‘Tem que mudar tudo isso que tá aí, tá ok?’ - Le Monde Diplomatique

TENDÊNCIAS AUTORITÁRIAS NO TEMPO PRESENTE

‘Tem que mudar tudo isso que tá aí, tá ok?’

por Natália Abreu Damasceno
dezembro 6, 2018
Imagem por Mídia Ninja
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O fascismo se alimenta da incerteza do futuro, ocupando um vácuo de desencantamento com a política. Bolsonaro já foi acusado de propagar discursos neste estilo. Agora seus admiradores, que têm cometido agressão e assassinato em seu nome, já passaram do simples flerte fascistoide e abraçaram o neofascismo

2018 foi marcado pelo resgate de termos como “fascismo” e “nazismo” no debate político brasileiro. À medida que os projetos das forças de extrema-direita ganharam popularidade e se tornaram cada vez mais palpáveis, cresceram as comparações da candidatura presidencial do PSL aos fascismos italiano e alemão das décadas de 1920 e 1930.

Analistas políticos, articulistas, colunistas, youtubers, compartilhadores de memes e debatedores de redes sociais recorreram a figuras históricas como Hitler e Mussolini para denunciar os discursos de ódio e o tom autoritário de Jair Bolsonaro. No entanto, entre seus apoiadores e mesmo entre alguns detratores, os limites do paralelo parecem difusos, incertos e até um tanto frágeis.

Arquivo Nacional

 

Em discussões de maior ou menor grau de racionalidade e aprofundamento, entrou em jogo a disputa por um conceito bastante caro à História e à Ciência Política. “Afinal, podemos dizer que Jair Bolsonaro é um fascista?” “Seria Bolsonaro um novo Hitler?” Ou, como afirmou o então candidato Ciro Gomes (PDT), seria ele um “projetinho de hitlerzinho tropical”? Assim como boa parte das comparações entre fenômenos históricos, esse debate é complexo e cheio de nuances, pois põe em xeque o entendimento do conceito de fascismo e a viabilidade de seu uso para pensar o contexto político atual brasileiro. Diante desse desafio, nada mais justo que recorrer à discussão historiográfica especializada no tema.

Para começo de conversa, a própria pergunta (Bolsonaro seria um novo Hitler?) já elabora a problemática de forma a gerar equívocos. Apesar de serem personalistas, os fascismos não devem ser analisados simplesmente a partir de seus líderes, e sim a partir das suas relações com o seu partido (ou com o grupo que representam) e com a sociedade civil.

Supervalorizar líderes é inocentar ou isentar seus fiéis e as instituições e alianças com os quais compactuaram. O fascismo não se faz individualmente. É um fazer coletivo e não necessariamente institucional. Ele pode estar na Câmara, no Senado, nas ruas, nas redes sociais, nos estádios de futebol e assim por diante. O projeto (neo)fascista depende da ação de pessoas e, como vimos mais recentemente, até de “robôs”. Logo, simplesmente jogar a comparação restrita a líderes políticos de contextos tão distantes pode mais confundir que elucidar nossa compreensão sobre o projeto autoritário que representa o novo presidente brasileiro.

Feita essa ressalva, é importante estabelecer que consideramos fascismo e neofascismo um determinado conjunto de ideias, discursos, práticas, projetos e políticas implementadas. Não é fácil unificar fenômenos tão heterogêneos sob a alcunha de fascismo, diga-se. Entretanto, como atesta o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva[1], não é impossível.

Fascismo é uma experiência dinâmica cujos discursos e práticas extrapolam o autoritarismo puro e simples. Por isso, cabe ao analista pensá-lo como uma unidade de traços diversos que dão coerência a esta modalidade de “fazer política”. O primeiro passo para pensarmos a possível ascensão de um fascismo no Brasil é evitar usos errôneos e vagos da palavra. É não banalizá-la, não atribuí-la a qualquer inimigo com tendências autoritárias ou a tudo que se queira qualificar como mau ou indesejável.

Para Teixeira da Silva, é preciso pensar a existência de um “mínimo fascista” que nos ajude a identificar rupturas e continuidades nos diferentes processos, temporalidades e contextos de ascensão e ressurgimento dos fascismos.

Robert O. Paxton[2], professor emérito da Universidade de Columbia, propõe uma “anatomia do fascismo”, ou seja, um estudo das combinações dinâmicas entre os diferentes elementos que o constituem. Para Paxton, não é porque um fenômeno não cabe exatamente na fôrma das experiências de regimes fascistas europeus da primeira metade do século 20 que não pode ser classificado como fascista ou neofascista. Afinal, não se pode explicar o (neo)fascismo de hoje tentando espelhar o mundo de ontem.

Performance Cegos, Brasília. Foto: Mídia Ninja

 

Mínimo fascista

Mas, então, que “mínimo fascista” é esse que fez o ex-líder da Ku Klux Klan reconhecer-se no discurso de Bolsonaro? Ou o que motivou jornais estrangeiros a publicar charges que atrelam a suástica à bandeira brasileira e que a reconstituem sob símbolos tipicamente brasileiros?

Apesar de suas diferenças de análise, Teixeira da Silva e Paxton compreendem que os fascismos se alimentam de situações em que o futuro é posto como uma incógnita. Ocupam uma espécie de “vácuo” deixado por um desencantamento com a política e pelo fracasso do Estado e da sociedade liberal em lidar com os desafios econômicos. Daí a negação de tudo o que está posto – ou, como ecoou no Brasil, a negação de “tudo isso que tá aí”.

Tal descontentamento com as instituições, segundo Paxton, é instrumentalizado por programas políticos informais e fluidos que substituem o debate ponderado pela experiência sensorial imediata, marcada pela afirmação de um conjunto “coerente” de verdades próprias, ainda que absurdas. É uma retórica catalisadora de emoções. É mais víscera que cérebro, ou, mais contemporaneamente dizendo, é mais fake que news.

Esses discursos viscerais clamam por “salvação nacional” e pela restauração moral da sociedade. A solução para os problemas nacionais, de acordo com a construção da lógica fascista é calcada na demarcação de inimigos. Cria-se um outro desumanizado, ameaçador, irrecuperável e inconversível, que precisa ser cerceado, sufocado e exterminado. É precisamente a partir dessa desumanização dos “alvos” que se autorizam os atos de tortura, agressões, ameaças, apologias à violência e morte. Infelizmente, nenhuma dessas práticas autorizadas por discursos fascistas estiveram distantes do que vimos em manchetes e do que vivenciamos na pele neste 2018.

A identidade desses inimigos não responde a uma fórmula ou um tipo de “produto exportação”. Os alvos são constituídos a partir de repertórios culturais de cada país. Assim, grupos (neo)fascistas não inventam simplesmente os mitos ou símbolos que compõem sua retórica. Para Paxton, estes são convenientemente selecionados mediante seu potencial de mobilizar um movimento de massas de regeneração e unificação contra o constitucionalismo liberal e contra a luta de classes da esquerda.

O compromisso do (neo)fascismo é com as paixões mobilizadoras, que a partir de visões maniqueístas querem salvar o “povo de bem” e sentenciam existências que fogem ao padrão estabelecido. No Brasil, onde ocorre o maior número de assassinatos de pessoas trans, o discurso LBGTfóbico, encampado em várias ocasiões por Jair Bolsonaro, torna-se um grande catalisador de apoio político e energização das massas. De modo semelhante, devido à pouca expressão do antissemitismo brasileiro, os acenos do presidente eleito em favor de Israel não podem ser usados para afastá-lo da pecha de (neo)fascista, uma vez que o ódio aos judeus não necessariamente compõe a anatomia dos fascismos.

DIVULGAÇÃO/BAS VAN DER SCHOT

 

Palavras e ações

Estudei um grupo neofascista skinhead de origem britânica e sua atuação na internet no começo do século 21 [3] e pude constatar o interesse das lideranças em energizar e disciplinar um público de indivíduos despolitizados lançando mão de frases de efeito sobre temas sensíveis ao contexto inglês.

O linguajar e as simbologias empregadas eram marcantes o suficiente para fascinar, intrigar ou impressionar. As declarações imperativas e chocantes cumpriam a função de demonstrar coragem e de simular enfrentamento à norma que é vista como apodrecida, falha e ilegítima. Assim, de maneira geral, os (neo)fascistas afirmam não ter papas na língua ou cerimônia e rejeitam aquilo que entendem como “hipocrisias formais”. Dadas as nuances oferecidas pelos diferentes níveis de institucionalização que separam skinheads, hooligans, membros de partidos, parlamentares e presidentes, essas características podem ser observadas em maior ou menor grau – e com maior ou menor radicalidade.

Desvio Coletivo Performance

 

Os distintos perfis dos grupos e indivíduos (neo)fascistas e seus diferentes envolvimentos com o poder produzem diferentes níveis de autonomia em relação à sociedade política e civil. Além da contingência histórica de um pós-Primeira Guerra Mundial, em que os ultranacionalismos estavam em voga, a aparente contradição entre o forte anti-liberalismo de Hitler e as tendências liberalizantes do projeto encabeçado por Jair Bolsonaro pode ser explicada pela especificidade de sua interação com as demais esferas do poder.

Ora, os (neo)fascismos também possuem limites de autonomia e dialogam com suas conjunturas, seja enquanto agrupamentos de tribos urbanas (como skinheads, por exemplo) e  organizações partidárias, seja enquanto regimes estabelecidos. Portanto, segundo Teixeira da Silva, muitas vezes, grupos fascistas “chegaram ao poder através de pactos e alianças com outras forças conservadoras” e, por isso, foram necessários ajustes no seu perfil inicial para se tornar uma força política institucionalmente aceitável, apesar da forte retórica anti-establishment. No caso brasileiro, ainda não estão claros os pactos e alianças que alavancaram o candidato do PSL a líder do establishment. Mas está claro que há aspectos que aproximam Bolsonaro dos “fascismos clássicos” e seus paralelos possíveis.

O fascismo não é um acontecimento aprisionado no passado, assim como não foi um acidente histórico. É um fenômeno que insiste em ressurgir nos mais distintos contextos com uma “missão de salvamento” e um forte poder de sedução de corações e mentes. No desafio constante de adequar velhos pensamentos a novos tempos, os neofacismos se reestruturam, mudam de cara, de pele, de inimigos e de modus operandi, mas é preciso estarmos atento às suas continuidades. Por isso a comparação histórica, ainda que complicada, se faz tão importante.

Não há consenso entre historiadores e especialistas se o presidente eleito pode ser considerado um fascista ou não. Embora as fronteiras entre os autoritarismos e os fascismos na história do Brasil ainda careçam de maior reflexão, as relações que Bolsonaro estabelece com seus apoiadores e com a oposição nos remete a padrões reconhecidos como fascistas.

Muitos de seus correligionários e admiradores, aqueles que têm cometido crimes de agressão e morte em seu nome, já passaram do simples flerte fascistoide e abraçaram o neofascismo. Acredito que, agora, mais que enquadrar Jair Bolsonaro na mesma categoria de Adolf Hitler ou como um neofascista à brasileira, é importante pensar sobre o quanto os seus discursos, o projeto político que ele representa e as massas que ele mobiliza estão contribuindo para uma fascistização da sociedade, por meio da multiplicação e radicalização de discursos e práticas orientadas pelo ódio. Fascismo, afinal, não é só uma palavra.

 

*Por Natália Abreu Damasceno, historiadora e doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Integra o Grupo de Estudos do Tempo Presente da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e o Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Estadual de Maringá (UEM).



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