A mestiçagem a partir de Portinari - Le Monde Diplomatique Brasil

Democracia racial

A mestiçagem a partir de Portinari

12 de agosto de 2019
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Se hoje a arte contemporânea pauta constantemente o debate pós-colonial, no passado não era assim: por isso a tela de Portinari é especial. Apesar de, neste caso, temos a repetição comum de um autor branco se debruçando sobre o tema da mestiçagem, a abordagem de Portinari evidencia a consciência de classe do pós-abolição. O mestiço não ilustra apenas um brasileiro nato numa nação construída a partir da mistura violenta de raças. A obra evidencia também a cor da classe trabalhadora do Brasil.

 

Em 1934, Candido Portinari transformou em protagonista de uma tela um homem mestiço. À época, o Brasil tinha pouco mais de quarenta anos de uma liberdade racial questionável, milhas e milhas distante dos conceitos de justiça e de igualdade. Uma das muitas romantizações que a história ficcionalizou sobre o processo de colonização do nosso País se refere às circunstâncias da mistura de raças, estimulada no período colonial como política de Estado para substituir centenas de etnias indígenas autóctones e para branquear a nação. O resultado disso é um povo constituído por seres híbridos do cruzamento entre brancos, negros africanos escravizados e indígenas massacrados. 

Tal interseccionalidade genética não foi consequência de relações consentidas regadas de paixão e erotismo, pelo contrário. As escravizadas eram impedidas de constituírem relações afetivas e familiares: primeiro pela ideia racista da época de que negros eram tão animalescos que eram incapazes de ter emoções humanas; segundo porque, trabalhadoras compulsórias, deveriam se dedicar integralmente ao serviço das famílias brancas que as possuíam, o que inclui atender aos desejos sexuais dos senhores de escravos e amamentar os filhos brancos das senhoras. As indígenas, por sua vez, eram constantemente estupradas como reforço da superioridade portuguesa: uma invasão dos territórios e dos corpos.

Neste processo violento, formou-se o brasileiro, um tipo muito particular e controverso, essencialmente mestiço, mas nem por isso menos racista. Somos seres curiosos, criados na mistura, mas longe da harmonia; e apesar de muito ter sido dito sobre isso, o tema está longe de ser esgotado. Seguimos tateando nosso próprio entendimento do que é ser brasileiro, do que foi a mestiçagem e de como o racismo está enraizado nas nossas entranhas. Para essa compreensão e iluminação das nossas bases nacionais, as ciências sociais e suas pesquisas são imprescindíveis – importante dizer, em contexto de ameaças do Ministério da Educação.

Mestiço, 1934 – Candido Portinari (Governo do Estado de São Paulo, 1935)

Os estudos raciais chegaram no Brasil tardiamente no século XIX e foram centrados principalmente nas pesquisas elaboradas por Nina Rodrigues, desdobradas nos escritos de Euclides da Cunha. O contexto de eugenia racial, baseado na ideia de que as raças brancas eram mais fortes e deveriam prosperar, em detrimento das raças negras, que deveriam ser eliminadas, atrela-se neste momento à formulação de uma política imperialista, calcado em um cientificismo que intentava promover a melhora da sociedade a partir da eliminação daquilo que não era desejado. Era o racismo disfarçado de boas intenções, consolidado como política de Estado.

Euclides da Cunha, em Os Sertões, fala da mestiçagem como degeneração racial e constrói hierarquia dentro da própria negritude, construindo níveis de inferioridade entre grupos afrodescendentes. Apesar de ultrapassadas, esses teóricos tiveram o esforço de contrariar o pensamento evidentemente racista da época, mas colaboraram com o que mais tarde Florestan Fernandes vai batizar de mito da democracia racial

O século XX veio sem muita novidade discursiva. Obviamente que Gilberto Freyre marcou a teoria antropológica com as ideias apresentadas em Casa Grande & Senzala, entretanto, por ser homem branco filho da oligarquia pernambucana, que foi estudar fora do país, sua literatura ainda resta repleta de deslizes racistas e patriarcais. Somente a partir da década de 1950 que os sociólogos começaram a problematizar que a situação não era tão harmônica como se pensava. A fundação do Movimento Negro Unificado na década de 1970 catapultou a consciência de classe negra e, a partir dele, teóricos negros revisitaram o tema da mestiçagem e do processo de construção da nação por uma perspectiva própria e necessária. Graças especialmente a Abdias do Nascimento e Lélia Gonzales hoje temos disponíveis ferramentas teóricas para se traçar uma compreensão mais justa do nosso passado e do nosso presente.

Se no Brasil o pensamento inicial sobre raça foi elaborado especialmente pela intelectualidade branca elitista, que ecoou suas teorias, um psiquiatra antilhano também tem muito a nos ensinar. Franz Fanon analisa o comportamento comum manifestado por pessoas negras, que com frequência exprimem autodepreciação, desejo pelo embranquecimento e admiração pelos feitos e pelos amores dos brancos. Ao tratar da linguagem e dos processos estruturais correspondentes, Fanon justifica o servilismo e a inferioridade assimilado por negros como consequência própria da exclusão e da violência extremas internalizadas. Ou seja, de tanto ouvir que se é inferior e de tanto viver a inferioridade imposta por gerações, durante muito tempo – e ainda hoje – parte da população negra só enxerga um destino possível de felicidade, e ele é branco. Por isso não é de se assustar ver a foto do deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ) com uma camiseta de Margaret Thatcher.

São diversas as produções artísticas contemporâneas que problematizam a mestiçagem nos países envolvidos em relações coloniais históricas, valendo-se da imagem como território de debate. Angélica Dass, Grada Kilomba, Rosana Paulino, Dalton Paula, Sonia Gomes, Emanoel Araújo, Rubem Valentim e tantos outros nomes têm usado as artes visuais para instituir discursos negros, disputar narrativa histórica com a hegemonia intelectual branca e acrescentar aos debates sobre mestiçagem novos olhares. Não se trata de mera ilustração de teorias raciais já existentes; os artistas também são autores e cientistas de seu próprio pensamento. Se hoje as produções plásticas que problematizam racialidade são mais frequentes, não se trata de consequência direta da profusão de teorias decoloniais recentes, mas de um compartilhamento de tempo e espaço comum entre artistas, ativistas e teóricos acadêmicos que propiciam a reformulação de ideias instituídas. A política interfere na estética assim como a estética altera a política.

Se hoje a arte contemporânea pauta constantemente o debate pós-colonial, no passado não era assim: por isso a tela de Portinari é especial. Apesar de, neste caso, temos a repetição comum de um autor branco se debruçando sobre o tema da mestiçagem, a abordagem de Portinari evidencia a consciência de classe do pós-abolição. O mestiço não ilustra apenas um brasileiro nato numa nação construída a partir da mistura violenta de raças. A obra evidencia também a cor da classe trabalhadora do Brasil.

A tela integra atualmente o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, que entre suas milhares de pinturas poucas são aquelas que protagonizam a mestiçagem, o negro e o indígena. Menos ainda são aquelas assinadas por artistas contra hegemônicos. A situação por lá melhorou significativamente após a gestão de Emanoel Araújo, que teve o propósito de ampliar o acervo de artistas negros da instituição. Mesmo com os acréscimos viabilizados pelo atual diretor do Museu Afro, ao se percorrer o catálogo de obras da Pinacoteca, O mestiço é a primeira que aparece com a pauta racial evidente. 

Mais de 80 anos separam a atualidade de quando a tela foi pintada. Apesar dos avanços teóricos, sociais e artísticos, existe um caminho muito longo a ser percorrido rumo à igualdade racial no nosso País. O brasileiro ainda segue sem compreender seu passado e seu sangue; segue com desejo de ser branco não apenas na cor da pele, mas também no pensamento. Seguimos violentos e sectários, seguimos racistas. A atitude mais comum que se adota diante da tela de Portinari, tão conhecida, exemplifica nossa situação deplorável. Continuamos olhando superficialmente a imagem, aplaudindo “a beleza” como bobos alienados, sem conseguir de fato enxergar a questão política por trás das entrelinhas visuais do quadro criado por um artista comunista em época de ascensão fascista. 

Raisa Pina é jornalista mestre em Artes, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília; pesquisadora em arte, cultura e política.



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