A Hungria retorna à Europa, em seus próprios termos
Um reajuste pós-Orbán está em curso, mas o nacionalismo de Péter Magyar ameniza sua inclinação pró-UE: o mais provável é uma cooperação seletiva em temas como Ucrânia e segurança, combinada com resistência firme em questões culturais, imigração e de soberania.
A eleição húngara carregou um peso que poucos votos nacionais conseguem ostentar. Ela não decidiu apenas quem governa em Budapeste, mas, em um só voto, redefine a coesão da União Europeia em torno de sanções, financiamento, novos membros e a previsibilidade de um membro da OTAN, a Hungria. Redefine também a capacidade de resistência e sobrevivência de Kiev diante da guerra.
Washington observava atentamente a coesão transatlântica; Kiev, no futuro do apoio europeu; Bruxelas, na possibilidade de um membro mais alinhado e fiel ao Estado de direito; Moscou, na preservação de um interlocutor confiável dentro do bloco ocidental. Raramente um único escrutínio concentrou tantas ansiedades simultâneas – e raramente a pergunta foi tão simples: a Hungria continuaria sendo um ator imprevisível, ou retornaria ao eixo europeu?

Quem é o novo primeiro-ministro
A ascensão meteórica de Péter Magyar reconfigurou expectativas em Bruxelas e em Kiev, mas projetá-lo como um liberal cosmopolita seria um erro que já começa a circular nas análises apressadas. Magyar é, antes de tudo, um político conservador e nacionalista que soube articular o pragmatismo como antídoto para a corrupção e para a incompetência instalada no Estado. Não é uma figura que chega para satisfazer o ideário progressista europeu. É uma figura que veio para responder ao eleitorado que o elegeu.
A trajetória importa e merece atenção. Aos 45 anos, Magyar é um produto legítimo do establishment conservador húngaro: formado em Direito, oriundo de família de alta escolarização, ex-integrante do círculo do Fidesz – partido de Vikto Orbán –, com anos vividos em Bruxelas como membro da representação permanente da Hungria junto à UE. Quando o Fidesz retornou ao poder em 2010, Magyar estava no Ministério das Relações Exteriores. Em 2011, já trabalhava nos corredores da burocracia europeia. Sua ex-esposa, Judit Varga, foi ministra da Justiça entre 2019 e 2023.
A ruptura de Magyar com Orbán não nasceu de uma conversão ideológica – nasceu de escândalos e de uma desilusão política que ele não conseguiu mais conter em silêncio.
O estopim da ruptura com Orbán foi o indulto concedido pela então presidente Katalin Novák a um homem condenado por acobertar abusos num orfanato. Magyar foi a público, rompeu com o sistema que ajudara a construir, e fundou o partido Tisza. A estratégia foi calibrada com precisão: crítica contundente à cleptocracia de Orbán, retórica anti-imigração, cautela calculada em temas sensíveis como a Parada do Orgulho LGBT, e uma linguagem que soube falar tanto com o eleitorado rural conservador quanto com os liberais urbanos que simplesmente queriam uma alternativa. O resultado foi uma maioria parlamentar de dois terços — não como adesão a um projeto social-democrata europeu, mas como demanda clara por mudança de gestão, não de valores.
Magyar e a política europeia
Essa trajetória híbrida explica o otimismo cauteloso que circula hoje nas capitais europeias — e também os seus limites. Magyar sinalizou disposição para reengajar: prometeu remover bloqueios parlamentares, incluindo o veto que travava um pacote de €90 bilhões destinado à Ucrânia, e afirmou que pretende tornar a Hungria um “parceiro confiável” da UE. A liderança ucraniana já estabeleceu contatos, e Magyar declarou que aceitaria até uma ligação de Vladimir Putin se isso contribuísse para encaminhar o fim do conflito. São sinais inequívocos de mudança depois de anos de obstrução sistemática.
Mas cooperação não é capitulação e Magyar não parece inclinado a confundir as duas coisas. Em temas onde Bruxelas avança agendas de perfil liberal – direitos LGBT, migração compulsória, políticas identitárias supranacionais – ele tende a resistir. Não por lealdade a Orbán, mas por cálculo político sólido: ele responde a uma base conservadora que o elegeu e que não espera dele uma conversão liberal europeia. O choque com a maioria liberal do Parlamento Europeu, nesses dossiês, é uma questão de quando, não de se.
No caso da Ucrânia, porém, os incentivos convergem de maneira mais clara. A Hungria compartilha fronteira com o país e sente os custos da instabilidade de perto – no fluxo de refugiados, nos preços de energia, na percepção de insegurança regional. Suspender vetos e apoiar mecanismos europeus de financiamento traz ganhos diplomáticos imediatos com custo interno relativamente baixo. A isso se soma o cálculo econômico: combater a corrupção e enterrar a imagem de “pária europeu” pode destravar fundos estruturais congelados e restaurar a credibilidade do país junto aos investidores. O mais provável, portanto, é uma cooperação pragmática em segurança, financiamento e coordenação OTAN-UE – mas sempre condicionada e sempre guiada por interesses nacionais, não por solidariedade ideológica.
O que Esperar Doravante
A tensão central que definirá o mandato de Magyar é esta: de um lado, a expectativa europeia por um parceiro previsível e alinhado ao Estado de direito; do outro, o nacionalismo conservador de Magyar, que exige reconhecimento das realidades políticas internas – e que não está disposto a governar como se Budapeste fosse um escritório descentralizado de Bruxelas.
Se a UE busca uma relação mais estável, precisará aprender a tratar Magyar não como um convertido ao liberalismo, mas como um realista com agenda própria: recompensar avanços concretos, construir confiança passo a passo, e estar preparada para disputas ideológicas quando elas forem inevitáveis. Para Kyev, a porta está entreaberta – Magyar já deixou claro, inclusive, que não tem intenção de acelerar a adesão ucraniana à União Europeia.
A vitória de Magyar representa uma oportunidade real de reconfigurar relações – não uma garantia de convergência. As expectativas são altas, mas expectativas altas também trazem riscos. No debate sobre alargamento da UE, a pressa sem objetivos claros, sem liderança definida e sem uma visão estratégica consistente pode, paradoxalmente, fragilizar o próprio projeto europeu que tanto se deseja fortalecer. Magyar sabe disso. E Bruxelas faria bem em saber também.
Ricardo Martins é doutor em Sociologia com especialização em Geopolítica e Relações Internacionais

