A indústria de semicondutores na guerra contemporânea: as sanções dos EUA - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA EXTERNA

A indústria de semicondutores na guerra contemporânea: as sanções dos EUA

por Esther Majerowicz
17 de março de 2022
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Para compreendermos a política dos EUA relativamente à Rússia e à China, é preciso associar os aspectos da guerra que se vinculam ao lado comercial da indústria de semicondutores com a inserção destes países na indústria global

Os semicondutores são os blocos construtores das modernas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Eles incluem desde os componentes mais simples, como sensores, até os circuitos integrados ou chips, como processadores e memórias. Substitutos das válvulas termiônicas, tecnologia que predominou no universo dos eletrônicos até meados do século XX, os semicondutores permitiram a miniaturização dos computadores, com contínua melhoria de desempenho e queda de custos. A ubiquidade da computação moderna deve-se ao progresso técnico em semicondutores e nas máquinas que os produzem.

 

A guerra contemporânea e os semicondutores

O que não é tão evidente a respeito desta tecnologia, todavia, é que, por um lado, os semicondutores, em grande medida, resultam da guerra, por outro, ocupam um papel sui generis na guerra contemporânea, pois sustentam e condicionam o desenvolvimento mais amplo das TIC, que viabilizaram o que se convencionou chamar de Revolução nos Assuntos Militares.

Os semicondutores emergiram como uma indústria americana. A pesquisa e o desenvolvimento iniciais que levariam anos depois ao seu surgimento foram realizados durante a Segunda Guerra na busca por precisão de radar para a detecção de submarinos alemães, financiados pela Corpo Militar de Sinais dos EUA. O Estado americano, portanto, foi quem capitaneou o surgimento desta tecnologia a serviço de seus interesses militares. Com décadas de desenvolvimento tecnológico dos semicondutores e das tecnologias que estes viabilizaram, muitas das quais também filhas do setor de defesa americano, como a Internet e o GPS – que surgem da ARPANET e do NAVSTAR – uma massa crítica de mudança tecnológica acumulou-se e tornou-se capaz de impactar a própria forma da guerra. A miniaturização e o aumento da velocidade dos sistemas de computação e dos módulos eletrônicos baseados nos semicondutores viabilizou o surgimento das munições guiadas com precisão, cuja demonstração de uso pelos EUA na Primeira Guerra do Golfo, em 1991, teria transformado as próprias doutrinas, táticas e estratégias de guerra, consubstanciando a Revolução nos Assuntos Militares.

Nos EUA, firmou-se o entendimento majoritário nos círculos militares de que seria a superioridade tecnológica, particularmente nas TIC, o principal fator para ganhar as guerras contemporâneas, ainda que existam vozes que desafiem essa perspectiva e recoloquem a guerra como um assunto humano não sujeito ao determinismo tecnológico (ver a vitória de Van Riper usando tecnologias antigas no Jogo de Guerra dos EUA da Virada do Milênio de 2002). Na China, em resposta a essas transformações, a estratégia militar do país abandonou a preparação para as guerras populares e passou a adotar a preparação para “guerras locais em condições de informatização”.

Os semicondutores, portanto, estão no coração da guerra contemporânea. Como blocos construtores das TIC, isto é, “das condições de informatização” das guerras locais e da Revolução nos Assuntos Militares, há uma miríade de formas pelas quais a guerra contemporânea depende deles para além das munições de precisão (o poderio militar duro). Junto com as demais TIC, eles podem ser considerados como multiplicadores de força, sendo fundamentais para operações em campo de batalha, cyber-operações, guerra eletrônica, sistemas de defesa, navegação, comunicação e espaço.

À luz da importância da indústria de semicondutores para a guerra, logo, de seu caráter estratégico, cabe-nos analisar como os aspectos industrial e comercial desta tecnologia se entrecruzam com as dinâmicas militares associadas a ela, isto é, seu caráter de tecnologia de uso dual (civil-militar). Três aspectos destacam-se: 1) a liderança tecnológica: possuir os mais avançados semicondutores que não estejam disponíveis para os rivais oferece vantagens militares, de forma que os semicondutores de ponta do setor militar não estão disponíveis para o setor civil, sendo comercializados sempre com defasagem; 2) integridade: a integridade do chip pode ser comprometida nas etapas da manufatura e/ou do design, por meio de cavalos de troia ao nível do hardware, de sorte que os chips podem ser programados para falhar ou fornecer porta dos fundos para rivais; 3) suprimento: assegurar o suprimento de semicondutores é essencial para a manutenção do poderio militar na guerra contemporânea.

Semicondutores
(Foto: Pexels)

A indústria global de semicondutores: o controle dos EUA e seus aliados militares

Esses aspectos serão instrumentais para a compreensão das atuais disputas envolvendo os semicondutores. Antes disso, cabe-nos delinear algumas características do processo de globalização da indústria de semicondutores que a manteve sob o controle direto e indireto dos EUA até hoje.

Como mencionado, a indústria de semicondutores nasceu no setor de defesa americano. O caráter estratégico desta indústria deu uma forma muito particular à sua globalização, que guardou as seguintes características: 1) as etapas produtivas intensivas em trabalho não qualificado foram deslocalizadas a qualquer lugar onde os custos fossem baixos; 2) as etapas produtivas na fronteira tecnológica dos chips de ponta tiveram um grau muito mais tímido de globalização e estiveram submetidas a regulação para permanecer nas economias domésticas, assim como se restringiu a exportação de máquinas para a produção de chips; 3) apenas um pequeno grupo de países aliados militares – devido a circunstâncias geopolíticas particulares – recebeu ajuda dos EUA para extrapolar 1 e desenvolver 2, como Taiwan e Coreia do Sul; 4) os EUA vêm demonstrando grande capacidade de enquadrar seus aliados ao longo das décadas.

Assim, pode-se dizer que a globalização da indústria de semicondutores ocorreu de forma heterogênea, e apenas um seleto clube de aliados militares dominava a tecnologia de chips, nomeadamente, os EUA, a Coreia do Sul, a Europa, o Japão e Taiwan. Na indústria de máquinas para a produção de semicondutores, a concentração é ainda maior, com o domínio dos EUA, Holanda e Japão. Os EUA controlam distintos equipamentos especializados, embora tenham perdido as máquinas de litografia, cruciais para o controle do ritmo do progresso técnico nos chips, particularmente para o processo de miniaturização e melhoria de desempenho.

Atualmente, a holandesa ASML é quem domina o mercado desta máquina, sendo a única que dispõe das máquinas de litografia de Ultravioleta Extrema (EUV), que são as capazes de fazer a manufatura dos chips os mais avançados existentes. Ainda assim, nota-se que a ASML só pôde desenvolver esta máquina, comercializada a partir de 2018, porque contou com a transferência da tecnologia EUV dos laboratórios de defesa americanos Sandia, inventada na década de 1980 no contexto da ofensiva tecnológica americana da Guerra nas Estrelas. Nesse sentido, ainda que os EUA tenham perdido o braço comercial da litografia, seu setor de defesa permanece fundamental para o avanço da fronteira tecnológica em semicondutores e possui relações especiais históricas com a ASML, primeira empresa estrangeira a ter acesso aos laboratórios de defesa americanos.

É nesse contexto de controle da indústria global de semicondutores e de máquinas pelos EUA e seus aliados que ocorreu a entrada da China, com a reintegração do país à economia global. Entretanto, a parcela de mercado da China, enquanto produtora, ainda era pequena em 2020, correspondendo a 5% do mercado mundial, ao passo que a dos EUA era 55%. Cabe ressaltar que a empresa chinesa mais avançada da manufatura de chips, a SMIC, permanece alguns anos atrás da fronteira tecnológica, embora tenha reduzido a distância dramaticamente. Em contraste, a China é de suma importância para a indústria global enquanto mercado – tendo se tornado o maior mercado de semicondutores em 2005 – já que o país é a “fábrica do mundo” e o maior mercado para diversos bens finais. Como resultado, a maior parte das necessidades de consumo chinesas é atendida por importações, e os semicondutores são o principal item importado pela China. Produtiva e tecnologicamente, a China é ainda mais dependente nas máquinas que produzem semicondutores. Já a Rússia sequer figura entre as estatísticas do mercado mundial de semicondutores, seja na produção, seja no consumo.

 

A política dos EUA e as sanções contra Rússia e China

Para compreendermos a política dos EUA relativamente à Rússia e à China, é preciso associar os aspectos da guerra que se vinculam ao lado comercial da indústria de semicondutores com a inserção destes países na indústria global. No caso da China, a primeira a sofrer sanções econômicas, nota-se que o estrangulamento ocorreu como um movimento cirúrgico, pontual, afetando um conjunto bem específico de empresas. Se é certo que há grande diferença entre estar ou não em guerra, também é certo que a China ser o maior mercado para semicondutores e o maior mercado para diversas máquinas da produção de semicondutores atinge os grandes capitais americanos no setor de tecnologia. Uma guerra comercial de anos – como a que vem ocorrendo – na forma de sanções generalizadas contra as empresas de tecnologia chinesas teria o condão de provocar uma crise na acumulação de capital nos próprios Estados Unidos. Assim, o foco foi o corte de suprimento das empresas que estavam na fronteira tecnológica ou caminhando para alcançá-la, particularmente, a Huawei, devido ao seu desempenho no 5G, e a SMIC, que se aproximava da fronteira na manufatura de chips.

Esse corte evoluiu para ter uma incidência extraterritorial, já que os EUA estabeleceram que aqueles que utilizassem máquinas ou tecnologia americana não poderiam exportar para entidades definidas por eles. Foi o corte no suprimento de semicondutores que afetou a Huawei, e foi o corte no suprimento de maquinaria avançada, particularmente das máquinas de litografia de EUV encomendadas da ASML, que afetou a SMIC. Nesse sentido, o objetivo foi preservar a liderança tecnológica dos EUA. Ressalta-se ainda que, em chips, o setor comercial chinês é mais avançado que o militar, sendo ele a via para a modernização militar. O bloqueio ao desenvolvimento da tecnologia civil, neste caso, é um bloqueio à modernização militar chinesa.

No caso da Rússia, em um cenário de guerra e no qual o país é marginal para o mercado mundial de semicondutores na produção e no consumo, é possível cortar o suprimento de forma mais ampla sem maiores consequências neste mercado para as empresas americanas. Aqui, o corte de suprimento visa deteriorar a capacidade militar russa – que, desgastada, não teria suas partes repostas nem atualizadas –, bem como comprometer determinados setores estratégicos de sua economia. Nota-se que aquelas exigências extraterritoriais americanas de proibir a exportação de semicondutores para a Rússia também se aplicam à China, que vê suas empresas novamente ameaçadas de sanções, como a SMIC, em caso de descumprimento. Isso já ocorreu anteriormente: em 2016, a ZTE foi sancionada pelos EUA e quase faliu por ter exportado equipamentos de telecomunicações com chips americanos para o Irã e a Coreia do Norte.

Nesse contexto de guerra na Europa e crescimento das tensões geopolíticas na Ásia, os EUA também se preocupam que o suprimento de chips avançados eventualmente seja negado ao país, já que todas as plantas da manufatura de chips abaixo de 10nm (os mais avançados existentes) estão localizadas em Taiwan (92%) e na Coreia do Sul (8%). Em tempos de paz na Ásia, os EUA conseguem operar os fluxos de suprimentos indiretamente, através de suas exigências extraterritoriais sobre seus aliados, dada a dependência da indústria global na tecnologia e máquinas americanas. Em tempos de guerra e tendo em vista a proximidade desses territórios com a China, a situação torna-se desfavorável para os EUA, daí a recente obsessão do país com a relocalização das plantas manufatureiras avançadas.

Nesse sentido, além de a liderança tecnológica dos EUA em semicondutores se manifestar diretamente em superioridade militar, o país mantém um poder estrutural no ecossistema de TIC por manter o controle direto e indireto sobre a produção das máquinas que fabricam os semicondutores e dos semicondutores. Este poder vem sendo alavancado para conter seus rivais, ainda que encontre limitações nas intrincadas interdependências econômicas entre a China e os EUA. Para garantir sua liderança tecnológica, os EUA, com Biden, buscam ampliar os esforços para avançar na fronteira tecnológica ao invés de meramente tentar bloquear o desenvolvimento tecnológico chinês, enquanto procuram relocalizar as plantas manufatureiras avançadas para seu território, de forma a prevenir que façam com o país o mesmo que os EUA vêm fazendo com a Rússia e a China em um possível cenário de guerra na Ásia.

 

Esther Majerowicz é professora do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRN.

 



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