A morte está dada - Le Monde Diplomatique Brasil

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A morte está dada

por Mariana Ferrari
3 de maio de 2020
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A esperada oportunidade aos que desejavam enterrar os corpos matáveis. Não é uma guerra, mas as covas abertas em massa mostram que enquanto humanidade perdemos

Não há trânsito na Marginal do Tietê, uma das vias responsáveis por altos índices de congestionamentos em São Paulo. São 9h30 de uma manhã ensolarada. A rua está vazia. Desde que a pandemia foi decretada eu não pude aderir à quarentena. Já diria um professor de faculdade: não há volta quando se escolhe ser jornalista. De todas as formas, mesmo indo ao encontro do vírus todos os dias eu ainda estou no grupo de brasileiros que saem às ruas para trabalhar e voltam para suas casas em segurança.

Na minha frente, essa questão se concretiza: dois homens em cima de uma moto popular equilibram cerca de 10 mochilas térmicas usadas, principalmente, pelos entregadores ou motoboys. Destaca-se as cores do acessório essencial para o serviço, vermelho e laranja. Aqui, nem preciso falar de quais aplicativos se tratam, pois ficaram conhecidas em todo território nacional. Enquanto os observo eu sinto uma palpitação no estômago. Talvez fosse mais fácil levantar os vidros e seguir no meu trajeto sem olhar para trás. Não consigo. Os observo até eles não alcançarem mais o meu campo de visão. Quando me aproximo um pouco mais, fotografo. Essa cena me trouxe mais do que inquietações. Uma angústia tomou conta de mim. Aquilo era todo o resumo de uma sociedade em que mortes por mortes são apenas isso, mais mortes.

Aqueles rapazes não usavam máscaras ou luvas, mal se equilibravam nas duas rodas a fim de nenhuma encomenda escapar. Eles me golpearam no estômago sem nem saberem. Me golpearam porque, ali, no meio das inéditas vias vazias da Marginal Tietê, o mau da sociedade se escancarou. Nesse mesmo dia, eu precisei ir às ruas. Conversei com pessoas em situação de rua que se mostravam desacreditadas na existência de um vírus — invisível e mortal. Nos olhos dessa pessoa, que não quis ter o nome divulgado, não havia questionamentos. Ele emanava certeza: como uma doença invisível pode matar? Para ele, a vida tinha mostrado a sua pior face. Como alguém que vive sente na existência, à margem, na sobrevivência, pode acompanhar a complexidade de uma pandemia? Tantas vezes a vida tinha estado por um fio que nada parecia pará-lo. E é exatamente nessas pessoas que o vírus não só arruína, como também mata — e eles morrerão sem entender. Afinal, como podem morrer se o corpo já se acostumou com o limite? Essa pergunta que eles não conseguem responder e, por isso, desacreditam em um tal coronavírus.


O que esse homem me disse é a mesma simbologia da imagem dos motoboys em equilíbrio. Como um vírus pode matá-los se é preciso estar nas ruas para não morrer de fome? São nessas situações que a sociedade se mostra gélida no apreço pela humanidade. É a brecha de uma preocupação maior que fará dessas pessoas já em risco — senão já mortas — assassinadas por uma sociedade que mata. Um pequeno desvio que fará os corpos matáveis morrerem em uma velocidade ainda mais ensurdecedora.

Quando os noticiários pararem de informar sobre a pandemia do começo ao fim de seus expedientes, mais corpos matáveis estarão nas ruas — e é isso que a corja desprezível da sociedade quer. Enquanto os donos dos aplicativos de delivery comemoram os números e lucros, há humanos com necessidades tão acima do entendimento daqueles que analisam superficialmente uma situação, que não há nem a possibilidade de aderir ao confinamento. Eles não escolhem. E a corja aproveita. Porque sempre foi assim: os que vivem e os que morrem.

O gatilho necessário para matar em larga escala os matáveis apareceu na televisão, na última sexta-feira do mês de abril. Já pela noite, os noticiários não falavam de outra coisa a não ser da saída do ministro Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Era a gota necessária para inundar as mentes dos que já não queriam se importar com os corpos enterrados sem apreço, sem choro e sem vela. Era o que os desejáveis do lucro precisavam para tirar da reta suas próprias responsabilidades que acometem centenas de covas abertas no cemitério da Vila Formosa, por exemplo. O jogo político de um (não) presidente acomete aqueles que, nas janelas, dizem-se salvadores da pátria ao baterem panelas contra Jair Bolsonaro — mas a favor de Sergio Moro. São esses que defenderam o indefensável quando corpos já morriam atirados na esquina. São esses, defensores de um falso combate a corrupção que farão de vidas, números. Ainda que não diretamente, claro. Mas quando se deposita a energia em uma disputa claramente narcisista, para que se grite a plenos pulmões: eu defendo um herói, covas e covas seguirão sendo cavadas.

Corpos seguirão estirados, mortos dentro de casa. Os noticiários talvez esqueçam um pouco dos que morrem. Pois, em um único dia, um dos assuntos mais comentados do Twitter era a confirmação de uma personalidade corrupta e desvirtuada. Os números sobem, as ruas passam a ser ocupadas, novamente, e, os matáveis, enterrados.

Enquanto vejo o foco das discussões ganhar um outro recorte sinto enjoo. A tontura chega e fica, fixa, imutável. Assim como a crescente dos mortos. O país passa por uma crise severa — como já havia sido previsto muito antes da maioria de população digitar 17 na urna de votação. A crise é desastrosa, como vem se mostrando tudo o que envolve o maior cargo do República. Mas, agora, não é hora de impormos nosso narcísico desejo de sermos tratados como super-heróis.

Não é hora dos noticiários e das manchetes se acometerem somente na divulgação de conversas que só comprovavam o que já se sabia. Não é hora das atenções serem voltadas à troca de mensagens no WhatsApp. Isso é uma arquitetura do mal, ou a própria banalização do mal no qual Hannah Arendt escreveu no século XX. Enquanto conversas banais e brigas entre a massa egoísta e hipócrita da sociedade forem o centro das nossas atenções, só comprovaremos que, sim, perdemos enquanto sociedade. Mas essa perda não pode — e não deve — significar mortes estratosféricas, pois sabemos muito bem quem está fadado a morrer.

Mariana Ferrari é jornalista



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