A irresistível ascensão do fascismo de coalizão - Le Monde Diplomatique

A nacionalização do baixo-clero

A irresistível ascensão do fascismo de coalizão

por Luiz C. Checchia
29 de maio de 2020
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Após constituir o apoio popular de conexão direta com a baixa classe média e boa parte da classe trabalhadora, Bolsonaro rompe com o modus operandi da política nacional em que o “baixo-clero” do congresso Nacional era o garantidor inescapável e necessário a qualquer gestão

A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; seu pai vive em Roma. Os fascistas matam seu pai, mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.
Fernando Pessoa

A ascensão de Jair Bolsonaro inaugura um novo tempo no Brasil, a ascensão do fascismo. Nossa história é a de país que se desenvolve sob diversas formas de autoritarismo, como ditaduras militares, bonapartismos e Estados de exceção. Nada fora do lugar em uma sociedade moderna por fora e profundamente arcaica abaixo da sua superfície, cuja mentalidade colonial é a alma das relações escravocratas e patriarcais que formam nosso cotidiano.

Para manter a estabilidade dessa sociedade tão desigual e violenta, as classes dominantes têm na desmobilização popular o seu instrumento principal. Isso ocorre graças a um forte aparato ideológico que congrega a grande mídia, um sistema educacional historicamente deficitário, baixos investimentos em ensino e pesquisas acadêmicas e a valorização do entretenimento de massa em detrimento do desenvolvimento cultural popular e crítico. Quando esse aparato ideológico é insuficiente contam com o uso de forças repressivas desproporcionais capazes de lançar sem nenhum tipo de constrangimento spray de pimenta nos olhos de professores e professoras que reivindicam pacificamente aumento de salários ou indefesos estudantes secundaristas cujo crime é pedir educação de qualidade. Sejam quais forem os expedientes de controle de ocasião, a experiência autoritária brasileira fez sua história por meio da constante e quase sempre eficiente desmobilização das massas trabalhadoras.

Todavia, Bolsonaro pavimenta um percurso distinto de nossa experiência, buscando na mobilização popular a força de seu autoritarismo. E essa é uma das especificidades do fascismo: enquanto reprime preventivamente seus opositores, seja por ação de suas milícias ou dos aparatos de Estado, ele atua no sentido de mobilizar o máximo possível o apoio popular, inclusive entre amplos setores das classes trabalhadoras. Isso faz com que diferentemente de uma ditadura militar que se organiza por meio de uma burocracia estatal hierarquizada, o fascismo atue por fora das estruturas de Estado, pressionando-as com passeatas e carreatas, marchas, redes sociais e quaisquer outras formas que expressem sua força política. Por isso a agressividade é uma característica sempre presente nas manifestações de massa do fascismo, pois confere intensidade à essa força, amplifica-a deixando claro que é capaz de ir até os limites mais drásticos no embate de vida e morte contra seus inimigos, sem possibilidades de conciliação nem de capitulação. Temos visto isso desde quando Bolsonaro ainda era um possível pré-candidato, um deputado do “baixo-clero” da Câmara Federal que se tornava afamado pelo Brasil por conta de suas aparições polêmicas em programas televisivos.

Àquele tempo, quando percebeu seu potencial eleitoral e iniciou seu périplo de ponta-a-ponta do país fazendo-se cada vez mais notório, o atual presidente brasileiro começou a aglutinar ao seu redor os setores mais conservadores do país, formando um grupo heterogêneo que reúne desde líderes neopentecostais a frequentadores de clube de tiro passando por militares golpistas, monarquistas, teóricos da conspiração, “coronéis” do Brasil profundo e outros mais. Por onde passava, esse grupo se espalhava e se capilarizava, promovendo mobilizações cada vez mais amplas e mais agressivas contra seus alvos principais: a comunidade LGBT, militantes de esquerda, comunistas e socialistas, mulheres, negros, índios, beneficiários de programas sociais e globalistas (seja lá o que isso signifique). Agrediam e bradavam seus discursos que combinam esquizofrenicamente liberalismo, conservadorismo, cristianismo, anticomunismo e patriotismo.

Mobilização popular

Outra especificidade do fascismo é o fato da ampla mobilização popular que promove ter como motor o medo. Não o medo concreto e real de um perigo iminente, mas outro, fictício, voltado aos inimigos imaginários: no caso brasileiro, coisas como “kit gay” e mamadeira em forma de pênis são os mais bizarros, mas certamente não são os únicos fantasmas criados para assombrar e mobilizar as massas populares. É por isso que o meio propício para que o fascismo germine são as crises políticas e econômicas em contextos de fraqueza tanto da esquerda quanto da direita moderada, que não conseguem dar respostas críveis e suficientes ao momento.

Também não é à toa que a classe média, sobretudo seus extratos mais baixos, são o ponto de irradiação desse sentimento: sem a tradição da solidariedade da classe trabalhadora e sem as reservas econômicas da alta burguesia, a pequena classe média isolada em seu individualismo e valores personalistas sente-se como o segmento mais injustiçado em meio às crises, vendo nos grandes capitalistas e nas organizações de esquerda seus principais inimigos. Isso porque crê que as empresas de grande capital aproveitam-se de sua enorme força econômica para competir de forma agressiva e desigual no mercado sufocando o crescimento dos médios e pequenos empreendimentos; já os partidos e sindicatos aproveitam-se de sua força política para opor-lhes a classe trabalhadora exigindo direitos trabalhistas e melhores salários, diminuindo assim seus lucros.

No entanto, destaca-se ainda que os fascistas mantêm suas armas voltadas a outro alvo preferencial: os políticos. Sejam de esquerda ou de direita, os políticos tradicionais e profissionais seriam os aproveitadores da máquina estatal, inchando os impostos para depois estufar os próprios bolsos de dinheiro público seja legislando em causa própria, desviando verbas ou elaborando arranjos corruptos. Fazem toda sorte de acordo entre si, e todas as críticas que possam tecer uns aos outros são falsas, porque, ao final, sentam-se à mesma mesa para combinarem tramoias e engodos contra o povo. Por isso, embora constituam um dos movimentos políticos dos mais fortes e duradouros do século XX e agora entrando pelo XXI, os fascistas se afirmam “não-políticos”, alguns se dizem mesmo “anti-políticos”, concorrendo aos governos quase como um auto-sacrifício necessário e heroico para acabar com a bandidagem ceifando nas raízes a “velha-política”.

Os políticos não-políticos

Em tempos como o nosso, em que a desconfiança na política se torna a tônica, muitos políticos tentam vestir a máscara de “novo”, apresentando-se distantes da “velha-política” e dizendo-se representar a renovação. Partidos de esquerda ou de direita apresentam candidatos de rostos joviais enquanto destacam a força a juventude. Outros, por falta de candidatos jovens optam por novas denominações, e assim velhas agremiações passaram a ostentar novos nomes, de preferência, sem a palavra “partido”. Mas nenhum deles obteve mais sucesso em apresentar-se como “novo” do que Jair Bolsonaro.

A despeito de seus ininterruptos vinte e oitos anos como deputado federal, um dos mais inexpressivos do “baixo-claro”, conseguiu apresentar-se como um inimigo visceral da “velha política”, alguém que estava lá mas sem ser de lá, e justamente por isso conhecia toda a podridão da política nacional sendo o único capaz de vencê-la. O sucesso de Bolsonaro nessa empreitada está no fato de que, embora outros candidatos tentassem se distanciar da “velha política”, eles ainda estavam submersos até o cocuruto nela. Já Bolsonaro verdadeiramente se distanciou dela, afastou-se de seu partido, buscou uma agremiação menor – o Partido Social Liberal –, para ajustar-se à legislação eleitoral, mas manteve-se atuando em conexão crescente, intensa e direta com a população. O desprezo do presidente com arquitetura institucional do Estado brasileiro é de tal monta que se desligou do partido pelo qual se elegeu com o mesmo desapego que nele entrou.

Acontece que a “velha política” é a mais antiga das instituições brasileiras e a principal forma de agir do chamado “baixo-clero” – também chamado de “centrão” –, nome genérico do grupo de parlamentares que integram partidos sem um verdadeiro programa para o país e que se aproveitam de sua presença no parlamento para garantir que o Estado mantenha a manutenção de seus interesses e privilégios. São políticos sem expressividade nacional, verdadeiros coronéis que ainda mantém currais eleitorais em suas regiões, são como os Magalhães na Bahia, Sarneys no Maranhão, ou Calheiros em Alagoas.

O filósofo político Marcos Nobre decifra em seu livro O Imobilismo em Movimento como o “baixo-clero”, a partir do processo de redemocratização do país, passa a utilizar do conjunto de seus votos no parlamento para formar uma “super maioria” com quem qualquer governo precisa negociar para poder governar. A essa prática Nobre dá o nome de pemedemismo, uma cultura política que se perpetua no parlamento nacional – que se reproduz nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais –, a cada nova legislatura. Os atuais parlamentares, eleitos em 2018, constituem a segunda leva de políticos que se elegem com sólido discurso conservador, prometendo a renovação tanto na Câmara Federal quanto no Senado e combater caninamente a corrupção. Segundo publicação da EBC, em 2014 houve renovação superior a 40% na Câmara Federal, já em 2018, esse índice bate recorde que perdurava mais de duas décadas, com renovação de 52% entre os deputados federais. Muita gente acreditou que o país afastaria de vez a prática do pemedebismo e toda a “velha política” graças à combinação entre expurgos de “velhos políticos”, diminuição do número de parlamentares de esquerda e a defesa intransigente de pautas conservadoras nos costumes e liberais na economia. No entanto, a experiência mostrou que a cultura política viciada nos parlamentos brasileiros é bem mais arraigada do que se acreditou e não bastam discursos histriônicos e fantasias conservadoras para pôr fim aos acordos firmados nos cantos escuros dos corredores e nas mensagens trocadas de WhatsApp.

Após constituir o apoio popular de conexão direta com a baixa classe média e boa parte da classe trabalhadora, Bolsonaro rompe com o modus operandi da política nacional em que o “baixo-clero” do congresso Nacional era o garantidor inescapável e necessário a qualquer gestão. Quando o PSDB surgiu no horizonte político brasileiro, se apresentava como um avanço das forças progressistas brasileiras, seria o partido que nos conduziria para uma experiência social-democrática ilustrada, com políticos experientes e cultos, sendo boa parte deles intelectuais renomados. No entanto, para chegar e se manter no governo tiveram que fechar acordos com o antigo Partido Liberal, hoje DEM, desfigurando de cima a baixo o seu ideário partidário. destino semelhante teve o programa-democrático popular do petismo: embora mirasse a formação de uma democracia com amplos espaços de participação popular via com conselhos, orçamentos participativos, fóruns e conferências nacionais, para alçar o governo e lá se manter o Partido dos Trabalhadores também se aliou ao “baixo-clero” até com mais volúpia e sofreguidão que o antecessor governo tucano, já que, enquanto para o “centrão” o PSDB seria um parente rico e esnobe, o PT se afigura como um penetra na festa que lhe traz presentes caros; mas concluída a entrega dos mimos, o centrão o expulsou do salão como a violência que se faz com qualquer intruso.

A aproximação entre Bolsonaro e “baixo-clero” é o enlace de políticos da mesma natureza e substância, mas isso não atenua a concorrência entre ambos. (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Bolsonaro e baixo-clero: o reencontro

Empossado presidente, Bolsonaro optou por trilhar um caminho diferente de seus antecessores pavimentando vias diretas com sua base de apoio popular e rompendo com toda a institucionalidade viciada do Estado brasileiro. Claro que não o fez pela superação dos vícios em busca de radicalização da democracia, mas contrariamente a isso, o faz visando concentrar mais poderes, enfraquecendo as instituições e reprimindo seus opositores e críticos. Montou um governo palaciano cada vez mais fechado em um ideário fascista por meio de constantes depurações, quase que expurgos onde possíveis concorrentes eleitorais, representantes de outras forças políticas e aliados de ocasião que não assumem lealdade incondicional são expulsos do governo depois de passarem por lentas frituras em fogo alto. Em cada expurgo a popularidade do presidente parece ser atingida de alguma forma, para logo recuperar-se graças ao fanatismo, engajamento e oportunismo de seus diversos apoiadores e parceiros.

Porém, a estratégia do bolso-fascismo parece estar fazendo água e o vírus batizado de Sars-CoV-2 tem alguma responsabilidade nisso. O bolsonarismo precisa das grandes manifestações para sobreviver, são como as doses de sangue que um vampiro precisa de tempos em tempos. Por isso, até que o novo vírus se disseminasse pelo país, era comum que as organizações e movimentos como o Vem Pra Rua e o Na Rua, convocassem grandes mobilizações de apoio ao governo bolsonarista e suas pautas, como as ocorridas em cerca de 156 cidades, no domingo 26 de maio de 2019.

Os habituais alvos desses atos são Rodrigo Maia, presidente da Câmara Nacional, e o Supremo Tribunal Federal, assim como são habituais os pedidos de intervenção militar e os ataques à esquerda. Todavia, a manifestação que lhe seria a mais importante, marcada para o dia 15 de março passado, foi frustrada na última hora por conta da chegada da pandemia de COVID-19 ao Brasil e as decorrentes medidas de isolamento social impostas. Não que os riscos impedissem que muitos apoiadores do presidente fossem às ruas, mas o seu número total foi bem aquém do que seria de interesse aos seus organizadores. Com um certo exagero, essa que poderia ser a “Marcha sobre Roma” do bolsonarismo não passou de um passeio de poucos gatos pingados e aloprados enrodilhados nas bandeiras do Brasil. Ainda que tenha cometido o irresponsável gesto de saudar e cumprimentar esse bando de verde e amarelo para demonstrar sua aproximação incondicional ao povo, o cavalo da história passou selado pela frente de Bolsonaro sem que ele conseguisse montá-lo.

O tabuleiro da política nacional é caleidoscópico, por isso o jogo sempre está mudando, e quem dorme nas primeiras posições pode acordar em os últimos colocados. E foi assim na luta entre a presidência, o congresso Nacional e o STF. Ao mesmo tempo em que impedia a tomada das ruas pela base bolsonarista, a chegada da pandemia ao Brasil também promoveu irremediável divergência entre o presidente e seu então ministro da saúde Henrique Mandetta. O plano de contenção do Ministério da Saúde estava longe de se assemelhar aos executados por nações como Coreia do Sul, Alemanha, Argentina ou Cuba que fizeram uma busca ativa por acometidos assintomáticos por meio de ampla testagem e aferimento da temperatura de recém chegados ao país e de usuários de diversos serviços públicos e privados. No entanto, a resposta de Bolsonaro à grave crise sanitária conseguia ser ainda mais precária, resumindo-se a “cerca de setenta por cento do povo vai pegar, muitos vão morrer, mas a economia não pode parar…”.

De certo que todos se lembram que o ponto crucial do conflito entre ambos foi o fato do Ministério da Saúde passar a defender e incentivar a recomendação da Organização Mundial da Saúde para que todas as pessoas pratiquem o isolamento social. Por mais absurdo que seja, os setores bolsonaristas do governo e da sociedade civil, destacando-se parte do grande empresariado, passaram a atacar tal política de saúde, acusando-a de quebrar a economia e afirmando peremptoriamente que ser preciso aceitarmos que “algumas pessoas morrerão”, mas será uma fração pequena dos mais de 200 milhões de brasileiros, sendo a maioria apenas “idosos e pessoas com doenças anteriores”.

Evidentemente que por mais que Bolsonaro mantenha cerca de 30% de fanáticos que o aprovam incondicionalmente, boa parte dos demais brasileiros passaram a perceber com mais nitidez os problemáticos posicionamentos e compromissos do presidente. Por fim, o Congresso Nacional aproveitou a oportunidade para assumir o protagonismo na gestão política da crise provocada pelo Sars-CoV-2, enquanto recebia o apoio do Supremo Tribunal Federal. Esse conjunto de rápidos e intrincados movimentos nas peças sobre o tabuleiro levou o presidente a um instável e incerto isolamento político. Isolado e sem a possibilidade de acionar sua base verde-e-amarela nas ruas, sobrou ao presidente repetir o mesmo gesto já realizado por todos que ocuparam a presidência brasileira desde a redemocratização pós-ditadura: aproximar-se do “baixo-clero” do congresso Nacional.

A nacionalização do baixo-clero

Todos devem se lembrar das grandiosas manifestações de 2013, encabeçadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), e também devem ter na memória o momento em que as pautas levadas às ruas foram totalmente tomadas pela direita brasileira. Esse movimento de tomada é marcado pelas declarações das lideranças do MPL sobre infiltração de fascistas nos atos, agressões a militantes de esquerda e destruição de bandeiras e faixas de partidos políticos, foi o momento em que se passou a gritar: “Uh, sem partido”… Aquela foi o ponto em que os principais setores da burguesia nacional viram a oportunidade para enfraquecer e demolir o governo petista de Dilma Rousseff. De vândalos arruaceiros os manifestantes passaram a representar a luta pela superação do petismo. Emblemático dessa transformação foi o comportamento contraditório do comentarista político do Jornal da Globo, Arnaldo Jabor, que no programa do dia 13 de junho daquele ano disse que os manifestantes eram “filhos da classe média” movidos por “burrice misturada a rancor e sem rumo”, mas quatro dias depois, em 17 de junho, retratou-se dizendo: “uma juventude que estava calada desde 92, uma juventude que nascia quando Collor caia, acordou”.

A atuação das polícias também mudou: pararam de reprimir os manifestantes para defendê-los em suas longas caminhadas. De gritos de palavras-de-ordem passou-se a cantar o Hino Nacional, e o branco tornou-se a cor predominante em diversos atos substituindo o vermelho e negro das vestimentas dos black-blocs. Não é à toa que no ano seguinte elegeu-se o mais conservador Congresso Nacional desde a ditadura, e que indubitavelmente serviu de ninho onde a serpente do fascismo pôs seus ovos. Dele emergem com força políticos como Eduardo Cunha e o próprio Jair Bolsonaro.

Antes lideranças locais que negociavam com os governos, inclusive os petistas, para garantir-lhes a governabilidade, a composição daquele novo congresso era explosiva e só esperava alguém desvairado o bastante para riscar um fósforo perto demais. Coube a Aécio Neves, candidato derrotado no segundo turno a tarefa de pôr tudo pela ares: inconformado com a vitória petista, ele passa a questionar o resultado eleitoral. Essa era a faísca necessária para juntar direta e extrema-direita em um movimento que passou a sabotar a segunda gestão de Dilma graças a um grande acordo nacional finamente representado no bordão “com o Supremo e tudo…”. De certa maneira esse contexto nacionalizou o “baixo-clero” e o trouxe para a centralidade da política nacional, tornou seus principais quadros conhecidos em diversos cantos do país e conferiu-lhes notoriedade e legitimidade: já não queriam mais apoiar nenhum governo, mas governar.

Nesse processo intenso e complexo emerge justamente a figura de Jair Messias Bolsonaro. O desenrolar dessa história lamentável todos conhecemos: o afastamento da presidente Dilma em 12 de maio de 2016, em 31 de agosto ocorre a posse definitiva de Michel Temer como presidente da República do Brasil e, finalmente, após Lula ser afastado das eleições por conta de sua suspeitíssima condenação em segunda instância, Bolsonaro é escolhido por 57.797.847 brasileiros como sucessor de Michel Temer no comando do governo brasileiro. Foi parte estruturante dessa história o vigoroso processo de fascistização da sociedade civil, iniciado ainda nos atos de 2013, e que passou a ecoar palavras de ordem contra a esquerda, a afirmar desvarios como o terraplanismo e defender a militarização da sociedade.

Todavia, quando se define como candidato à presidência, Bolsonaro inicia seu afastamento do “baixo-clero”, passando a acusá-lo da prática de “toma-lá-dá-cá”, de corrupção e de se aproveitar do orçamento público em benefício próprio. Afirmou ainda que, caso fosse eleito, governaria apenas com a força e o apoio do povo e que não encetaria qualquer forma de negociação com o Congresso. E assim se fez. Até agora.

Bolsonaro e o baixo-clero

Perdida a força popular por conta da necessária prática do isolamento social, e em franca luta com setores da grande mídia, com o STF e o Congresso Nacional, Bolsonaro passou justamente a buscar o apoio mais improvável: o do “baixo-clero”. A primeira ação pública e de impacto dessa aproximação foi a transmissão ao vivo promovida pelo ex-deputado Roberto Jefferson, no dia 19 de abril passado, e retransmitida em tempo real pelo presidente. Raposa velha da política nacional, responsável pela divulgação e integrante do esquema de corrupção que tornou-se conhecido pelo nome de Mensalão, Jefferson mantém a presidência do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, que conta atualmente 10 Deputados, e 02 senadores e 31 deputados estaduais em 19 estados da União. Em sua transmissão, o ex-deputado fez veemente defesa do presidente, colocou-se à sua disposição, e garante que é momento de “azeitar os revólveres” na defesa do Brasil que emerge graças ao governo bolsonarista.

A situação é mais complexa do que se aparenta e marca um acirramento do bolsonarismo em sua luta pela hegemonia política nacional. Primeiramente, é preciso considerar que ainda que tenha se afastado do congresso quando iniciou sua campanha eleitoral, Bolsonaro é fruto dele, tem seu DNA. Lembremos que as amarras entre Congresso Nacional e presidência é algo que faz parte da engenharia do Estado brasileiro: qualquer presidente que queira governar precisará, em algum momento, ajustar e ajustar-se a essas amarras que só poderiam ser superadas em definitivo por força de um golpe autoritário ou uma revolução popular.

Bolsonaro elegeu-se afirmando que seu governo é de “transição”, seu objetivo primeiro é reconstruir o Estado nacional, e para isso atua em diversas direções de forma mais rápida e intensa que a própria ditadura empresário-militar de 1964-85: Educação, Cultura, Economia, Relações Internacionais e Direitos Humanos, não há um campo da gestão pública que não esteja sendo redefinido na raiz. É claro que ainda há alguma forma de resistência, muito mais de setores da direita que não se sente contemplado em seu governo ou que ainda guardam respeito a alguma forma de institucionalidade democrática. Por isso, talvez as mudanças em curso pelo atual governo não sejam da forma como queira nem no ritmo que deseje, mas esse projeto mantém firme seu curso. Assim sendo, o fascismo de coalizão inaugurado por Bolsonaro pode ser apenas mais uma etapa em seu processo de formação de um novo Estado brasileiro, conservador, militarizado, ultraliberal e com uma casta de altíssimos funcionários públicos privilegiados destacando-se oficiais militares e magistrados. Pode não ser, como apregoam alguns, o seu enfraquecimento e sim, uma maneira de se fortalecer mais. Lembremos que a construção de uma supermaioria no Congresso seja o instrumento necessário para mais profundas mudanças constitucionais, acentuando a desfiguração pela qual padece nossa Constituição, retirando dela alguns mecanismos de proteção e garantias sociais enquanto centraliza o poder na mão da presidência.

Todavia, se essa aproximação entre Bolsonaro e “baixo-clero” é, por um lado, o enlace de políticos da mesma natureza e substância, ela não necessariamente atenua a concorrência entre ambos. Sendo concorrentes, é evidente que haverá pressões mútuas e o risco de um ser engolido pelo outro: o congresso pode virar o apêndice do bolsonarismo, ou este tornar-se a rainha da Inglaterra de um parlamentarismo branco. Quem devorará e quem será devorado ainda é cedo para se saber. O fato é que o prato principal de ambos continua sendo o povo brasileiro.

Luiz C. Checchia é mestre em Ciências Humanas pela USP



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