Vazamento de petróleo: A mídia e o discurso segregador que silencia

A COBERTURA DO VAZAMENTO DE PETRÓLEO NA COSTA BRASILEIRA

A mídia e o discurso segregador que silencia

por Nataly de Queiroz Lima e Patrícia Paixão de Oliveira Leite
8 de setembro de 2020
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Análise da cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira em 2019 revela como o jornalismo declaratório deixa a imprensa refém dos discursos oficiais e invisibiliza os principais segmentos afetados pelo desastre ambiental: as comunidades tradicionais

Os discursos revelam nossa condição de indivíduos em sociedade. As narrativas nos engendram em uma teia de ditos e não ditos que deixam escapar marcas profundas – muitas vezes, severas – da nossa história e cultura, sendo também matéria-prima para a construção do mundo hoje. Possibilitam entender as configurações sociais, os ritos do cotidiano, os valores. Os discursos são construções ideológicas e, portanto, devem ocupar lugar central na observação de quem pretende compreender a realidade. Mas essa observação tem que ir para além da transparência, mergulhando no contexto, destrinchando significados, até encontrar as águas opacas – neste caso, contaminadas de petróleo – da cobertura da mídia sobre o maior desastre ambiental na costa brasileira.

Entre as inúmeras perplexidades de 2019, o Brasil assistiu cheio de interrogações às notícias sobre o derramamento de petróleo no litoral do país. De acordo com o Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA), formado pela Marinha, Agência Nacional de Petróleo (ANP) e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), até novembro do ano passado foram recolhidas mais 4.700 toneladas de petróleo cru das praias. Milhares de vidas humanas e marinhas sentiram o impacto de mais um crime sem a devida responsabilização dos culpados na conta do país, e perdido na espiral do silêncio da imprensa.

Para manter o debate vívido, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação lançou a pesquisa “Vozes Silenciadas: a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira”. Organizada pelas(os) pesquisadoras(es) Iara Moura, Nataly Queiroz, Patrícia Paixão e Paulo Vítor Melo, a publicação é resultado de uma extensa investigação em veículos regionais e nacionais, revelando, dentre outros achados, como o jornalismo declaratório deixou a imprensa refém dos discursos oficiais e invisibilizou os principais segmentos afetados pelo desastre ambiental: as comunidades tradicionais.

O universo da pesquisa contemplou mídias impressa, televisiva e digital, com veículos de natureza comercial e pública. Dentre estas estão a Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, o Jornal Nacional (Rede Globo), o Jornal da Record (Grupo Record), SBT Brasil (SBT) e a Agência Brasil (Empresa Brasil de Comunicação – EBC). No rol dos veículos regionais analisados estão: o Diário do Nordeste (Ceará), o Jornal do Commercio (Pernambuco), A Tarde (Bahia) e o Estado do Maranhão (Maranhão). No total, foram analisados 367 conteúdos; destes, 258 estavam nos veículos impressos, 57 nos telejornais e 52 no webjornalismo. Os critérios para a seleção dessas mídias foram a audiência nos seus segmentos e a circulação/tiragem nacional e local.

Dada a extensão do desastre ambiental e seu longo recorte temporal, a pesquisa se debruçou sobre a cobertura da mídia em cinco períodos: 1) os primeiros dias de aparecimento das manchas de óleo (30 de agosto a 7 de setembro de 2019); 2) o primeiro mês da chegada do óleo nas praias (30 de setembro a 5 de outubro de 2019); 3) a semana, quando foi apontado que o óleo era venezuelano e o Greenpeace realizou um ato público em Brasília, gerando reações controversas do governo federal (23 a 30 de outubro de 2019); 4) período em que a Polícia Federal apontou, como suspeito pelo vazamento, um navio de origem grega (1 a 9 de novembro de 2019); e 5) semana de início da medida provisória nº 908/2019, a qual instituiu o auxílio emergencial aos pescadores artesanais (29 de novembro a 7 de dezembro).

Quando o estudo evidenciou o peso do jornalismo declaratório de fontes oficiais, numa dependência nociva ao campo e ao direito à informação, percebeu-se um esvaziamento de contrapontos, ou seja, de vozes que trouxessem à tona o contraditório, o que gerou um empobrecimento das coberturas. Aliás, melhor dizendo, “fontes oficialescas”, uma vez que até mensagens fragmentadas e derrisórias da conta pessoal no Twitter de ministros e do presidente do país serviram como pauta de parte da mídia investigada, para incrementar as notícias espetaculares sobre o vazamento de petróleo.

Para se ter uma ideia, enquanto as manchas de piche pululavam nas praias, ONGs protestavam contra a inércia do poder público central. Uma delas foi a internacional Greenpeace, que realizou uma manifestação em frente ao Palácio do Planalto, e sofreu acusações por parte de representantes do governo federal. O caso mais grave – e, ao mesmo tempo, bizarro – se deu quando o telejornal SBT Brasil, em matéria veiculada no dia 24 de outubro de 2019, relatou que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, utilizou o Twitter para chamar o grupo ambientalista de “greenpixe” (sic) e levantar suspeitas sobre a responsabilidade de o navio do Greenpeace ter provocado o desastre ambiental com óleo. Escreveu o ministro: “Parece que o navio do #greenpixe estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano”.

Repercutir uma mensagem de rede digital com tal conteúdo até valeria a pena, sob o ponto de vista do bom jornalismo, caso a abordagem da notícia fosse a falta de respeito ao mínimo de liturgia do cargo que tal ministro ocupa, inclusive para referenciar um processo de investigação do maior desastre ambiental da costa brasileira. Enquanto o ministro investia nessas derrisões, a sociedade precisava de respostas. É importante sublinhar que até a metade de agosto de 2020, quando este artigo estava sendo produzido, ainda não havia indicação de responsáveis pelo derramamento de petróleo que atingiu mares, rios e mangues brasileiros.

Mas essa foi a “ordem do discurso” (pegando emprestada a expressão de Michel Foucault) que embalou a mídia no período da cobertura do desastre ambiental. Em média 60% das vozes ouvidas foram de autoridades públicas, em especial da Marinha e das Forças Armadas, enquanto apenas 5% eram de representantes dos povos e comunidades tradicionais – parcela mais afetada por ter perdido sua fonte de vida e de sustento. Um outro dado escancara mais um achado de pesquisa: o silenciamento imposto pela imprensa aos principais afetados pelo crime ambiental. O que esconde e revela o dispositivo midiático de silenciar ou amplificar discursos durante a cobertura?

Mais do que uma construção redacional ou uma mera ancoragem em técnicas jornalísticas, essas vozes silenciadas e amplificadas são provas incontestes do lugar que a mídia tradicional ocupa no Brasil. A configuração mercadológica da mídia, desde a sua gênese, trouxe marcas que são observadas hoje no país: verdadeiras indústrias concentradas que tratam a informação como produto vendável, traduzindo uma versão da realidade pela ótica dominante. Trata-se da mídia oligopolizada e amalgamada às elites econômicas, políticas e religiosas, ditando as narrativas que predominam na sociedade.

As velhas fórmulas jornalísticas nublam o debate ao estabelecer dinâmicas enfraquecedoras da pluralidade de vozes. Afetam, inclusive, as estruturas da nossa democracia, já combalidas pelos ataques sucessivos do governo federal, considerando o papel da imprensa na formação da opinião pública – elemento norteador das decisões que tomamos em sociedade. Franqueando mais voz aos entes públicos do poder político central, a mídia assume o papel decisivo de transformar o Estado em um leviatã que pareceu emergir cheio de piche das águas da costa brasileira. Vale aqui um parêntese para lembrar que parte da mídia perseguida hoje por Jair Bolsonaro e seus asseclas, sofrendo censuras e desrespeitos ao seu ofício, ajudou a fortalecer os tentáculos desse monstro Estado que se ergueu para atingir a democracia.

De fato, a mídia no Brasil reflete os traços escancarados da concentração de poder nas mãos de poucos, legado de um país colonizado que ainda arrasta as correntes do classismo, sexismo e racismo estrutural. De acordo com a pesquisa Media Ownership Monitor (2017), realizada pelo Intervozes e pela Repórteres sem Fronteiras, metade dos cinquenta principais veículos de massa são controlados por cinco famílias, lideradas por homens brancos e com políticas editoriais vinculadas ao liberalismo e, mais recentemente, aos novos conservadorismos. Portanto, o que a pesquisa Vozes Silenciadas sobre o derramamento de petróleo deslinda resulta do lugar de classe dominante que os meios de comunicação ocupam.

 

Os títulos que ocultam e revelam um discurso de hegemonia de classe

Entre as descobertas mais importantes da pesquisa está, ainda, a invisibilidade dos povos e comunidades tradicionais, como pescadores/as e marisqueiras/os – categorias dramaticamente atingidas pelo desastre socioambiental, por terem os mares, mangues e rios como fontes de vida e sustento. A investigação observou que a referência ou nomeação de “pescadores/as” e “marisqueiros/as” é quase nula nos títulos dos jornais impressos estudados. Dos dezesseis títulos encontrados em O Globo, no horizonte temporal da pesquisa, não há sequer uma menção às palavras “pescadores”, “pescadoras”, “marisqueiros” ou “marisqueiras”.

A Folha de S.Paulo não se comporta de forma diferente. Dos 55 títulos listados, aparecem apenas três com referência explícita aos povos e comunidades tradicionais: “Pescadores de praias com óleo ocupam sede do Ibama na Bahia” (23 out. 19); “Sem Bolsonaro, Alcolumbre abre caminho para ampliar benefício a pescadores do NE” (25 out. 19); e “Pescadores de praias atingidas por óleo relatam queda de até 80% nas vendas” (1 nov. 19). Em dois deles, as referências estão associadas a instituição pública – Ibama – ou a representantes do poder central – Bolsonaro e Alcolumbre –, como se por si só os/as trabalhadores/as pesqueiros/as não fossem relevantes para “segurar” uma chamada para matéria ou reportagem.

O Estado de S. Paulo abordou o vazamento de óleo em 31 títulos, mas somente em um referenciou as categorias dos trabalhadores/as atingidos/as: “Multa é de R$ 50 milhões, mas cabe indenização a pescadores” (2 nov. 19). Vale dizer que comumente as páginas dos veículos estudados foram ilustradas com imagens de voluntários/as, pescadores/as e marisqueiras/os, mesmo quando os textos não os/as mencionavam.

Os veículos regionais pesquisados, que teoricamente estavam mais próximos da realidade vivenciada por pescadores/as e marisqueiras/os, não adotaram um discurso diferente dos pares nacionais. No jornal Diário do Nordeste, entre os dezoito títulos encontrados nenhum referenciou diretamente as categorias que retiram seu sustento das atividades pesqueiras. Dos 46 títulos do Jornal do Commercio, verificou-se também o silenciamento das categorias, mesmo quando são referenciadas indiretamente, como ocorreu no título “O lamento de quem vive do mar” (27 out. 19). O Estado do Maranhão só fez uma nomeação entre 32 títulos achados: “Por causa das manchas de óleo, 7 mil pescadores vão receber auxílio no MA” (5 dez. 19), aliás, em reportagem que não deu voz a nenhum/a pescador/a.

Ainda entre os impressos regionais observados, o que mais utilizou as palavras “pescadores” ou “marisqueiras” foi o jornal A Tarde. Nos 54 títulos, fez cinco citações diretas: “Pescadores e marisqueiras enfrentam queda nas vendas” (23 out. 19); “Óleo afeta trabalho de 43 mil pescadores” (27 out. 19); “Governo vai liberar um salário para cada pescador por dois meses” (7 nov. 19); “Organizações coletam alimentos para pescadores afetados pelo óleo” (10 nov. 19); e “Sete mil pescadores devem receber auxílio do governo” (14 nov. 19).

O quase apagamento das palavras “pescadores/as” e “marisqueiras/os” nos títulos é um aspecto simbólico e concreto. São categorias que não ganharam relevância para serem valorizadas como classe trabalhadora, como “personagens” mais relevantes da tragédia ambiental, sob o ponto de vista humanista, refletindo a subvalorização dos/as trabalhadores/as pela mídia.

Linguistas e filósofos apontam que as palavras escolhidas e rearranjadas no discurso são mais que uma mera opção de vocabulário. Até porque um dos dispositivos mais eficazes para submeter os povos a uma falsa superioridade cultural das elites é por meio da linguagem. A intervenção da palavra dos “dominantes” sobre os “dominados” ou “subalternizados” é uma espécie de coação que repercute em toda a formação social, cultural e política de um povo. Pode-se dizer que é a partir da palavra que se constitui uma nação, com suas nomeações, referenciações e sentidos. Se a palavra é um “signo ideológico”, concordando com Bakhtin (2006), é por ela que a ideologia flui.

Certamente, o filósofo russo Mikhail Bahktin (1895-1975) foi quem deu mais ênfase à importância do sentido das palavras na linguagem, tanto que passou a ser uma referência teórica emprestada ao campo da Análise do Discurso. De tradição marxista, o autor discorreu sobre esse assunto, em particular, no livro Marxismo e filosofia da linguagem, que se tornou basilar para os estudiosos do tema. Segundo Bakhtin, a palavra é o fenômeno ideológico por excelência, sendo o modo mais genuíno e sensível da relação social. Quando os meios de comunicação selecionam algumas palavras em detrimento de outras, daí resvala a sua opção de classe.

Não só isso. A mídia atua como colonizadora quando nega o “outro” nos títulos das coberturas do desastre ambiental, mas é aquele “outro” que não faz parte das classes hegemônicas as quais a mídia comercial brasileira representa. Recorrer ao filósofo e linguista búlgaro, Tzvetan Todorov (1939-2017), é revelador. Ao pesquisar as colonizações e a imposição linguageira perpetrada por Colombo, por meio de uma arqueologia dos escritos da fase das “descobertas da América”, Todorov atesta que o colonizador assume o papel de “superior”, desqualificando a língua indígena, pois, para Colombo, os índios apenas fazem parte da paisagem – alguma semelhança com os povos tradicionais ornando as páginas e cenas nas coberturas da mídia? De acordo com Todorov, o descaso e a pouca percepção que colonizador espanhol teve dos índios é uma mistura de autoritarismo e condescendência, uma forma de alienar a vontade do outro.

Talvez os elementos que emergiram da pesquisa “Vozes Silenciadas: a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira” não tragam surpresas em relação ao papel que a mídia oligopolizada e colonizadora assume no país, mas certamente referendam fortemente como os povos e comunidades tradicionais foram relegados a imagens cinzentas ou coloridas, ou melhor, como efeito-paisagem para compor cenas de telejornais ou páginas dos jornais impressos durante a cobertura. Também é surpreendente verificar que não houve preocupação, de forma geral, com os destinos dessa população que ficou sem a sua fonte de renda e de vida – uma vez que a relação dela com o meio ambiente é simbiótica. Por isso trata-se de um desastre socioambiental, mas a esfera social foi praticamente ignorada.

 

Sinal vermelho no modelo da comunicação pública

É preciso abordar, ainda que brevemente, a postura paradoxal da Agência Brasil na cobertura do vazamento de petróleo. Engessado no papel de porta-voz do governo, o veículo não recorreu às redes sociais dos representantes do executivo federal, obtendo informações e posicionamentos diretamente das fontes oficiais. Manteve-se fiel à cartilha do jornalismo declaratório de Estado, nitidamente desvirtuado da sua função pública, depois dos sucessivos ataques e desmontes promovidos pelo Executivo federal. O material noticioso do veículo, mesmo quando há muitas fontes, não explora o contraditório em nenhuma das matérias analisadas. Mostra-se amordaçado.

A Agência Brasil (ABr) foi criada em 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, como um serviço integrante da Radiobras – Empresa Brasileira de Comunicação, sem autonomia administrativa. No site institucional, a ABr é definida como uma “agência pública de notícias com foco no cidadão”. Os valores apresentados como norteadores dos seus critérios de noticiabilidade são: o interesse público, a honestidade, a precisão e a clareza das informações que transmite.

Desde 2007, a ABr integra a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Juntamente com a TV Brasil, a Radioagência Nacional, as rádios MEC AM e FM, as rádios Nacional AM Brasília, AM Rio, FM Brasília, Nacional da Amazônia e Nacional do Alto Solimões; passou a compor o sistema público de comunicação. A Agência produz e distribui conteúdo jornalístico gratuito, por meio de seu site, para veículos de comunicação nacionais e internacionais. O foco prioritário de suas coberturas está em pautas de interesse público e que envolvam os agentes do Estado.

No entanto, é interessante lembrar que a história da Agência Brasil se vincula diretamente às agências de notícias estatais, desde a época de Getúlio Vargas. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, a Empresa Brasil de Comunicação vem sofrendo ameaças, mudanças estruturais e cortes sistemáticos. Seu modelo de funcionamento com viés público é particularmente incerto após a portaria de 2019 que unificou a EBC e a NBR, numa questionável fusão de interesses públicos e estatal.

Os 52 conteúdos publicados na Agência Brasil sobre o derramamento de óleo no litoral nordestino demonstram uma vinculação direta com os atos, falas e iniciativas dos representantes de Estado sobre o assunto. Boa parte das matérias segue um formato engessado, similar ao dos releases encaminhandos à imprensa sobre um assessorado. Seus títulos e leads, quase sempre iniciam a partir dos pronunciamentos/ações oficiais de representantes do Poder Executivo federal e da Marinha. São exemplos disso títulos como “Governo faz coletiva sobre manchas de óleo no Nordeste” (25 out. 2019), “Governo defende defeso adicional em áreas atingidas por óleo” (29 out. 2019) e “Ministro da Defesa sobrevoa Abrolhos, região atingida por óleo” (3 nov. 2019).

A cobertura jornalística da Agência Brasil privilegiou como fontes os representantes do Estado. Das 87 fontes entrevistadas, 68 eram órgãos ou representantes públicos (78,2%), seis eram do setor empresarial (6,9%), quatro eram especialistas/pesquisadores (4,6%), quatro eram de povos e comunidades tradicionais (4,6%), três OSC (3,4%) e dois voluntários (2,3%). As chamadas de matéria e títulos refletem a hierarquização das fontes e, portanto, de discursos, visões e interesses que foram tornados públicos.

O material noticioso da ABr sobre o derramamento de óleo no litoral nordestino, no recorte analisado, mesmo quando há muitas fontes, não explora o contraditório em nenhuma das matérias analisadas. Assim como não faz referência a legislações ambientais. Com pautas iminentemente factuais, 88,4% do material publicado e analisado nesta pesquisa trata-se de notícias. Esse detalhamento é válido para visualizar o pouco investimento em uma cobertura mais analítica e contextualizada, papel de uma agência de notícias pública. Mais do que isso, lança um sinal de alerta em mais um ataque à Constituição Federal que, no seu capítulo V, prevê a complementaridade dos sistemas de comunicação público, estatal e privado. A rejeição ao modelo público de comunicação é mais uma demonstração de rejeição à democracia.

Além de a mídia não ter cumprido seu papel de buscar a informação por meio de abordagens e fontes diversas, a pesquisa Vozes Slilenciadas ainda verificou a interrupção precoce das coberturas. Os dados da pesquisa permitem avaliar que, no último período do corpus analisado (até 30 nov. 19, para os veículos regionais, e até 7 dez. 19, para os nacionais), os meios abordaram o tema pela última vez nas seguintes datas: O Globo, em 30 nov. 19; Folha de S.Paulo, em 30 nov. 19; O Estado de S. Paulo, em 30 nov. 19; Diário do Nordeste, em 27 nov. 19; Jornal do Commercio, em 29 nov. 19; A Tarde, em 27 nov. 19; O Estado do Maranhão, em 5 dez. 19; Jornal Nacional, em 9 nov. 19; Jornal da Record, em 9 nov. 19; SBT Brasil, em 5 nov. 19; e Agência Brasil, em 4 dez. 19. A sociedade brasileira não sabe ainda quem foi ou quais foram os responsáveis pelo vazamento de petróleo na costa brasileira. Pergunta-se: por que a mídia interrompeu a cobertura?

 

Nataly de Queiroz Lima é jornalista, professora universitária e doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. Integrou a equipe de pesquisa do Vozes Silenciadas e é associada ao Intervozes.

Patrícia Paixão de Oliveira Leite é jornalista, mestre e doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora nos campos da mídia, direitos humanos e América Latina. Integrou a equipe de pesquisa do Vozes Silenciadas e é associada ao Intervozes.

 

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail (Voloshínov). Marxismo e filosofia da linguagem. 12ª Edição. São Paulo: Editora Hucitec, 2006.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso (Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1070). São Paulo: Edições Loyola, 2006.



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