A moral britânica contra a - Le Monde Diplomatique

REVOLTAS DE LONDRES

A moral britânica contra a

por Owen Jones
2 de setembro de 2011
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A obstinação de David Cameron em negar o papel da pobreza nas revoltas de agosto é “francamente bizarra”, nas palavras do, muito liberal, The Economist. A agitação dos bairros desfavorecidos foi também uma oportunidade para reativar o estigma de que as classes populares são as únicas responsáveis por seu destinoOwen Jones

(Policiais durante protesto em Hackney, no leste de Londres)

Alguns meses antes das eleições gerais de maio de 2010, o deputado trabalhista Stephen Pound considerava o eleitorado britânico menos preocupado com o eventual retorno ao poder dos conservadores do que com o temor, “quase físico”, de ver “um lumpemproletário bater em sua porta e devorar sua jovem au pair”.1 Mesmo em períodos de relativa estabilidade social, os preconceitos de classe estão latentes na Grã-Bretanha, uma das sociedades mais desiguais do mundo – em Londres, por exemplo, os 10% mais ricos ganham 273 vezes mais que os 10% mais pobres.2 E bastaram alguns dias de revoltas e manifestações para trazê-los à superfície.

A paz voltou a reinar nas ruas britânicas, mas nos meios de comunicação, nas contas de Twitter e nos discursos de políticos, o adjetivo “selvagem” (feral) ressurge incessantemente: “jovens selvagens”, “ratos selvagens”, “classes baixas ferozes”. No Daily Mail, por exemplo, o proeminente jornalista Richard Littlejohn descreveu os rebeldes como “bando de órfãos selvagens que assombram os bairros pobres” e propôs como solução aos levantes “matá-los a pancadas como filhotes de foca”.3 As “classes subalternas”, que já foram consideradas fracas e não atuantes, hoje são descritas como “bandos de animais ameaçadores”.

Em meio a essa atmosfera febril, o primeiro-ministro conservador, David Cameron, sugeriu que as pessoas envolvidas nos levantes fossem excluídas (junto com suas famílias, num assustador exercício de punição coletiva) dos programas e benefícios sociais. “É preciso mantê-los controlados”, bradou Cameron país afora – Nottingham, Salford, Westminster, entre outros –, além de relacionar a delinquência à origem social numa mensagem clara: se você é pobre e cometeu um crime, então será punido duas vezes.

O estado febril conduziu à histeria, e a histeria, ao absurdo: “Mãe de dois filhos, não envolvida com as rebeliões, acaba de ser condenada a cinco meses de prisão por ter aceitado mercadorias de uma loja pilhada”, afirmava com orgulho a conta de Twitter da polícia de Manchester, antes de a mensagem ser retirada do ar. Dois jovens se viram condenados a quatro anos de prisão – mais que alguns assassinos – por tentar organizar, pelo Facebook, uma insurreição que nunca ocorreu de fato.Após as manifestações violentas, a sociedade britânica revelou as garras de seu sistema legal, no qual se fazem vistas grossas aos abastados e poderosos. Em 2009, o “escândalo dos impostos” revelou que muitos parlamentares desviavam dinheiro público, mas apenas três deles foram condenados à prisão. Alguns pilhavam dos contribuintes para ter acesso a bens e mercadorias de luxo, como o deputado trabalhista Gerald Kaufman, que havia embolsado 8.750 libras esterlinas (cerca de R$ 23 mil) das finanças públicas para adquirir um televisor Bang & Olufsen. Quando foi descoberto, obrigaram-no apenas a devolver o dinheiro. Muito diferente foi o caso de Nicolas Robinson, um rapaz de 23 anos sem antecedentes criminais condenado a passar seis meses na prisão por ter roubado 3,50 libras (cerca de R$ 9) em garrafas de água mineral durante o levante.

Cameron, em discurso no dia 15 de agosto, surpreendeu ao afirmar que os acontecimentos recentes “constituem um sinal de alarme para nosso país: os problemas sociais, latentes há décadas, acabam de explodir na nossa cara”. Trata-se de um conservador simpático a teses progressistas que relacionam levantes com a situação socioeconômica do país? Não exatamente. Os “problemas sociais” identificados pelo primeiro-ministro – que prometeu, ademais, “a coragem para enfrentá-los” – resumiam-se à “lenta degradação moral” da sociedade, em suma, às “crianças sem pais, escolas sem disciplina e recompensas sem esforço”. Promover a lógica segundo a qual a pobreza decorre de problemas comportamentais, escolhas equivocadas e vicissitudes individuais constitui, em realidade, uma forma de legitimar o projeto conservador: diminuir o orçamento destinado aos direitos e benefícios sociais.4 Não por acaso, uma das propostas mais contestadas do governo consiste em limitar o auxílio-moradia destinado aos trabalhadores mais pobres.

 

Primavera dos Chavs

De forma oportuna ao governo, os levantes favoreceram a difusão da caricatura do chav, termo cujo sentido se situa entre “proletário” e “bandido”. Alguns, como Fran Healy, vocalista da banda Travis, não hesitaram em ironizar a “Primavera dos Chavs”, em referência também à “Primavera Árabe”. Essa palavra – que talvez tenha se originado de chaavi, “criança” em romeno – já figura no dicionário Collins com a definição “jovem de camada popular que se veste maltrapilho”. Para além de seu sentido estrito, o termo veicula o discurso conservador dominante que associa as classes populares a comportamento antissocial,5 vulgaridade, ignorância, consumo excessivo de álcool etc.

Em geral, tanto no Reino Unido como em outros lugares, o preconceito e a intolerância provocam mal-estar e reprovação. Felizmente, ninguém propõe em público cursos de autodefesa contra homossexuais, sites na internet intitulados “judeus verminosos”, temporadas em ilhas “sem mulheres” ou campanhas em prol da esterilização dos negros sem que seja punido pela justiça. Mas basta substituir “mulheres”, “homossexuais”, “judeus” e “negros” por “chavs” para esse tipo de proposta passar por trivial. Os exemplos que acabam de ser citados são reais, e ninguém se indigna.

A figura caricaturada do chav apareceu no fim da década de 1990, quando as representações positivas das classes populares começaram a rarear. Nessa época, jornalistas e dirigentes políticos de todos os lados argumentavam que “fazemos parte, todos, da classe média”. Todos, exceto um grupo situado na base da escala social. O suposto emburguesamento dos trabalhadores fez surgir, como por decantação, uma rejeição a essa classe. “As chamadas ‘classes trabalhadoras respeitáveis’ praticamente desapareceram. Em geral, os que sociólogos antes identificavam como ‘trabalhadores’ hoje já não trabalham: vivem do Estado provedor”,6 afirmava em 2007 o jornalista Simon Heffer.

São poucos os que, no seio da elite britânica, se preocupam em disfarçar esse discurso – e menos ainda os que não estão de acordo com essa análise. Segundo as teorias do libertário norte-americano Charles Murray,7 a direita acredita que as pessoas que não se incorporaram à classe média são os descendentes “naturais” de mães solteiras. O New Labour de Tony Blair preferia qualificá-los como “excluídos”. Matthew Taylor, antigo diretor estratégico de Blair, fazia questão de afirmar que o conceito de excluído designa “a pessoa autoexcluída e cuja condição social se vê perpetuada por seu comportamento individual”. Dito de outra forma: aqueles que ainda não acederam à classe média não o fizeram por sua própria conta.

Essa perspectiva constitui uma vitória para a antiga primeira-ministra Margaret Thatcher, instigadora da contrarrevolução liberal no Reino Unido. Em 1978, um ano antes de vencer as eleições, declarava: “Na verdade, a extrema pobreza desapareceu deste país”. Se ainda perdurava aqui e ali, era porque “centenas de pessoas não sabem administrar seu orçamento ou gerenciar as despesas – falhas individuais relacionadas ao comportamento de certas pessoas”.8 Firmou-se, assim, o consenso político de que as pessoas tendem a incorporar-se à classe média, e os que não o fazem é porque se “recusam”. Esse discurso pouco a pouco desagregou os pilares da identidade operária britânica: as indústrias, que criavam cidades inteiras, como nas minas ou nas docas; as instituições, como os sindicatos; e certos valores, como a solidariedade, que cedeu lugar ao atual individualismo. Afinal, segundo Thatcher, “a sociedade não existe, o que existe são indivíduos”.9

 

Pobres contra pobres

Primeira consequência desse ataque: mudanças na forma como o resto da sociedade percebe camadas populares. Em estudo realizado pela consultoria BritainThinks, publicado em 2011, 71% das pessoas interrogadas sobre sua posição social se descreveram como pertencentes à classe média. “Faço essa mesma pergunta desde o fim da década de 1980, mas nos últimos tempos o rótulo ‘camada popular’ parece ter se tornado um insulto, da mesma forma que outros termos, como ‘chav’”,10 conta Deborah Mattinson, a responsável pela pesquisa. Por mais que, objetivamente, as pessoas saibam que não se enquadram no perfil da “classe média”, elas não querem ser associadas ao “popular” pelo preconceito e desvalorização dessa categoria.

A própria esquerda parece abandonar a ideia de que a pobreza e o desemprego são produtos do sistema capitalista e, nessa conjuntura, as vítimas do modelo econômico vigente terminam por incorporar o sentimento de “culpa”. Não se trata mais de modificar as condições de existência, mas de escapar delas – processo que indica o surgimento da dicotomia classe média/chavs, embora seja uma falácia.

No entanto, ninguém nega que as camadas populares evoluíram. Em 1979, mais de 7 milhões de pessoas trabalhavam no setor industrial; hoje, não passam de 2 milhões. Atualmente, há menos trabalhadores em minas e fábricas do que em callcenters, supermercados e escritórios. As ocupações são mais “limpas”, menos físicas e podem ser realizadas também por mulheres. Porém, as condições de trabalho são mais precárias, menos prestigiosas, e os salários, mais baixos em termos de poder de consumo. Após três décadas de liberalização das leis trabalhistas, cerca de 1,5 milhão de pessoas no Reino Unido precisam se contentar com postos de trabalho de meia jornada. Um número equivalente de funcionários pode ser demitido em menos de uma hora sem direito a indenização. Eles não conhecem férias remuneradas.

Em 2009, um estudo da fundação Prince’s Trust estabeleceu que os jovens desempregados eram mais suscetíveis aos problemas de ansiedade, depressão ou a comportamentos suicidas. Em Tottenham, onde começaram os levantes, há 34 candidatos para cada posto de trabalho. A imensa maioria dos postulantes possui menos de 24 anos e está desempregada. Parece tão surpreendente que justamente essa população sem emprego, carreira ou autoestima – e não a dos bairros abastados – tenha se envolvido nos levantes de agosto? Certamente, pobreza e desemprego não conduzem mecanicamente à pilhagem e à violência, mas basta alguns poucos manifestantes para detonar a bomba-relógio de um bairro pobre.

Longe de ser um levante político de pobres e despossuídos, como acreditam alguns, as rebeliões de agosto vitimaram principalmente os que mais sofrem privações e colocaram pobres contra pobres: divisão útil ao poder conservador, que não hesitou em explorá-la. As “revelações” da imprensa sensacionalista sobre os “imigrantes que vivem no luxo” atiçaram o ressentimento de 5 milhões de pessoas que se amontoam nas listas de espera para ter acesso à habitação popular. Da mesma forma, “dossiês especiais” sobre fraudes nos programas de moradia acendem as brasas da cólera entre os que vivem em condições sociais precárias – mesmo se essas fraudes, estimadas em 1,2 bilhão de libras esterlinas (cerca de R$ 3,1 bilhões), custem 58 vezes menos aos contribuintes que a evasão fiscal.

Os levantes britânicos de agosto contribuíram para a fragmentação das classes populares. Em tempos de crise financeira, é oportuno direcionar o olhar dos pobres a seus vizinhos mais pobres que desviar a atenção das remunerações dos membros dos conselhos de administração – que subiram 55% em 2010.

Owen Jones é autor de Chavs: The Demonization of the Working Class [Chavs: a demonização da classe trabalhadora]. Londres: Verso, 2011.



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