A miragem das classes médias africanas - Le Monde Diplomatique

DESENVOLVIMENTO

A miragem das classes médias africanas

por Jean-Christophe Servant
1 de agosto de 2010
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Para o mundo empresarial e financeiro, a África está melhor do que se pensa. Com 300 milhões de consumidores que supostamente saíram da pobreza, o mercado local estaria “pronto para mudar”, como proclama o dossiê especial do Financial Times, e propiciaria o melhor retorno de investimentos de todo o planetaJean-Christophe Servant

Em uma década, a cobertura da mídia sobre a economia africana se transformou nitidamente. Em determinadas colônias passou, inclusive, de um afro-pessimismo milenarista a um afro-otimismo beato. Na virada do século, a descoberta de um “mercado cativo” negro foi tema das revistas especializadas em inteligência econômica. No momento em que a China começava a investir com determinação nas antigas potências coloniais – e os Estados Unidos ainda promoviam ali um novo safári – a imprensa econômica anglo-saxã seguiu esse movimento. A partir de 2008, e dos primeiros efeitos da crise nos mercados tradicionais, os negócios franceses, seguidos de perto pela mídia, também miraram os países da África subsaariana, não pertencentes à chamada Françáfrica (composta por países da África francófona): Quênia, Gana, África do Sul, Nigéria, Moçambique etc.

Com o Velho Mundo em crise, certa clientela subsaariana passou a ser considerada pelas transações ocidentais como um “motor de crescimento”, principalmente dos setores bancário, de telefonia, imobiliário, automobilístico, de luxo ou de consultoria em marketing. As bolsas continentais dão a medida dessas implicações comerciais. “Se tivesse aplicado US$ 1 mil na Bolsa da Nigéria ou do Quênia no início de 2010, você teria auferido hoje uma mais-valia de US$ 150. E se tivesse feito a mesma aplicação no S&P 5001 americano, você teria perdido dinheiro”, observa o responsável pelo escritório africano da Reuters, Matthew Tostevin2. “Antigamente, eu acreditava que existia um alto de risco de se investir na África. Mas, considerando a crise financeira, estou convencido que nossos investimentos são menos arriscados que os de certos grupos ocidentais nos países desenvolvidos”, comentou, em maio desse ano, em Yaoundé, Dominique Laffont, responsável pelas atividades africanas do grupo Bolloré.3

 

Para o mundo empresarial e financeiro, “o mercado africano emergente está a ponto de mudar”, proclamou o dossiê especial do Financial Times, dedicado recentemente a essa África que propicia ganhos – o melhor retorno de investimentos de todo o planeta – e que pode gerar ainda mais lucros.4 Um estudo publicado em meados de junho pelo McKinsey Global Institute estima que “juntos, a venda direta, os recursos, a agricultura e as infraestruturas podem gerar cerca de US$ 2,6 trilhões de rendimentos anuais até 2020, ou seja, US$ 1 trilhão a mais que atualmente”. A conclusão do relatório anuncia, em alto e em bom som: “A África está muito melhor do que se pensa. E o mundo dos negócios não vai ignorá-la por muito mais tempo5”.

Por “África que está melhor”, os analistas pensam, em primeiro lugar, no mercado potencial de 300 milhões de consumidores “que saíram da pobreza”: os chamados “África 2s”. Um grupo que evoluiu entre a grande maioria dos “África 3s” (que vivem com menos de US$ 1 por dia) e a elite absolutamente minoritária dos “África 1s”.6 Essa “nova” classe média deve reunir 43 milhões de pessoas até 2030, segundo projeções do Banco Mundial. No caso, seria uma “pequena” classe média que “investiu boa parte de suas economias em uma casa de periferia, nas proximidades de uma grande cidade africana, e que tem tudo a perder com a instabilidade política, a insegurança, a má gestão pública ou a inflação7”.

Trabalhando, sobretudo, no setor privado – por vezes sobre os escombros de setores atingidos pelos planos de ajuste estrutural (PAS) dos anos 1980, como a saúde pública ou a educação –, essa população urbana revela ser “extremamente sensível às marcas”, como explica Patrick Dupoux, diretor associado do Boston Consulting Group, em Casablanca. “O particular se transforma em cliente importante”, aposta Bertrand Thiebault, diretor geral adjunto do CFAO automotivo, filial de um dos grupos históricos da África francófona. “Nós nos adaptamos a essa nova situação aumentando nossa gama e nossas ferramentas de marketing8.”

Estabilidade
“Fora da história”, segundo expressão do presidente francês Nicolas Sarkozy em seu discurso de Dakar, em 26 de julho de 2007, a África, que começou mal por ter sido mal aconselhada pelas instituições financeiras internacionais, teria hoje, de acordo com essas mesmas instituições, se saído bem. Do mesmo modo que não deixaram de acreditar na capacidade de autorregulação do sistema financeiro, mesmo quando o incêndio era irreversível, os jornalistas de economia estimam, agora, que a massa crítica atingida pelos novos consumidores africanos permite que eles desempenhem papel social estabilizador.

 

Por outro lado, no final de 2007 e início de 2008, foi no Quênia, país emblemático dentre os que teriam esse mercado emergente, que essas mesmas classes médias assistiram impotentes às manifestações de violência provocadas pela trucagem da eleição presidencial que opunha o presidente em final de mandato, Mwai Kibaki, a seu rival, Raila Odinga. Alguns editorialistas de Nairóbi chegaram, inclusive, a falar de um fracasso que deveria ser imputado diretamente a esses homens e mulheres mais preocupados com as liberdades individuais que com o bem comum. Na época, o editorialista Tom Mshindi considerava que os cheetahs (nome local dado à classe média) tinham sido derrotados no que dizia respeito a tirar o país da crise. “Apesar de ser a mais bem equipada social e intelectualmente, a classe média, que é escolarizada, proprietária e na maior parte destribalizada, não conseguiu conter as explosões sociais9.” Desde então, inúmeros estudos têm sublinhado ininterruptamente sua despolitização e as consequências da decomposição do tecido social africano.

Outro clichê divulgado por essa imprensa econômica foi a ideia de que a pequena prosperidade material, que transformaria progressivamente o continente negro, contaminaria o conjunto de seus habitantes. Ou seja, não haveria marcha à ré. Mas no Quênia, como nota o Business Daily, uma pesquisa do Target Group Index (TGI) acaba de revelar que “os salários da classe média ‘baixa’ e os dos mais desfavorecidos somam 80% do conjunto das remunerações do país, contra os 73% constatados há cinco anos. O que coloca em evidência que, desde 2005, a população que recebe um salário médio passou de 27% a 18% dos ativos. (…) O fosso entre ricos e pobres aumentou10”. E esse caso não é exceção: efetivamente, nas nações africanas tidas como mais desiguais – que vão da África do Sul ao Quênia –, desenvolveu-se uma minoria de clientes que consomem e pagam, que estão ancorados na globalização, e uma maioria de cidadãos ainda mais empobrecidos. Esse fenômeno que, a princípio, dizia respeito à região anglofona do continente, se estendeu ao restante da África urbana.

John Samuel, diretor internacional da Action Aid, detecta com precisão certas implicações dessa corrida ao consumo na qual se lançou uma minoria de cidadãos africanos. “O crescimento econômico e o desenvolvimento de ferramentas de tecnologia podem contribuir para melhorar o acesso ao conforto. Mas também podem, ao transformar o ser humano num animal socialmente guiado por práticas econômicas compulsivas e não mais num animal social, provocar o aparecimento de fenômenos de individualização, de desintegração social, de paranoia, com todas as consequências sobre o tempo roubado à poesia, à política, aos sentimentos, à amizade e à comunidade. Essa paranoia, a insegurança emocional e a perda do sentido de comunidade abrem as portas para novos mercados dedicados ao espiritual e a práticas religiosas que respondem a essas expectativas. Novos gurus se aproveitam dessa insegurança social que atinge aqueles que se transformaram atualmente em agentes e, ao mesmo tempo, em vítimas das novas forças do mercado11.”

Os antropólogos sul-africanos Jean e John Comaroff, por sua vez, tentam provar sua “incredulidade crítica”, frente à enxurrada de artigos apaziguadores atualmente dedicados à África. Em seu livro Zombies et frontières à l’ère néolibérale, eles ressaltam: “O fim da Guerra Fria, assim como o fim do apartheid inflamaram a imaginação utopista. Mas a liberação sob caução neoliberal se fez acompanhar do reaparecimento perturbador da violência, da criminalidade e da desordem. A aspiração democrática, o respeito às leis, a prosperidade e a civilidade ameaçam degenerar em conflitos e reivindicações e, até mesmo, se transformar em caos político em meio às trovejantes alegações segundo as quais ‘um pobre não se alimenta com votos e não consegue sobreviver unicamente com uma Constituição’. (…) Os inúmeros cidadãos que se sentem pegos na armadilha, no barco desgovernado do Estado, tentam subir na embarcação empresarial. Mas ao fazer isso, eles correm o risco de se expor às rodopiantes correntes da nova ordem mundial, que deslocam as vias marítimas e perturbam as manobras ordinárias12”.

Luta de classes
Um jornalista do jornal La Tribune, de Madagascar, observa que o impulso dessas “classes médias que matam a democracia” pode ser a prévia do surgimento da luta de classes no continente africano. “Seja como for, os golpes contra a democracia, dados por membros das classes médias, têm o inconveniente de provocar a queda das barreiras mentais em outros meios sociais. (…) Nas Filipinas, pertence aos estratos mais desfavorecidos da população a parte principal das multidões enfurecidas reclamando a volta de Joseph Estrada, que sofreu impedimento da Suprema Corte. Na América do Sul, pode-se perceber esse mesmo ingrediente de luta de classes entre os que são pró e os que são contra Evo Morales, ou os que são pró e os que são contra Hugo Chávez13.”


“Elo frágil do imperialismo”, para retomar as palavras de Lenin, seria a África do Sul, que se transformou em laboratório a céu aberto da violência provocada pela experiência neoliberal, a primeira nação africana a apontar para um caminho diferente? O crescente descontentamento social é sintoma de uma tomada de consciência. Enquanto esperam, em obra recente14 Jean e John Comarrof nos convidam a guardar uma lição da “liberação da África pós-colonial sob caução neoliberal”. O que acontece em seu território – classes médias despolitizadas, aumento das desigualdades, consumo exagerado, o voltar-se sobre si mesmo – faz com que o continente africano apareça como um laboratório de análise privilegiado daquilo que já são (ou que estão a ponto de ser) os países do Norte e, em particular, aqueles por eles chamados de Euro-América.

Jean-Christophe Servant é jornalista.



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