso de sua ausência. “Cada vez que acendemos uma lâmpada, tomamos, sem nos darmos conta disso, uma droga que afeta nosso sono”, salienta o especialista em cronobiologia Charles A. Czeisler, e a consequência mais evidente disso é uma variação das taxas de melatonina e da temperatura corporal.

Essa descoberta da noite segmentada por um episódio de vigília implica que o sono de um grupo que conhecemos há dois séculos constitui, na realidade, um fenômeno extraordinário recente, um produto da cultura contemporânea. Ela poderia permitir uma melhor compreensão dos problemas mais comuns do sono. Do ponto de vista histórico, é da maior importância determinar se, como supõe Wehr, “esse arranjo fornecia um canal de comunicação entre os sonhos e a vida acordada, canal que foi progressivamente cortado pela compressão e consolidação de seu sono pelos seres humanos”. Diferentemente das sociedades não ocidentais que institucionalizaram seus sonhos, o entendimento que temos de nossas visões noturnas progressivamente decresceu e, com ele, a compreensão de nossas pulsões e emoções mais íntimas. Há certa ironia no fato de que a tecnologia contemporânea, ao transformar a noite em dia, tenha contribuído para obstruir uma das mais antigas vias de acesso ao psiquismo humano e que isso ocorra mesmo que ela permita explorar as profundezas do cérebro.

 

*Roger Ekirch é historiador. Autor de La Grande transformation du sommeil. Comment la révolution industrielle a bouleversé nos nuits [A grande transformação do sono. Como a Revolução Industrial transtornou nossas noites], Éditions Amsterdam, Paris, 2021. Este artigo se inspira no primeiro capítulo dessa obra.

 

1 Robert Louis Stevenson, Voyage avec un âne dans les Cévennes [na ed. bras., Viagem com um burro pelas Cevenas], Flammarion, Paris, 2017.

2 Remetemos à obra para as referências das fontes citadas.

3 Thomas A. Wehr, “A ‘clock for all seasons’ in the human brain” [Um “relógio para todas as estações” no cérebro humano]. In: R. M. Buijs et al. (org.), Hypothalamic Integration of Circadian Rhythms [Integração hipotalâmica dos ritmos circadianos], Elsevier, Amsterdã, 1996.

 



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