A inovação internacional idealizada pelo Brasil para combater a fome no mundo
A Aliança mostra a capacidade diplomática do Brasil em manter a fome e a pobreza na pauta internacional, bem como construir propostas inovadoras para ajudar a enfrentar problemas globais, em um contexto adverso
Em Roma, nos arredores do Coliseu, especialistas internacionais trabalham desde outubro de 2025 para ajudar a erradicar a fome e lutar contra a pobreza no mundo.[1] É a equipe do mecanismo de apoio da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que fica alocada na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O contexto de atuação da Aliança é desafiador, pois os níveis de fome de pobreza no mundo ainda são elevados, o financiamento para a ajuda internacional está reduzindo e a crise do multilateralismo se aprofunda.
A Aliança foi criada em 2024, como uma contribuição originalmente brasileira, no G20, que reúne as vinte maiores economias do mundo. Hoje, a Aliança conta com 214 membros, incluindo mais de cem países, como a Alemanha e Portugal, diversas instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento, organizações internacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), e organizações filantrópicas, como a Fundação Bill e Melinda Gates.
A atuação da Aliança, entretanto, acontece em um contexto internacional complexo. Há uma rejeição ao multilateralismo, conceito usado para se referir à atuação conjunta de países diversos para enfrentar problemas internacionais. Entre estes, os Estados Unidos, que são um dos maiores financiadores da cooperação internacional e do sistema das Nações Unidas. Outro exemplo recente é a saída dos Emirados Árabes Unidos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Além disso, conflitos internacionais, entre a Rússia e a Ucrânia e outros no Oriente Médio, têm induzido vários países, como na Europa por exemplo, a aumentar as despesas com segurança e defesa. Isso implica, muitas vezes, na realocação de recursos e mudanças nas prioridades da cooperação internacional, além de afetar a geopolítica global.
A Aliança testa uma nova forma de atuar internacionalmente, por meio de uma estrutura de funcionamento leve e ágil. Operando como um agente intermediário, a Aliança auxilia países a buscar expertise e financiamento para aumentar os beneficiários das suas políticas sociais. Uma cesta de instrumentos foi desenvolvida, de modo que governos possam buscar soluções baseadas em evidências para seus problemas. Entre os instrumentos da cesta há políticas brasileiras e de outros países, como programas de transferência de renda condicionada, de agricultura familiar e de alimentação escolar.

No ano passado, foram lançados planos de apoio à adoção de políticas de larga escala para lutar contra a fome e pobreza em oito países, na América Latina, África e Oriente Médio. O plano para a Etiópia, por exemplo, procura aumentar a capacidade de produção dos pequenos agricultores. Para colocar o plano em prática, foi elaborado um projeto de colaboração envolvendo o governo etíope e parceiros, como o Banco Africano de Desenvolvimento, a Fundação Rockefeller e os Emirados Árabes Unidos. Já o plano do Quênia procura enfrentar os efeitos das mudanças climáticas e da escassez de água por meio da construção de cisternas em 1300 escolas. O Quênia pretende aprender com a expertise brasileira nesse setor.
A Aliança mostra a capacidade diplomática do Brasil em manter a fome e a pobreza na pauta internacional, bem como construir propostas inovadoras para ajudar a enfrentar problemas globais, em um contexto adverso. Além disso, o Brasil construiu progressivamente políticas que demonstraram resultados no combate à fome e à pobreza, servindo de inspiração para outros governos. Esta não é a única aliança global. Existem outras, como a Aliança para Vacinas, uma parceria público‑privada que envolve governos, a Organização Mundial da Saúde, o Banco Mundial, cujo papel foi crucial durante a pandemia. Passados quase oitenta anos de vigência do sistema das Nações Unidas, e diante da crise do multilateralismo, novos arranjos globais são imprescindíveis. Para encontrar métodos que funcionem, é necessário inovar e experimentar. A Aliança é uma expressão da resiliência da cooperação internacional, uma iniciativa importante, porque, afinal, quem tem fome, independentemente do país onde esteja, não pode esperar.
Osmany Porto de Oliveira é professor do Departamento de Relações Internacionais e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas Internacionais (Laboppi) da Universidade Federal de São Paulo.
[1] Este artigo faz parte do projeto de pesquisa “Política externa, políticas públicas e cooperação Sul-Sul”, com apoio do CNPq, Processo: 444353/2024-0.

