A longa primavera búlgara - Le Monde Diplomatique

UM DESASTRE SOCIAL

A longa primavera búlgara

por Laurent Geslin
2 de dezembro de 2013
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Há quase um ano, protestos se sucedem na Bulgária. Em maio, o Partido Socialista assumiu o comando do governo, sem aplacar a cólera de uma população cansada da inércia e da corrupção políticas. No país mais pobre da União Europeia, os manifestantes pedem trabalho, melhores salários… E respeito ao Estado de direitoLaurent Geslin

As encostas arborizadas das montanhas Rhodope, no sul da Bulgária, foram desnudadas para dar lugar às periferias soviéticas da aglomeração de Smolyan, com seus cubos de concreto. Na parte alta da cidade, no distrito de Ustovo, homens reviram o esqueleto enferrujado de um carro; algumas crianças roma brincam em meio à poeira. Um velho dá uma longa tragada num cigarro meneando a cabeça. “Problemas, sim, ele tinha problemas”, sibila, contemplando o aviso de falecimento afixado na porta do imóvel. Ventsislav Kozarev tinha 47 anos; morreu em 3 de maio de 2013, o corpo queimado em mais de 85% após ser imolado pelo fogo diante da prefeitura de Plovdiv.

Em um pequeno cômodo enfumaçado, a família está reunida para a vigília fúnebre. Velas queimam sobre uma mesa baixa; um ícone enfeita uma parede de gesso. A assembleia se recolhe em silêncio. “Kozarev estava há algum tempo sem emprego, assim como sua companheira. Seu bebê tinha sido levado pelos serviços sociais, estando o casal incapaz de cuidar dele. Antes de se suicidar, ele deixou uma mensagem dizendo que era impossível para ele continuar vivendo daquela maneira”, conta a jornalista Mihailina Dimitrova. Desde o início de 2013, pelo menos nove pessoas morreram dessa maneira na Bulgária, e os suicídios por armas de fogo ou por defenestração não são nem mais contados. Em meados de agosto, uma mulher de 77 anos foi encontrada pelos vizinhos carbonizada em sua casa no vilarejo de Ploski, a alguns quilômetros da fronteira com a Macedônia. Esse fenômeno sem precedentes levou a Igreja Ortodoxa a sair de sua reserva. “Conclamo todos os jovens a não atentar contra a vida, em nenhuma circunstância”, declarou em 14 de março o patriarca Neofit.

Eletricidade privatizada e cara

Nos anos 1980, a Bulgária, apelidada de “Vale do Silício do Comecom”,1 fornecia mais de 40% dos sistemas de informática e dos microcomputadores da Europa Oriental. Essa produção estava concentrada em particular na região das montanhas Rhodope. Mas, desde o fim do regime comunista, as fábricas de eletrônica que faziam a riqueza de Smolyan foram fechando uma atrás da outra. Hoje, nenhuma indústria funciona na região. Dos 32 mil habitantes da cidade, 12 mil estão desempregados, e os hotéis que se multiplicaram para acolher os turistas durante o inverno não são suficientes para sustentar a população. “Somos um lado esquecido da Bulgária”, lamenta-se a deputada-prefeita Dora Yankova (Partido Socialista Búlgaro, BSP). “A situação social é catastrófica, mas os habitantes de Smolyan perderam o hábito de se revoltar. Os suicídios que se multiplicam são gestos de desespero.”

Membro da União Europeia desde 2007, a Bulgária pode se orgulhar de indicadores macroeconômicos positivos. As finanças estão saneadas e a dívida pública permanece contida, em 18,5% do PIB em 2012, segundo o Eurostat, contra 37,8% na Romênia e 157% na Grécia. Como assinala a pesquisadora Nadège Ragaru, “desde a introdução em 1997 de um diretório monetário do Fundo Monetário Internacional [FMI], a gestão das contas públicas foi conduzida com grande rigor. Aos bancos – privatizados – foram impostas medidas de contenção. O país registrou excedentes orçamentários até a crise de 2008-2009”.2 Porém, aqui como em outros lugares, as medidas de austeridade preconizadas pela União Europeia e pelas grandes instituições financeiras provocaram um desastre social: o desemprego atinge oficialmente 12% da população ativa (30% dos jovens), os salários e as aposentadorias estão congelados desde 2009 e 600 mil famílias vivem com menos de 100 euros por mês.

“Cerca de 20% da população vive abaixo da linha de pobreza”, acrescenta Oleg Chulov, do sindicato Podkrepa. “Todos os governos que se sucederam nos últimos anos fizeram cortes nos efetivos da função pública. Eles conduziram uma política fiscal favorável aos investidores, baseada na competitividade da mão de obra. O salário mínimo é, portanto, extremamente baixo – cerca de 140 euros por mês – e o salário médio não ultrapassa 370 euros. Hoje, os 20% mais ricos são seis a sete vezes mais ricos que os 20% mais pobres.” Em 1990, a relação entre os dois grupos era de 2,4.

No poder desde as eleições legislativas antecipadas de 12 de maio, o BSP prometeu rever essas orientações liberais. Ele esquece que o essencial dessas medidas – como o imposto único que atinge todos os rendimentos até um patamar de 10%, sem progressividade nenhuma – foi adotado pelo governo de coalizão dirigido pelo chefe do Partido Socialista, Sergei Stanichev (2005-2009), que neste ano se tornou presidente do Partido Socialista Europeu (PSE).

Foi nesse contexto econômico deletério que os cidadãos observaram com desânimo, no início de 2013, a alta vertiginosa das tarifas de eletricidade. Privatizada sob o governo do ex-primeiro-ministro Simeon de Saxe-Coburg-Gotha (2001-2005), a rede nacional está nas mãos de três operadoras privadas, que dividem o mercado entre si: as tchecas CEZ (Ceské Energetické Závody, Empresas Tchecas de Energia)3 e Energo-Pro, e a austríaca EVN. Em janeiro, a média das faturas se elevava a mais de 100 euros por domicílio: uma soma com que boa parte da população não tinha condições de arcar. Impulsionadas pela miséria, várias dezenas de milhares de pessoas tomaram então as ruas das grandes cidades do país. A contestação rapidamente adquiriu um contorno político, com os manifestantes denunciando de forma desordenada a União Europeia e os eleitos locais, sua corrupção e sua conivência com os interesses econômico-criminais.

Sentindo a água subir nos joelhos, o populista Boiko Borisov, lutador de caratê transformado em guarda-costas do ex-ditador comunista Todor Jivkov, depois prefeito de Sofia (2005-2009) e primeiro-ministro, decidiu jogar a toalha em 13 de março de 2013, a poucos meses das eleições legislativas previstas para julho. Uma estratégia oportunista: seu partido, o Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária (Gerb), chegou na frente nas eleições, com 30% dos votos; um resultado insuficiente, no entanto, para conservar o poder. Após alguns dias de negociações, o BSP e o Movimento pelos Direitos e pelas Liberdades(DPS) da minoria turca finalmente conseguiram constituir uma frágil coalizão governamental, com apenas 120 dos 240 assentos. Eles receberam para isso o apoio sem participação do partido de extrema direita Ataka e de seu dirigente, Volen Siderov, que, em 2006, conclamava a “transformar os ciganos em sabão”.

É difícil para os eleitores encontrar alguma coerência nesse ajuntamento heteróclito. “O regime parlamentarista búlgaro está sem fôlego”, constata Ivo Hristov, membro da ONG de esquerda Bulgária Solidária. “Desde o fim do regime comunista, todas as alavancas econômicas foram monopolizadas por dirigentes ligados a redes mafiosas. A alternância política não provoca mudanças ideológicas, mas simplesmente uma recomposição desse sistema oligárquico.”

Na realidade, a única questão que estrutura de maneira durável o universo político desde a queda do regime comunista é aquela das relações com o vizinho russo. Assim, para alguns intelectuais liberais ligados a Borisov, as manifestações de 2013 e a crise política que o país atravessa teriam sido fomentadas por Moscou, descontente com o recente fracasso do referendo sobre a energia nuclear.

“A energia é a vaca leiteira da classe política”

De fato, em 27 de janeiro, a maioria dos eleitores respondeu “sim” à pergunta “A Bulgária deve desenvolver sua energia nuclear por meio da construção de uma nova central atômica?”, antes que o escrutínio fosse finalmente invalidado em razão de uma participação insuficiente. O projeto, defendido na época pelo governo de Sergei Stanichev (2005-2009), depois abandonado pelo gabinete de Borisov em março de 2012, previa a construção de uma nova central de concepção russa em Belene, no norte do país.4 “O Partido Socialista ainda mantém estreitas relações com Moscou”, salienta o estudioso político Ognyan Minchev, diretor do Institute for Regional and International Studies (Iris), “e o projeto de Belene é um instrumento da Rússia a fim de aumentar sua influência no cenário político búlgaro e afastar o país da aliança euro-atlântica”.

Moscou se esforça também para finalizar a construção em território búlgaro de uma seção do gasoduto South Stream, a fim de enterrar definitivamente o projeto concorrente, Nabucco, tocado pela Europa. Em 8 de julho, o primeiro-ministro socialista Plamen Orecharski acolhia com grande pompa Alexei Miller, o diretor do grupo Gazprom. A construção do gasoduto, declarava, resultaria na contratação de 2,5 mil engenheiros altamente qualificados e traria 3,5 bilhões de euros em investimentos diretos. A classe política nacional se dividiria então entre socialistas russófilos partidários da energia nuclear de um lado e a direita russófoba e antinuclear do outro? “É uma simplificação”, estima Hristov. “A energia é a vaca leiteira de toda a classe política. A corrupção no setor é um problema estrutural e todos os partidos respeitam a omertà [pacto de silêncio da máfia].”

No grande porto de Varna, desde os primeiros raios de sol, os transeuntes invadem os terraços dos cafés do Bulevar Slivnitca. Centro industrial poderoso sob o comunismo, sobretudo graças a seus estaleiros e sua indústria têxtil, Varna continua sendo uma das cidades mais prósperas do país. Ela perfaz 15% do produto nacional bruto (PNB) e desfruta uma taxa de desemprego inferior a 4%. No entanto, é ali que o movimento espontâneo de raiva assumiu amplitude no último inverno búlgaro. Em 20 de fevereiro de 2013, um homem de 36 anos, Plamen Goranov – cujo primeiro nome significa “chama” –, imolou-se diante da prefeitura, tornando-se o mártir e o símbolo da revolta. “Saímos para as ruas para protestar contra os preços da eletricidade, mas também contra a máfia que dirige a cidade há vinte anos”, diz Maria, uma jovem artista que colou na bolsa um adesivo com a imagem de Goranov. “O prefeito pediu demissão, mas nada mudou. Não importa, a centelha acesa neste inverno não se apagou”, acredita. Após quatro mandatos e catorze anos no poder, o prefeito Kiril Yordanov foi levado a se demitir em 6 de março de 2013, abandonado por seus aliados do Gerb.

“Na Bulgária, a máfia tem um país”

“Yordanov não passava de um boneco que aprendera a negociar o apoio dos partidos que se sucederam em Sofia”, comenta sob o manto do anonimato um jornalista local. “Os verdadeiros senhores da cidade, como de boa parte da Bulgária, são os mafiosos do TIM.” O grupo TIM, cujo nome é formado pelas iniciais dos prenomes de seus três fundadores (Tihomir, Ivo e Marin), ex-comandantes da Marinha, surgiu em Varna nos anos 1990, durante o período sombrio da transição. Nessa época, as empresas estatais eram privatizadas a preço de banana em benefício dos amigos do novo regime. “A Bulgária era então controlada por diferentes grupos criminosos que se enfrentavam entre si. Mas, diferentemente daqueles que se exibiam nos clubes com garotas e armas, os fundadores do TIM sempre permaneceram muito discretos. Eles eliminaram a concorrência e se tornaram uma das forças econômicas mais poderosas do país.” Definir hoje a lista de suas propriedades é um grande desafio. “Eles controlam os meios de comunicação, como a rede de televisão Tcherno More, e investem em imóveis. Possuem um banco, o Centralna Kooperativna Banka, e a companhia nacional de aviação, a Bulgaria Air. Têm participação nos aeroportos de Varna, Burgas e Sofia. Ninguém conhece a extensão exata de suas propriedades.”

“Cada país tem sua máfia. Na Bulgária, a máfia tem um país”, as pessoas gostam de repetir aqui. Segundo um relatório publicado em dezembro pela Transparency International, o país seria o mais corrupto da Europa depois da Grécia, ocupando o 75o lugar entre 176 em âmbito mundial. Em 14 de junho, pouco após as eleições legislativas, o diabólico homem de negócios Delyan Peevski foi nomeado chefe da Agência Nacional de Segurança (Dans), um organismo encarregado de lutar contra a corrupção, o que suscitou indignação em todo o país. Deputado pelo DPS e magnata dos meios de comunicação, Peevski teria mergulhado em diversos escândalos político-mafiosos, como o caso Toplofikacija, em 2006-2007.5

Diante da raiva nas ruas, o Parlamento apressou-se em voltar atrás, anulando a nomeação de Peevski. O primeiro-ministro Orecharski chegou mesmo a pedir desculpas publicamente, em 19 de junho, por esse “erro político”.6 Essa mea culpa, assim como a redução das tarifas de eletricidade anunciada em 30 de julho, não dissipou o desejo de lutar dos cidadãos búlgaros.

Depois de seis meses de revolta e apesar da alternância política, a crise social que atinge o país não parece próxima de ser absorvida. Durante todo o verão búlgaro, as manifestações de rua exigiram a demissão do governo e a realização de novas eleições. Na noite de 23 para 24 de julho, barricadas cercaram o Parlamento; 2 mil manifestantes bloquearam cerca de trinta deputados no edifício gritando “máfia” e “demissão”. O retorno do frio e o aumento sazonal das tarifas de eletricidade poderiam elevar o descontentamento.

No entanto, a sociedade búlgara tem realmente os meios de conduzir uma “revolução” comparável àquelas que agitaram os países árabes em 2011? Esgotado por vinte anos de transição, o país, demograficamente debilitado, perde a cada ano suas forças vivas. A população declinou 5,5% no ano passado, indo de 8,7 milhões de pessoas em 1990 para 7,3 milhões em 2012.

Considerada na época comunista a XVI República da União Soviética, a Bulgária agora põe em prática ao pé da letra as políticas liberais preconizadas pela União Europeia e permanece, tanto hoje como ontem, incapaz de dominar seu destino. Sem dúvida, é também isso que os manifestantes pretendem mudar.

Laurent Geslin é jornalista do Correio dos Bálcãs.



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