A joia russa na Guiné - Le Monde Diplomatique

Economia africana

A joia russa na Guiné

por Julien Brygo
2 de outubro de 2009
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As preciosas minas de bauxita guineenses agora pertencem à empresa Russkij Aluminij segunda maior companhia mundial do setor. O negócio foi adquirido a um preço pífio por Oleg Deripaska, detentor da décima fortuna da Rússia e amigo Vladimir Putin, e mantém-se às custas da má remuneração de seus funcionários

Árvores centenárias, estruturas coloniais, uma paisagem de densas florestas e pedras esverdeadas. E de repente, em tamanho natural, aparece a imagem impressa nas cédulas do Banco da Guiné: as minas de bauxita de Fria. Avistam-se então três edifícios de concreto, adornados com centenas de varandas e antenas parabólicas.

Os três slogans da Russkij Aluminij (Rusal), a companhia russa que comprou a “joia” privatizada da Guiné, estão orgulhosamente expostos na fachada: “Responsabilidade, confiabilidade, competência”.

No oitavo andar, Bakary Kourouma tira um quadro da parede. É um pequeno presente concedido a ele, pela empresa, na festa dos metalúrgicos, em 2006: um diploma “de honra” que felicita este trabalhador qualificado “pelo melhor serviço prestado ao seu departamento e sua contribuição para o desenvolvimento da usina”.

Ele ganha cerca de 900 mil francos guineenses (130 euros) para gerenciar a energia elétrica e o suprimento de água da cidade, que dependem inteiramente da empresa. Mas colocando o salário na ponta do lápis, termina o mês com apenas 15 euros no bolso: N200 mil francos vão para mamãe, 100 mil para o papai, 100 mil para a minha irmã e meu irmão, 50 mil para a conta de telefone e 50 mil de moto-táxi para o trabalho”.
Há 60 anos não havia aqui mais que algumas casas de uma aldeia agora varrida do mapa, Kimbo. Ela deu lugar a uma cidade de 60 mil pessoas, organizadas em torno da “primeira usina de óxido de alumínio em solo africano”.

A empresa Fria foi constituída, no início de 1957, com a participação de companhias dos Estados Unidos, França, Inglaterra, Suíça e Alemanha.1 A responsabilidade pela construção e operação, no entanto, foi confiada inteiramente à francesa Pechiney. Em 1973, ela se tornou a sociedade de capital misto Friguia, com a Guiné como acionista majoritária (51%). Em 1997, a Pechiney se retirou, vendendo a empresa para o Estado pelo valor simbólico de um dólar. Em 2003, a usina, privatizada, foi comprada pela Rusal.

Sob as nuvens de pó de bauxita, Fria parece uma cidade-fábrica ao estilo europeu, com suas vilas operárias definidas pelo nível de qualificação, suas chaminés e “infraestruturas sociais” – estádios, casas da juventude, piscinas etc. –, resquícios do paternalismo francês da Pechiney.2 A Guiné detém quase 16 bilhões de toneladas de bauxita, um terço das reservas mundiais conhecidas desse minério, a base para o alumínio. Isso é suficiente para garantir, no ritmo atual, simplesmente 16 séculos de extração. Ao final de 2009, junto com o ferro, diamantes e ouro, essa produção representará 20% do produto interno bruto (PIB) e 80% de suas exportações.

No segundo semestre de 2008, depois do colapso econômico mundial,3 os 1.200 trabalhadores contratados e os 1.600 terceirizados se viram confrontados com a recusa da administração em substituir algumas máquinas defeituosas. “Estamos fazendo a fábrica funcionar na improvisação, substituindo peças de uma máquina pelas de outra, disse um trabalhador. Os fornecedores têm acumulado tantas contas a pagar que suspenderam todas as entregas de mercadorias.” Em função da crise, a direção também evita falar em qualquer aumento de remuneração, e continua sendo uma das únicas empresas de mineração da Guiné a não pagar o salário mínimo nacional – 2,5 milhões de francos guineenses (334 euros).

Os funcionários são convidados a se “responsabilizar”. O boletim semanal da empresa, A voz da Rusal, coloca que “se todo mundo assumisse sua responsabilidade, nossa fábrica andaria melhor e funcionaria perfeitamente”. De acordo com o jornal, em vez de reclamar do empobrecimento da instalação industrial e do autismo dos russos, que só convivem entre eles e têm afastado todos os guineenses das posições de liderança, os trabalhadores devem, pelo contrário, se perguntar: “O que posso fazer para ajudar a fábrica nesta situação? O que eu fiz pessoalmente para reduzir custos, melhorar a produtividade e a economia de materiais?”. Um ano antes, para responder aos que se queixavam e acusavam a fábrica de cortes na energia da cidade, a Rusal organizou… um concurso de desenho para crianças com o tema “Eu sei conservar a eletricidade!”.

Em 2008, a Rusal se tornou a segunda empresa mundial do setor. Seu dono, Oleg Deripaska, tem a décima fortuna da Rússia e é próximo do ex-presidente Vladimir Putin. Sob uma veste de segurança laranja, Gennadiy Ulyanich, porta-voz da empresa, veste a camisa dos Peulas, uma das etnias da Guiné. Faz bem um pouco de cor local para adoçar a pílula da “crise”. Em seu escritório, diante de um mapa do metrô de Paris e uma foto de seus filhos, que permaneceram na Ucrânia, ele digita freneticamente no seu teclado os últimos retoques na Voz da Rusal.

Entre as duas versões de artigos que ele deve, sistematicamente, enviar para a Rússia para validação, fala de seu desconforto: “Em Moscou, eles não percebem que aqui os pais de famílias estão passando dificuldade e que cada trabalhador tem dezenas de bocas para alimentar”. Ele confidencia meio orgulhoso, meio preocupado: “Os guineenses disseram-me que, quando eles nos expulsarem, serei o único do qual terão misericórdia!”.

Em abril de 2009, os trabalhadores de Fria resolveram reagir com uma greve. Eles apelaram ao capitão Moussa Dadis Camara, que sucedeu o falecido presidente Lansana Conté4 após um golpe de Estado, em dezembro de 2008. Os operários expulsaram a diretoria da Rusal em Fria. Enquanto exigia que os funcionários voltassem ao trabalho, o capitão Camara repreendeu a Rusal. No início de junho, os que ganhavam menos receberam um aumento de 40 euros, mas a empresa ainda se recusa a aplicar o salário mínimo.

Numa praça da “cidade dos solteiros”, um bairro feito de pequenos cubículos rachados equipados com um lavatório, uma dúzia de trabalhadores desafia a proibição da gerência, de falar com jornalistas. Eles não se enganam com os “sacrifícios” que pretendem lhes impor em nome da crise mundial: “Os russos estão nos pedindo que aceitemos viver mal para que o grupo permaneça aqui. Isso é chantagem!”.

“Quando eles chegaram, prometeram aos moradores que iriam manter todos os benefícios, lembra Mamadi Kourouma, membro da Confederação de Sindicatos Livres da Guiné (CGSL), majoritária na usina. “Mas até agora só ouvimos o discurso da redução de custos. Anteriormente, tínhamos nossas casas mantidas pela empresa, sem cortes de energia, e alimentos mais baratos na Economat, a mercearia dos trabalhadores.” Com 29 anos, ele só conheceu o epílogo dos tempos da Pechiney e, como todo mundo, baseia seus argumentos na idealização do grupo francês, que permanece na população, e na rejeição aos russos.

Os muitos “benefícios” herdados daquele período estão em estágios diferentes de degradação: há um centro de treinamento com instalações desportivas – estádios, piscinas, pistas de atletismo – obsoletas; água e eletricidade, antes grátis, agora são pagas; o jardim de infância está fechado; o serviço de transporte dos missionários e das famílias pobres para a capital, Conacri, foi terceirizado; o hospital, por muito tempo considerado o melhor da Guiné, teve seu orçamento reduzido e, com frequência, não tem medicamentos. Em contrapartida, os alojamentos permaneceram sem custos.
Diante dos aumentos nos preços da gasolina e dos alimentos, a população de Fria realizou, no início de março de 2009, uma marcha em apoio ao regime golpista, que promete “lutar contra a corrupção” e “renegociar todos os contratos de mineração”.

A sombra do ex-presidente, responsável por grandes desvios de dinheiro do país – seus próprios filhos eram líderes de vastas redes de tráfico, prostituição e corrupção – paira sobre a região. A situação local é sintomática da utilização “predatória” dos recursos nacionais por empresas estrangeiras, prosperando num país definido por seus próprios habitantes como um “escândalo geológico”.
Um dos principais pontos de tensão entre a população é o preço de compra da usina pela Rusal, em 2003: escritórios de auditoria avaliaram o patrimônio em 175 milhões de euros, mas os russos adquiriram-na pela bagatela de 14 milhões de euros. A empresa obteve esse favor por intermédio de um empresário das ilhas Maurício, Joseph Delawa,5 que convenceu o presidente Conté. A Rusal realizou, assim, seu primeiro investimento significativo fora da Rússia.
Pavel Ovchinnikov, o diretor da empresa, nega o possível fechamento da fábrica, enquanto declara que “o consumo mundial de alumínio atingiu seu nível mais baixo em 22 anos”. Ele lembra que “a Rússia sempre se comportou como um parceiro confiável no desenvolvimento econômico dos países africanos”, e menciona, de bom grado, que nos primeiros anos da independência, Moscou e Pequim sondaram o subsolo da irmã Guiné, colaboraram nas áreas acadêmicas e comerciais, ofereceram ao país, até mesmo, veículos limpa-neves, um símbolo de amizade soviético-guineense. Bem, cerca de 40 anos depois, os russos também são responsáveis pela exploração dos vastos depósitos de bauxita em Kindia, Baixa Guiné, por meio da Companhia de Bauxita Kindia (CBK).

No Hospital Pechiney, Alpha Hassimou Diallo, médico-chefe, joga o papel de advogado do diabo: “Temos mesmo de apertar o cinto”. Devido à sua experiência em hospitais na região de Paris, ele diz estar acostumado aos discursos de redução de custos. “Na França também já começaram a não reembolsar certos remédios, certo?

Aqui, 100% dos custos são pagos pela Rusal. É um hospital para os trabalhadores e suas famílias, mas o resto da população continua a vir, porque temos a reputação de ser o melhor da Guiné. Apenas 35% das internações são de trabalhadores ou seus familiares, evidência de que muitos outros pacientes chegam à emergência e não são recusados.”

No entanto, o grupo russo não renova os equipamentos do hospital desde 2007. “A crise, a famosa crise”, diz o dentista Boubacar Bah, que mostra, desolado, as duas poltronas supostamente equipadas para acomodar os pacientes: o reservatório de plástico arrebentou, a ferrugem é aparente e as máquinas estão claramente obsoletas.

Em Fria, com ou sem crise, os trens de bauxita continuam partindo todos os dias para Conacri. Quando o trem apita, na capital, os idosos se empertigam, olhando com admiração a única ferrovia ainda em funcionamento, antes de saudar a riqueza do país que passa sob seus narizes. Já os jovens guineenses – 60% da população – tapam seus ouvidos e desafiam, com o olhar, os vagões. Ao longo do caminho, a alumina adere à pele das pessoas. É o selo de 51 anos de independência. Mas, ao longo das estradas, placas gigantes de publicidade recordam, com simplicidade, os slogans de antigamente: “Rusal, para a Guiné, com a Guiné”.

 

*Julien Brygo é jornalista.



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