A invasão bárbara - Le Monde Diplomatique

SOCIEDADE EM REDE

A invasão bárbara

por Hernani Dimantas
13 de setembro de 2008
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No ensino, ao contrário do que sempre ocorreu, o professor terá de partir partir do mundo real para o pedagógico. Isso significa que a
escola começa se alimentar da inteligência coletiva que emerge da
rede. Uma revolução não-televisionada, que rompe os muros da educaçãoHernani Dimantas

A palavra “bárbaro” provém do grego antigo, e significa “não grego”.
Era como os gregos designavam os estrangeiros e os povos cuja língua materna não era a sua. Porém, foi no Império Romano que a expressão passou a ser usada com a conotação de “não-romano” ou “incivilizado”. O preconceito em relação aos povos que não compartilhavam os mesmos hábitos e costumes é natural dos habitantes dos grandes centros econômicos, sociais e culturais. Atualmente, uma das acepções da expressão “bárbaro” equivale a não civilizado, brutal ou cruel.

No uso informal, “bárbaro” também qualifica pessoas ou coisas com
atributos positivos: muito bonito, ótimo, muito afável, compreensivo,
uma idéia muito interessante, segundo o dicionário Houaiss.

Eu creio que ainda é uma questão civilizatória. Ou seja, o mundo está
em transformação. Tudo está se modificando de forma rápida. Não seria
diferente no âmbito da educação.

Uma fala importante do professor Gumercindo de Andrade, da rede pública de ensino, nos faz pensar. Ele diz, inspirado em Paulo Freire, que “o professor, hoje, não vai mais partir do pedagógico para o mundo real. Ele vai partir do mundo real para o pedagógico”. Isso significa que a
escola começa se alimentar da inteligência coletiva que emerge da
rede. Uma revolução não-televisionada que rompe os muros da educação.

Somos estrangeiros no nosso próprio mundo. Imigrantes do conhecimento, aqueles que atingem seus objetivos com trabalho e resiliência. E é certo que venceremos

Na verdade, essa barreira já foi destruída. “Os limites que separam
nossas conversações parecem o Muro de Berlim hoje, mas eles realmente
são apenas uma amargura. Nós sabemos que eles cairão. Nós iremos
trabalhar de ambos os lados para derrubá-los (…) As conversações em
rede podem parecer confusas, podem soar confusas. Mas nós estamos nos organizando mais rápido que eles. Nós temos ferramentas melhores,
novas idéias, nada de regras para nos fazer mais lentos” [1]. Independentemente de querermos ou não, a cultura de rede está rompendo as sólidas estruturas concretadas desde a modernidade. Não podemos mais explicar o mundo a partir da ótica cartesiana. Descartes não dá mais conta de atender à complexidade do caos. As relações em rede formam multidões que atuam sem controle central, na
concretude de um outro paradigma. Ninguém sabe aonde essa
transformação vai chegar. Mas sabemos que nada será como antes.

Relembremos Pierre Levy: “ainda que as pessoas aprendam em
suas experiências profissionais e sociais, ainda que a escola e a
universidade estejam perdendo progressivamente seu monopólio de
criação e transmissão do conhecimento, os sistemas de ensino públicos
podem ao menos dar-se por nova missão a de orientar os percursos
individuais no saber e contribuir para o reconhecimento do conjunto de
know-how das pessoas, inclusive os saberes não-acadêmicos. As
ferramentas do ciberespaço permitem considerar amplos sistemas de
testes automatizados acessíveis a todo o momento e redes de transação
entre a oferta e a demanda de competência. Ao organizar a comunicação
entre empregadores, indivíduos e recursos de aprendizado de todas as
ordens, as universidades do futuro estariam contribuindo para a
animação de uma nova economia do conhecimento”. Essa é a hora de
fomentar incertezas, pois incertezas trazem nas entrelinhas uma
descoberta, a busca pelo aprendizado.

Isso tudo é bárbaro! Somos estrangeiros no nosso próprio mundo.
Imigrantes do conhecimento. Somos aqueles que atingem seus objetivos
com trabalho e resiliência. E é certo que venceremos. Somos a invasão
bárbara.

Mais:

Hernani Dimantas assina, no Caderno Brasil, a coluna Sociedade em Rede. Edições anteriores:

O que é pedagógico?
A revolução que a internet promove nas relações sociais afetará radicalmente as trocas de informações e conhecimentos. Como a pegadogia está lidando com estas mudanças? De que modo se dispõe a lidar com modos de aprender e ferramentas que estão se tornando universais?

Diferentes platôs
Nossa sociedade vive em diferentes platôs. São muitas redes que se interconectam. Formam as redes de informação. O que é físico torna-se virtual e, catalisado, retorna ao físico gerando ações interligadas. O desafio é entender a rede como um movimento múltiplo

Sobre conversas e revoluções
Longe das baboseiras impostas como grandes verdades, estamos rompendo paradigmas, modificando a economia e o trabalho, mostrando que, fora do capitalismo selvagem, existe inteligência. Tem gente que acha isso utopia. A nossa utopia! Eu creio, tu crês ser realidade… só por prazer

O paradoxo do real
Somados os percursos, teremos reconstituído uma pluralidade de mundos dentro de um mesmo e único mundo. Ou como escreveu Borges: “… sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma”

A era das trocas par-a-par
Na virada do século, o desenho das redes na internet passou por uma grande transformação. Ao invés da subordinados a um servidor, os computadores e seus usuários passaram a falar uns com os outros. A mudança abriria um leque de possibilidades ? inclusive no terreno da Educação

A cultura hacker
Confundidos propositalmente, pelo pensamento conservador, com invasores de rede, hackers somos todos os que agimos para que informações, cultura e conhecimento circulem livremente. E esta ética de cooperação, pós-capitalista, vai transbordando do software livre para toda a sociedade

Em busca da ativação
Desenvolvido desde 2002, método simples e instigante quebra barreiras em relação às redes sociais on-line e cria, em comunidades e instituições, ambientes de colaboração e compartilhamento. Prática revela como é tênue a diferença entre a presença “virtual” e a que se dá “em carne e osso”

Caminhos da revolução digital
Apesar de dominante, o capitalismo não consegue mais sustentar a lógica de acumulação e trabalho. Seus principais alicerces ? a economia, a ética burocrática e a cultura de massas ? estão em crise. Com a internet florescem, em rede, novas formas de produzir riquezas, diálogos e relações sociais

O desafio do Open Social
Em nova iniciativa supreendente, o Google sugere interconectar as redes sociais como Orkut, Facebook e Ning. Proposta realça sucesso dos sistemas que promovem inteligência coletiva e convida a refletir sobre o papel da individualidade, na era da colaboração e autorias múltiplas

Multidões inteligentes e transformação do mundo
Esquecidas na era industrial, mas renascidas com a internet, as redes sociais desafiam a fusão entre o poder e o saber, permitem que colaboração e generosidade sejam lógicas naturais e podem fazer da emancipação um ato quotidiano

 



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